Baffô por Berimba de Jesus: depois dos cotovelos cinzas
10 de outubro de 2017

Convidamos alguns poetas próximos (isso era importante) pedindo uma antologia (uns dez poemas) + um pequeno texto de apresentação de um outro poeta.

Em parte um exercício de escuta critica, em parte um interesse pelo gesto/papel do antologista e toda problemática que isso apresenta. Queríamos uma leitura interesseira e interessada dos poetas antologizados. sem o disfarce do distanciamento ou desinteresse crítico.

Diz o dito que quando pedro fala de chico sabemos mais de pedro que de chico. sendo assim essa série serve de um duplo retrato. antologizado e antologista (um refletido no olho do outro).

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Esse poeta, como todo outro artista, tem ego, e é esse ego que o fez explorar caminhos que eu também segui, aquele que as altas castas sociais não querem que nós sigamos. E nesse caminho longo, sinuoso, cheio de empecilhos, que não é desejado a nós, conseguimos destaques, uns por nos fazermos de bestas outros por sermos mais espertos do que pensavam, mas, sobretudo pela poesia. O Baffô de quem vos falo, foi e é um desses poetas espertos, que forja a vida pela palavra, pelo gesto, pelo ego.

Ele é um homem de pele preta como a minha. De mãe preta como a minha. De quem o estado cuidou da educação, pois em casa era o pirão d’água, o feijão de caldo grosso com farinha, o arroz como comida por dias, a sobra da feira, o esporro. O esforço da mãe preta, solteira, cuidando sozinha de vários filhos. Foram seis e nem um tem passagem pela polícia. Imagino que nossa formação seja parecida. Nada de novo do mesmo.

Nos conhecemos na Vila Madalena, numa noite vadia. Nos vimos no Masp, na Benedito Calixto, nos bares. Desses encontros conheci sua poesia, fiz parte de sua amizade, publicamos seu primeiro livro juntos, pelas Edições Maloqueirista. Antes da poesia, vivia de pequenos golpes, vendendo tênis, calças, relógios óculos, piercing, tatuagens em frente à galeria do rock na 24 de maio. Depois Heyk Pimenta, peri_go. Quando seus poemas começam a girar pelo mundo. Boas ideias, bons encontros, pilantropia.

Baffô não virou poeta da noite pro dia, foi às vielas, aos encontros. Os livros debaixo do braço,  novos lugares que o fizeram traçar melhor os versos e se envolver na relação palavra-homem, se fazer poeta sem eira nem beira e se distinguir daquilo que todos ousaram em pensar quando viam um menino de pele preta com canela e cotovelos cinzas.

E como todo homem tem defeitos.

Apresento aqui este malungo, e me sinto privilegiado por estar vivo e poder compartilhar alguns de seus textos, pois ele foi um dos que me fizeram continuar a exercitar o juízo tendo como base a poesia.  Segue cinco poemas de sua autoria, do primeiro ao quarto são textos de seus primeiros livros editados em parceria com a poesia Maloqueirista nos anos de 2010 e 2011, o quinto foi feito em parceria com outro poeta que admiro Heyk Pimenta e os últimos são inéditos. Espero que tenham bons vôos.

I.

Em casa de menino de rua,
o último a dormir apaga a lua

 

Favela

Esses becos
Essas vielas
quantos poemas me deram?
quantos me tomaram?

 

Cotidiano

Matar
um leão por dia
e dormir rei.

 

Favela 2

Essas vielas apertadas
e sem horizontes
é o que nos põe
a olhar estrelas

 

A saga do rinoceronte branco
Com Heyk Pimenta

O rinoceronte branco.
Olha.
É um longa de
55
Minutos

Colorimos
[o cinza]
Todo o couro
Passamos a tarde azul
Nas costas do bicho
Usando a gravata
Em que o sapo passeava,
Jorge

O vento
Assovia
Nos ouvidos
Flores
[nasceram] nas costelas
Antes gado.

Girassóis que giram mesmo
Dois campos inteiros
Pastados na sola do casco
Do seu chifre de pelo

Vestidos floridos
Alegram o passeio

Bicicletas
No limite
Do asfalto
Com fitas de santo relampejam

Gritando
Palavras
Que
O tapete e vagalumes
Apagados esquecem

O rinoceronte é
[
O peso e o lastro
Que galáxias    sustenta

Anoitece
E seu rastro
Pare frutos de
Manhã tardia
]
Branco

Mergulha suspenso
Escafandro &
Chapéu

No céu
De cor
Romã infância
Andorinha e sereia
Sorriram ontem

Uma zona
Uma
Zona
A

Um fela Kuti
De arma e armadura
Tocando tambor
E o som abraçado
Ao silêncio

Parte colorido e mergulha
Na barriga do lago

Que dorme.

(…)

a

aaSem o balé dos cardumes
as ruas não suportam
aao que sabem os cofres

aaaaao mar guarda náufragos
anêmonas &
relógios de pulso

 

{corais}

febris
submersos
& por isso sem vento

aao mar.
espesso
aasem a doença das janelas
a solidão dos bípedes
& o pó das cortinas

aao horizonte.
explosivo laranja
sem a agonia
das senhas
& o serpenteio
das filas.

Dragões

a cidade não me cabe a morte é diferente de quê?

Lacraias mostardas seus motores de zinco

metralham a metrópole de pizzas noturnas
giram,giram desordenados

Sevilha tua garoa barroca secular
é verde
sem palavras só entranhas

combater os profetas conformados
explodir citações
tornar os dias tratores indomáveis

(…)

uma bola de fogo mergulha no atlântico a dois mil quilômetros desse poema.
sussurro de carteado e fumaça densa de cigarros vermelhos
racharam os lençóis
no sétimo
a solidão bate mais forte quê ex pugilista cubano brigando na rua
meus olhos duas câmeras escondidas no corredor da morte.
-com sorte capta últimos desejos de culpados e inocentes indecentes derradeiras
aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa[reflexões
-o mesmíssimo trapo        traje roído de banho. lâmina-
e uma amada do interior levada no peito tatuado
(a
tinta de esferográfica.)
o cimento queima no espelho o cinza da memória
costura   asa
delta descaminha, escama derrota a palavra abismo
o algoz usa dois relógios
e salga nossa última refeição.

 


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Marize Castro por Ayrton Alves: uma criança que deseja o inferno
16 de setembro de 2017

Convidamos alguns poetas próximos (isso era importante) pedindo uma antologia (uns dez poemas) + um pequeno texto de apresentação de um outro poeta.

Em parte um exercício de escuta critica, em parte um interesse pelo gesto/papel do antologista e toda problemática que isso apresenta. Queríamos uma leitura interesseira e interessada dos poetas antologizados. sem o disfarce do distanciamento ou desinteresse crítico.

Diz o dito que quando pedro fala de chico sabemos mais de pedro que de chico. sendo assim essa série serve de um duplo retrato. antologizado e antologista (um refletido no olho do outro).

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uma criança que deseja o inferno. mistura de lobas. de mulheres incendiárias. de fêmeas inflamáveis. incandescentes.  pula de prédios e sempre experimenta a liberdade possível de um primeiro voo. resignifica as mordidas dos rios. ereta, expele líquidos. venenos. para nossa sorte, quem a lapidou esqueceu de tirar-lhe o veneno. feiticeira, vândala, ave, telhado, cratera-oceânica nuns punhados de mãos. mãos que se estendem e imploram ao seu silêncio. silêncio que ensina a gritar, a voar e, por vezes, a ser concha. concha que desafia a resistência do ar, sob o lodo, aumentando pérolas. topázios. a força de um útero. Marize. mar. fome. a mesma fome há milênios arrancando o que é mais precioso e doce e o que é mais divino e víscera daqueles que se entregam à potência concisa dos seus textos, dos quais me valho de algumas imagens para uma tentativa de introdução.

recebi o convite da Bliss há algum tempo e decidi escrever sobre Marize Castro, poeta potiguar nascida em 1962, pelo estremecimento que seus poemas me causam quando adentram no meu corpo, e por eu sempre escutar o brado de mulheres  – milenares e atuais – revestindo o seu grito. amplificando-o. nos seus textos e no seu olhar que me causa uma mudez súbita, como um aviso de atenção, para a beleza que também é fortaleza e dor. o olhar de quem dorme com batom nos lábios e acorda com o espanto de não poder chorar ou sentir cansaço, por também ser homem. nesse ponto, chegamos a uma das principais características de sua produção: a androgenia.  uma androgenia que se transfigura em sensações cotidianas, em objetos e na construção de um sujeito lírico que faz questão de se insinuar e se (re)construir a partir de um lugar poético complementar e experimentável. um lugar onde convivem mitos, símbolos, ritos e ícones gestados para cheirarem à resistência, para se acoplarem e darem caminho a outras vozes.

a produção poética da também jornalista e editora é composta em livros por sete títulos, são eles: “marrons. crepons. marfins” (1984), “rito” (1993), “poço. festim.mosaico” (1996), “esperado ouro” (2005), “lábios-espelhos”(2009), “habitar teu nome”(2011) e “a mesma fome” (2016). desde o início a atenção a outras mulheres é exposta em forma de dedicatórias, como se fossem retalhos dessas mulheres que, da existência, não saram nunca. ana c, orides fontela, hilda hilst, euricléia, macabéa, penélope, teresa de lisieux, yona wallach, zila mamede e tantas outras que ornam uma espécie de escudo mariziano usado numa batalha com a existência que não sara nunca. tal escudo não terá eficácia na travessia pelos poemas que se seguem, na seleção que dá uma prova do que teci até agora. elegi-os, pois são eles que me vêm à cabeça quando penso em marize, quando falo sobre ela para um amigo, quando a vejo ou quando agradeço por sua vida, nesta esquina de continente, quando olho o sol se pôr no rio potengi. o grande rio do norte que parece nascer dos seus olhos e, ao mesmo tempo, é lágrima e acalanto, de múltiplos olhos, para aqueles que não têm medo de se afogar. deixo agora a palavra com Mar, ou melhor, com a mulher que ela escolhe para compor a cena e gritar com ela.

 

***

 

não escrevo como mulher porque não sou mulher
sou um destroço que boia. um relato lendário.
alguém que tem a dor nas mãos e negrumes secretos no sexo.
estou secando e ouço gritos.
uma desesperada louçã se anuncia.
— o melhor do mundo é não viver nele.

em um escabelo sento a contemplar uma sede sem fim.

mrs. dalloway, você está aí?
senhora d., posso chorar ao seu lado?
euricléia, quando eu voltar você me lavará os pés?
sra. ramsay, então o farol é isso? só isso?

em contínua tristeza os forasteiros vivem.

hoje dormi com batom nos lábios.
o cansaço era tanto que esqueci que também sou homem.
e não canso. e não choro. nunca.
deslindo-me e me desarrumo porque sou gaveta.
telhado. quase cratera. olhicerúlea.

ah, teseu, qual o tesouro secreto que o pai te revelou?

hades me quer. eu digo não. ainda não.
é urgente falar com tirésias.
ir de uma ponta a outra do tâmisa. sozinha.
com uma alegria insuportável.

em mim, femíneos simulacros:
macabéa, qual o tamanho da solidão dos domingos?
blanche, também já dependi da bondade de estranhos.
cabíria, você me ouve?
choro contigo o sentimento trágico da vida.
clitemnestra assassinou cassandra.
mesmo assim eu a amo.
amo as arestas. o que é subterrâneo:
plutão. dioniso. osíris.

estou respirando e tudo é silêncio.
não deslembro mais. simulo.
já sou pélago.
poço. festim. mosaico.

esmerada forma de arder.

(Poço. Festim. Mosaico., 1996)

 

***

 

mulheres se matam porque cansaram do cheiro do açafrão.
e vivem molhadas. medonhas. invadidas de poesia e pedra.
mulheres viram pássaros
porque do alto têm a certeza que serão salvas.
de lá, contemplam o mundo.
escrevem livros. constroem casas. parques. elipses.
pintam quadros. dão aula. vão para o palco.
dirigem carro. motocicleta.
leem homero. dante. vieira. camões. platão. pessoa.
são crianças e desejam o inferno.
depois o céu. e novamente o inferno.
andarilhas, herdam vestígios.
e são preciosas. perfumadas.
olham dentro dos olhos dos peixes
e os retiram da água para serem seus companheiros.
planetas delicados são as mulheres.
engravidam de balões. de profundidades.
sentem cólicas. a placenta rompe. o útero se revira.
os ovários se mantêm em segredo. preenchidos.
mulheres choram nas tardes de chuva.
andam de ônibus e são olhadas.
adornam-se de arbustos.
tornam-se perigosas. camufladas.
com leite derramando da alma.
têm tetas. asas.
dívidas. agendas. mapas. bússolas. dor.
aprenderam a ouvir o canto do homem com a língua de madeira.
são antigas. milenares. pertencem a templos.
consultam oráculos. fazem preces ajoelhadas.
oram pela felicidade do mundo e têm certezas guardadas.
mulheres são alquimistas: transformam topázio em esmeralda.
esmeralda em safira. safira em rubi. rubi em ametista.
ametista em orvalho. orvalho em anêmona. anêmona em girassol.
girassol em cassidônia. cassidônia em ágata.
ágata em nave. nave em águia. águia em águia.
mulheres cortam os pulsos. abrem o gás. caem de edifícios.
sobem montanhas. andam de bicicleta. barco. avião.
sentem medo. atravessam paredes.
e se tornam metáforas. anáforas. foguetes.

 

(Poço. Festim. Mosaico., 1996)

 

***

 

Salgar os pés e unir as mãos. Na vertical.
Numa confissão de ternura.

 

(Rito, 1993)

 

***

 

sim, os olhos do abismo são castanhos,
e eu te amo em qualquer país. poço. nação.
tenho sede.
na sua dor eu me reconheço.
você de inchados pés
arranca de mim o que é mais precioso e doce.
o que é mais divino e víscera.
desliza por minhas coxas o seu sacro bastão.
flores, escudos, espessas ternuras.
sim, o homem é um adágio.
um rio corrente que rasteja e morde.
deus não é o perigo.
o perigo é nascer. parir. carregar óvulos. útero.
ser anônima. inquieta. inatingível.
arder.
depois murchar. repleta de memória e céu.
sim, o mundo é um terreno minado.
e o amor, um assombro.
não é a primeira vez que me precipito.
e caio. esgotada. cingida.
ser pouco não me interessa.
a minha vagina contraída, contém o universo.
e o meu amor te chama
enquanto resgato em espirais de esmeralda
o destino dessa humanidade de prata, ouro e merda.

 

(Poço. Festim. Mosaico., 1996)

 

 

***

a

AFÃ

a

Minhas harpas em arpejos
denunciam o meu Desejo.

Delicado rapaz, eu te chamei porque me quero assim.
Dentro de ti.
Sólida.
Expelindo líquidos.

 

(Rito, 1993)

a

 

***

a

Néctar

a

A verdade aproxima-se.
Olha-me com os olhos
abismados da beleza.

Não sou a mulher
que corta os pulsos e se joga da janela
nem aquela que abre o gás
nem mesmo a loba que entra no rio
com os bolsos cheios de pedra.

Sou todas elas.

Escrever me fez suportar todo incêndio

– toda quimera.

(Esperado Ouro, 2005)

 

 

***

a

Solar

a

Cadáveres despertam depois do amor.
Lágrimas choram e se estrangulam.

Não sou a mulher que você vê.

Não sei o que é o inverno
– nunca vi a neve.

O meu ofício é reinventar asas para o sol.

(Esperado Ouro, 2005)

a

***

a

a

Perigo

 

É perigoso, menina, sair de casa
sem seu guarda-chuva perolado
sem seu fogo mortífero
sem seu sexo sempre aberto
aos apelos do mundo.
É perigoso, menina, se deixar para trás,
subir até a mais alta montanha
e de lá não se jogar.
É perigoso, menina (muito perigoso)
não parar de buscar o paraíso
e se lambuzar de prazeres alheios.
É perigoso, menina, beijar a boca
de alguém tão mais velho
e se perder assim:
não mais saber onde reside
a primeira luminância, a última escuridão.
É perigoso, menina, acreditar na memória
jogar-se de tal altura
inflar-se de clichês
quebrar suas tão jovens asas

e não cair

É perigoso, menina, proteger-se
e se armar demais, querer o outro, ser o outro
– habitar o inabitável.

 

(A mesma fome, 2016)

 

***

 

Sou
a   mais ave do que aço
Dias varo
perpetuando voos
colhendo as ostras
que se escondem
sob
a   o lodo.

 

(Marrons. Crepons. Marfins, 1984)

 

 

***

FLAGRÂNCIA

Flagro-me arrancando do mundo montanhas de bondade.
Arder me emociona desde que aqui cheguei.

(Esperado Ouro, 2005)

***

 

Vídeo que contém alguns poemas de marize, na sua própria voz, pertencentes ao livro Poço. Festim. Mosaico. (1996). Direção: Augusto Lula, Natal-RN, 1996.


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Natasha Felix por Caetano Romão: cada centímetro dos teus cabelos me sugere quilômetros
22 de agosto de 2017

Convidamos alguns poetas próximos (isso era importante) pedindo uma antologia (uns dez poemas) + um pequeno texto de apresentação de um outro poeta.
Em parte um exercício de escuta critica, em parte um interesse pelo gesto/papel do antologista e toda problemática que isso apresenta. Queríamos uma leitura interesseira e interessada dos poetas antologizados. sem o disfarce do distanciamento ou desinteresse crítico.
Diz o dito que quando pedro fala de chico sabemos mais de pedro que de chico. sendo assim essa série serve de um duplo retrato. antologizado e antologista (um refletido no olho do outro).

Hoje, Caetano lê Natasha através de um mergulho entre conversas e pistas construímos esse retrato afetivo cheio de suspiros e descobertas.


 

são nove e quarenta e cinco da manhã e é quinta-feira, talvez.

Natasha me acorda enquanto diz que já são nove e quarenta e cinco e me oferece café.

a janela de sua sala é larga e entra muito sol. sua janela ainda não tinha cortinas nesses dias. nós comemos bolachas de água e sal e escutamos um pagode pelo youtube. comentamos dos sonhos que raramente lembramos. tentativas inúteis de discernir se aquilo teria sido de fato um pesadelo. e então o torcicolo.aquela vez.a sua última pimenteira escancaradamente morta no dia em que você voltou de viagem. uma foda meio morna que ressurgiu de março pra cá.o jeito com que alguns homens babam sobre o travesseiro. mensagens estranhas na sua caixa de email. sua tabela de verbos em espanhol. o bambolê. os teus livros roubados. os livros que te roubaram.

juntos, contamos e recontamos todas as oportunidades que perdemos no último mês e como pilantras feito nós não merecem segundas chances. pois acho que é essa nossa glória. mas, juro, eu sei. sei do risco e juro que adoro o risco de esboçar todo o itinerário da nossa próxima fuga e me danar contigo por cada cafundó.

embaralhamos os rostos com os nomes com as datas, todas as escalas e medidas, temos vocação para os equívocos – pela parte que me toca, confesso que cada centímetro dos teus cabelos me sugere quilômetros.

pra que Natasha pouse então a caneca de café no braço do sofá e leia seus últimos riscados. ela lê como que tirando sarro, como que tirando a casquinha de uma ferida. não é nem meio-dia e Natasha me delata qualquer coisa.

pois, se tenho alguma certeza é a de que ninguém jamais será inocente diante da poesia da Natasha. que ninguém nem deve ser . da mesma forma que não é assim que sua poesia se pretende. seus poemas são um convite violento à nudez do qual ninguém sai ileso.

lembro de Herberto Helder em uma de suas correspondências íntimas pensando sobre corpo e escrita.  Helder fala de como o nosso corpo é a todo tempo acobertado, codificado, ocultado, de jeito que “a decifração é o único acto de amor”.

e acho que é contra isso que Natasha se volta ao escrever: a essa formatação esmagadora dos corpos e também à maneira como nossa sexualidade é educada de forma tão opressora. repleta de tarjas e silenciamentos. negando-se o gozo enquanto instância legítima do corpo:

esse tumulto debaixo do vestido. / chego perto/ a atrofia dos dedos / na culpa cristã” ou ainda “de certa maneira / fazemos como manda a bíblia / ele não me compra flores / nem me promete o próximo encontro / mas me lambe o períneo” apontam para uma negativa de Natasha em relação a essa moral civilizatória. a essa visão pecaminosa do desejo. com aguçada ironia, ela desdenha das frases feitas, do “bom gosto”, do pudor que regulam e reprimem as práticas sexuais. Natasha como que caçoa das trepadas que só acontecem se a luz estiver bem apagada.

essa compreensão, assume diferentes feições ao longo de sua poesia, como a figura do“corpo sujo”que é “barrado no ___ mercadinho municipal na farmácia no enterro do sobrinho na missa do galo na reunião de moradores do bairro”.

expondo a marginalização imposta nas mais diversas esferas do público e do privado, Natasha reivindica seu espaço enquanto ser desejante, num processo que transfunde seu corpo com o próprio corpo da palavra.“deixa água de lastro por ele inteiro / o sistema contaminado pelo chorume / o sistema linguístico agora extraviado / do cômodo bem instalado”. dessa forma, a poeta segue lúcida resistindo, consciente da estreita ligação entre o sexual e o político: permanece assim mesmo incomodando, atraso ao contrário”.

pois o corpo-poema da Natasha, é um corpo que se dói todo e que goza. sobretudo faz doer e faz gozar. e é desse jeito que Natasha às tantas me passa a rasteira e me quebra as pernas. cada verso uma bordoada. cada verso como a dizer – devora-me ou te decifro – enquanto ela percebe impiedosamente a minha nudez, sem que sequer o poema tenha acabado. dali então me sei homem rapaz moleque. me sei aquele outro. aqueles tantos outros. você parada no contraluz, sem trégua ou vulgaridade, me refletindo a mim, a partir de nossa dessemelhança mesma.a boçalidade de eu me compreender eu, diante da sua fúria e da sua ternura. é. o objeto as vistas, não pressupões os olhos.

pois Natasha mora no oitavo andar de seu prédio e a janela de seu apartamento dá pro rio. de lá se veem os botecos. o jockey. viadutos engolindo as avenidas bem aos olhos de Natasha. mas sem vícios. jamais refém das altitudes. você nunca desaprendeu a queda. do alto de seus oito andares, você resguarda consigo toda a possibilidade de um corpo qualquer que cai.

foi aquele guindaste. lembra? acho que foi você mesma quem me falou.“o que está por ser erguido / o que pressupõe a queda-livre”. às vezes não é nem meio-dia, e Natasha é um objeto não identificado a despencar trinta metros. às vezes não é nem carnaval, e Natasha é uma proposta de nos estraçalharmos no asfalto daquelas cidades. samba e sangue: é linda a maneira como você dança.

e mesmo o susto. aquelas semanas. coisas interditas pelas vias. talheres engordurados deixados de molho.o noticiário dizendo fatos que não entendemos. a fronha por arrumar: tem dias em que se fala muito do medo. o rumor, quem sabe, de que logo ali. no apartamento ao lado. o cismo. o boato de um novo incêndio. você fitando seu botijão de gás com a mesma cumplicidade de sempre. teimando em lembrar. entre o sétimo e o nono andar / não existe nada / além do anúncio breve de uma escada /nenhuma parede”.

e então o que eu julgava argamassa e ferro e fibra. as paredes se sucedendo uma a uma. pregos arrancados fora às tábuas. a consistência morna daquela habitação. e mais: unha cal cimento. frágil arquitetura carne nossa. eu talvez dissesse. você talvez dissesse. tentando ignorar. as louças pelo assoalho. nossa nudez coberta até aqui de pó. e a terra como que deitando fora todas as coisas nulas e sem prestígio, que um dia tomamos como nossa.

pois penso que Natasha entendeu: provisoriamente, a parte de quaisquer subterfúgios, há de se fazer morada a palavra. a poesia como nosso escombro e nossa possibilidade. e que é assim mesmo. minha irmã. esse empenho com que forjamos o calçamento do nosso abrigo. porque é inútil e porque não basta. mas que é assim mesmo. pois penso que Natasha entendeu e acho que foi ela mesma quem me ensinou.

sei que nunca trabalhamos sobre promessas. deixamos esse linguajar para quem soubesse fazer bom uso dele. mas com o perdão e o risco do sentimentalismo. é que às vezes sinto saudade do que seremos. vontade de te dedicar qualquer coisa que fale um pouco sobre amor. mas nada me ocorre além de, por hora, soletrar teu nome: obrigado os dias que ao total foram tantos.

Natasha

às vezes é coisa tão amada que nem a sei.

mando um beijo pra ela.

 

***

 

A ESTRUTURA

1

o comprimento de uma cigarra varia entre 6 e 15 cm
……equivalente ao tamanho de uma lâmpada ou de um copo americano.

em algumas áreas do Brasil ela é chamada de gafanhoto
o que não significa que seja o mesmo inseto
o que não significa que não possa ser o mesmo inseto
……….ou outra coisa
como uma lâmpada ou um copo americano.
………………………………………………..[dependendo do ângulo de observação.

no sudeste asiático esse desarranjo não existe
mesmo se tratando de um local com gafanhotos e cigarras.

mas isso não implica a ocorrência de outros tipos de desarranjo
…..entre os animais.

também não é raro a cigarra chocar-se contra os baobás
em parte porque não é uma lâmpada ou um copo americano

em parte porque voa mal
mesmo com seus dois pares de asas
bem articulados.

2

o observador w nota uma cigarra e nomeia gafanhoto
o observador x nota uma cigarra e nomeia cigarra
o observador y nota uma cigarra e nomeia a fuga
o observador j olha uma cigarra e nomeia outro bicho

3

quando eu falo estou esperando o sol
voltar de novo ao sol mesmo que estou me referindo

quando eu falo estou esperando a casa
voltar de novo à casa mesma que estou me referindo
quando eu falo estou esperando o termômetro
voltar de novo ao termômetro mesmo que estou me referindo
quando eu falo você estou esperando incendiar
de novo o corpo mesmo que estou me referindo
quando eu falo você estou esperando recupar
de novo na mesma perda a queimadura de amanhã.

4

o observador j não é observador.
não como esperam que seja.
isso não é um poema
não como esperam que seja.
o tempo permanece estável durante a tarde
apesar das nuvens.

5

a gengiva sensível reclama a dificuldade em
mastigar determinados resíduos.

lembrete: o que não é estrutura é sedimento;
as pessoas precisam se agarrar em objetos fixos
………………………não há mal nenhum nisso
sobrevivência pede uma casa
………………………eu não tenho uma casa
sobrevivência pede     quite suas dívidas
………………………eu não quito minhas dívidas
sobrevivência pede pernas
………………………eu não tenho pernas

j. me olha demorado e me nomeia cigarra
enquanto simulamos o suor da linha do equador
ele me permite gritar
um pouco

6

j. me pede
……faz um filho comigo

pobre j.
……para isso você tem que cantar.
antes de mais nada você tem que cantar &
eu tenho que recuperar o que há entre a casa e as pernas.
o comprimento das asas e dos nomes.

 

*

 

esquina

dias perdidos nos bolsos.

alguém conta sobre o passeio de bicicleta
pelas ruas de buenos aires,

como se o país não desmoronasse
sem pedidos de desculpa anexados a planilhas.

pés velozes e elegantes
debaixo da noite.

alguém dança em um cubículo
do outro lado da fronteira.
..& pensa em um amor sem ruptura
enquanto olha para os lados

o quadril se move em silêncio
diante das batidas nas caixas de som.

aniquilados antes mesmo de terem sido.

cada um num canto da cidade
engalfinhados em seu próprio idioma.

os dois bolariam planos
como salvar-se do inimigo –
fiéis ao que não tocam.
perfeitamente fiéis.

enquanto desengorduram panelas de teflon
segurando firme nos sonhos
entre o detergente e os dedos enrugados
….calos brotam como pássaros.

 

*

 

o abalo dos joelhos,
ossatura da construção,
entre o sétimo e o nono andar
não existe nada
além do anúncio breve de uma escada
nenhuma parede.
você escolhe não pensar
no país deixado atrás de si
moribundos e felizes eles
longos
os que se fecham ao vazio
pulso que tomba.
você escolhe mordiscar as cutículas
não regar as plantas ou
desengordurar panelas
no entanto,
olhar o guindaste
o que está por ser erguido,
o que pressupõe a queda-livre
de outra coisa dentro dele mesmo –
não.
isso você não pode ver.

 

*

 

esse tumulto debaixo do vestido.
chego perto
a atrofia dos dedos
na culpa cristã
…………………….já não existo aqui
desse ponto adiante
sou daniel aos leões
dentro

um coração de gueixa
fechado em si
recolhe os próprios cacos

ritual
impenetrável
não se deixa ver.

não movo uma peça
você parado no outro extremo
do quarto,

conto sobre o poeta
enterrado no deserto do namibe
para ter certeza.
conto os dedos das mãos mais uma vez
para ter certeza.

vigio a porta da frente
na espera do bote, os felinos.

aqui o tempo não chega
areia no sexo
suja
completamente suja
mais imunda a cada banho

o que fazer
agora
não explicam.

 

*

 

na cozinha ruídos de louça
estardalhaço de vidros
agora nenhum barulho
porque no quarto
acorda mal humorado
e é preciso que se faça silêncio
mas isso não termina bem
como nunca terminam
as coisas escondidas
muito quietos sim
os segredos se comportando feito bicho preso pela pata
se debatendo
em azul no escuro

 

*

 

CONTÁGIO

o corpo sujo é barrado no ___
mercadinho municipal na farmácia no
enterro do sobrinho na missa do galo na
reunião de moradores do bairro. no hospício o
corpo sujo é bem vindo. o meu corpo
sujo é hospício
enquanto no banho lugar de onde
saio cada vez mais imunda
porca sem rabo preso azul no entanto
a língua suja de mulher suja não se aguenta
tem nome de urubu quando fala urubu
tem nome de tesão quando fala tesão
tem nome de socorro quando fala
é suja também imunda muito a língua
quando ousa o sistema linguístico

deixa água de lastro por ele inteiro
o sistema contaminado pelo chorume
o sistema linguístico agora extraviado
do cômodo bem instalado onde habita e o
corpo sujo ainda treme e vacila os joelhos
como um fungo uma doença como
árvore de joão bolão o corpo desavisado
permanece assim mesmo
incomodando, atraso ao contrário.

 

 

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Adrienne Rich: Yom Kippur, 1984
1 de dezembro de 2016

 

Quando em agosto de 2013 publicamos alguns dos poemas de Adrienne Rich junto a um link para seu ensaio “Heterossexualidade compulsória e existência lésbica”, a introdução à postagem dizia:

Uma mulher nasce. Uma mulher cresce. Uma mulher sonha ser poeta. Uma mulher lança um livro (tutelada por um importante poeta do período, no estilo desse poeta). Uma mulher casa. Uma mulher lança um segundo livro. Uma mulher tem 3 filhos em 5 anos. Uma mulher começa a se perguntar: “o que é ser mulher?”. Uma mulher investiga a si. Uma mulher investiga o meio. Uma mulher lança um terceiro livro, com o resultado dessa investigação (livro que rompe, de formas distintas, com os dois anteriores). Uma mulher se separa. Uma mulher ama outras mulheres. Uma mulher se declara judia (mesmo tendo nascido de pai judeu e mãe não-judia) e se lança numa cruzada contra as muitas formas de opressão exercidas pelo Estado mais rico e poderoso do planeta. Uma mulher sonha um outro mundo. Uma mulher sonha uma língua comum e se pergunta se a poesia pode ser “impulso de estabelecer ligação”. Uma mulher se torna ensaísta, ativista política, com diversos livros publicados sobre feminismo, poesia e política. Uma mulher trama um poema possa ameaçar o status quo.

Em “Yom Kippur, 1984″, todo esse processo de autorreconhecimento parece ser posto em jogo a partir da enunciação da pergunta: O que é uma judia sozinha?

O poema, aqui em tradução de Luca Argel, tem duas epígrafes, uma vem de Robinson Jeffers, “um poeta californiano que escreveu sobre a costa da California, onde agora vivo e onde eu havia acabado de chegar quando comecei o poema”, conta Rich em uma leitura dedicada a Emily Dickinson (pode ser lida e ouvida na íntegra aqui), “A outra epígrafe é do Levítico, um verso que se refere ao Yom Kippur, o dia da expiação, e como deve ser santificado”.

Convidamos Bruno Cintra para ler o poema à luz do judaísmo. Cientes, no entanto, de que se trata de uma e limitada investida sobre essa investigação do estar no mundo / o que é uma judia sozinha? / em que gênero, origem e religião são inextricavelmente ligados. Essa publicação é, então, um convite a que, nesse mundo “novo e mal-assombrado”, leiamos Rich. Um convite a que compartilhemos essas leituras. De outro modo, o que quererá dizer “solidão”?

 

8th May 1987: American poet Adrienne Rich gestures and smiles while sitting in an office at W. W. Norton Publishers, 500 Fifth Avenue, New York City. (Photo by Neal Boenzi/New York Times Co./Getty Images)

8 de maio de 1987: Adrienne Rich em um escritório da editora W. W. Norton Publishers, 500 Fifth Avenue, Nova York. (Foto de Neal Boenzi/New York Times Co./Getty Images)

***

 

YOM KIPPUR 1984
Adrienne Rich
(tradução: Luca Argel)

 

I drew solitude over me, on the long shore.
-Robinson Jeffers, “Prelude”

Pois toda alma que não se afligir nesse dia, será extirpada do seu povo.
-Levictus 23:29

O que é uma Judia, sozinha?
Como seria não se sentir sozinha ou amedrontada
longe de si e dos seus?
O que é uma mulher, sozinha? (uma mulher, um homem)
Na rua deserta, na praia deserta, no deserto,
o que neste mundo quererá dizer “solidão”?

O octógono de vidro e concreto, suspenso sobre as falésias
a sua cerca elétrica, a sua indevassável privacidade
não são bem o que eu quero dizer.
A pickup com uma metralhadora estacionada numa curva da estrada em Utah, ou nas colinas de Golã
não é bem o que eu quero dizer.
A torre do poeta encarando a oeste o oceano, hectares de floresta plantada a leste, a mulher lendo na guarita, seu cão de guarda de repente em posição de ataque
não é bem o que eu quero dizer.

A 5000km daquilo que eu um dia chamei de lar
eu abro um livro à procura de alguns versos de que me lembrava.
Eram versos sobre flores, alguma coisa que pudesse me ligar a esta costa como as ervas ao redor do quintal uma vez
me ligaram àquele lugar – sim, tremoços sobre a encosta queimada
qualquer coisa que florescia e morria e era então escrita
no livro do poeta, para sempre:
Mas ao abrir o livro do poeta,
encontro o ódio em seu coração: …os de olhos terríveis e corpo de gente é que são como eu: quem amar a multidão há de tê-los

Robinson Jeffers, multidão
é a nódoa atirada contra os vales que descem à terra
e as fazendas que se estendem até ao mar; os tremoços
são multidão, e as papoulas incendiadas, e o Pacífico cinzento desenrolando seus pergaminhos para os surfistas,
e as pessoas sozinhas, debruçadas
sobre máquinas de costura e brim empoeirado, ou curvadas sob o peso
dos céus da colheita,
elas que dormem em turnos sobre camas que nunca ficam vazias, e têm lá seus vários sonhos.
Mãos que colhem, embrulham, cozinham, cosem, cortam, recheiam, ralam, descascam, esfregam, e pertencem a um cérebro como nenhum outro.
Deveria eu defender o amor à nódoa da multidão ou
a solidão de arame-farpado e holofotes, a última solução do sobrevivente? Teria eu uma escolha?

Caminhar longe de si e dos seus,
ouvir a diferença te chamando na distância
e andar naquela direção, sem calcular o risco,
ir ao encontro do Estranho sem medo nem armas, proteção alguma em mente
(a Judia na auto-estrada esburacada na véspera do Natal reza pela outra Judia,
uma mulher entre a deselegância sinuosa das sombras da rua: Faça com que sejam pegadas de mulher; como se ela pudesse acreditar no deus de uma mulher)

Encontre alguém como você. Encontre outros.
Decidam nunca abandonar uns aos outros.
Entendam que qualquer ruptura entre vocês
dá poder aos que querem destruí-los.
Próximo do centro, segurança; nas extremidades, perigo.
Mas eu tenho um pesadelo para contar: estou tentando dizer
que estar com os meus é o que eu mais quero
mas que eu também amo os estranhos,
que eu desejo a separatividade
e eu me ouço gaguejar estas palavras
aos meus melhores inimigos e piores amigos
que vigiam meus erros de gramática
e meus erros no amor.
Este é o dia da expiação; mas seria o meu povo capaz de perdoar-me?
Se uma nuvem conhecesse o medo e a solidão, eu seria esta nuvem.

Amar o Estranho, amar a solidão – e eu estou escrevendo sobre privilégio,
sobre afastar-se do centro, rumo às extremidades,
um privilégio ao qual não podemos nos dar ao luxo neste mundo
os que são como nós: um viado chutado para dentro da vala, uma mulher arrancada de dentro do seu carro enguiçado,
arrastada para dentro do mato, usada e cortada até a morte,
um jovem estudante baleado na porta da universidade numa caminhada numa tarde de verão, seus prêmios, seus estudos, nada, nada o compensa pela sua Cor.
Uma Judia achando que escapou da tribo, das leis da sua exclusão, os homens muito santos para tocar sua mão; uma Judia que virou as costas
no midrash e no mitzvah (mas ainda usa o chai entre os seios, amarrado no pescoço) caminhando sozinha
encontrada com uma suástica gravada nas costas ao pé das falésias (ela morreu como lésbica, ou como Judia?)

Solidão, tabu, espécies em risco de extinção,
entre a névoa daquela montanha, eu queria um revólver para te defender.
No deserto, na rua deserta, eu quero o que não posso ter:
sua irmã mais velha, Justiça, sua grande mão de pedinte estendida,
seus olhos, meio vendados, agudos e verdadeiros.
E eu me pergunto, será que joguei fora minha coragem?
Será que a troquei por algo que não sei o nome?
A que extremos iria eu para conhecer o extremista?
O que eu faria para defender a minha vontade ou a vontade de qualquer um que procure por si
longe daqueles a que chamou de seus?
Será que eu encontrarei, solidão,
suas plumas, seus seios, seu cabelo
contra o meu rosto, como na infância, sua voz como um melro cantando
Sim, és amada, então por que esta canção?
nos lugares de antigamente, em qualquer lugar?

O que é uma Judia, sozinha?
O que é uma mulher, sozinha? (um homem, uma mulher)
Quando as cheias do inverno arrancarem a torre da pedra, destruírem a terra do profeta, e as fazendas deslizarem para dentro do mar,
quando o leviatã entrar em risco de extinção e Jonas virar um vingador,
quando o centro e as extremidades colapsarem em uma coisa só, desde as fundações do mundo,
quando as nossas almas chocarem-se, Árabes e Judeus, uivando juntos a solidão de nossas tribos,
quando a filha do refugiado e a filha do exilado reabrirem as portas bombardeadas da cidade proibida,
quando nós que recusamos ser mulheres e homens como mulheres e homens são cartografados,
contem as nossas histórias de solidão passadas entre a multidão. Mas
no seu mundo, como ele deverá ser, novo e mal-assombrado, o que quererá dizer “solidão”?

 

***

 

uma leitura
por Bruno Cintra

O dia 10 de Tishrei é a data mais sagrada do calendário hebraico. Chama-se Yom Kipur, traduzido livremente como “Dia do Perdão” ou “Dia da Expiação”. É a coroação dos chamados Aseret Yemei Teshuvá, os “Dez Dias de Arrependimento” contados a partir do primeiro dia do ano novo, ou Rosh HaShaná (literalmente “Cabeça do Ano”); período esse em que D’us, diz a tradição, decide se seremos inscritos no Livro da Vida. Em suma, os judeus fazemos a reparação pelas transgressões do ano que se encerra e rezamos pela dádiva de Vida para o ano que se inicia. Isso faz de Yom Kipur uma data especialmente solene, uma data voltada para espiritualidade e para a reflexão, na qual os judeus exercitamos nossas mais severas restrições físicas. Não comemos, não bebemos, não temos relações carnais, não tomamos banho, nem ao menos passamos perfume ou qualquer tipo de loção. Sendo a alma a força vital do nosso corpo, um corpo desconfortável traz desconforto à alma, e a dor que sentimos no aproxima das dores dos demais. A fragilidade é um elemento central do Yom Kipur; assumimos condições que nos afligem mas não nos matam. A fragilidade da vida evoca a humildade que o arrependimento exige.

Nós aprendemos que a genuína força não está na nossa capacidade de subjugar alguém, mas de derrotar nosso impulso de fazê-lo. A figura de Satanás inexiste na tradição judaica (salvo como imagem poética que raramente evocamos), a origem do Mal é humana da nossa yetser hará, ou má inclinação. Ela é tão imanente quanto a yetser hatov, a boa inclinação, que a contrapõe, enquanto tendência que havemos de seguir. Segui-la, no entanto, requer força. A fragilidade perante D’us nos preenche de força e humildade a um só tempo. Rezamos a Ele repetindo que “não temos nenhum Rei a não ser Ti”, sugerindo que somente Ele tem poder sobre nós, sobre nossa vida, sobre nossa morte.

O hebraico, um idioma antigo, do ramo semítico-ocidental das línguas afro-asiáticas, não se traduz facilmente, e o vocábulo conotativo de “pecado” expressa “transgressão”. Pedimos expiação/perdão às uma transgressão da Lei, da Torá, que D’us entregou a Moisés como a contraprestação por nos libertar do Egito. O dia 10 de Tishrei, aliás, marca a data em que Moisés recebeu de D’us as segundas tábuas da lei, perdoando-nos pela transgressão do Bezerro de Ouro (justamente a que levou Moisés a quebrar as primeiras). A exegese judaica é bastante clara: a esse tipo de transgressão pedimos perdão a D’us, porque foi contra Ele que as cometemos. Mas o perdão pelas transgressões cometidas contra outras pessoas vem mais delas do que Dele. Passamos o dia na sinagoga, enumerando as várias categorias de transgressão cometida (e.g., “as transgressões das quais temos consciência, as transgressões das quais não nos damos conta”). Mas muitas determinações da Torá se referem ao modo como tratamos o Outro; transgredi-las nos torna responsáveis a D’us e à pessoa ofendida. Ele conhece nossos corações e gosta de nos perdoar (“sabemos que não gostais de matar Teus filhos, mas de vê-los corrigir o caminho”); é bem menos simples ganhar perdão de outros seres humanos. Mas o gesto de pedi-lo é forte pela fragilidade de ficarmos humildes. Adrienne Rich, criada no Cristianismo da mãe, se reencontrou com o Judaísmo do pai já adulta, e por um lado há um sentimento de retorno por todo o poema — teshuvá, aliás, significa tanto “arrependimento” quanto “retorno”.

A solidão é sentimento dos mais frágeis, mas a fragilidade espiritual de quem concretiza sua humildade ao privar-se do corpo, em Yom Kipur, é oposta à fragilidade social de quem é humilhado ao ser privado de sua dignidade, num mundo injusto. Nas referências do texto, como no ativismo de Rich, há injustiça na opressão de gênero e na Guerra do Líbano. Rosh HaShaná e Yom Kipur são chamados de Yamim Noira’im, “Dias da Reverência” ou “Dias da Penitência”. Nós reverenciamos a Torá, que permite nem opressão, nem guerra. Nos penitenciamos por perpetuá-las.

 

(Bruno Cintra, Bacharel em Direito, estudante de História, membro do Coletivo Judaico de Esquerda)


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Al Berto: enquanto falavas de um mar
30 de outubro de 2016

para ler ao som de “tempo do mar”, tom jobim

 

Poderiam ser duas. Assim como são os discos de Bethânia – de onde veio a inspiração para esta breve antologia.
O mar é imagem recorrente nos poemas de Al Berto (Coimbra, 1948 – Lisboa, 1997).
O mar como origem, destino, destinação, cenário, metáfora (de passagem, de grandiosidade, de violência…).
Aqui, uma pequena seleção. Cheia de sargaço e sal.

 

al_berto-1doc

~

OFÍCIO DE VIAJANTE

procurei dentro de ti o repercutido som do mar
a voz exacta das plantas e um naufrágio
o deslizar das aves, o amor obsessivo pelos espelhos
o rumor latejante dos sonhos, as cores dum astro explodindo
o cume nevado da cada montanha
difíceis rios, os dias

vivi talvez em Roma
no tempo em que ali chegavam os trigos da sícilia e os vinhos raros das ilhas
a fama remota dos ladrões de Nuoro

todo meu corpo estremeceu ao mudar de voz
cresci com o rapaz, embora nunca tivéssemos sido irmãos
e quando ficámos adultos para sempre
alguém lhe ofereceu o ofício de viajante

eu morri perto de Veneza
e quando atirava pedras aos pássaros sempre me ia lembrando de ti

 

~

 

eras novo ainda
mal sabias reconhecer os teus próprios erros
e o uso violento que de noite eu fazia deles

esta cama de minerais acesos
escrevo para despertar a fera de sol pelo corpo
escorrem aves de cuspo para a adolescência da boca
e junto ao mar existe ainda aquele lugar perdido
onde a memória te imobilizou

enumero as casas abandonadas ao sangue dos répteis
surpreendo-te quando me surpreendes
pela janela espio a paisagem destruída
e o coração triste dos pássaros treme

quando escrevo mar
o mar todo entra pela janela
onde debruço a noite do rosto tocado…me despeço

 

~

 

era um barco
onde os homens regressavam com um lamento
tinham saudades de ilhas…embebedavam-se
no receio de nunca chegar
deitados nas tábuas de sarro do porão
com o cio da noite pegando-se aos membros húmidos
esperavam que se avistasse terra
onde pudessem enfim reabastecer-se de alimentos
água fresca…quem sabe se uma carta não bastava
para saciar a sedes e as fomes do irrequieto coração

assim se quedavam paralisados
os ventres roçando as cordas…as vagas contra o casco
suspirando mansos olhavam depois
a baba acetinada de peixes voando

era um barco
uma sombra do mar com o sol tatuado à proa…avançava
como avançava as vozes aquáticas pelos sonhos adentro
perturbando a navegação da memória
era um barco
com o velame cansado e as mãos calejadas
pelas tempestades das sete partidas do mundo

chegava ao porto
descarregava palavras dialectos estilhaços de concha
espinhas pedaços de cordas na incerteza dos dias
alinhava pelo cais vislumbrado doutro corpo
e voltava a partir
evitando o silêncioso plâncton dos espelhos
acostando somente à memória dalgum distante lugar
onde o amor largou sobre o corpo-amante
uma esteira de conhecidas e sangrentas mercadorias

 

~

 

corpo
que te seja leve o peso das estrelas
e da tua boca irrompa a inocência nua
dum lírio cujo caule se estende e
ramifica para lá dos alicerces da casa

abre a janela debruça-te
deixa que o mar inunde os órgãos do corpo
espalha lume na ponta dos dedos e toca
ao de leve aquilo que deve ser preservado

mas olho para as mãos e leio
o que o vento norte escreveu sobre as dunas

levanto-me do fundo de ti humilde lama
e num soluço de respiração sei que estou vivo
sou o centro sísmico do mundo

 

~

 

o mar arrasta
depois atira o corpo para fora do sonho que me roubou
e a noite
a violenta noite das marés arremessa contra a cama
velhas madeiras restos de vestuário pedaços de corpos
envoltos no coral…rostos
órgãos corroídos pela ferocidade dos peixes

qualquer porto era bom para embarcar
fugir às tribos e ao sol impiedoso
ir em busca de sossego noutras ilhas nocturnas
outros desertos onde o amor se revela e os olhos ficam atentos
ao movimento luminoso dos corpos atravessando
os dias lentos sem regresso

queimava as horas da viagem a esmagar saliva
aprendia a sonâmbula fala dos golfinhos
os dedos enfraquecidos pela amarras
gritava… “Ó fogo de Santelmo! Ajudai! Ajudai!”

e da insuspeita travessia para o sul
vinha a poeira da noite como o embriagante perfume a orquídeas
e a ilusão das suaves índias que não conheço

 

~

 

dizem que a paixão o conheceu
mas hoje vive escondido nuns óculos escuros
senta-se no estremecer da noite enumera
o que lhe sobejou do adolescente rosto
turvo pela ligeira náusea da velhice

conhece a solidão de quem permaneceu acordado
quase sempre estendido ao lado do sono
pressente o suave esvoaçar da idade
ergue-se para o espelho
que lhe devolve um sorriso tamanho do medo

dizem que vive a transparência do sonho
à beira-mar envelheceu vagarosamente
sem que nenhuma ternura nenhuma alegria
nenhum ofício cantante
o tenha convencido a permanecer entre os vivos

 

~

 

enquanto falavas de um mar
derramei sobre o peito os escombros da casa
reconheci-te
nos alicerces devorados pelas raízes das palmeiras
na sombra da ave deslizando junto à parede
no foco de luz rompendo o tijolo onde estivera a chaminé
vivemos aqui
com o ruído dum cano ressumando água
até que o frio nos fez abandonar o lugar e o amor

não sei para onde foste morrer
eu continuo aqui… escrevo
alheio ao ódio e às variações do gosto e da simpatia
continuo a construir o relâmpago das palavras
que te farão regressar… ao anoitecer
há uma sensação de aves do outro lado das portas
os corpos caídos
a vida toda destinada à demolição

tento perder a memória
única tarefa que tem a ver com a eternidade
de resto… creio que nunca ali estivemos
e nada disto provavelmente se passou aqui

 

~

 

Há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida
pensava eu… como seriam felizes as mulheres
à beira-mar debruçadas para a luz caiada
remendando o pano das velas espiando o mar
e a longitude do amor embarcado

por vezes
uma gaivota pousava nas águas
outras era o sol que cegava
e um dardo de sangue alastrava pelo linho da noite
os dias lentíssimos… sem ninguém

e nunca me disseram o nome daquele oceano
esperei sentada à porta… dantes escrevia cartas
punha-me a olhar a risca do mar ao fundo da rua
assim envelheci… acreditando que algum homem ao passar
se espantasse com a minha solidão

(anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no
coração, mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.)

um dia houve
que nunca mais avistei cidades crepusculares
e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta
inclino-me de novo para o pano deste século
recomeço a bordar ou a dormir
tanto faz
sempre tive dúvidas de que alguma vez me visite a felicidade

 

 

RECADO

ouve-me
que o dia te seja limpo e
a cada esquina de luz possas recolher
alimento suficiente para a tua morte

vai até onde ninguém te possa falar
ou reconhecer – vai por esse campo
de crateras extintas – vai por essa porta
de água tão vasta quanto a noite

deixa a árvore das cassiopeias cobrir-te
e as loucas aveias que o ácido enferrujou
erguerem-se na vertigem do voo – deixa
que o outono traga os pássaros e as abelhas
para pernoitarem na doçura
do teu breve coração – ouve-me

que o dia te seja limpo
e para lá da pele constrói o arco de sal
a morada eterna – o mar por onde fugirá
o etéreo visitante desta noite

não esqueças o navio carregado de lumes
de desejos em poeira – não esqueças o ouro
o marfim – os sessenta comprimidos letais
ao pequeno-almoço

 

~

 

INCÊNDIO

se conseguires entrar em casa e
alguém estiver em fogo na tua cama
e a sombra duma cidade surgir na cera do soalho
e do tecto cair uma chuva brilhante
contínua e miudinha – não te assustes

são os teus antepassados que por um momento se
levantaram da inércia dos séculos e vêm visitar-te

diz-lhes que vives junto ao mar onde
zarpam navios carregados com medos
do fim do mundo – diz-lhes que se consumiu
a morada de uma vida inteira e pede-lhes
para murmurarem uma última canção para os olhos
e adormece sem lágrimas – com eles no chão

 

para o marujo marcos walickosky


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OFICINA EXPERIMENTAL DE POESIA: afetos, atravessamentos, políticas, cidades (Parte 1 de 2).
23 de março de 2016

Talvez um dos espantos deste coletivo de práticas artísticas e poéticas seja o nome: Oficina Experimental de Poesia. Sua organização é fundamentalmente a do trabalho coletivo na construção de textos, performances e obras poéticas diversas, estruturando-se efetivamente como uma oficina. Também em sua linguagem ou em sua maneira de propor a reflexão própria que buscam elaborar sobre o poético não falta o caráter provisório, de construção e reelaboração permanente, de tentativas de caminhos e mesmo certo método que caracteriza a experimentação. O nome espanta não pelo que apresenta, mas pelo que, nele, está ausente. Aqueles que tiveram contato com as práticas e com a linguagem dos poetas/artistas que integram o coletivo percebem uma de suas características mais notáveis é a politização de cada passo dos encontros, numa reflexão que busca, o máximo possível, uma radicalidade democrática. As formas coletivas pensadas para a apresentação dos textos, a comunhão dos espaços, a abertura para múltiplos pontos de vista e a experiência de trânsitos entre lugares de fala diversos orientam e reorientam a dinâmica sempre no sentido de uma poesia que se quer como linguagem da cidadania.

gaya - free staly

Gaya Rachel, 2015

Esse pode ser o cerne para manter vivo um coletivo de 18 integrantes, todos participantes de diferentes etapas de elaboração e participação das atividades, de acordo com o que querem, com o que os move. Além da horizontalidade e da valorização da prática do diálogo, outro aspecto que evidencia ou problematiza o modo como pensam o que é uma atividade de produção cultural pode ser percebido no histórico do grupo e suas diferentes relações com os espaços que ocupa. Tendo iniciado em maio de 2011, a princípio, em locais fechados codificados como próximos à cultura do livro, ou à classe artística, como a livraria Pargo das Letras, ou o Centro de Cultura Laurinda Santos Lobo, e a sede da editora Oitoemeio, no Flamengo, deslocaram-se posteriormente, sem convite ou apoio, para o Centro Cultural Municipal João Nogueira, o Imperator, no Méier.

A mudança é significativa não só como deslocamento com na cidade, para além de seus espaços imaginários de “produção de cultura”. É também um traço da reflexão sobre o espaço público, que pode, precisa ser ocupado por qualquer um disposto a produzir seus conjuntos de obras, símbolos que povoem a cidade. Foi nesse sentido que os encontros semanais da Oficina se transferiram para o terraço do Imperator, permitindo a aproximação e participação livres de quem estivesse interessado, nesse sentido também que até ano passado os encontros se mantiveram como prática de ocupação do espaço que é público – com alguns desencontros com as instituições que, a princípio, regulamentariam e garantiriam esse espaço. Desde o ano passado, a sua persistência conta com a administração do Centro Cultural Municipal João Nogueira, que agora lhes garante um mínimo de apoio técnico e financeiro.

Os encontros da Oficina se dividem em momentos de propostas de exercícios criativos, pesquisa/seleção de livro, discussão/debate crítico sobre o livro selecionado para leitura, e roda de conversa com o autor. Além dos funcionamentos, nas quartas-feiras a partir de 19h, no Imperator, este ano, de 2016, o grupo expandiu seu conjunto de parcerias, oferecendo, no Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica – no centro do Rio – turmas de práticas de criação poética.

Do ponto de vista da linguagem, a perspectiva comunal, a divisão de experiências, propicia não algo que poderia ser descrito simplesmente como uma língua em comum, ou como qualquer coisa que poderia ser entendida como conjunto de princípios e regras de composição, uma proposição de poética. O que talvez se possa dizer é que suas fissuras se comunicam. Importa perceber não apenas o gesto, o endereçamento – no sentido de eleger ou se direcionar ao outro – mas o quanto as vozes parecem vazadas por canais que se comunicam, mas que também extraviam pequenas sensações, deixam surgir, no arrepio, outros sentidos.

Escolhemos o coletivo da Oficina Experimental de Poesia para encerrar nosso ciclo, nosso conjunto de postagens sobre crítica, poesia e afeto. Nessas trocas de correspondência e poemas, um pequeno vislumbre de uma reflexão que quer pensar a palavra nesse espaço atravessado, da cidade, da democracia, do poético. As imagens que ilustram essa postagem são aquarelas da artista Gaya Rachel, em 2015, feitas durante os encontros das oficinas.

 

Oficina Experimental de Poesia: Adiron Marcos, Ana Carolina Assis, Bárbara Coelho, Davi Nascimento, Felipe De Oliveira Menezes, Guilherme Gonçalves, Heyk Pimenta, Karen Campos, Khalil Andreozzi, Liv Lagerblad, Luiz Guilherme Barbosa, Marcos Nascimento, Marcelo Reis de Mello, Claudio Medeiros, Rafael Zacca, Simone Vieira, Vinícius Gonçalves Melo, Yasmin Nigri.

 

***

gaya - outrodia

Gaya Rachel, 2015

 

CAROLINA TURBOLI & YASMIN NIGRI

 

Correspondência

 

(Enviado por: Yasmin Nigri

Para: Carolina Turboli)

 

Carol, me ajuda, minha vida é igual violão eu não sei tocar violão. Essa oscilação louca vontade de passar tudo sujo, já não sei por onde contornar escorpião retrógrado. Pra completar ainda tem essa epidemia de ebola, menina, eu tô num momento da minha vida que eu não tô podendo pegar ebola, juro, tô cheia de carnê pra vencer. Deixa eu te falar da Julinha, a menina ta aqui em casa esparramada no sofá e vem meu pai falando quando você tiver sua própria casa emprego e pagar suas contas você assiste o tanto de galinha pintadinha que quiser eu precisei sair correndo pra não falecer Carol, tô morta só de lembrar. Aí levei Julinha pro quarto e fiquei lendo pra ela pegar no sono quando me toma esse desejo urgente de te escrever e contar que as coisas tão mudadas e nem tanto e que enquanto eu lia os 12 trabalhos de Hércules pra Julinha imaginei a coisa toda se resolvendo no agora e Hércules postando uma selfie no instagram com o leão de Nemeia e a legenda “começando os trabalhos”.

***

 

(Resposta de: Carolina Turboli

Para: Yasmin Nigri)

Yasmin, mulher é tudo escorpião comandado
por abelha-rainha. Precisamos rever os nossos poemas
porque Ana C. falou que quando escreve é homem
e temos falado demais de ser mulher e ter bunda
tem atrapalhado na hora de sentar os meninos
é que dizem. Medo e mulher andam juntos pra todos
no nosso caso o medo é acompanhante e o pai e o ex
o diretor do circo são os eguns de ronda. Yasmin
eu odeio o Vinicius de Moraes vamos jogar os livros
no berço dos meninos e ir pra Lumiar antes da noite
porque andar sozinha é pedir pra ser estuprada.
Lembra do Hércules, meu ex? Ele tá gordo e me disse
que Saturno é cheio de anel que isso é coisa de mulher
que retrógrado é nome de mulher e que escorpião é um tanque
vivo comandado por formigas tanajuras. Tenho medo
de contar pros meninos do escândalo de mel de estar nesse
tanque fazendo mel de mulher acho que somos alquimistas
eu não sei o que vai ser deles sem a mamadeira de rambaud
eu quero lamber as santas eu quero lamber as santas mulher
é bom demais pra ser altar (os homens é que inventaram a loucura)
o gravador apita “vou invocar as musas” mas elas estão correndo
nas montanhas jorrando leite e compondo. Chega de porta-voz.
Aliás a loba da Virgínia te mandou um abraço lá das pirâmides
dizendo que a buceta da esfinge é dela e ela abre pra quem
quiser.
Baco morreu ontem engasgado de tantos Peixes mas a Globo
é um aquário que não vê o grande mar da nossa era.
No mais avisa pra Julinha que a galinha só está no diminutivo
porque vive olhando pra baixo, eu não vim falar das asas eu vim
voar.
Amanhã estamos aí fechando com Vênus fazendo pérolas
da lama dos porcos e cantando o que a gente quiser e
não o que o Chico mandar. Mulher que diz que Chico Buarque
entende de mulher não sabe o gosto que uma mulher tem.
Quem ouviu o galo cantar pode contar porque quem ouviu
a sereia não tá aí pra contar a história. Eva era cantora.
Às vezes acho que ser mulher é um ENEM malfeito
onde passa quem lê mais textos grandes no facebook
mas o Graal é muito maior que um pau e ser mulher
é algo que não escrevo como não falo o que é ser uma pedra.
Estou cansada. Por que Ebola é feminino?

***
Poema inédito de Yasmin Nigri

Duas bêbadas

Estávamos à beira mar
Rindo
Do que estávamos
Fazendo
À beira mar
Completamente bêbadas
Àquela hora
Com um baseado
Perdido na ventania
Semeando a areia da
Praia de Copacabana
Ríamos desesperadamente
À beira mar
Do baseado
Perdido na ventania
Da madrugada da
Praia de Copacabana
Mãos de maresia
Repletas de areia
Entre unhas e dedos
Buscando o baseado
Perdido na ventania
Ríamos
Da madrugada da
Praia de Copacabana
Desesperadamente bêbadas
À beira mar
Areia entre os dedos
Sem baseado
Repletas de areia
Enquanto enrolávamos
Voou seda
E baseado
Semeando areia úmida
O vento levou seda e
Baseado
Na madrugada da
Praia de Copacabana
E ríamos desesperadamente
Bêbadas
Enquanto corríamos os dedos
Buscando areia
No baseado
Repleta de dedos
Que o vento soprou da seda
À beira mar
Levou seda
Levou baseado
Dedos cheios de areia
E ríamos desesperadamente
Na madrugada da
Praia de Copacabana
Bêbadas
Desesperadamente bêbadas
Ríamos completamente

 

***
Poema inédito de Carolina Turboli

Garota ideal

Gosto de te prender com as pernas
Abafando o gemido do alarme
Insistir no abraço necessitado
Gosto de te agredir todo dia
De te tocar e sentir o choque
Digo que tenho um ventríloquo
De ternura que me lubrifica
E te faço cuspir sangue
Você me bate e corre a rua
Para pedir perdão ao Sol que te rasga
Meu ódio te aguarda iluminado
Você é patético
Para ti todos os meus risos
Quero fazer contigo
O que a espremedeira faz
Com as laranjas

***

gaya - PhotoScan

Gaya Rachel, 2015

 

RAFAEL ZACCA

Carta para Khalil, 20/08/2015

Khalil, esta é uma conversa de mim comigo mesmo, mas você está todo aqui dentro. Em mim cresce a tua amizade como crescem nas pessoas as fibras que cobrem florosas a imensidão do corpo. E se ando com tal substituição de camadas, cotidianamente, que é o teu nome comigo, ando tranquilo. Tudo é um suceder de infâncias; o fim da incapacidade de falar cede lugar à incapacidade mesma de falar, ainda mais errada, ainda mais gaga. Eu não queria escrever assim, Khalil, não queria ter essa voz segura. Acho mesmo que devemos ser as crianças que somos, tateando o mundo, balbuciando as coisas, cedendo os joelhos diante do perigo. Eu já te escrevi um bocado, mas ainda não consegui te dizer dessas coisas. Hoje derrubaram galhos e mais galhos das árvores de minha vila, as pessoas não gostam dos morcegos, e como consequência aconteceu de os pássaros pousarem todos às 16h30 em frente à minha casa para piar descontroladamente. Os meus vizinhos discutiam sobre as contas da vizinhança, cifras e salários. Também eles piavam, pensei por um momento que eram todos pássaros que haviam perdido seus ninhos, há muito tempo atrás. Uma visão de morte tomou conta de mim: de repente, todos eram o pombo daquele poema sobre meu pai, aquele que tombava na pedra portuguesa, e que não era ainda o poema. Mas não, eles são duros, não vão cair, nem os pássaros. “A indestrutibilidade da vida suprema em todas as coisas.” Você é uma revoada de cantos, Khalil, embora a sua voz seja tão grave. Não, ela não é grave: é um marulho. Grave são os tempos. Ainda bem que o temos por perto. Esta é uma carta aberta dos meus papagaios (eu ainda sou esse pássaro que não aprendeu a piar, quero perder a fala contigo).

 

***

Poema para o Heyk

Uma barata no cemitério de Inhaúma

“sem saber se o cheiro que sente
é de açúcar ou de morte”
Heyk Pimenta

Uma barata, Heyk,
esmagada na gaveta da dona Julieta
no cemitério de Inhaúma

morria sozinha
ainda no portal
metade era só pasta
a outra, miragem às avessas
areia enfim
rodeada de gente
eram brutas as gentes
quando choravam –
hoje não choram mais

a delicadeza
é uma terra arrasada
tática dos russos
a delicadeza
é um desespero de guerra

tanta gaveta sem jeito
uma delas com adesivo
do Tom & Jerry

eles nunca morriam
nem ficavam mancos
não tinham esse corpo
frouxo

dentro do metrô do rio
só o escuro
trazendo a dona Julieta
ela e os latifúndios
ela e os carregamentos de borracha

era manca
mas não tinha o corpo frouxo
dentro uma lagoa
e uma noite sem fim
e pés de buriti
crescendo entre as patinhas

só o mel vazando
do corpo a última gota
e o convite às moscas

não tem estação do metrô
em São João de Meriti
mas é como se tivesse
a linha 2 enforca
a Pavuna
e São João
a linha 2
é uma casa de engorda

a dona Julieta
morreu no Cachambi
por isso morreu magra
alçando voo sem asa
não era bicho de desenho animado
era uma água negra
parada

antes do voo
foi grito urro televisão no último volume
incomodou o vizinho
recebeu multa
120 reais

, a barata, Heyk,
eu não sei se ficou viva
se tentou ainda as carnes
da dona Julieta
ou se recebeu
multa de condomínio

morria sozinha
a delicadeza
era manca
um desespero de guerra
crescendo entre as patinhas
só o mel vazando

mas os teus poemas
seguem
tentando as carnes
vivas ou mortas
para lhes dar
alguma dignidade.

Heyk, você é uma casa onde moram os bichos que eu quis pegar pra criar.

***

Poema para Khalil
A marina das coisas

um segredo para Khalil

Não é tão tarde que não se possa
selar o céu com o marulho das conchas.
A frágil casca das coisas se abre em segredo
e convite à escavação

– a mão
que encontra antenas
é a mesma que se rasga na areia

assim se abrem as crianças:
entre o sangue e o brinquedo
num rolar de tatuíras
batendo

o dente e o dente (um segredo de cálcio,
quem adivinha o metal
que aí se elabora? arrisco:)

um clarão de sol secando
castelos vazios
sem reis – ruína de crustáceos
sem história – deslizamentos de terra
sem serviçais – o mundo aberto no vagar
dos que não têm casa
a mão pequena, se nos toca,
nos faz, a todos, desterrados.

É por isso que as crianças
, se podem ir à praia,
salvam o mundo

ao cavar fundo

articulam
a marina das coisas
os bichos inexplicáveis
o tumulto do nácar.

 

gaya - lucas

Gaya Rachel, 2015


Carolina Turboli, Gaya Rachel, Oficina Experimental de Poesia, Rafael Zacca, Sem categoria, Yasmin Nigri


Quando Piva viu um lençol branco esvoaçante e disseram que era a alma de Breton e outras histórias de São Paulo (50-60)
21 de setembro de 2014

Por Clarissa Freitas
A postagem dessa semana vem primeiramente da mala secreta do Carlos Lima (como mencionado na postagem sobre poesia surrealista aqui). Depois é toda influenciada e montada a partir do documentário “Outra Cidade” de Ugo Giorgetti que fala do encontro de jovens poetas e intelectuais na década de 50 e 60 em São Paulo. A cidade como um afluente de encontros que confluíam em livrarias como a Francesa, Mestre Jou, Loja do livro italiano, Phaternon e Palácio do Livro; nos cinemas Metrópole ou Niterói; nas festas ou nos bares da Rua São Luis. Eles se encontravam na poetização permanente, no afeto e no compromisso visceral com a vida. Eu falei com o Lucas que precisávamos fazer uma postagem sobre os “poetas marginais” em São Paulo. Apesar de saber da intensa carga categórica do termo, continuo usando-o, pois se naquele momento eles respiravam essa poetização e a faziam no encontro diário com o vinho barato misturado a leituras de San Juan de La Cruz e Artaud e beijavam a palavra e visitavam cemitérios, arrotavam a hipocrisia moralista, libertavam as questões partidárias, conviviam com traficantes que sabiam de cor Baudelaire, talvez assim se encontre a linha do uso do termo. Só para constar, esses poetas também são conhecidos como os Novíssimos.
Antonio Fernando de Franceschi, Rodrigo de Haro, Roberto Piva, Jorge Mautner e Claudio Willer se conheceram em São Paulo e dizem que o Piva era o grande agregador do grupo, mas falam também que a cidade parecia pequena nessa época. Invariavelmente, todos acabavam se encontrando tanto no circuito de livrarias como de bares. Dizem que as associações cinematográficas para a vida deles na época era “A longa noite de loucuras”  de Pasolini, “Boulevard do Crime” de Marcel Carné e “La Dolce Vida” de Fellini.
Um dos mestres para essa geração de poetas foi o pensador Vicente Ferreira da Silva. Vicente casado com a também poeta Dora, os dois disponibilizavam as suas histórias, pensamentos e ideias com jovens cheios de desejos e impulsos literários. Vicente publicava uma importante revista de cultura chamada Diálogos, na qual ele publicou Mautner com apenas 17 anos. A revista não tinha incursões acadêmicas nem Vicente; de qualquer modo, toda a geração nesse momento se importava em ser antiacadêmica e antimídia.

Esses poetas eram cinéfilos, assistiam avidamente os filmes nacionais, a Nouvelle Vague e cinema Japonês. Sim, enquanto no Rio de Janeiro tínhamos também nessas décadas muitos cineclubes, em São Paulo haviam mostras de Cinema Japonês que eram muito admirados, cineastas como Tomu Uchida e Eizo Sugawa. Voltavam no cinema repetidas vezes, “Morte à fera” é um desses filmes.

Outra referência que não pode deixar de ser mencionada é o editor Massao Ohno, que publicou os primeiros livros desses poetas. Conhecido como o editor Samurai, apresentava um trabalho diferenciado ao pescar poetas novos e combinar com trabalhos gráficos únicos. Massao acreditou nessa pluralidade poética dos novos poetas. Um dos seus escritos Massao de 2010: “Brecht aconselhava: ‘Quando tudo estiver perdido, monte um bar.’ Os bares proliferaram e disso nada resultou. Os bêbados é que mudaram. Não se faz mais ébrios como antigamente, sociais, brilhantes, abertos. A bebida, de dionisíaca passou a apolínea. E nada pior do que um etilista frio, individualista, calculista”.

As influências são as mais variadas desde os Beats, Romancistas Russos, Rimbaud, Baudelaire, Fernando Pessoa,  Henry Miller, Murilo Mendes, Rilke, Augusto de Campos até Monteiro Lobato. Reconhecidamente sobressai a influência dos Surrealistas e dos Beats. Em contrapartida desinteressava profundamente o formalismo.

Um relato maravilhoso do Piva mostra essa adoração por Breton quando o mesmo conta que andava na Av. Rio Branco perto da Casa Verde quando passa um caminhão de mudança com uma das portas do guarda-roupa aberto e preso um lençol branco esvoaçante. Na hora, seu amigo Michelli gritou: “Olha lá a alma do Breton”, isso deviam ser umas cinco horas da tarde. No dia seguinte, assistiu o noticiário sobre a morte do Breton no dia anterior às 16:30. Passaram-se anos e Piva leu o 3º Manifesto do Breton, no qual ele escreve: “Eu sempre digo aos meus amigos que quando eu morrer me leve ao cemitério num caminhão de mudança”.

Ao trabalho com imagens extremas e um discurso que se volta sobre os lugares, onde os pensamentos se despedaçam pelo excesso do desejo, juntam-se geografias, traços da cidade sobre o traço da escrita, violência e psicodelia da experiência urbana. Nos olhares de Piva, Haro e Willer sentados na sala de estar passa um caminhão fantasmagórico sobre aquela aventura que antecedeu ao golpe militar. Depois vieram as neblinas, as mortes, as despedidas, o trabalho, os casamentos, os descaminhos da cidade de São Paulo.

Links importantes:

http://minhateca.com.br/hudson_kadosh/Paranoia-Roberto-Piva,12264927.pdf

http://acervomohnoeditor.wordpress.com/2010/06/15/massao-ohno-1936-2010/

http://desenredos.dominiotemporario.com/doc/12-poesia-ClaudioWiller.pdf

http://www.panfletosdanovaera.com.br/detalhe/3976

***

Rodrigo de Haro

O COZINHEIRO INFERNAL

Não podes desejar quem não devoras.

Não podes desejar se não devoras.

Não podes devorar quem não desejas.

Observo membros sonhados

Numa arena íntima que recuperas

De memória, com precisão de ourives

Escutas o latejar das têmporas

E teus maxilares crispam-se

Enquanto refletes na carne ex-

Posta do amado, para ser consumida

Pulsando ainda entre blocos de gelo.

Não podes desejar quem não devoras.

Não podes desejar se não devoras.

Não podes devorar quem não desejas.

Primeiro coração, carmim absoluto.

Logo o fígado, o ácido pâncreas

Onde os pensamentos sufocados petri-

Ficam-se em jardim de cartilagens.

Mas convém voltar depressa

À epiderme, onde abaixo das claví-

Culas, inclino-me para morder

Duas rosáceas antes de descer

– rubro e ofegante –  até as graças

Da tensa e amável cintura. Depois,

Depois de longo tempo, saciado, sob

As frescas copas de qualquer oásis

Irei deitar-me, tendo as garras,

O queixo e o peito negros de sangue seco.

Não podes desejar quem não devoras.

Não podes desejar se não devoras.

Não podes devorar quem não desejas.

(De Ofícios Secretos, inédito)

*

FIGURA CONTEMPLA UMA NOZ

O peso da noz cabe na mão

Decidida do rude visionário. Tu que

Me vês, és tu real? Tu que me lês,

Acaso a idade tens da pedra?

Cego que tropeças, de tua primeira

Casa ainda recordas? Quantas portas

Já rompestes sem obter guarida?

O peso da noz na palma determina

A extensão da tua vigília. Insistes

Em parti-la, em separar as frias

Hemifaces, em escrever na lousa

A fórmula do ponto luminoso.

Fitas a noz. Como emblema

Conciso e secreto do ominoso, fazes

Gira-las entre os dedos repetidos.

Rondas a cela curva, meditas

Astucioso. Quantas mensagens

Guarda este cofre fechado?

Como vulgívaga romã, plácido

Ovo, consideras a noz de

Substância parecida. Mais

Que alimento ela é

Símbolo e atributo. Fitas

A noz. Nada mais te per-

Tence neste mundo.

(De Ofícios Secretos, inédito)

*


OMBRA MAI FÚ…

É tempo de entoar a ária, de procurar

O deserto abraçado ao cometa sem

Esperar pelo sinal cruciforme dos

Empoados nos camarins, sempre

Conspirando contra o Príncipe.

Tua memória

São construções empíricas do mundo,

Licença libertina, feroz ades-

Tramento. Somos todos parecidos,

Sussurro e sombra fustigando

O Tenor imprudente, dilacerado.

Pela vaidade, esquecido

Da santa hierarquia, desabrido

Locutor da fria igualdade.

Atenta bem para a estrutura

Das moradas. Obedece:

– Esta é a ária. Teu fado é

Recomeçar sempre

A imodesta aventura da fala.

(De Ornitorrinco, Inédito)

*

LAS MORADAS

Apanha um tamborim e dança no meio

Da cozinha, esquecida das terrinas e

Dos pratos empilhados nas mesas. Segue

Até o pátio dando vozes para

Combater ameaças

Do êxtase. Pois nem Sempre

Se permite tê-los, com tanta louça

Para secar e todas estas doidas

Ansiosas pro visões.

Dança,

Um carro de bois avista-se ao longe.

O ruído monótono e doce de suas rodas

Morde obstinado a fímbria da paisagem

Seca, em pacientes ondulações

Sonoras de acalanto meridiano.

A mulher alta continua dançando e

Pequena sombra move-se agilmente

Debaixo dos seus pés no ritmo

Sacudido da folia onde se oculta

Discreto fio de mistério Sefarad.

A luz e o calor emitem som estrídulo

De chocalhos e guizos de cascavéis.

Tereza prossegue o baile envolta

Em luz, fugindo de outro arrebatamento

Inoportuno. O ruído, o clamor

Insistente das rodas

Esta cada vez

Mais próximo.

(De Tesouro dos Melodramas, inédito)

In: http://www.revistazunai.com/poemas/rodrigo_de_haro.htm

***

Cláudio Willer

POEMAS PARA LER EM VOZ ALTA

1

EROS
viajantes inertes
imersos no silêncio dessas horas
quando o tempo não é mais tempo
porém lassidão
e nossos corpos arquejantes construções
envoltas em nudez
testemunhada apenas pelos objetos da casa, os quadros na parede, os pesados móveis, os livros e suas lombadas, vasos de plantas, espelhos, e mais a negra silhueta dos prédios recortados contra a janela
rosto cego da cidade agora adormecida a observar-nos fixamente
eu bruxo, você sibila
que deuses cultuamos?
parados na pausa entre sobressaltos
que alquimia inventamos?
o peso que nos paralisa e adormece
não é cansaço
porém outra coisa
sensação do profundo
o obscuro sentir
do mundo que respira
pelos poros da escuridão
e nós, manietados pelo prazer, apenas conscientes
da presença dos objetos da casa, móveis, vasos de plantas, livros, almofadões
espalhados pelo chão, nossas roupas jogadas ao acaso, mais o negro recorte dos prédios
por trás da janela,
perfil da paisagem urbana, impassível testemunha
mal sabemos quem somos
lembramo-nos apenas dos nossos nomes
restam-nos o repouso e uma intuição
desperta para o morno mundo de nossos corpos
nunca, nunca havia sentido isso antes assim

2

quando o calor da noite de verão
e a chuva da noite de verão
se encontram
e são a mesma torrente de vida a escorrer por nossas artérias
então
reconhecemo-nos pelas carícias
um arco-íris pode sentar-se à cabeceira da cama
uma nuvem pode servir de cobertor
uma paisagem de sol nascente
em uma praia pontilhada de tendas de campistas
reflete-se no lago luminoso do seu ventre
a montanha e sua encosta recoberta de matagais
onde certa vez nos perdemos entre nascentes de rios
projetam sua sombra em suas coxas
planícies batidas pelo vento alísio
que atravessa o continente, o universo
são nossa imaginação febril

3

a colcha era verde
e a lâmpada azulada
costumavam ouvir músicas lentas e suaves
achavam que a estante repleta de livros tinha um ar solene
e gostavam disso
de qualquer coisa
que sugerisse um ambiente sobrenatural
eram rápidos, muito rápidos em seus jogos intelectuais
serviam-se em taças transbordantes, borbulhantes
e tudo era praticado com uma certa indiferença
com a naturalidade de há tanto tempo
termos nos habituado a estar juntos, a ficar nus, a beijar-nos na boca
deitar-nos sobre a colcha verde do sofá, à luz azul da lâmpada
ao lado da estante de livros compondo um clima de ritual
sugestão de coisa esotérica
decerto olhavam-se
e ficavam de voltar a encontrar-se outro dia
(as noite passavam depressa)

4

nossos hábitos delicados e perversos
nossas diversões meio delinquenciais, meio filosóficas
nossos prazeres íntimos e raros
as conversas irisadas de memória
gestos aos poucos entretecendo-se
na plenitude da nudez familiar
enquanto íamos nos transformando
nos pulsantes personagens crepusculares
de nossas narrativas
rodeados por um silêncio vivo, um tempo latejante
da noite percorrida
para não chegar a lugar algum
durante o dia
éramos simples mortais

5

é hora de dizer claramente como são as coisas:
você abre suas portas suas pernas seus braços sua boca seu corpo
você se escancara
eu embarco em você
eu me engajo me prendo me agarro navego em você
plano em um jogo de arriscado equilíbrio
atiro-me em seus abismos
singro suavemente sua brisa
enfrento seus maremotos
viajo por sua velocidade
perco-me no emaranhado de seu pântano, no labirinto de terra e de areia,
de água do mar e de água doce
– nós somos o pântano e somos o labirinto
cego-me em sua brancura
alço-me em sua ondulação
você é o planeta onde pouso
a nuvem em que me envolvo
aura estelar, dissipação de caudas de cometas
leva-me e me conduz
nessa dança desarticulada
para mais longe para o alto para o
profundo
me arrasta
amor oxímoro
amor, palavra de paradoxos

6

seus olhos têm muitas cores
que refletem o brilho de cada hora
estranhas palavras
atravessam nossas conversas
É PRECISO QUE SEJAMOS MODERNOS COMO O AMOR
mas não sei
se não recuaremos
confundidos diante da visão da nossa crueldade

7

ah, mas você não viu nada
essa festa para a qual me convida
só pode ser na clareira do matagal em chamas
no subsolo do edifício que desaba em escombros
pois o verdadeiro amor, o amor somado ao prazer, é outra coisa
overdose, êxtase infernal
que fatalmente nos destruirá

*

RUÍNAS ROMANAS

Quantos poetas
já não estiveram aqui
quantos poetas
já não escreveram
sobre a ofuscante aniquilação
diante desses dramáticos perfis minerais
tão próximos da pedra original
do barro anterior à forma
coisas
reduzidas a não mais que montanha
quase natureza
coisas
na fronteira da mão que trabalha, do vento, da água
aqui
ressoam os silvos do vento
aqui
ecoa a ensandecida voz do oco, do cavo,
da fresta

silêncio matizado de sussurros
e agora
eu também sou um dos que enxergam:
o informe
o monstruoso passado

foram os escultores do avesso
que as reduziram a isso
os autores
do cruel teorema
que nos condena ao presente
e repete
que nada sabemos,
nada vale a pena
pois passado e futuro só existem
como passo para a informe eternidade

a custo divisamos lá fora
a realidade logo ali, logo aqui:
outro lugar
onde existiremos menos ainda
nós
é que somos os fantasmas
e a solidez
é o que está aí,
nas ruínas
que não param de repetir
que isto-
NADA-é tudo o que temos

***

Antonio Fernando de Franceschi

CORPO

“… o único roteiro é o corpo. O corpo.”
João Gilberto Noll

o corpo quer ordena sem recusa da vontade
a implacada ira seu domínio sabe altíssimo
sobre toda resistência quer o corpo em sanha
o outro corpo que no enlace o corpo assanha
e é fúria o doce nome seu jubiloso corpo
livre de amarras ou temores na aguda hora
que sempre mais e muito o infrene corpo quer
e a seu regaço incita em febre o corpo alheio
e logo é quieto o escuro abismo intranscendido
pois só o corpo aplaca o corpo em seu roteiro

*

SERPENTE

cauda e dente
inteira
se morde
a serpente
lenta se devora
ao norte
funda se engole
ao sul
e nada sobra
de uma e outra
a que come
e a comida
mais que a mesma
ancestral serpente
e a infinda fome
que a devasta
e nem morta
de si mesma
se sacia

*

GEOGRAFIA

“… Touch me, touch the palm of your hand
to my body as I pass…”
Walt Whitman

O leve arrepio de tuas mãos
me comanda suave
sigo-te pelos lugares de mim
que não conheço
amanheço-me vales
me percorro colinas
sou o campo em que te apraz
me transformares
ou senda perdida
num dorso de montanha

Me desvelo geografia
ao teu desejo
qual queiras
para colher-te em prados
ravinas
e na fina erva que me cobre o peito
te sentir os dentes
palmo a palmo cortando rente
sem pressa de me cegares
no olho da paixão

***

Jorge Mautner

POESIAS DE AMOR E MORTE

Ouço agora lá longe
Os acordes finais
Como os hinos de um monge
No templo dos samurais.

Espinhos e rosas
Rosas e espinhos
Como é que tu gozas
E não tens nem dás carinhos?

Vagueio no meio
De muitas pessoas e gentes
Só não sei se sou lindo ou feio
E se existem mais de três continentes.

Como se fazem versos?
Como se fazem mundos?
Assim como se fazem universos
Em segundos vagabundos?

Entenda: Meu lema
É não se venda
E não tema
Cavaleiros
Medievais
Feiticeiros
E bacanais.

Meu desejo não quer esperar, como eu erro!
Leva você pra longe de mim
Vou dar aquele grito, aquele berro
Eu vou chamar o Anjo Serafim.

Que é como um Arcanjo
E é amante do Arlequim
Todos tocam seus banjos
Só eu toco bandolim.

***


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