Ela assopra: correspondências de Lygia Clark
25 de dezembro de 2014

Antes dessa postagem, o último contato que tive com a obra da Lygia Clark foi um vídeo documentário em que aparecia a mesma apresentando sua obra e detonando suas impressões de arte, sua fascinação pela observação e nitidamente sua grande artimanha de articular seu pensamento em palavras vivamente selecionadas. Lygia falando era uma obra-poema-teatro (bem ao gosto neoconcreto), pintava e bordava aquelas palavras. Fiquei sem dormir, desconhecia esse lado de sua obra. Para além das grandes performances e obras queremos mostrar alguns escritos de Lygia Clark. Escolhemos três cartas endereçadas uma a Mondrian e outras duas a Hélio Oiticica.

 Não interessa nesse momento articular apresentações formais de obra e trajetória de Lygia Clark apesar dos links que serão sugeridos ao longo da semana na nossa página do facebook, mas sim viajar “desordem de ordem” que Lygia nos lança. Caetano Veloso em entrevista a Suely Rolnik (http://www.bcc.org.br/filme/arquivo-para-uma-obra-acontecimento/037834) relata o que presenciou das experimentações de Lygia chegando até a fazer terapia com a mesma. A experiência com os objetos que ela relata catar na rua observada na carta a Helio passando pelo corpo-experiência como objeto artístico e a arte potencializada através de um atendimento ao outro.

Essas cartas recolhem trechos únicos de como a vida e obra de Lygia se misturam, de como sua afetividade está entrelaçada a sua criação, de como há um olhar atento ao outro, e seu poder de observação de si, forma um cafuné nas inquietações de todos nós. Ela não dá nome aos abismos, mas divide suas pontes nas obras plásticas e escritos.

                                                   



Lygia Clark
Carta a Mondrian
Maio 1959
Hoje me sinto mais solitária que ontem. Senti uma enorme necessidade de olhar o teu trabalho, velho também solitário. Dei com você numa foto fabulosa e senti como se você estivesse comigo e com isto já não me senti tão só. Talvez amanhã possa dar também de meus olhos, de minha solidão e de minha teimosia a alguém que será um artista como eu ou talvez ainda mais, como você. Não sei para que você trabalha.  Se eu trabalho, Mondrian, é para antes de mais nada me realizar no mais alto sentido ético-religioso. Não é para fazer uma superfície e outra… Se exponho é para transmitir para outra pessoa este “momento” parado na dinâmica cosmológica, que o atrista capta. Você que era um místico deve quantas e quantas vezes ter vivido “momentos” como este dentro da vida, ou não?

Dizem que você detestava a natureza – é verdade? Pois eu senti hoje essa transcendência através da natureza, na noite, no amor – como você poderia ter raiva da natureza? Você acha que a obra de arte é o produto de duas polaridades, que é a dinâmica da vida humana? Você estava preso à terra tão profundamente e o voo no sentido da verticalidade era sua medida?

Pois a natureza me alimentou, me equilibrou quase que de uma forma panteística. Mas com o tempo, numa outra crise, já isto não adiantou e o “vazio pleno”, a noite, o silêncio dela que se tornou a minha moradia. Através deste “vazio pleno” me veio a consciência da realidade metafísica, o problema existencial, a forma, o conteúdo (espaço pleno que só tem realidade em função direta da existência desta forma…).

Mondrian: você acreditou no homem. Você fez mais: num sonho utópico, estupendo, pensou em eras vindas em que a própria vida “construída” seria uma realidade plástica…

Talvez isto te salvasse da tua própria solidão. Pois eu, meu amigo, não sonho porque não acredito. Não por excesso de realismo mas para mim o coletivo só existe na razão desta desordem de ordem prática e social. Se o homem não pode sentir como é importante esse desenvolvimento interior – chamemos de uma forma que nasce com a pessoa como um punho fechado, talvez se abrindo no primeiro tempo com o próprio nascimento – então ele jamais poderia atingir sua plenitude como a rosa que se abre dentro do seu próprio tempo e morre amorosamente realizada, inteligente e feliz…

Mondrian, um segredo que vou te contar: às vezes, eu me sinto tão desesperada , porque no momento em que “checo” a solidão, o frio, o “medo do medo” me envolve com todos os seus braços e procuram fechar este novo tempo que desabrocha na minha forma interior, amassando pétalas frescas e delicadas que levarão novo tempo para se abrirem como se abre um olho devagar, depois de ter levado um bom murro.

Mondrian, de sua força pode me servir, seria como o bife cru colocado neste olho sofrido para que ele veja o mais depressa possível e possa encarar esta realidade às vezes tão insuportável – “o artista é um solitário”. Não importam filhos, pois dentro dele ele vive só. Ele nasce dentro dele, parto difícil a cada minuto, só irremediavelmente só. Você seria talvez a chuva que molha a flor que nasce no areia ou no asfalto, se você prefere, pois é cidade e não natureza.

Você hoje está mais vivo para mim do que as pessoas que me compreendem, até um certo ponto. Sabe por quê? Veja só se tenho razão ou não. Você já sabe do grupo neo-concreto, você já sabe que eu continuo o seu problema, que é penoso (você era homem, Mondrian, lembra-se?). No momento em que o grupo foi formado havia uma identificação profunda, a meu ver. Era a tomada de consciência de um tempo-espaço, realidade nova, universal como expressão, pois abrangia poesia, escultura, teatro, gravura e pintura. Até prosa, Mondrian… Hoje a maioria dos elementos do grupo se esquece desta afinidade ( o mais importante) e querem imprimir um sentido menor a ele, quando preferem que ele cresça sem esta identidade para mim imprescindível, numa tentativa de dar continuidade superficial este movimento. Você bem sabe que, no cubismo, as formas foram várias, mas no sentido mais profundo que era esta nova realidade espacial, foram respeitadas. Só o tempo a meu ver traria continuidade real a este movimento.

Agora, velho, simpático mestre, diga-me com toda a franqueza: meu desejo é deixar o grupo e continuar fiel a esta minha convicção, respeitando a mim mesma, embora mais só que ontem e hoje, eu serei amanhã, pois as pessoas que se aproximaram um dia, há bem pouco tempo, se afastam desorientadas sem enfrentarem a dureza de estar só num só pensamento, sem resguardar o sentido maior, ético, de morrer amanhã, sozinha mas fiel a uma ideia. Diga, meu amigo: é duro, é terrível porque é deixar de ter, mesmo sem se afastar realmente do grupo, pois já se fragmentou a unidade, a verdade dura e terrível feita a sete para se multiplicar em realidade pequenas – reconfortantes por certo, a centenas.

Hoje eu choro – o choro me cobre, me segue, me conforta e acalenta, de um certo modo, esta superfície dura, inflexível e fria da fidelidade a uma ideia.

Mondrian: hoje eu gosto de você.
                                   


Lygia Clark
14, RueCassini, Paris, 14 ème.
21.9.1968

Meu caro Hélio,

Custei muito a te escrever por vários motivos, mas aqui estou eu, como sempre, com muitas saudades suas. Comecei já a trabalhar catando pedras nas ruas, pois dinheiro não há para comprar material! Uso tudo que me cai nas mãos, como sacos vazios de batatas, cebolas, plásticos que envolvem roupas que vêm do tintureiro, e ainda luvas de plástico que uso para pintar os cabelos! Já fiz alguma coisa interessante, como um capacete feito de capa de um disco que tinha aqui, com duas luvas que saem diretamente da cabeça. Tem um plástico sensorial que você, depois de meter as mãos nas luvas e o capacete ficando com as mesmas ligadas à cabeça, você toca na altura dos olhos esse plástico cheio de ar. Fiz também duas luvas de plástico coladas por um dedo e você vive a mão como uma totalidade. Fiz também um plástico ultra erótico com um pano de guarda-chuva velho, o que dá um enorme mistério e é mais erótico que todos os outros.

Ontem Argan me telefonou, pedindo para vir aqui pois, diz ele, quer comprar coisas… Fiz um bom contrato com uma galeria na Alemanha que tem por trás o Dr. Kulterman que é figura de maior projeção aqui na Europa e a mesma galeria (Thelen) já pediu exclusividade para toda a Alemanha.

É para essa galeria que quero te indicar, pois estarás muito bem representado lá, depois de Londres. Para isso preciso de material fotográfico, slides, etc., pois devo ir para a Alemanha em fins de outubro: a exposição será em princípio de novembro. O Givaudan vai começar por fazer múltiplos do Bicho de bolso e também espetáculos das roupas na rua (ideia dele). Depois fará mais coisas… sugeri ao Jean Clay de fazer um Robho* especial sobre você. Ele alegou que tinha pouco material para ele ou para mim o mesmo, pois é importantíssimo um número nessa revista. O meu está atrasado, pois as traduções do meu livro ficaram péssimas… Estou fazendo com o Jean Clay tudo de novo. Ele está fora de Paris, parece que na Argentina. Se ele for aí não deixe de lhe dar bastante material para o seu número. (…)

Aqui estou eu como sempre, pronta a fazer por você tudo o que for possível como sei que farias o mesmo por mim. Conheci dois grandes elementos da ExplodingGalaxy: Miky Chapman e Edward Pope. Ainda não conheci Medalla. Mas conhecendo o seu trabalho como conheço e ainda tudo o que ele pensa, creio que são as três personalidades de maior importância por aqui. Ontem vi uma espécie de documentário sobre o México. Tem-se a impressão de que é um povo sempre debruçado sobre o seu passado. Essa vitalidade brasileira pura, ingênua e maliciosa, sem passado, ainda é o que de mais importantes temos! O mexicano tem uma expressão ultra-dramática e toda festa que fazem são verdadeiros psicodramas em que a morte é sempre o moto contínuo. Talvez o filme fosse sofisticado, pois foi feito por um jovem francês. Estou cada vez mais convencida que o futuro pertence a um povo subdesenvolvido. A absoluta ausência de sentido do povo aqui é notável. Fora o France Soir que é o maior jornaleco daqui e que lembra um pouco os nossos jornais populares, o resto é silêncio. Televisão chatérrima, só é boa para aprender geografia, o que ando fazendo.

Falta um Chacrinha, uma Dercy e um casamento na TV. O frio já começa estou toda enrolada em xales e cobertores. Imagine no inverno… Eduardo perdeu ou vendeu, sei lá, o sobretudo do pai, que maçada! Quando vieres a Londres vou arranjar dinheiro para comprares um lá que é mais barato que no Brasil ou aqui na França, onde tudo é caríssimo! Imagine que tive que ir a um dentista, escultor frustrado que me pediu a bagatela de mil dólares para consertar a minha articulação que está toda fora de circuito. É um louco varrido, querendo me colocar três jaquetas sem precisar, por pura estética, querendo fazer às minhas custas um chef d’oeuvre… Já sarei da pelada nervosa. Também tanta coisa acontece ao mesmo tempo: morte do velho Aluísio, fiquei viúva alegre, invasão da T. pelos putos dos russos e ainda meu balão da Bienal explode!

Ainda me considero com muita sorte de ter sido tão pouca coisa depois dessa operação monstro que aí fiz. Outro dia no banho, vendo a minha “cesariana”, tomei consciência de que foi preciso fazer a Roupa-corpo cesariana para fazer em seguida a minha… acho que sou a mulher mais maluca do universo, amém.

Vou comprar para mim uma pistola de gás para poder sair à noite sozinha pois as mulheres aqui são atacadas por tarados sexuais aos montes. Se a gente tivesse a certeza de sair da aventura com vida talvez não fosse tão dramático, pois… “guerra é guerra”, como dizia a velhinha na anedota. Por falar em piada, lá vão duas: Uma vampira falando para a filha: – Toma a sopa rapidinho, senão coagula… Outra: Num velório de um anão, o grupo que estava lá saiu pela terceira vez para tomar um café num boteco ao lado. Entra o vigia do velório e diz: – É essa a última vez que vocês saem da sala, pois pela terceira vez tirei o anão da boca do gato… Terríveis, não é? Vi um grande filme húngaro: Le rougeetleblanc.  Quase um documentário, seco, terrível e belíssimo!

Ontem fui a um cinema com a Giselda (…). O Mário me paga esse abacaxi que ele me botou pela proa. É chatérrima e além do mais burra pra valer. Enfim, nas horas amargas de falta de companhia total eis-me aqui chupando as últimas jabuticabas de um prato vazio onde sobraram as mais mixas e podres.

Continuo sozinha e parece que para sempre. Isso não me deprime em nada. Por outro lado estou usufruindo numa grande alegria toda essa liberdade, longe de problemas de filhos, desse ambiente daí que às vezes vira até sufocante.

Já bati o queixo aqui por crise, angústia, mas semprelúcida para saber que aí bateria da mesma maneira e que sou uma pessoa fundamentalmente só e terei que me aguentar sozinha. Estou começando a amarrar coisas e tive muita crise quando conheci o terceiro membro da Exploding que se chama Eduardo- misto de homem e bicho. Tudo cheira, prova, lambe e de uma sensibilidade tão aguda que me botou toda de antenas para fora de mim mesma, em relação a sua presença. Me arrebentou toda por dentro mas eis como sempre me recompondo, me amarrando já de outra maneira com outras aberturas. Fui deflorada na alma, mas o corpo continua virgem. Muito bacana você saber que pode ser jogada nessa altura da vida para o espaço embora caindo na terra abra um terrível rombo e viva um pouco como um abismo sem fundo. Foi graças a isso tudo que pude recomeçar a trabalhar, pois tive uma enorme e profunda necessidade de expressão. Escreva-me e conte como vão os amigos e também os conhecidos. Diga-me quando vens a Paris também. Estou radiante com a perspectiva da vinda de Mário e Mary. Como também em relação à sua vinda… Será espetacular.

Muitos abraços ao Raimundo que adoro. Mil beijos para você.

        Clark                       




Lygia Clark 
para Helio Oiticica 
Paris, 17.5.1971
Queridíssimo:
         Até que enfim veio uma carta comunicação me dando como sempre enorme alegria e também uma enorme saudade de você. O que gostaria de comunicar é tão simples e tão complexo, como a própria realidade-vida, que nem sei por onde começar. É por essa razão que gosto das novelas em televisão, nas quais as coisas nunca acabam de acontecer, como a vida. Comigo é sempre assim – enquanto eu vivo mil voltas em volta da Terra o resto do pessoal daqui está marcando passo, com raras exceções, indo para trás, e nada é dinâmico, tudo é pausa e morte. Na própria vida nota-se o processo. O quotidiano, que para mim é sempre mágico, rico e nova aparência, para eles é vazio, a repetição, e nada representa como maturação. Até acho que invento minha própria vida, que a recrio todos os minutos e ela me recria à sua imagem; vivo mudando, me interrogando maravilhada, sem controle de nada, dos mínimos acontecimentos, me deixando fluir, despojada de quase tudo, guardando somente minha integridade interior. Me sinto como caldeirão da própria porra, processo, me sinto toda lá até antes do nascer e acho que é nesse misturar que hora aparece a menina, o leite na mamadeira, a adulta-adúltera, a louca, a velha de 5 mil anos de idade, a atual, a equilibrada que sendo atual nunca é uma só e a consciência não é de colar pedaços que foram quebrados com culpabilidade mas o recriar-se inteira a partir de novas experiências antigas como o próprio nascer, ou até antes. Sem nada controlar, eis a contradição, me reconstruo, faço minha biografia, eis-me qual obra antes projetada para fora dividindo pessoa e coisa, hoje uma só identidade. Onde a patologia, onde a saúde, onde a criação. Nada sei. O não saber é lindo: é a descoberta, é a aceitação da mistura das situações de “decalagens”, das integrações do recomeço, do não-tempo linear, da percepção pura da descultura que nunca tive, fundando a minha própria, que é posta em questão sempre. A descoberta nunca para e às vezes penso que viver uma vida é viver todas as fases anteriores da humanidade. Depois de Carboneras, na redescoberta do meu Eu deixando de ser “o outro”, tudo mudou em mim. Perdi o “estado de graça” vivido por mim assim e catalogado provavelmente pelos outros intelectuais de ninfomaníaca ou prostituta pelos burgueses e comecei a ter sonhos belíssimos com “o casal” integrador dessa imagem que fora por mim tão quebrada e destruída na infância. Depois o acordar, o trauma de se estar só, cinquenta anos sem possibilidade de realizar casal com alguém. O dormir passou a ser o medo da realidade, do amanhecer, da solidão profunda do ser-se só. A paz só voltou quando me apercebi que o importante não era viver essa experiência na vida real, mas viver isso no inconsciente já era o suficiente. Compenetrei-me de minha idade, aceitei-a e daí me amarrei de tal maneira que ela deixou de ter importância e não mais existe como problema. Fase belíssima qual punho fechado, tranquila, me rindo dos outros que talvez agora me achem menos puta, exatamente agora que redescobrindo o meu Ego, readquiri de outra maneira o pecado original… Não é maravilhoso o conhecimento que se pode adquirir através de uma experiência pessoal de um antigo e lendário pecado? E não é fantástico que a própria aceitação no meio cultural venha não de um estado, mas de uma aparente identidade, tabu do que se chama pecado?

         Minha estadia em Belo Horizonte foi em duas etapas. Na primeira, em que o meu pai pensava que não ia mais voltar para Paris, me tratou como namorado com enorme carinho e houve pela primeira vez dentro de mim uma enorme aceitação da minha casa de infância, do ventre de minha mãe, do pau do meu pai. Jamais senti tamanha paz e alegria numa situação que antes me destruía completamente, sendo-me insuportável a permanência no meio onde fui gerada com gozos, onde nasci entre dores e gritos, onde quase morri de fome nos primeiros meses de vida, onde cresci me sentindo fora da família, tentando arrancar cada noite minha pinta, sinal vivido por mim como signo de marginalidade, afastando também várias imagens dramáticas da minha infância, tal como a do banho de ducha no hospício entre loucas, de ser jogada na banheira de água fria de madrugada ainda dormindo, botes de cobras, urutus, cascavéis, embaixo dos pés, pousados na caixa que as continha, no caminho do sítio ao instituto, porão rastejante coberto de teias de aranha e outro bichos, onde entrávamos para tirar o vinho para o pai, galos de briga, eu pequena raspando pelos do pescoço, massageando, assistindo à luta na companhia do pai, a morte, o olho furado, o galo morto. A faca da empregada louca, a corrida escada acima, o avô que acariciava e contava toda sorte de mitologia em linguagem crua e real, os pesadelos, a gosma que saía da boca perdendo substância vital, sonho que há pouco tempo reintegrei reengolindo a mesma, o túnel me emparedando, me separando morta-viva, unhas ruídas até o sabugo; desespero, a feia, a enjeitada, a menina que fugiu um dia de casa para vender doces na rua com a Tia Olinda – fabuloso ato falho: era Teodolina o verdadeiro nome, mas não para mim, que era parentesco, a menina deflorada, assentada embaixo de uma árvore enorme, passividade total, tio morto, hoje destroncando todos os dedos dos pés e das mãos, os gozos sentidos nas safadezas das descobertas infantis, depois, bem… toda uma vida para recompor ou construir uma personalidade que nunca se completa, enorme decalagem entre o interior e exterior. Na segunda ida a Belô, meu pai lembrando que o havia há 16 anos mandado tomar no cu, ameaçou quebrar-me todos os dentes e a boca e eu parti para ele na posição de briga para quebrá-lo também aos pedaços, dois loucos varridos, quase na polícia ou hospital, sendo a briga impedida pelo Álvaro, presente! Perdi aí a imagem do pai, até a porra, e só pude engoli-lo no Rio depois da volta, num pileque, sentindo como sou no fundo parecida com ele, em toda a sua loucura, toda a sua violência, toda a sua lucidez dentro da loucura, não tendo herdado dele somente o pênis, o que hoje posso aceitar tranquila, tranquila… Veja, anjo, tudo mexe comigo e o que isso não deve ter influenciado esta minha nova concepção do casal. Até aceitar consertar minha fase antiga de trabalho, obra, aceitei! É como se pudesse reparar os estragos que eu mesma fiz antes e que foram reparados agora. Já não sinto o desespero da nostalgia da “normalidade” e nem o medo da loucura, o que sempre foi a balança da minha vida… que a própria vida me deu. Fora toda a normalidade, de toda a patologia, de toda a cultura, de todo um contexto mesmo aparente, eis-me aqui – o meu testemunho sou eu-obra e não a obra que eu fiz.

         Ao mesmo tempo me assumi como personalidade, sem grandes paranoias no delírio de integração e muita solidão. Também no Brasil me deu a consciência de que aqui estou afetivamente superprotegida e tudo o que lá passou é que é a vida mesmo. Vi, emocionada, Eduardo cais numa crise, chorando como criança; ergui nos braços minha filha numa fase pré-edipiana, descobri maravilhada que sempre amei o Schemberg, tendo ido também a São Paulo e tendo tido uma grande briga com ele em que a violência foi de tal ordem que, se tivesse uma bomba na mão, destruiria o mesmo, a mim própria, a cidade inteira, a imensa massa humana; me senti atraída por ele pela primeira vez fisicamente, e não a velha libido “declanchada” através do fascínio da sua falação. O Schemberg para mim é a única permanência que sobrou! Gigante adormecido, mas gigante, sempre, hoje, amanhã e depois! Senti o abrasador amor-paixão que me liga ao Vitinho no abraço do dia da chegada, encontro que parou o tempo, nos dissemos em silêncio juras de amor eterno, de paixão de fogo, de lava de vulcão, aterrador, esfomeado mas verdadeiro. Descobri emocionada que o filho que mais amo é o Álvaro, mas a paixão é Eduardo e a maior comunicação é a Beth: mundo maravilhoso – é como se cada filho correspondesse a uma dobra uterina onde foram gerados, mas separados, embora no mesmo útero!

         De volta a Paris vim magra, velha, traumatizadíssima, só agora depois de um mês estou outra vez mais gorda e disposta. Encontrei toda a gente na mesma, ou escondem a vida ou estão mortos. Minha vitalidade parece que agride – fui superagredida, apontada na minha magreza, na minha velhice, não perdoam o meu renascer, a minha vitalidade, a minha alegria de receber toda a minha transformação, todo o sofrer como positivo… negação de cada dia passado, descoberta no dia que está presente. Nessa hora encontrei o velhinho adorável Pedrosa, vivo como um corisco, inteligentérrimo, sabendo escutar e gigante na comunicação… Nos vimos diariamente, e chorei muito quando partiu. Pela primeira vez na minha vida a morte, que era coisa abstrata, passou a ser concreta, só que no momento em que aceitei o fato o problema desapareceu também! Eu por ora ando parada. Fiz algumas experiências só com o corpo sem objeto algum. É curioso – você encontra novos relacionamentos entre os corpos através de novas percepções de espaços. Não sei se é válido ou não. Se é novo ou velho. Só sei que é o seguimento do meu pensamento e não sei até onde irei. Nem sei para quem falo. Às vezes penso que falo para mim mesma e pensei em fazer algo como “pensamento mudo”. Nenhum diálogo verdadeiro a não ser Violeta, que é torturada mas tem fôlego na escuta e também na comunicação. Não sei se aí irei, pois fazer uma exposição por fazer não dá pé. Não é que seja contra galerias, não sou a priori contra nada. Não quero criar nova elite. Quero é gente, e talvez em lugares recuperados é que eu tenha mais sentido, procurando dar outro às pessoas. Repito: quero é gente, não importa cor, idade, nacionalidade, estado de sanidade mental, burgueses, proletários, crianças, não importa, eu quero é gente e gente é que é importante, o sistema que se foda! Estou bolando “trocas”, mas sempre há um ritual tribal, ação e depois nada sobra.

         Isso não é uma carta, mas sim um monstruoso vômito que, no dizer de García Márquez, atravessaria o Sena, se jogaria no oceano e jorraria da sua torneira. Te beijo muito e muito.

P.S.: Descobri maravilhada que redescobri uma enorme estima por mim própria e tudo veio junto à aceitação de restaurar minha obra antiga! Adorei o que você escreveu para o Pasquim! Só não suporto o mesmo…


Correspondência, Lygia Clark


Torquato Neto (parte 1 de 2): “Toda palavra guarda uma cilada”.
12 de junho de 2014

Em novembro deste ano, completam-se 70 anos desde o ano em que Torquato Pereira de Araújo Neto nasceu em Teresina no Piauí. Tendo vivido apenas 28 anos, produziu uma obra marcada por uma espécie de questionamento incisivo acerca das possibilidades da linguagem: talvez não sejam muitas as poéticas que, ao se debruçar sobre a língua, povoem-se de imagens dúbias, em que a vastidão é sinal de precipício, os fins se confundem com os princípios, e a guerra travada está sempre em outro lugar, diferente do último em que se pensou. A simples passagem de um verso como “eu sou como eu sou” para “pronome” parece mostrar, à contraluz, o dilaceramento que Torquato enxerga no fazer da linguagem: a sua foto recortada por um quatro, número cujas letras são quase um anagrama de seu nome, e então ele proposto como ator – na sequência infinita do jogo com o conjunto de letras do seu nome, nenhuma identidade se revela afinal, apenas compõem-se, decompõem-se pequenos espaços criados na língua. Uma espécie de jogo com abismo. Amplidão, mas rarefação.
O complexo, talvez problemático livro de André Bueno – talvez problemático porque o crítico se coloca na posição complicada de julgar não apenas a obra, mas as escolhas de vida e de morte do artista, como Hannah Arendt comentando Brecht, em Homens em tempos sombrios – podemos ler: “uma visão da linguagem como algo poluído, espalhando imprevisíveis significados, culminando numa espécie de apocalipse, entendido como caos no interior tenebroso da semântica” (BUENO, André. Pássaro de fogo no terceiro mundo: o poeta Torquato Neto e sua época. Rio de Janeiro: 7letras, 2005. p.40 – grifos do autor). As imagens para se referir ao poeta são comumente pânicas, marcadas pela intensidade (crítica, ou em crise) e por um movimento de voltar-se contra si: o pássaro de fogo (Waly Salomão), o escorpião suicida encurralado pelo fogo (Ana Maria Duarte, sua mulher).
Torquato a partir de 1969 sofre uma série de internações, diversos de seus escritos, como no caso de Lima Barreto, são produzidos no hospício. Com dificuldade de se sustentar financeiramente, de articular seus projetos cinematográficos, poéticos e de escrita, vivendo o auge do período da Ditadura Militar, em 1972, tira a própria vida. Num momento, em que diversos grupos ensaiam coros de contentes, mas que parece cada vez mais claro o quanto nos aproximamos dos dias todos do fim, pensamos que importante é lembrar quem nos ensina a desafinar.
Na postagem de hoje, apresentamos o documentário para a TV feito por Ivan Cardoso sobre o poeta, uma seleta de seus poemas, uma seleta de canções feitas em parceria, e uma carta dele endereçada ao amigo e também artista, Hélio Oiticica.
Let’s play that.
***
Documento Especial: Torquato Neto, o anjo torto da Tropicália (Ivan Cardoso, 1992).


***
Canções
Let’s play that from atchimsaude on 8tracks Radio.
***

Poemas (retirados de Neto, Torquato; Pires, Paulo Roberto (org.). Torquatália 1: Do lado de dentro. Rio de Janeiro: Rocco, 2004).
  
Cogito
eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível
eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora
eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim
eu sou como sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim
***
literato cantabile
agora não se fala mais
toda palavra guarda uma cilada
e qualquer gesto é o fim
do seu início;
agora não se fala nada
e tudo é transparente em cada forma
qualquer palavra é um gesto
e em sua orla
os pássaros de sempre cantam assim,
do precipício:
a guerra acabou
quem perdeu agradeça
a quem ganhou.
não se fala. não é permitido
mudar de ideia. é proibido.
não se permite nunca mais olhares
tensões de cismas crises e outros tempos
está vetado qualquer movimento
do corpo ou onde que alhures.
toda palavra envolve o precipício
e os literatos foram todos para o hospício.
e não se sabe nunca mais do fim. agora o nunca.
agora não se fala mais nada, sim. fim, a guerra
acabou
e quem perdeu agradeça a quem ganhou.
***
a poesia é a mãe  das artes
& das manhas em geral: alô poetas
poesia no país do carnaval.
o poeta é a mãe das artes
e das manhas em geral. alô poesia:
os poetas do país, no carnaval,
têm a palavra calada
pelas doenças do mal.
mal, muito mal: a paisagem, o verde
da manhã, rever-te sob o sol de tropical
reverso da mortalha (o mal), notícias
de jornal – vermelho e negro – naturalismo
eu cismo
***
a) a virtude é a mãe do vício conforme se sabe;
acabe logo comigo
ou se acabe.
b) a virtude e o próprio vicio – conforme se sabe estão no fim,
                                                                            no início
da chave.
c) chuvas da virtude, o vício, conforme se sabe;
é nela propriamente que eu me ligo, nem disco nem filme:
nada, amizade. chuvas de virtude: chaves.
d) (amar-te/ a morte/morrer:
há urubus no telhado e a carne-seca
é servida: um escorpião encravado
na sua própria ferida, não escapa; só escapo
pela porta da saída)
e) a virtude, a mãe do vício
como eu tenho vinte dedos,
ainda, e ainda é cedo:
você olha nos meus olhos
mas não vê nada, se lembra?
  f) a virtude
mais o vício: início da
minha
transa, início, fácil, termino:
“como dois e dois são cinco”
como deus é precipício,
durma,
e nem com deus no hospício
(durma) nem o hospício
é refúgio. fuja.
***
muito bem, meu bem
muito mal
meu amor
o bem o mal
estão além do medo
e não há nada igual
o bem e o mal sem segredo
as marchas do carnaval
muito mal, meu amor
meu bem
não vem com não tem
que tem
tem que ter
na praça da capital
muito mal
meu amor
tudo igual
nada igual ao bem e o mal
2 (experimente que é legal)
eu creio que existe o bem e o mal
mas não há nada igual
e tudo tem mel e tem sal
julho/71
*** 
Andarandei
não é o meu país
é uma sombra que pende
concreta
do meu nariz
em linha reta
não é minha cidade
é um sistema que invento
me transforma
e que acrescento
à minha idade
nem é o nosso amor
é a memória que suja
a história
que enferruja
que passou
não é você
nem sou mais eu
adeus meu bem
(adeus adeus)
você mudou
mudei também
adeus amor
adeus e vem
quero lhe dizer
nossa graça
(tenemos)
é porque não esquecemos
queremos cuidar da vida
***
o poeta nasce feito
assim como dois  mais dois;
se por aqui me deleito
é por questão de depois
a glória canta na cama
faz poemas, enche a cara
mas é com quem mais se ama
que a gente mais se depara
ou seja:
quarenta e sete quilates
sessenta e nove tragadas
vinte e sete sonhos, noites
calmas, desperdiçadas.
saiba, ronaldo, acontece
uma vez em qualquer vida:
as teias que a gente tece
abrem sempre uma ferida
no canto esquerdo do riso?
no lado torto da gente?
talvez.
o que mais forte preciso
não sei sequer se é urgente.
nem mais se sou o caso
que mais mereço entender-
de qualquer forma, o a-caso
me deixa tonto, e querer
não é sentar, ter na mesa
uma questão de depois:
é, melhor, ver com certeza
quem imagina um mais dois.
paris, europa,  brasil lá no brasil
seis de setembro de 1969

***
Poemas Visuais (publicados na Navilouca – editada por por Lucio Urubatan de Abreu, organizada e coordenada por Waly Sailormoon e Torquato Neto. Rio de Janeiro, edições Gernasa, 1974)
 
 
 
***
Carta para Hélio Oiticica (retirada de Neto, Torquato; Pires, Paulo Roberto (org.). Torquatália 1: Do lado de dentro. Rio de Janeiro: Rocco, 2004).

Rio, 13 de junho (1971)

Hélio, querido,
Salve. Já faz tempo que eu precisava te escrever – pelo menos desde que recebi teu cartão. Mas naquela época eu estava no Piauí esfriando a minha cabecinha, balançando numa rede e botando o pensamento em ordem.  Depois que cheguei no Rio (início de abril), tive de sair por aí feito um  maluco atrás de alguma coisa pra fazer, e logo em seguida tive de fazer essas coisas: produção de disco de novela pra Globo, música pra novela, música pra vender e garantir qualquer dinheiro -, enfim, um negócio chato e cansativíssimo que eu tinha de fazer, fosse como fosse, pra começar a criar condições que agora preciso ter à disposição: um dia depois do outro cheguei ao tal Plug, sobre o qual te falo mais adiante.

         Essa minha ida ao Piauí foi muito importante para que eu reiniciasse quase tudo depois do verdadeiro inferno que foram esses dois últimos anos, um na Europa e outro nesse gueto horrível do Brasil. Era tudo incrível. O menor barulho soava como todas as trombetas do após calypso e teve uma hora em que eu quase me vi perdido. Era tudo ou nada, desbunde, chateação. Na véspera da tua viagem eu estava louquíssimo curtindo uma viagem inacreditável que ninguém sabia – e quando saí da tua casa eu estava realmente louco de ódio, eu pensava: vai o Hélio embora e eu quase não estive com ele esse tempo todo, o que é um verdadeiro absurdo.  Tudo foi ficando tão insuportável que até as pessoas (pouquíssimas) a quem eu amo no duro entraram no bolo. Você via. Não ter podido acabar o filme do orgramurbana e, depois, não ter conseguido obrigar Naná a fazer o disco que eu havia planejado pra ele (e que seria fantástico se ele tivesse juntado coragem pra fazê-lo) acabaram de encher o saco. Tomei um vasto pileque de despedida e encerrei o papo de beber; fui ao Piauí sem Ana e sem Thiago, balancei na rede, balancei e depois achei que estava legal. Voltei pro Rio e uma das primeiras pessoas que procurei foi Waly. 

         Então Waly me falou que estava com vontade de fazer a super-frente super oito, mas estava encontrando muita dificuldade em arranjar quem pagasse por isso, como seria necessário. Ele estava querendo sondar a Kodak, mas eu achei que era barra-pesada demais, além do que seria dificílimo. Reinaldo Jardim era a única pessoa que podia quebrar o galho, eu disse pra Waly: ninguém ainda se lembrou de fazer badalação com essa moda de super oito em jornal. Vamos badalar no correio? Fui lá e expliquei pro Reinaldo que deu pulos de Nijinski. Fantástico. E tão fantástico que eu pedi uma página inteira e ele nos deu três. Pensamos então em pegar o Plug que era um suplemento de música muito bunda mole saindo dentro do correio aos sábados, e transformá-lo num jornalzinho nosso, livre de más companhias, em todas as bancas da cidade. Reinaldo deu outros pulos: autorizou.  Então eu pedi a Waly que te escrevesse a respeito, pedindo colaboração e explicando o papo. Daí você já está por dentro de tudo, mas mesmo com os pulos do Reinaldo Jardim e a série de facilidades que ele nos deu, você sabe muito bem como é difícil fazer bem-feito qualquer coisa deste tipo nesta pátria horrível. As dificuldades naturais impostas até pelo contínuo da redação, que se você olhar bem descobrirá ser da polícia etc.etc. O resto da equipe que põem à nossa disposição, um bando de gente careta e incompetente, a porra da gráfica do jornal que é uma merda e não faz nada igual ao que a gente pede – enfim, nós estamos com a maior tesão pra fazer um trabalho bem-feito, mas quase mais da metade dessa energia tem que ser perdida em luta contra esse tipo de problema brasileiro. É o jeito e, de qualquer modo, é infinitamente melhor do que ficar paradão. Deus me livre. Never again. Eu detesto ser obrigado a trabalhar dessa maneira, mas por enquanto é a melhor que se tem. Eu disse pra Waly: vai ser duro mas se você topar eu topo e a gente pode forçar a barra até dar pé. Eu fiquei contentíssimo (se posso) por Waly ter topado.

         Bom: faz quinze dias que estamos trabalhando nisso. Alguns contratempos típicos já começaram a aparecer. Na antevéspera do lançamento do jornal veio uma ordem da diretoria para suspender tudo, inclusive a onda que estávamos fazendo para o lançamento.  Motivo mais ou menos ignorado. Ordem seguinte: que remodelássemos o Plug como suplemento do correio e mantivéssemos incluso no jornal. Com o lançamento essa semana do Já, parece, a diretoria do correio ficou com medo de soltar o Plug, o que eu acho uma imbecilidade, já que este aqui será um jornal especializado em discos e cinema, só. O  ninguém sabe direito o que será – só terça-feira, quando sair. É uma frescura enorme, pelo que fiquei sabendo: reuniões secretíssimas e coisa e tal, mas parece que a ideia inicial deles – tudo ligado diretamente a produtos de consumo – vai se difícil de ser mantida. Até Elis Regina é colaborador, além de Capinam, Ronaldo Bôscoli, Ivan Lessa e mais outros. O Tarso arruma um jeito e deve dar pé. É com eles.

         Mas, eu ia dizendo, na última hora eles resolveram suspender o Plug novo e manter o Plug velho, nós ainda arrumamos, e fizemos virar tablóide pra ficar diferente do que era pelo menos nisso, e metemos um artigo de Waly e outro meu, introduzindo cinema na jogada – enfim, deu nisso aí que estou mandando pra você. Na verdade Waly tem uma página só dele, e eu tenho outra, sob o título de cinemateca, mas ou menos como está aí, sobre a foto do Glauber. Waly já deve ter contado pra você como vai ser a página dele. E você já deve ter sacado que pode dar o maior pé tanto pra ele como pro jornal. Minha ideia, pra cinemateca, é disfarçar e fazer qualquer coisa inteiramente descompromissada com cinema propriamente dito – mas que seja, sempre, de qualquer jeito, em torno, ou a partir ou depois do cinema. Vou ter também uma pequena seção sádica. Deve se chamar Do lado de fora e fará o serviço de noticiar bastante, até dar bastante água na boca, dor-de-corno e raiva na rapaziada, sobre filmes e os trecos de cinema mais bacanas que estão acontecendo fora deste lugar e que não serão vistos aqui principalmente pelos motivos de censura policial. É legal, não é? Anyway também masoquista, mas é legal. Anyway.

         Tem também uma página pra fazer entrevista com gente de cinema. Essa é obrigatória e estou fazendo algumas com uns caretas do cinema nacional. Vai estrear um filme do Antônio Calmon e eu fui entrevistá-lo, por exemplo. Depois vou ver se boto um repórter pra fazer essas entrevistas, porque, sinceramente, não aguento. É o fim. Agora o seguinte, Hélio: Waly deve ter explicado sobre a questão do pagamento, já que você topou escrever daí de vez em quando.  É muito pouco, 100 pratas, mas é certo que pagam, pelo menos a você eu faço questão de pagar.  Digo isso porque tem unas caras aqui que vão querer escrever de graça para o Plug, e escreverão. Isso tudo é porque a verba que os caras me deram pra pagar colaboração é inteiramente ridícula e eu só aceitei pra poder pedir a você que escrevesse. Waly me disse que você prometeu entrevista com o Jack Smith. Vai ser genial se você fizer. Por uma entrevista assim, e sendo grande, posso tentar conseguir algo mais que 100 cruzeiros, mas nem posso garantir ainda.  Prometo tentar bastante. Seu dinheiro, à medida que for saindo, entrego a  Waly ou a quem você indicar, mande dizer. Embora tenha começado tão mal, com esse número bagunçado de oito páginas só, eu acredito que esse Plug fique legal e termine dando pé.  Aqui não existe nenhum jornal como Melody Maker, por exemplo, e esse pode fazer esse tipo de serviço, agora que já está começando a ter publico pra essas coisas no Rio e em São Paulo. Uma espécie de radiolândia-filmelândia desta época daqui. Não podemos ficar sem Louis Serrano, de maneira que escreva, meu amor. Você está em nova York.

         Luiz Otávio conseguiu um produtor e está preparando um filme para agosto. Ele fez um curta fantástico com Oswald de Andrade e quebrou a cara porque, evidentemente, o I.N.C. não deu o tal certificado de boa qualidade. Mas o produtor que deu dinheiro para ele fazer esse filme é meio porra-louca e resolveu levantar uma nota para ele fazer o tal longa. É uma jogada muito bacana a de Otávio e tomara que dê certo.  É tão difícil se ver qualquer coisa que preste dando certo por aqui que eu tenho até medo de ficar animado com qualquer boa perspectiva que apareça pra qualquer um de nós. Mas estou torcendo muito para Otávio conseguir fazer esse filme. Ele me disse que você prometeu um livro a ele e não mandou. Está uma fera.

         Encontrei Mônica Silveira e ela me disse que vai pra Nova York dentro de alguns dias. Ofereceu-me, portanto agora me ofereço também: estou querendo mandar alguma coisa pra você. diga: discos? Quais? Se você tiver com vontade de ouvir alguns que você não tenha aí, sei lá quem, mande dizer logo que eu vou ver se mando por Mônica. Farei o possível.

         E o que mais? Ana e Thiago estão muito bem e maravilhosos. Tenho visto muito pouca gente porque a maioria não há quem aguente. Acho que já a partir desta semana o Plug começa a sair com suas dezesseis páginas – mas não sei quando sairá livre do correio da manhã. Se você puder, mande me contar sempre sobre os filmes mais legais que você estiver vendo ou já tenha visto: isso pode ser muito bom para a jogada Do lado de fora, tá?

         Maior maravilha o disco do Gil, né?

         Outra coisa: Hélio, você pode mandar pra mim o endereço de Naná? Se você encontrar com ele diga que eu mandei um beijo e que vou escrever breve. Tenho umas fotos sensacionais dele, que Otávio tirou. São fantásticas e vou publicar no Plug.

         Estou dando tudo pra esse jornal dar certo, Hélio.  Não estou me metendo em nada da parte da música, que é bem maior que a de cinema.  Mas pelo menos as minhas três páginas eu quero que fiquem o melhor possível. Normalmente eu detesto trabalhar em jornal, mas estou ligado nesse serviço porque eu não tenho mais compromisso com música popular brasileira e, enquanto consigo criar condições pra fazer outras coisas (fazer o Plug já é uma parte disso), devo cuidar também de ganhar algum dinheiro; você sabe como o Brasil está insuportável. Fica muito mais insuportável se a gente não tem, sequer, planos de viajar. O Plug pode me dar condições para viajar – nem que seja com o dinheiro que posso ficar ganhando.

         Mas isso já está virando declaração. Tchau, baby. Escreva e espere que qualquer dia eu apareço aí. Um beijo grande.

Correspondência, Torquato Neto


Revista-Disco “Bliss Não Tem Bis”. Making of. Lado B: “Dia da inauguração do mundo – Ouvido também lê”.
3 de dezembro de 2013

A Revista-Disco ganhou o mundo e os ouvidos de alguns leitores de poesia. Atravessa o Atlântico, para ser escutada em outras terras.
Existe, agora, como coisa entre outras coisas existentes. Pode ser encontrada, felizmente, no Rio de Janeiro no sebo Berinjela (Av. Rio Branco, 185, loja 10. Centro. Rio de Janeiro. RJ. (prédio em frente à estação Carioca do Metrô)), ou encomendada pelo email blissnaotembis@blogspot.com(sujeito à cobrança de frete).
Trata-se de uma Revista de poesia, pensada a partir das seções e categorias comuns a uma revista de poesia, mas no formato de um cd de áudio duplo (o cd 1 é o Lado A, o cd 2 é o Lado B da Revista-Disco). Um cd duplo com material gravado exclusivamente para o projeto. Os colaboradores incluem nomes respeitados no âmbito da poesia, da arte e da canção, e novos artistas que chegam à cena (a relação do elenco você encontra aqui).
O lançamento, que aconteceu dia 29/11/2013 no Rio, movimentou gente e beleza. E no calor de uma sexta-feira de primavera, havia espaço para escutar poemas e descobrir novas formas de ler e de pensar o poético.
Os interessados também podem buscar contato com um dos editores da Revista-Disco – Clarissa Freitas, Lucas Matos, Marcio Junqueira & Thiago Gallego – para adquirir seu exemplar.
Serão feitos lançamentos ainda em Pelotas, em São Paulo, e estão sendo planejados lançamentos no verão em cidades da Bahia, como Feira de Santana, Cachoeira, e Salvador. Todos os lançamentos serão informados através do Blog e da página do Facebook “Bliss não tem bis”. A Revista-Disco custa 20 reais, e estamos atualmente em busca de outros pontos de venda, para facilitar a busca dos interessados.
Na postagem desta semana, apresentamos a segunda parte, ou o Lado B do nosso Making Of, com fotos do lançamento (feitas pela fotógrafa Alessandra Migueis), acompanhadas de um poema de Alex Varella, que nos honrou com sua presença e leituras, uma seleção dos e-mails trocados durante o processo de realização da Revista-Disco, e como “Extras” um poema de Domenico Lancellotti inédito, que ele havia selecionado para gravar conosco, mas que depois acabou descartando.
Ouvido também lê.
***
Lucas Matos no lançamento da Revista-Disco “Bliss Não Tem Bis” 29/11/2013

Alex Varella no lançamento da Revista-Disco “Bliss Não Tem Bis” 29/11/2013

Thiago Gallego no lançamento da Revista-Disco “Bliss Não Tem Bis” 29/11/2013

Dimitri BR & Cristine Flores no lançamento da Revista-Disco “Bliss Não Tem Bis” 29/11/2013

Dia da inauguração do mundo (Alex Varella)
O olhar faz o olho
o olho faz o mundo
Hoje é dia da inauguração do mundo.
Nunca houve um tempo pré-existente ao olhar.
O olhar é o inaugural dos mundos.
*
Como gravar uma Revista-Disco?
De: Lucas Matos
Para: Ilana Linhales
Enviada: 15 de janeiro de 2013 14:59:24
Assunto:
Ilana!
Feliz 2013!
Tudo bem com você? Espero que tenha tido ótimos feriados e que tenha descansado bastante. 
Então, quero ver com você algumas coisas, relacionadas ao que tínhamos conversado na última vez que passei na coart para me reunir com você, enumerei por tópicos para ficar mais simples:
1. – Quanto à ideia de fazer a Revista-Disco de poesia “Bliss não tem BIS” (decidi chamar de revista-disco porque queremos que tenham elementos típicos do formato de ‘revista de poesia’ e disco porque é um nome mais bonito e combina mais com a palavra revista que ‘cd’), você tinha me dito que, a princípio, poderíamos usar o maquinário que a UERJ tem para gravar. Agora, em termos práticos, como isso funcionaria? Eu preciso fazer um projeto ou algo assim? Seria um apoio oferecido pela COART para a produção?
2. – Conversei com Clarissa e decidimos oferecer juntos a “Oficina de Criação Literária”. Precisaria ver com você: (a) o que eu preciso produzir? Ementa, apresentação do curso, programa? (b) em que espaço poderíamos fazer isso? O ideal seria um espaço com carteiras e/ou mesas e cadeiras (para que as pessoas tenham onde escrever)… Tem um espaço assim? Preciso ver também os horários possíveis para ver se eles batem com os que são possíveis para Clarissa.
É isso. Se você ainda estiver “de férias”, avisa quando pode responder só – se estiver checando o email, claro.
Um beijo e aguardo resposta.
Lucas.
De: Lucas Matos
Para: Ítalo Moriconi
Enviada: 28 de janeiro de 2013 18:07:26
Assunto: bliss não tem BIS
Ítalo,
oi, aqui é o Lucas Matos – como tinha mencionado naquele breve encontro fortuito que tivemos na Nossa Senhora de Copacabana, estou entrando em contato para falar da Revista-Disco de poesia que estamos produzindo, a “Bliss não tem BIS”.
A ideia é pensar: “como seria uma revista de poesia para os ouvidos?”; “o que é uma revista que antes de tudo se ouve?”. Para além (ou seria aquém?) das experimentações valiosas e válidas da poesia fonética/poesia sonora, o que poderia ser uma Revista-Disco, uma revista que se coloca para tocar.
Pensamos em você para fazer uma faixa dedicada à crítica. Como é uma faixa, esses cuidados, da extensão do texto no tempo, da sonoridade, precisam estar presentes.
Ao mesmo tempo, queríamos uma faixa que fosse justamente exercício de crítica, de pensamento crítico sobre a poesia.
Pensamos em algo como “3 problemas para a poesia contemporânea” como proposta inicial, ou como mote que você poderia usar no seu texto. Uma das coisas que discutimos, inclusive, é que o formato do texto poderia se aproximar, mais ou menos, do formato dos problemas de lógica e de matemática. Mas, na verdade, você pode e deve sentir-se livre para tomar nossas sugestões apenas como um pontapé inicial e seguir o rumo que achar melhor.
Se você topar, preciso que você, uma vez elaborado o texto, pense: (a) se quer dizer o texto você mesmo, ou seja, gravar sua voz; (b) se acha cabível a inserção de algum tipo de sonoridade que dialogue com a voz, e que sonoridade(s). Estamos trabalhando junto com profissionais de música, que podem nos ajudar na produção desse diálogo – voz e outros sons – se você achar necessário.
Lembramos também que você pode, se julgar a melhor opção, levar a cabo a ideia de um texto falado na hora da gravação, sem preparação prévia, como uma performance.
Aguardo uma resposta, e, assim que puder, uma sinalização de quando poderíamos gravar.
Em tempo: as gravações, a princípio, serão feitas nos estúdios do CTE na UERJ mesmo – a não ser quando a demanda sonora for maior do que o estúdio suporta.
Abaixo segue uma apresentação mais detalhada e justificada do projeto da Revista-Disco.
Um abração.
Lucas Matos.
De: Marília Garcia
Para: Lucas Matos
Enviada: 15 de fevereiro de 2013 00:10:24
Assunto: faixas
Oi Lucas, tudo bem?
acho que estou chegando nas duas “faixas” pra revista:
– a tradução seria este poema da Leslie Kaplan que faz uma brincadeira com a própria ideia de tradução. é um poema bilíngue, então na leitura pensei em fazer  uma brincadeira com inglês, francês e português. publiquei no meu blog uma versão da tradução (onde traduzia só o francês), mas tenho outra versão onde traduzo só o inglês. taí a primeira versão (com um textinho sobre a ideia do poema) http://lepaysnestpaslacarte.blogspot.com.br/search/label/leslie%20kaplan
não estou lembrando agora se conversamos sobre o texto ser inédito — na verdade ele não é inédito pois coloquei ali no blog mas meu blog tem tão poucos acessos — e posso tirar dali…me confirma se poderia ser este meio-inédito. e se puder, veja se gosta da ideia… tenho que pensar em como faria a faixa ainda.
– quanto ao poema, estou pensando neste aqui — o que vc acha? ele saiu em uma revista em portugal… ainda estou mexendo nele… e daria pra tentar ver com um amigo meu compositor (que aparece no poema) se ele toparia fazer algo… ainda tenho uns rascunhos de poemas novos, mas ainda são rascunhos, não sei se daria pra ficar pronto a tempo…. tenho que ter mais umas semaninhas aqui pra ver.
vamos falando, veja se acha que o texto cabe na revista, se vcs gostam etc.
beijos
marília
15 passos
nunca falei tão sério,
disse e olhei pra cima: seu rosto no
meio das gotas o guarda-chuva
(…)
Dimitri BR no lançamento da Revista-Disco “Bliss Não Tem Bis” 29/11/2013
De: Domenico Lancellotti
Para: Lucas Matos
Enviada: 13 de março e 2013 14:17:38
Assunto: Convite Participação Revista-Disco de Poesia “Bliss Não Tem Bis”
Lucas,
pensei em gravar só o primeiro texto, o de Ipanema.
Vou gravar hoje com o ifone momentos da cidade.
Acho que para o que vou fazer não preciso levar um técnico. Vc teria alguém de lá para operar? Será simples, gravo a voz, e a gente monta os arquivos de áudio por cima.
Vamos nos falar por tel! Não tenho seu número,

abs dom
De: Lucas Matos
Para: Changuito
Enviada: 02 de julho de 2013 19:11:17
Assunto: Datas gravação
Bom dia, Changuito,
então, estou passando uma série de datas para você ver se, em alguma delas, é possível chegar a UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro, onde fica o estúdio e com quem estamos gravando uma revista-disco de poesia) às 18h30m. Saindo de lá da Lapa, bastaria que você pegasse o metro na cinelândia e descesse na Estação Maracanã. O campus da UERJ é um grande prédio, cinza e um pouco feio, que fica logo ali ao lado do Maracanã.
08/07 – segunda-feira.
13/07 – sexta-feira.
15/07 – segunda-feira.
20/07 – sexta-feira.
Se não for possível, verei que tipo de aparelho conseguimos para gravar e o quanto ele nos pode servir, para ver se viabilizamos uma gravação por aí.
Abraços,
Lucas.

De: Changuito
Para: Lucas Matos
Enviada: 02 de julho de 2013 19:21:54
Assunto: Datas gravação
Olá, Lucas.
Espero que estejas bem.
Irei dia 8, que é o primeiro. Se a coisa correr mal, irei, de castigo, em todas as datas posteriores para gravar os hinos dos países centro-americanos.
Quantos poemas queres? Algum autor preferido?
Diz-me, depois, onde exactamente nos encontraremos.
Um abraço grato.
Changuito.
De: Nariá Assis
Para: Lucas Matos
Enviada: 09 de julho de 2013 00:34:47
Assunto: crítica
Oi Lucas,
Fiz essa versão da crítica, dá uma ouvida e me fala. Tive que colocar no Dropbox pois é pesada!
Estava lembrando de você falando que não gostava do áudio como algo isolado do que está sendo dito. Nesse caso, o áudio é como um colchão harmônico que está presente no espaço abstrato da fala. Enfim, sei lá.
Vamos nos falando,
Beijo. 
De: Lucas Matos
Para: Nariá Assis
Enviada: 09 de julho de 2013 00:36:35
Assunto: crítica
Oi, Nariá,
hm, a pasta ainda está vazia.
Veja se subiu o arquivo direitinho.
um beijo.
Lucas.
De: Nariá Assis
Para: Lucas Matos
Enviada: 09 de julho de 2013 00:37:48
Assunto: crítica
na verdade, eu não sei usar direito isso, eu coloquei na pasta e botei “share”, não é suficiente?

De: Lucas Matos
Para: Ítalo Moriconi
Enviada: 08 de agosto de 2013 20:35:05
Assunto: ajuda
Ítalo,
preciso da sua ajuda quanto a uma questão de direitos autorais. Tem a ver com a Revista-Disco.
Eu queria saber sobre o que uma editora tem direitos com relação aos poemas de um livro.
Explico: alguns dos poetas (Angélica, Antonio Cicero, Ricardo Aleixo) optaram por gravar poemas já publicados em livro.
Para nós, não havia diferença, uma vez que esteticamente o objeto é diferente, então não importava se o poema em si não fosse ~inédito~ mas a gravação, sim.
Todavia, queria saber se você entende qual a compreensão legal da questão.
Seria necessário conseguirmos autorizações das editoras para tal?
O direito delas é sobre publicação/impressão, ou qualquer forma de difusão do texto?
Se você puder me dar uma resposta assim que possível, eu agradeceria muito.
Abração.
Lucas.
De: Ítalo Moriconi
Para: Lucas Matos
Enviada: 08 de agosto de 2013 20:38:25
Assunto: ajuda
Lucas, você precisa da autorização da editora original caso no contrato que ela tenha feito com o autor conste que qualquer reprodução em outro meio precise ser autorizada por ela. Normalmente, este tipo de cláusula consta sim dos contratos.
De: Thiago Gallego
Para: Lucas Matos
Enviada: 04 de setembro de 2013 00:56:06
Assunto: la revista y el disco cuando los dos son lo mismo
KOEEEE!
Seguem as transições entre faixas que eu sugeriria modificar OU que você desse uma segunda ouvida. No geral pouca coisa me saltou ao ouvido.
LADO A:
3 (Krill) para 4 (Poeta Marginal) –  Acho que um pouquinho mais de tempo pra dar uma respirada, hein?
5 para 6 (Margens) – Achei rápido demais.
9 (Angélica) para 10 (Dimitri) para 11 (Massa) – por motivos óbvios, não sei
12 para 13 (PS) – Rápido demais demais.
Acho que do PS pra vinheta não funciona muito. Ainda sugeriria deixar a vinheta maior. No estilo: (tempo…) “Fim do lado A, favor não virar o disco” (Tempo…) “Agora vou ler outro, né?”
LADO B:
Não sei se fiquei menos exigente, mas identifiquei nada.
Não sei se você já fez isso desde aquele dia, MAS Sugeriria pôr o disco na ordem e ouvir todo. Pode nem ser em casa, o ônibus é ótimo, ótimo pra isso. Tanto pra ver se fica satisfeito mesmo com a forma como ordenamos quanto pra pensar esses intervalos. Dei essa olhada, mas não sei ser muito criterioso quanto. No geral, as faixas passam rápido uma pra outra.
Ouvindo de bobs por aí, não me incomodou, mas dando rápida olhadela em alguns CDs de música aqui – o que genialmente só fiz agora, depois de anotar tudo -, percebo uma constante no seguinte sentido:
Em geral as faixas começam a tocar logo de cara, poucas chegam a 1s de espera. Também em geral, no máximo a partir últimos 10 segundos começa o fade e nos 5 finais tá tão suave que quase não se ouve som.
Então, talvez esteja tranquilo pra nós que ouvimos as faixas de cabo a rabo e sabemos quando começa uma e termina outra, mas seja interessante deixar padrão um tempo aumentado no final. Posso verificar faixa a faixa, se quiser. Só n tenho como fazer isso agora e não sei tb se é uma questão de ajeitar na mixagem (possível que seja, né?).
Abraçaço
do Gallego.
Thiago Gallego no lançamento da Revista-Disco “Bliss Não Tem Bis” 29/11/2013
Como trazer Angélica Freitas para o Rio de Janeiro para participar de um encontro de poesia, gravar uma faixa para uma revista-disco, enfrentar gás lacrimogêneo, etc? ou mais simplesmente, como ter motivos para se sentir feliz?
De: Lucas Matos
Para: Angélica Freitas
Enviada: 11 de janeiro de 2013 18:07:13
Assunto: encontro de poesia
Angélica, oi,

aqui é o Lucas Matos, do Rio de Janeiro, que co-editou a revista Bliss.

Tudo bem?
Estou mandando esse email pelo seguinte (vou enumerar, porque às vezes assim fica mais fácil):
1- Eu e Clarissa Freitas estamos organizando uma série de encontros lá na UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) chamados “Bliss não tem BIS”. Fizemos o primeiro em novembro do ano passado – tem até uns dois álbuns no meu facebook com fotos, se você quiser dar uma olhada. Estamos planejando o segundo para o primeiro semestre do ano que vem. E gostaríamos muito se você pudesse participar – vamos chamar a Marília também. Se você puder e topar, eu teria como cuidar dos gastos de passagem. Mas não muito mais que isso, que não temos recurso. Se precisar de um lugar para ficar enquanto estiver aqui pelo Rio, também arranjo um espaço aqui em casa. A ideia inicial é fazer em meados de Maio. Mas podemos mudar para Junho ou Abril. Como a data ainda não está definida, podemos acertar a agenda com algum conforto. Sei que ainda falta muito para isso, mas estamos começando a preparar tudo um pouco adiantados. Até por causa do que vem no item 2.
2- Estamos começando a pensar (e organizar) a edição de uma revista-disco de poesia, ou seja uma revista de poesia só com áudio. E seria interessante se pudéssemos contar com uma faixa-poesia sua. Daí, se tudo correr como pensamos até agora, a gente marca a sua gravação para quando você estiver aqui para o encontro.
Por hoje, é só.
Um beijo e FELIZ 2013!!
Lucas.
De: Angélica Freitas
Para: Lucas Matos
Enviada: 14 de janeiro de 2013 15:24:05
Assunto: encontro de poesia
oi, querido! tudo bem com vocês? espero que sim!
desculpa a demora em responder, tô fora de casa e sem computador.
a princípio, sim, adoraria participar do bliss não tem bis!
vocês sabem mais ou menos em que data seria (aí por 15 de maio?).
este ano devo fazer algumas viagens, mas acho que só vou conseguir defini-las em março.
até quando posso responder ao teu convite?
Muito obrigada 
um beijo da bahia,
angélica
De: Lucas Matos
Para: Angélica Freitas
Enviada: 15 de março de 2013 11:24:28
Assunto: Revista-Disco “Bliss Não Tem Bis”
Angie,
Então, como prometido, lá vai o detalhamento da ideia da Revista-Disco.

Como acho que você sabe, a partir do ano passado, começamos – eu e a Clarissa Freitas aqui no Rio, o Marcio ainda ajudou a fazer agora recentemente uma edição na Bahia – a organizar esses encontro de poesia, e a pensar em coisas como ‘como funciona a apresentação do poema, que é diferente do poema na página?’, modos de dizer um poema e tal. Isso, de fato, me empolgou, e eu propus a gente tentar fazer uma coisa nova: uma Revista-Disco.
A ideia é pensar: “como seria uma revista de poesia para os ouvidos?”; “o que é uma revista que antes de tudo se ouve?”. Para além (ou seria aquém?) das experimentações valiosas e válidas da poesia fonética/poesia sonora, o que poderia ser uma Revista-Disco, uma revista que se coloca para tocar?
Daí, estamos trabalhando com dois eixos: um, que pensa as seções e espaços comuns a qualquer revista de poesia (tradução, crítica, poemas de poetas novos, poemas de poetas já estabelecidos, entrevista, etc.); outro, que trabalha as diferentes sonoridades que podem ser exploradas, desde a fala até a canção, passando por exploração de sons ambientes e ruídos captados, até inserções de programações eletrônicas, coisas assim.
Como disse no outro email, a ideia é que você participasse como uma colaboradora com material poético novo. E aqui, pode ser, de fato, um poema (ou mais de um) inédito, ou um poema já publicado, mas que é retrabalhado tendo em vista a mudança de meio. Originalmente, eu pensei que talvez você quisesse ter só a sua voz e tal, mas sinta-se livre para pensar no que quer e no que acha melhor, se quer trabalhar com algum tipo de inserção sonora, musical, etc.
O estúdio que a gente tem disponível com mais facilidade é um estúdio do CTE da UERJ, que dá apoio através da COART, feito originalmente para uma rádio da web (para alunos de comunicação). Então, o aquário de lá tem umas limitações físicas. Dependendo do que você quiser, a gente pode fazer lá ou buscar outro estúdio.
Daí, abaixo do corpo do email, estou mandando um texto que fizemos para apresentar o projeto.
É isso. Espero que você goste da ideia. (A Marilia está pensando coisas superlegais para a tradução, e vai fazer uma faixa dela também, e se tudo der certo, estará conosco no dia do encontro… na verdade, começamos a gravar a Revista-Disco ontem, com outro dos colaboradores, e foi muito legal. Ainda vi, quando cheguei em casa que, por acaso, era tipo dia da poesia. Fiquei achando uma boa coincidência ter começado a gravar nessa data).
Um beijo.
Lucas.
Em 2009, nós, os poetas Clarissa Freitas, Lucas Matos & Marcio Junqueira, editamos, com a 7Letras, uma revista de poesia de número único, a Bliss – que contou com colaborações de Adriana Calcanhotto, Arnaldo Antunes, Antonio Cicero, Carlito Azevedo, Nathalie Quintaine, Marilia Garcia, Paulinho Moska, dentre outros. Naquele momento, interessava-nos partir da ideia do êxtase como detonadora de uma percepção poética da/na linguagem e das/nas experiências do mundo. Pela especificidade do que buscávamos então, sempre pareceu que fazer uma série de revistas Bliss soava como o reverso dos nossos propósitos.
Desde novembro do ano passados, todavia, quando nos vimos encarregados de promover uma série de encontros de poesia, junto à COART na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), a dimensão sonora – em sua materialidade simultaneamente simples e rica de possibilidades de elaboração – apareceu como um campo fértil para a investigação estética que pretendemos. Dessa forma, surgiu o projeto de uma Revista-Disco de poesia, a Bliss não tem BIS – uma co-produção entre nós e a COART/UERJ.
A fisicalidade da palavra falada/cantada possibilita tanto a quem diz/canta o poema quanto a quem o ouve um modo de percepção que é o de uma ação sobre o corpo, de uma demanda de trabalho no/do corpo para se pôr num estado de atenção que não é nem o da fruição acrítica nem o da interpretação intelectiva pura. O corpo sai do seu estado cotidiano e ganha os modos e os contornos de uma ação de escuta.
O ouvinte/leitor brasileiro conhece um amplo repertório no que diz respeito à poesia cantada (concebida ou não no formato de canção), e sabemos das diversas incursões que, influenciadas por práticas de vanguardas dos anos 20 e dos anos pós-Guerras do século passado, exploraram o campo da poesia fonética/poesia sonora no Brasil. Até onde compreendemos, porém, é a primeira vez que se propõe a edição de uma Revista-Disco, isto é, a edição de uma revista de poesia que se ofereça direta e primeiramente aos ouvidos.
Esperamos, assim, cavar, descobrir, formular novos modos de ler/ouvir e pensar o universo poético, em que possam se combinar e arranjar a percepção da palavra ao trabalho da voz, a escuta da ideia ao grão do som.
Clarissa Freitas & Marcio Junqueira no lançamento da Revista-Disco “Bliss Não Tem Bis” 29/11/2013
De: Lucas Matos
Para: Angélica Freitas
Enviada: 25 de maio de 2013 00:23:08
Assunto: passagem de avião
angie, oi!

então, na verdade, vou comprar a passagem enquanto vejo se há alguma condição da universidade me ressarcir com pelo menos parte da despesa. mas não se preocupa com isso. o que importa para mim e para clarissa é que o evento aconteça e tal. a gente se dá suporte um ao outro no que quer que for necessário.
ok, só, por favor, confirma para mim até segunda o seguinte:
– não tem viagem pelotas-rj, certo? eu devo comprar passagem porto alegre-rio, rio-porto alegre, é isso?
– a data da volta. pode ser na outra segunda? o dia é 24/06.
– poderíamos gravar um poema seu em áudio para a revista-disco ‘Bliss não tem bis’ no dia seguinte ao evento, na quarta, 19/06 às 18h?
acho que é isso.
hm, por falar em marilia ( :) ), encontrei com ela ontem, e ela me disse que um amigo dela que organiza encontros sobre livros de poesia na livraria da travessa queria saber se você topava nessa mesma semana participar disso. hm, ok, não sei se estou explicando direito, mas confere com ela que papo é esse.
um bj.
lucas.
De: Angélica Freitas
Para: Lucas Matos
Enviada: 26 de maio de 2013 15:23:15
Assunto: passagem de avião
oi, lucas, tudo bem?

a volta pode ser na segunda, sim, sem problemas, qq coisa eu troco a passagem, n se preocupe.
tem voos pelotas-porto alegre-rio, mas são caríssimos. eu vou até poa de bus, sem problemas. mesmo.
podemos gravar o poema dia 19, sim!
e vou falar com a marilinha!
beijos do hellcife,
angie
De: Angélica Freitas
Para: Lucas Matos
Enviada: 14 de junho de 2013 15:59:48
Assunto: só pra dizer que
tô muito feliz com a ideia de ir praí. <3
um beijo,
a.
Lançamento da Revista-Disco “Bliss Não Tem Bis” 29/11/2013
Como fazer um encarte?
De: Lucas Matos
Para: Marcio Junqueira
Enviada: 03 de setembro de 2013 19:13:54
Assunto: Encarta/encarte
Marcio,

te encaminho a primeira ideia da Valeska para o encarte.
Ela usou seus desenhos do voilà mon coeur, porque não havia ainda esses novos, mas vou remetê-los, junto com uma série de observações e de pedido de alterações.
Peço que você ajude a gente no que puder, sugerindo que mudanças achar necessárias.
Até agora, algumas coisas que eu penso:
1. Quanto ao tipo, eu realmente acredito que precisamos de uma solução viável e prática, e que a caligrafia que você tinha sugerido seria complexo de conseguir. Sem falar que estamos tentando, por motivos de custo, manter o número de páginas abaixo de trinta e pouquinhos, para que o material possa ser feito com grampo (na verdade, nem é só por motivos de custos, mas também porque é assim que é a maioria dos encartes).
2. Eu acho, entretanto, que essa capa precisa mudar – não só os desenhos, mas receber alguma cor quem sabe. Por enquanto, acho que falta algo.
3. A princípio, gosto disso que ela colocou mais de uma coluna em algumas páginas. Mas penso que, no caso do seu poema, em especial, isso fica confuso e não funciona. Embora vá fazer aumentar o número de páginas, penso em pedir para no seu poema serem páginas de uma coluna só.
4. Note que fizemos uma divisão lado a/lado b. Que me parece absolutamente funcional porque (a) o cd está muito grande, e é bacana propor possibilidades auditivas e de organização/leitura que ajudem ele a não ficar impraticável, (b) me parece fazer bastante sentido dentro do pensamento sobre a estrutura de um disco. acho que o disco que o arnaldo tá fazendo também passa por algo assim, se não uma divisão explícita, pelo menos um esqueleto de algum modo semelhante.
enfim, por enquanto, é isso. estou passando esse email porque você disse que queria participar do encarte.
mais tarde, te envio a resposta mais detalhada do seu outro email, sobre calendário de blog e todas as demais questões.
estou cheio de trabalho, como você deve estar também. estou tendo que correr atrás sozinho de autorização de todo mundo, e ainda vou ter que comprar a briga de “faço questão de vender exemplares”. enfim, tem sido complexo. e eu acho difícil dar conta de todas essas questões.
se você puder ajudar com o encarte, agradeço infinitamente. só peço mesmo que a gente procure ser objetivo e prático, para não ficarmos à deriva.
Abração, muito obrigado. e vamos nessa.
Lucas.
De: Marcio Junqueira
Para: Lucas Matos
Enviada: 4 de setembro de 2013 05:36:31
Assunto: Encarta/encarte
luc,

pensei em sugestões dentro dessa estrutura mesmo que a valeska fez. adorei a fonte. minha sugestão é botar a vitrola no lugar do menino. peça para ela fazer uma versão em negativo tb (o fundo preto e as letras e o desenho em branco), pode ser que fique legal. pensei os desenhos como pausas ou pequenos comentários no encarte. 
1) o desenho de um microfone com um filtro (ele está na parte superior do menino com headfones) viria na página 2 (à direita) junto ao anibal cristobo e o antonio cicero. 
2) na página 9 (esquerda) viria o menino com o headfones (página inteira) à direita viria o poema do luca argel 
3) na página dos créditos (à direita) viria o desenho do circuito. acho que ficaria bonito a pagina inteira. à esquera viriam os créditos. vc acha que  consegue colocar agradecimentos e parte técnica numa página?
  
4) na 4 capa eu imaginei o microfone grande (de estúdio)  (inverter ele para o lado esquerdo) + nomes dos poetas envolvidos no projeto. cabem todos?
eu sugeria que todas as páginas com desenhos fossem em negativo. acho que criava uma variação visual divertida. mesmo a página ( como a página 2) em que o desenho é só um detalhe junto aos poemas, eu acho que essa página também devia vir em negativo. 
eu gosto do uso do preto e branco. 
no meu poema tem um trecho que está no encarte que é uma sobra que foi no arquivo. ele acaba em “passei muito tempo assim”. o que vem depois pode tirar, por favor.  na verdade todas as marcações no meu texto em vermelho eram para serem retiradas. junto com esse e-mail te mando uma versão corrigida para o encarte. alinhe ele todo. aquelas divisões em duas colunas que eu fiz no encarte não funciona. fica confuso. no começo principalmente. pode colocar ele como se fosse uma narração corrida, sem espaçamentos. 
gostei da ideia de lado a / lado b. a vinheta do cicero foi uma sacação incrível. como não ouvi todas as faixas não consigo especular com muita clareza sobre os dois lados. o b seria mais musical? o jogo da marília e do leo no encarte ficou perfeito.
fiquei feliz. o disco vai ficar lindo. parabéns!   
força aí nos trabalhos. eu tô fodido de coisas também. precisando de ajuda pede um help.
é isso
m.
De: Valeska de Aguirre
Para: Lucas Matos
Enviada: 5 de outubro de 2013 14:42:56
Assunto: gráfica
oi, Lucas,

acho que as páginas todas pretas pode ficar muito pesado. Acho que a ideia de usar o preto só nas páginas com imagens é boa. 
Aquela gráfica que fomos enviou o orçamento sim, mas ficou caríssimo (te encaminho o email). No mesmo dia liguei para a outra que conhecia (na Gamboa), mas eles fazem só o acabamento e o Paulo (o dono) me passou o tel. do vizinho que imprime. Já liguei e pedi o orçamento mas ele ainda retornou. Na segunda ligo de novo.
Acho que só consigo mexer no encarte novamente na terça, pois estou ferrada num trabalho que preciso entregar na segunda que não acaba nunca.
beijos
Valeska
De: Valeska de Aguirre
Para: Lucas Matos
Enviada: 14 de outubro de 2013 16:46:00
Assunto: Novo arranjo de cores + Stamppa
oi, Lucas,
segue o pdf com aquele arranjo de que falamos.
Resolvi pedir o orçamento em uma gráfica que trabalhávamos na 7Letras, e que agora trabalha com digital também. Assim podemos ver se o preço de fato aumentou muito em todo lugar ou se essas duas é que estão acima do mercado. Acho que vale a pena esperar por essa, inclusive, se for o mesmo valor, é uma gráfica ótima, que eu ainda não tinha cogitado por achar que seria muito mais cara, mas em função do valor das outras, acho que vale a pena vermos na Stamppa.

beijos
valeska

De: Lucas Matos
Para: Clarissa Freitas
Enviada: 16 de outubro de 2013 03:19:45
Assunto: Novo arranjo de cores + Stamppa
Clarissa baby,

segue o arquivo final com o encarte.
As especificações para pedir orçamento na gráfica são:
100/300/500 exemplares.
32 p.
120mm x 120 mm.
offset 90g OU collor plus 85 g
miolo 1×1 (esquema de cores)
capa 4×4 (esquema de cores)
Outra coisa que eu queria ver com você, e é um pouco urgente: tem como pensarmos para a semana que vem a postagem no blog com a antologia surrealista dos poemas traduzidos pelo Luis? O calendário do blog foi feito com a data de lançamento da revista-disco em 01/11, estou dando o jeito de adiantar as coisas, mas há certas questões que não podem ser tão facilmente adiantadas. Também o Fabiano Calixto topou participar com uma postagem, mas quer mandar traduções inéditas do Ginsberg e fazer uma coisa supercuidada, e não tem condições de fazer isso este ano.
Enfim, mil questões – e seria de grande grande ajuda se pudéssemos semana que vem agendar essa questão da poesia surrealista. Se vc tiver questões práticas que dificultem (sei lá, o material está no rio, e vc vai ficar sem tempo), peço que considere a possibilidade (menos ideal, só porque seria legal vc planejar a parada) de me passar o material na segunda, e eu fazer a seleção.
Se nada disso te parecer certo, mas você tiver uma outra sugestão concreta e factível para uma postagem, faz que eu vou achar lindo. :)
É isso. Aguardo retorno.
Um beijo, um abraço, toda a sorte do mundo na sua empreitada logística (sacou o trocadillo??? rs, eu idiota…).
Lucas.
***
Prezado(s) senhor(es),
Conforme solicitado, encaminhamos abaixo nossa Proposta Comercial:
Quantidade Descrição Unitário Valor Total
100                                                                804,00
300                                                                1.188,00
500                                                                1.645,00
Folheto IMPRESSAO DIGITAL – FOLHETO PARA CD C/ 28
PAGS + CAPA, Form.Aberto 240 x 120 mm, Form.Fechado
120 x 120 mm, Capa , formato 242 x 120 mm em Off-Set 90
g/m2, 4×4 cores, Miolo 28 págs. em Off-Set 90 g/m2, 1×1
cores, Dobrado, Grampo Canoa, Corte Simples – Cálculo
134.753 (5% ISS incluso)
Cond. Pagto: 28 DDL Validade: 10 dias
Representante: ISABELLA – 7843-4050 Imposto: ISS INCLUSO
Programação Entrega: a combinar Obs.:
Na APROVAÇÃO DO SERVIÇO solicitamos que nos seja enviado junto com a proposta aprovada DADOS para
FATURAMENTO, E-MAIL PARA ENVIO NOTA FISCAL e LOCAL DE ENTREGA do material e das provas.
A DATA DE ENTREGA estará vinculada a data de liberação das provas.
A Grafica Stamppa reserva o direito de conferir o orçamento aprovado com os arquivos enviados e caso haja alguma divergência, será enviado novo orçamento.
A tiragem poderá variar em 5% para mais ou para menos do total,· sendo esta variação repassada para o faturamento.
PRE-IMPRESSÃO: O cliente deverá fornecer arquivos fechados (PDF).
O custo da 2º PROVA (em alta e heliográfica) em diante será por conta do cliente. O valor de cada prova heliográfica no formato 210 x 297 mm é de R$ 2,00.
Agradecemos o contato e aguardamos a aprovação do seu pedido para darmos continuidade aos processos de
produção.
De Acordo: _____________________________________________________ Data: ________ / ________ /
________.
Rio de Janeiro, 16 de outubro de 2013 Proposta nº 56.173
continua…
…continuação
Rio de Janeiro, 16 de outubro de 2013 Proposta nº 56.173
GRAFICA EDITORA STAMPPA LTDA.

Lucas Matos no lançamento da Revista-Disco “Bliss Não Tem Bis” 29/11/2013
*
Extras
Poema inédito de Domenico Lancellotti
A cama dos pais tem uma índole boa
A cama dos pais tem um cheiro bom
Que é saliva, creme, arnica, leite de rosas, sêmem
A cama dos pais tem um pó das gatas
Caspa, um longo fio de cabelo, cílios entre dois planetas
Tem um travesseiro longo que se espraia
Tem uma mordida de pulga
A cama dos pais tem um desejo de acordar ao meio-dia
Eu quando acho um pé, eu agarro
A cama dos pais está voltada para o futuro
A cama dos pais tem um chafariz que é ligado nos dias de festa
A cama dos pais é confortabilíssima
E está no meio de tudo
A cama dos pais também tem um lado turvo, que às vezes não esquenta
A cama dos pais tem um buraco no meio
Seu triângulo das bermudas, um Rinoceronte e um Rinosoro
A cama dos pais pode ter sonhos violentos
Tem uma fonte de luz na cama dos pais
Da cama dos pais a alvorada vem chegando em fade in
***


Bliss não tem bis, Correspondência, Poesia contemporânea, Revista-Disco


Luca Argel & T menos 3 horas: “São vinte e três horas e o poeta irá oferecer uma pequena récita aos postais retornados”. Correspondências Parte 4.
22 de outubro de 2013

Uma escrita de idas e vindas. Correspondências voltam, planos são adiados, frases se descolam do contexto, deslocam-se partes do corpo, recortam-se pedaços de fotos. E então é absolutamente necessário pensar no diálogo – entre texto e imagem, e material (papel, costura) – como nessa urgência e vontades das coisas se fazerem ao invés de ficar discutindo tiragens e distribuição; então é absolutamente necessário dizer algo para as coisas, recitar para os postais retornados (numa talvez inversão vertiginosa daquela cena que encerra o Luvas de Pelica, da Ana C.?). É dessa costura sutil que se faz a obra Postais Retornados, de Luca Argel e T menos 3 horas, de deslocamentos que insistem em perguntar, em se debruçar sobre as fissuras do tempo, dos nossos hábitos congelados.
         Os livrinhos são feitos pela mesma dupla de Esqueci de fixar o grafite (7 Letras, 2012 – poemas por Luca Argel e imagens por T menos 3 horas) e compõem com ele uma outra forma de reflexão e de diálogo não só sobre a escrita e a imagem, mas sobre esses pedaços de vida que nos atingem, que nos assustam, que vivemos sem nos dar conta, e de repente é incrível descobrir que já estamos passando por isso. A impressão é que, diante deles, sempre nos perguntamos: mas qual a diferença entre um encontro e um desencontro? Como é possível reconhecê-la? Não encontro algo, necessariamente, ao me desencontrar comigo? E assim por diante.

         Além deles, a correspondência entre os autores e os editores desse blog, também com seus caminhos de retornos, de pequenas emendas, e como esse tecido se fez também naturalmente pedindo pausas, intervalos, deslocamentos e descolamentos, até que se chegasse aqui. E então estamos de volta para nossa seção de correspondências. E então de volta para fazer uma récita para esses objetos entre perdidos e novos (guardados para sempre em sua novidade), postais que voltaram, sem chegar ao seu destino.

***

De: Marcio Junqueira

Enviada: Segunda-feira, 7 de Outubro de 2013 03:35
Para: Luca Argel
Assunto: postais retornados
oi luca,
como está? como andam as coisas em portugal?
seguinte: estou te escrevendo porque na nossa pauta para o blog da bliss, tem um post sobre  os “postais retornados”, seus e da T.  Esse foi o primeiro trabalho de vocês que eu vi (numa exposição na tijuca, antes mesmo de saber quem eram vocês) e eu acho eles maravilhosos.
lá no blog criamos uma sessão que é de correspondências, baseada no making of, que publicamos na bliss de 2009. minha ideia para o post sobre os “postais retornados”, era ter a publicação de um e-mail seu (pode ser a resposta deste, rs), mandando notícias de portugal e fazendo uma espécie de exegese sobre eles + alguns “postais”. 
se você topar podemos ir construindo o post e pensar juntos que postais poderiam ser postados (não teve modo de evitar essa duplicação, rs) no facebook.
é isso,
espero que vc esteja bem e com saúde
beijos
m.
De: Luca Argel
Enviada: Terça-feira, 8 de Outubro de 2013 09:36
Para: Marcio Junqueira
Assunto: Re: postais retornados
marcio marcio,
por aqui está tudo bem sim, comecei o curso de literatura portuguesa na universidade do porto e estou adorando! bom, tirando o fato de que estou sem emprego e o dinheiro está acabando, está tudo mesmo muito bem.
bom, vejamos. os “postais”, tem bastante coisa que podemos falar sobre os postais…
-primeiro de tudo, “postais retornados” era pra ser o título do meu livro, ao invés de “esqueci de fixar o grafite”. ele caiu num encontro que tive com o jorge lá na 7letras, quando a editora ainda era aquela casa linda na rua goethe, em botafogo. e até relativamente pouco tempo antes da publicação estávamos sem título, foi mesmo a última coisa do livro que ficou pronta. e olha, foi difícil decidir qual seria. só batemos o martelo depois de ver o preview da capa do livro no computador.
-tanto que “postais retornados” é um nome que ainda vejo totalmente entranhado em “esqueci de fixar o grafite”… quando li seu email a primeira vez achei que você falava do livro, e não do trabalho para a exposição. até porque o livro também é um trabalho com T! raramente as pessoas fazem comentários sobre as ilustrações, o que é uma pena. acho que aquilo ali tá muito bem arranjado. apesar de ter surgido de uma necessidade prática de aumentar o numero de páginas do livro.
-vê como a história de “postais retornados” e de “esqueci de fixar o grafite” é a mesma?
-uma curiosidade: o nome “postais retornados” veio de um poema velho, meu, que não está no livro, e que se chama “cobertura sinistro”. lembro de ter lido esse poema numa das oficinas do carlito, e que ele tinha achado especialmente bonito um trecho em que dizia “são vinte e três horas/e o poeta irá oferecer uma pequena récita/aos postais retornados.” ele disse que imaginava alguém sozinho num apartamento, com um monte de postais (retornados) sobre a cama (eu os imagino não jogados, mas cuidadosamente arrumados um ao lado do outro, como uma plateia), e lendo não os postais, mas lendo diante dos postais, lendo qualquer coisa “para” os postais. retornados.
-a cena ficou na minha cabeça e partir daí comecei a nutrir um carinho pelo nome “postais retornados”.
-lembro de ter entregado uma versão preliminar do livro pra T num evento que aconteceu no odeon, em que falava o kenneth goldsmith, que é (era?) um gosto em comum que tínhamos (temos?). eu já vinha de uma experiência muito legal de trabalho colaborativo com um ilustrador, o “fabulaciones y sueños”, com o victor mattos. e provavelmente quis fazer qualquer coisa do tipo com a T, depois de ver algumas colagens dela e ter adorado. é tão bom perceber que um amigo seu de repente virou um artista, e está fazendo bons trabalhos. ainda mais quando é um amigo como a T, que daqui a alguns anos já vou poder dizer com mais tranquilidade “de infância”.
-não sei bem o que eu estava querendo quando entreguei os poemas pra T. não lembro se já tinha em mente alguma coisa parecida com o que fiz com o victor, ou se já tinha a perspectiva de publicar na 7letras. tenho quase certeza que ainda não, que era mais uma experiência, e que não tinha a menor ideia do que queria fazer com aqueles poemas. mas foi tudo num período muito próximo, a virada de 2011 pra 2012.
-o tempo passou. alguns poemas novos se integraram no que então ainda era o projeto “postais retornados”. e um dia encontro com a T no parque lage e ela me dá um presente-surpresa. dentro de um envelopinho pardo, um livrinho, que cabia na palma da mão, feito de um papel que não sei o nome, mas que era meio áspero, rígido, bom de pegar, costurado à mão, e com trechos, pequenos trechos dos poemas que tinha dado a ela, versos soltos, palavras, expressões, tudo batido à máquina, inclusive com algumas gralhas e correções aparentes, e no meio de tudo umas colagens também. enfim. era uma coisa linda, fiquei apaixonado por aquilo. na capa de cartão estava escrito “postais retornados” com aquelas letras de decalque que a gente compra em papelaria. ficamos de tentar fazer mais.
-e fizemos. passamos uma tarde no quarto dela, cortando papéis, revistas e fotos velhas que ela comprava na feira da praça XV, e depois de cortados eu passava na máquina de escrever e colocava qualquer coisa do livro (as provas estavam abertas do meu lado – assim como um livro do cortázar, que não se sabe bem o que estava fazendo por ali, mas que acabou “vazando” um pouco pra dentro de alguns livrinhos), quase que aleatoriamente. depois costuramos com uma linha de algodão vermelha. quer dizer, ela costurou, porque eu não sabia bem como fazer e tinha medo de estragar. almoçamos um cuscus marroquino esse dia. eu já era vegetariano (e ela já era muito antes de mim). aquela tarde rendeu 16 livrinhos.
-quando o “esqueci de fixar o grafite” virou uma realidade, os dois projetos meio que se separaram. até pensamos em fazer mais e distribuir no dia do lançamento. mas não aconteceu. acho que, pelo menos da minha parte, foi metade por preguiça e metade por dó de me desfazer deles.
-quando aconteceu o 2˚ jardim suspenso, poucos meses antes da minha viagem pra portugal, resolvemos expor os livrinhos. comprei um daqueles grampeadores de cenógrafo (que se chama “rocama”, e que eu só fui descobrir aí, depois de já ter usado a palavra rocama no livro, sem nunca ter visto uma) e preguei os livrinhos todos numa das paredes (não sem um certo dano – mais dos livros do que da parede) do jardim da casa do reggae, lá em cima na rua uruguai, onde estavam acontecendo as exposições.
-infelizmente, o que sobrou de registro desse dia foram umas 2 ou 3 fotos e olhe lá. parece que a nossa fotógrafa oficial ficou bêbada na festa e esqueceu de tirar mais fotos dos trabalhos.
-um pouco por isso, e um pouco pelo tanto que gosto dos livrinhos e queria dividir com as pessoas, digitalizei todos e coloquei no issuu. claro que não é a mesma coisa que pegar e manusear cada um, mas pelo menos dá pra ter uma idEia. (se não me engano dá pra fazer o download de tudo por lá!)
-por isso todos os “postais” podem ser postados no blog da bliss e no facebook. vai ser inclusive muito bom vê-los lá, vê-los circulando. é pra isso que é um “postal”, né? e eles são tipo um B-side do “esqueci de fixar o grafite”, e ao mesmo tempo uma série em que o trabalho da T e o meu interagem com muito mais desenvoltura e equilíbrio. acho eu.

e achava legal também escrever pra T, e pedir pra ela escrever qualquer coisa eu mesmo gostava de ler sobre como foi isso tudo da perspectiva dela! será que ela faz?

fazer uma ‘exegese’, como você sugeriu, até pra mim (ou principalmente pra mim), é bem difícil. contei uma historinha. espero que sirva, rs.
você vai estar em novembro no rio, no lançamento da bliss-não-tem-bis? com sorte, eu estarei também, e aí nos vemos =)
bjo grande
luca

De: T menos 3 horas <tmenos3horas@gmail.com>
Enviada: quinta-feira, 17 de outubro de 2013 00:23:54
Para: Marcio Junqueira
Assunto: postais retornados

oi marcio,
sabe que eu fico bem sem graça de escrever e tal, mas te conto um pouco dos postais retornados, como foi isso pra mim…
os postais têm aparecido com muita frequência na minha vida esses últimos tempos… eu nem tinha parado pra pensar nisso na verdade. foi só depois de ler o e-mail do luca (que fez tudo voltar na minha cabeça com imagens) e também da sua vontade de resgatar essa história pro bliss me pedindo pra contar um pouco sobre o processo que eu comecei a conectar tudo.

o bloco de anotações que tem aqui em cima da mesa é do tamanho de postais, os papéis azuis que encontrei na XV outro dia também tinham o tamanho de postal, o último livro que eu editei com dois amigos também eram postais e tinha até espaço para botar selo e tudo mais; depois era só esperar que eles fossem enviados por aí, ou não… enfim, acho que de alguma forma inconsciente eu acabo pensando em postais. e costuma funcionar assim, as coisas ficam na memória, e depois, sem perceber, você já tá vivendo aquilo, sem se dar conta. e perceber um momento desses é incrível!
e tem uma coisa que tá na minha cabeça e tenho pensado sobre… que é a natureza (?) de publicações em geral. logo agora que tudo virou arte impressa e tem até curso pra fazer zine… eu gosto quando é simples, quando se juntam uma ou duas pessoas pra pensar e fazer aquilo existir pela necessidade de existir e pronto, quando é um diálogo. sem pensar muito em questões de tiragem, formas de impressão, locais de distribuição ou com a estética final e etc.

os zines são coisas extremamente pessoais e tem uma fragilidade ali do material, do papel de quem fez… é um processo que acontece e não poderia ser de outro jeito. por isso foi tão bom fazer os postais retornados com o luca. fizemos alguns, cada um era diferente, só existe um de cada e estão por aí, sabe-se lá por onde. além disso existe uma preocupação em documentar eles, pra que as pessoas possam ver depois, com calma, imprimir se quiserem… sem precisar comprar. essa vontade de ter um arquivo é fantástica! especialmente quando se trata de publicações que tendem a desaparecer por aí.
montamos tudo junto, não era que eu ia fazer colagens para os escritos dele, tudo era colagem ali. desde os escritos (que eu gosto muito) recortados mudando de contexto, até o papel, as fotos, os papéis vegetais com tudo ao contrário, os livrinhos em si… tudo mesmo. e essas publicações me dizem muito sobre o que eu tenho pensado e feito ultimamente. acho que é isso.


abraços,

T menos 3 horas 

De: Marcio Junqueira
Enviada: quinta-feira, 17 de outubro de 2013 00:23:54
Para: Lucas Matos
Assunto: postais retornados

luc,
segue a versão final do post sobre os postais retornados. cortei os dois últimos e-mails do material que te mandei ontem. eu cortei duas frases minhas no email para o luca também. deixo com você cortar ou não o trecho no final em que o luca fala do lançamento da revista-disco da bliss. isso ainda é segredo? para a semana no facebook eu acho que podíamos postar os postais mesmo. vi um desenho hj do liniers sobre postais e só lembrei dessa conversa. te mandei isso no facebook. faz uma revisão no texto antes da postagem. sorry pelo atraso, voltei do dentista irritado (a anestesia mexe com meu humor) e fui dormir. a resposta do material ainda não tinha chegado.
é isso.
bjs

m.

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Correspondência, Luca Argel, Poesia contemporânea, T menos 3 horas


Clarice Lispector, Sheila Heti. Cartas sobre trabalho de escritoras: “Esse véu é minha vontade de trabalhar e de ver demais”. Correspondências Parte 3.
27 de agosto de 2013

Em artigo recente, cujo título poderia ser traduzido como “Ser no feminino”, em que abordava o gráfico que mostra a disparidade da percentagem de resenhas sobre escritores homens e escritoras publicadas pela grande imprensa estadunidense, a poeta Eileen Myles começava dizendo algo como: “Quando eu penso em ser no feminino, eu penso em ser amada”, e terminava afirmando que a importância não estava em ser no feminino, mas em ser menor, porque queria ser amada, já que era. A reflexão tecida por ela ali é apenas um dos exemplos dos caminhos possíveis de serem trilhados a partir do momento – talvez fundamental ponto para entendermos e pensarmos o universo da escrita hoje – em que mulheres não só trabalham como escritoras, como buscam refletir e escrever sobre o que é trabalhar como escritoras, o que é um artista no feminino.
Nesta postagem, nosso antologista de correspondências fez-se a mesma pergunta, promovendo dois cortes completamente distintos, que nos permite ver, através de cartas, duas escritoras fazendo e escrevendo seu trabalho: temos, primeiro, 3 cartas da década de 1940, escritas por Clarice Lispector, endereçadas a Lúcio Cardoso. Nelas, Clarice comenta seu cotidiano de relação com a escrita e com a leitura e de que modo pensa e vive seu trabalho. Em seguida, quase setenta anos depois, em outra nacionalidade, a partir de outro meio, temos e-mails enviados pela canadense Sheila Heti. Autora de livros que vão de coletâneas de contos e romances a uma filosofia da conversação, ela tem participado do projeto de uma outra escritora, Miranda July, que está mandando 20 coletâneas de e-mails, ao longo de 20 semanas, para quem se subscrever em projeto miranda july we think alone. Neles, Sheila fala de/desenvolve dois projetos seus, embora não diretamente ligados a um texto de autoria sua, mas certamente relacionados a sua forma de pensar seu papel de escritora no mundo de hoje: um deles, desenvolvido em 2008, durante a decisão de qual candidato o partido democrata dos EUA escolheria para concorrer a presidência (Hillary Clinton ou Barack Obama), eram os blogues através dos quais ela coletou e publicou sonhos dos americanos com as duas figuras políticas, Hillary e Barack; o outro, desenvolvido em parceria com o escritor, ensaísta e dramaturgo Darren O’Donnell, buscava pessoas dispostas a participar de relacionamentos arranjados ao acaso – justamente para pensar, ou colocar a questão acerca do quanto a possibilidade da escolha influencia em nossa insatisfação com relacionamentos.
         De uma ponta a outra, modos distintos de pensar e de viver a escrita. Tanto a escrita profissional quanto a escrita de cartas. De uma ponta a outra, correspondências de escritoras que nos permitem sustentar, manter e recolocar a pergunta por artistas no feminino.
*       
De Clarice Lispector para Lúcio Cardoso.
Lúcio:
Imagine que eu estava junto da mesa, pronta para escrever para você e contar coisas, quando bateram à porta e trouxeram-me, vindo do Rio, o que você publicou no Diário Carioca. [Lúcio tinha publicado um artigo sobre o livro de Clarice Perto do Coração Selvagem em 1944]. Isso valeu como se você tivesse respondido à minha primeira carta… Gostei tanto. Fiquei assustada com o que você diz – que é possível que meu livro seja o meu mais importante. Tenho vontade de rasgá-lo e ficar livre de novo: é horrível a gente estar completa. Sei que não é isso que você quis dizer. Quanto ao meu meio sucesso me perturbar, às vezes ele me deixa saciada e cansada. Às vezes, embora possa parecer falso, me desanima, não sei por quê. Parece que eu esperava um começo mais duro e, tenho a impressão, seria mais puro. Enfim, tudo isso é tolice minha. – Não tendo aqui a Agência Nacional e A Noite, estou numa liberdade deliciosa, há anos que não sentia isso. Às vezes mesmo passo uns dois dias sem fazer nada, sem mesmo ler, e com a impressão de que escrevi muito, de que li, de que trabalhei. Tenho trabalhado um pouco. Às vezes com uma facilidade que me desespera. Mas eu acho que com um pouco de paciência eu me amansarei, nem sei. Estou hoje um pouco confusa e sobretudo a fita da máquina não dá mais nada e está chovendo, eu não quero sair para comprar outra. Antes de começar a escrever eu tinha a impressão de que ia lhe contar como  eu tenho escrito e de como às vezes me parece sufocante de bom o que tinha escrito, e dois dias depois aquilo não vale nada, como eu tenho aprendido a ser paciente, como é ruim ser paciente, como eu tenho medo de ser uma “escritora” bem instalada, como eu tenho medo de usar minhas próprias palavras, de me explorar… Eu pensava em dizer tudo isso, estava num impulso de sinceridade e confissão que muitas vezes eu tenho em relação a você. Mas não sei, talvez porque você nunca tenha sentido em relação a mim esse mesmo impulso, eu fico apenas com as palavras que eu gostaria de dizer mas sem gostar delas. Eu hoje estou muito burrinha, especialmente hoje, e nem entendo direito o que quero dizer. O fato é que eu queria agora escrever um livro limpo e calmo, sem nenhuma palavra forte, mas alguma coisa real – real como o que se sonha, e que se pensa uma coisa real e bem fina. Lúcio, não se passa quase uma semana sem que eu pense numa coisa que você disse por uns minutos: que ia fazer um livro de muitas pessoas indo a um piquenique, e passeios, é isso? Sairia como os pedaços sobre os adolescentes do livro que você me deu. Não se pode encomendar livro a ninguém, mas esse você prometeu e eu fiquei esperando – a ideia me pareceu tão viva.
         Encontrei aqui pessoas muito interessantes. Paulo Mendes é professor de literatura, mas não um didático. Tem grande biblioteca, conhece um bocado de coisas, mas não ficou [.] sobre a cultura, é muito inteligente. É ótimo falar com ele sobre os livros dos quais a gente gosta. Ele me emprestou os Cahiers de Malte, de Rilke, e pedaços escolhidos de Proust. Ele falou de você de um modo que eu gostei de ouvir. Eu acho que você ainda encontrará outras fases – desculpe eu estar falando assim, de modo cru, eu sei que desagrada estar dividindo a gente em fases, mas não sei exatamente os termos que ele usou e você compreende. Junto dele está mais ou menos sempre um rapaz cego que faz poesias. Plínio, não sei direito o nome todo. Sabe como o Paulo Mendes descobriu ele? O Plínio era aluno do Paulo Mendes e, como ainda hoje se mostra, era muito calado e tímido, impossível de se conhecer. (Aliás, ele se parece um pouco com você, tem olhar meio de fantasma). Pois um dia o professor pediu aos alunos que escrevessem sobre um tema de literatura e lessem na aula. Todos escreveram sobre os clássicos temas de aula de literatura. O Plínio surgiu com um estudo sobre as poesias de Lúcio Cardoso. O professor ficou surpreendido: de fato ele lera em aula “romances de Lúcio Cardoso” mas não falara nas poesias porque naquele tempo só conhecia algumas coisas publicadas nos Cadernos da Hora Presente. Encontrando-se o professor e o aluno assim de repente, o professor convidou o aluno para casa e ficaram amigos. O professor descobriu logo que o aluno fazia poesias. Li umas duas. Entre muitas palavras que agora os poetas usam, há mesmo poesia. Ele fala de luar. “Durma ouvindo os teus passos de anjo pela noite”. Serve horrivelmente para um epitáfio e a ideia é de Paulo Mendes. Vou ver se Plínio conserva seu trabalho sobre as suas poesias. – Seria bom você ler, não é? é sempre curioso.
         Lúcio, você diz no seu artigo que tem ouvido muitas objeções ao livro. Eu estou longe, não sei de nada, mas imagino. Quais foram? é sempre curioso ouvir. Imagine que depois que li o artigo de Álvaro Lins, muito surpreendida, porque esperava que ele dissesse coisas piores, escrevi uma carta para ele afinal, dizendo que eu não tinha “adotado” Joyce ou Virginia Woolf, que na verdade lera ambos depois de estar com o livro pronto. Você se lembra que eu dei o livro datilografado (já pela terceira vez) para você e disse que estava lendo o Portrait of the artist e que encontrar uma frase bonita? Foi você quem me sugeriu o título. Mas verdade é que senti vontade de escrever a carta por causa de uma impressão de satisfação que tenho depois de ler certas críticas, não é insatisfação por elogios, mas é um certo desgosto e desencanto – catalogado e arquivado. Vou tentar completar a tinta o que a máquina negou ao papel. Um abraço para você, seja feliz.
Clarice
Central Hotel
Belém – Pará
*
Lúcio, espero que a cartinha ao seu amigo não pareça idiota. Ou melhor, é idiota. Mas eu fico encabulada. Diga a ele para me escrever sem falta. E assim eu me sinto perdoada pelo bilhete. Você está certo de que ele não é invenção sua?
Lúcio, caro:
Que alegria receber sua carta, tão curta e tão apressada. Mesmo assim, grazie tantepela lembrança. Me faz bem receber qualquer palavra sua. Me entristeceu um pouco você não gostar do título, O lustre. Exatamente pelo que você não gostou, pela pobreza dele, é que eu gosto. Nunca consegui mesmo convencer você de que sou pobre…; infelizmente quanto mais pobre, com mais enfeites me enfeito.
         No dia em que eu conseguir uma forma tão pobre quanto eu o sou por dentro, em vez de carta, parece que já lhe disse, você recebe uma caixinha cheia de pó de Clarice. Talvez você ache o título mansfieldiano porque você sabe que eu li ultimamente as cartas de Katherine. Mas acho que não. Para as mesmas palavras dá-se essa ou aquela cor. Se eu tivesse lendo então Proust alguém pensaria num lustre proustiano (meu Deus, ia escrevendo proustituto!), numa dessas pequenas coisas a que ele dá tanto sentido mas sem dar nenhum valor sobrenatural. Se estivesse ouvindo Chopin, pensaria que meu lustre era um desses de grande salão, com bolinhas delicadas e transparentes, sacudidas pelos passos de moças doentes e tristes dançando. O diabo é que naturalmente eu venho sempre por último, de modo que eu sempre estou no já está feito. Isso muitas vezes me deu certo desgosto. Assim, eu estava lendo Poussière e encontrei uma coisa igual a uma que eu tinha escrito. E agora que estou lendo Proust, tomei um choque ao ver nele uma mesma expressão que eu tinha usado no Lustre, no mesmo sentido, com as mesmas palavras. A expressão não é grande coisa, mas nem sendo medíocre se chega a não cair nos outros. Mas isso não importa tanto. O que importa é trabalhar, como você tantas vezes me disse. E é isso o que eu não tenho feito. Minha impaciência chega a ser tão grande que às vezes me dói. Assim não tenho gostado verdadeiramente da Itália, como não poderia gostar verdadeiramente de nenhum lugar; sinto que há entre mim e tudo uma coisa, como se eu fosse daquelas pessoas que têm os olhos cobertos por uma camada branca. Sinto horrivelmente ter que dizer que esse véu é exatamente minha vontade de trabalhar e de ver demais. Um dia desses pensei com tristeza de como é genial a tortura da mediocridade… Sinto tanto, tanto ser tão fraca. Gostaria de tal, de tal forma poder trabalhar sem parar. Mas não consigo, as coisas me vêm esparsas – e além disso eu de tal modo desconfio de mim, com medo de escrever facilmente com a ponta dos dedos, que nada faço. Quer me animar, Lúcio? Não que eu mereça ser animada, mas mereço como qualquer pessoa ter os pés em cima da terra. Eu queria fazer uma história cheia de todos os instantes, mas isso sufocava o próprio personagem. Acho mesmo que meu mal é querer ter todos os instantes. Que eu estou idiota, você não precisa dizer, sei bem…
         Nem toquei no fato de você ler meu livro porque sei que você não gostará; e isso me entristeceria. Estou lendo À sombra das rap’rigas eim floire, como traduziram os portugueses, mas estou lendo em francês naturalmente. Eu pensava que ia gostar de Proust como se gosta das coisas esmagadoras; mas com grande surpresa vejo que tenho um prazer enorme e sincero em lê-lo, acho-o naturalíssimo, nada cacete, nada imponente, pelo contrário, de uma modéstia intelectual que nunca se sacrifica por um brilho, por uma imagem; você concorda? diga. Que é que você faz? Minha irmã Elisa mandou-me uma tradução sua de Emily Bronte, ainda não li de tão cheia de mil pequenas ocupações esses dias. Por que A Professora Hilda não aparece? O que é anfiteatro? é o anfiteatro com gente vendo espetáculo ou o anfiteatro escuro na hora da limpeza? que mistério. Explique, se é que você ainda me escreverá, tão desiludida é esta pobre moça. Que aliás vai posar (ia escrevendo pousar, mas a tempo corrigi minha natureza de pássaro) para uma pintora brasileira há muitos anos aqui, uma que tomou parte na semana de arte moderna, Zina Aita. Acha com certeza meu rosto “característico”, como já me disseram tantas vezes sem me dizer o que característico de quê. Com certeza é qualquer coisa feia. – Aqui as ruas são atapetadas de bambinos, principalmente os becos. A gente fica boba para passar entre eles (nos becos todos vivem na rua, cozinham até), crianças que engatinham, crianças que já têm ar sabido, imundas, com aspecto saudável na maioria, com a carinha vegetativa, sentadas ao chão. Tem feito bem frio, de vez em quando cai um pouco de neve. O Vesúvio está com as encostas brancas. Mas ainda não vi neve caindo propriamente dita, em flocos. A primeira vez o chaffeur do consulado veio me dizer que o carro estava com nevinha. Eu abri a porta saí correndo e peguei um punhado (fica um pedaço grudado a outro), quando veio Maury com um ar zangadíssimo, bateu na minha mão e eu fiquei com cara de boba. Então ele me lembrou que eu estava bem resfriada, que podia pegar uma pneumonia etc. Mas eu estava inconsolável. No dia seguinte, eu estava no quarto, Maury entrou com um papel dobrado, desembrulhou e mostrou um pouquinho de neve que ele tinha ido buscar para mim. A coisa estava derretida, horrorosa, e Maury com um ar de triunfo, mas era um presente mesmo. Hoje está fazendo um bom sol, mas minha janela está quebrada e eu não posso abrir. – A lavadeira de casa, uma signorina, está esperando um bebê e vive espionando a nossa cozinha e tremendo com os olhos enormes. Um dia desses fui pedir uma xícara de chá e só ela estava lá. Quando pedi que ela fizesse, ela tremeu de alegria e disse: faccio una anche per me! (anche é também) (e faccio não sei se escreve assim…) – Lúcio, me escreva as vinte páginas que você prometeu, ou mesmo, duas ou três apenas. Não seja egoísta nem preguiçoso, isso me ofende. Diga a Irmgaard que não escrevo por enquanto porque estou procurando os dois endereços que ela pediu.
         Um grande abraço para você da
Clarice
Lúcio, você quer alguma coisa daqui?
NÃO SEJA PREGUIÇOSO!!!!
*
Nápoles, 26 de março de 1945
Lúcio:
Há quanto tempo estou para lhe escrever… (Naturalmente não conto o tempo que você “demora” para escrever para mim). Li seu livro numa só tarde, naturalmente sem interromper. A princípio tinha dificuldade de lê-lo tão trágico me parecia porque é escrito na primeira pessoa e eu tinha a impressão de que o rapazinho era você. E como você é mesmo impossível podia ser você. Aos poucos fui me acostumando e afinal separei você de seu livro. Você começa com um estilo tão excitado como um passarinho… E no começo tem uma coisa que você parece nunca ter usado (sobretudo no começo): quase bom humour, quase ironia. (Não fique irritado, é bom humour no bom sentido…). O fato é que gostei de Inácio com tanta curiosidade e tanto interesse como dos seus outros. Ele é uma mistura (nesse livro mais, me parece) de coisas em que a gente sempre toca, como a Duquesa fazendo café à moda da roça e a flor “sem serventia nenhuma”, com coisas que a gente nunca toca, como Inácio, meu Deus… Quando chegou o momento em que o rapazinho diz finalmente: eu queria saber como minha mãe e você se conheceram, eu parei e fiquei descansando uns 15 minutos. E quando ele fica louco, que alívio. Quando dá a gargalhada, a gente respira: o livro todo prepara a gargalhada. O livro podia se chamar Lucas Trindade, mas no momento em que Inácio aparece com o xadrez e o lenço perfumado, com a cara de boneca velha, então só podia se chamar mesmo Inácio. Gostei muito de Inácio ter ido à Feira de Amostras com aquelas jovens; é uma situação tão rica e tão desenvolta, e como audaciosa. Gostei muito de vários pedaços de conversas do rapazinho com Violeta. É que… suspirou a dama. (tão gentil…). O modo como Stela e Lucas se divertiam sufocando de riso é uma maravilha, nem sei lhe dizer como emociona sobretudo quando se sabe a verdade das relações dos dois. Gostaria de ler críticas a respeito. Como não sou crítica, nem um pouco, minha opinião se condensa melhor depois de ler uma crítica (quer dizer, minha opinião falada), qualquer que seja minha opinião, contrária a qualquer crítica. Compreende? Você deve estar com a professora Hilda nas livrarias. Não quer me mandar? se você soubesse com quanto interesse leio seus livros haveria de me mandar.
         Comigo nada há de novo. Tania me avisou que a Editora Agir publicará meu livro; estou esperando confirmação. Quanto ao mais, não sei. Diz santa Terezinha que cansa recolher os sentidos que “como estan acostumbrados a andar derramados, es harto trabajo” recolhê-los, como tirar água do poço, diz ela num espanhol mais ortográfico do que a minha citação. Pois estou um pouco cansada de retirar água do poço, tão espalhada anda ela e tão harto é o trabalho. Mas o pior é que a água do poço quando não se tira em vez de acumular desaparece. Estou simbólica como no Jornal das Moças, o que afinal dá no certo porque sou uma moça. Tania fez sérias restrições ao Lustre. Inclusive quanto ao título. Vai assim mesmo embora ela tenha razão. Nada ali presta realmente. Minha dificuldade é que eu só tenho defeitos, de modo que tirando os defeitos quase que resta Jornal das Moças. – Estou trabalhando no hospital americano, com os brasileiros. Visito diariamente todos os doentes, dou o que eles precisam, converso, discuto com a administração pedindo coisas, enfim sou formidável. Vou lá todas as manhãs e quando sou obrigada a faltar fico aborrecida, tanto os doentes já me esperam, tanto eu mesma já tenho saudade deles.
         Lúcio, me escreva e conte coisas. Ou então, não escreva, que posso eu fazer? Um dia desses fui ver a lava do Vesúvio. Tenho um pedaço feio de lava para você. Depois de um ano ainda estava quente; é uma extensão enorme, negra, de vinte a trinta metros de altura; a gente anda sobre casas, igrejas, farmácias soterradas. A erupção foi em março de 1944 e quando chove sai fumaça ainda. Com certeza eu já lhe disse que o mar aqui é absolutamente azul; mas como estou com a porta do quarto aberta para o terraço, vi o mar e me lembrei de dizer de novo. E certamente já lhe falei em Posilipo, que é um lugar. Em grego quer dizer pausa da dor. A dor realmente fica um instante suspensa, tão doces são as cores, tão sem selvageria, tão belo, tão belo é o lugar com mar, árvores, montanha. A minha impressão é quase ruim: há coisas bonitas em excesso, eu parece que não tenho tempo ou força, o fato é que ficaria mais calma com uma.
         Dê lembranças a Octávio, a Lêdo Ivo, a Adonias. Um abraço para você da
Clarice
Perdoe a carta tão mal escrita. É que detesto recopiar, sempre que copio transformo.
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fotos de Clarice Lispector e de Lúcio Cardoso
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De Sheila Heti para K.; e para Darren O’Donnell.
De: Sheila Heti
Data: Qui, 28 Fev, 2008 às 11:27 AM
Assunto: Sonho com Hillary… Sonho com Barack
Para: K.
Olá Kristen!
Não vejo nenhuma razão para você não escrever a seu amigo hoje. Mais uma vez obrigado por me ajudar com isso… Bj.
Aqui vão detalhes:
Segunda-feira passada, eu comecei “Sonho com Hillary… Sonho com Barack” – dois blogs, um recolhendo sonhos que as pessoas têm com Hillary Clinton, o outro apresentando sonhos sobre Barack Obama.
Eles são estranhos e reveladores! Os sonhos com Barack são completamente diferentes dos com Clinton. Por exemplo, em dois dos sonhos com Clinton, aparece um abacaxi. Não há abacaxis nos sonhos com Barack. 
Meu sonho com Hillary favorito é este:
“Eu sonhei que estava no pequeno apartamento quarto-e-sala da Hillary, e ela tinha um restinho de coca sobrando, tipo uma carreira, e eu matei e ela ficou com furiosa comigo”.
Na próxima terça, The Chicago Tribune vai publicar uma matéria grande sobre os sites. A New Yorkervai falar sobre os sites na seção Talk of the Town. A New York Magazine vai republicar alguns dos sonhos. Amanhã, eu falo na rádio nacional da Irlanda. The American Prospect e The New Republic blogaram sobre o assunto.
As pessoas estão mandando sonhos…
www.idreamofhillaryidreamofbarack.com
Eu acho que seria ótimo se alguns dos apresentadores dos humorísticos noturnos soubessem do projeto. É tão engraçado, tão esquisito. É a primeira pesquisa metafísica sobre os candidatos do partido democrata. Nós sabemos o que Hillary e Barack significam para as pessoas, mas o que eles SÃO para elas? É isso que esperamos responder.
da sempre amiga,
Sheila
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De: Sheila Heti
Data: Sáb, 2 Jan, 2010 às 9:52 AM
Assunto: R.A.
Para: Darren O’Donnell
Oi Darren,
Eu entrei em contato com 20 pessoas – enviando o email em anexo.
Depois de pensar na ideia mais um pouco (e ainda conversando com Misha) e pensando sobre o nosso último diálogo, parece melhor mesmo começar modestamente – e considerar tudo como um projeto artístico a princípio. No mínimo, se nós pensarmos nisso como um projeto artístico e fizermos meia dúzia (ou uma dúzia) de vezes no total, de maneiras bem modestas, então a gente pega os questionários das pessoas, e poderemos escrever um livro bacana sobre a experiência.
Você pode mandar um email para os seus contatos mais diversos e prováveis (atraentes, interessantes, curiosos) amanhã ou depois?
Eu vou continuar procurando por um local. Me mande outras ideias de local que você tiver.
         Além disso, eu falei com Bem sobre o contrato. Me mande qualquer observação sobre o que deve ter no contrato. Se tem algum parágrafo que você quiser incluir, me mande igualmente.
         Eu preferi não revelar a taxa de participação por enquanto. Eu acho que melhor a gente ver quantas pessoas estariam realmente interessadas na proposta mesmo – quantos contatos a gente recebe – antes de estabelecer um preço. Se três pessoas nos mandarem o email, não dá para fazer de qualquer jeito. Eu espero que você não ache que isso vai soar suspeito para as pessoas que receberem esta mensagem. Acho que a gente precisa apurar o nível de entusiasmo primeiro.
Meu amigo Matt MacFadzean respondeu assim:
         “Eu vou repassar isso, e meio que fazer uma tentativa, mas a não ser que a pessoa fosse bonita e interessante, parece completamente infernal. Vc vai fazer mesmo isso? Claro que não”.
         Vamos ver o que acontece agora…
         Você está se divertindo em Londres?
Sheila
Olá.
Nós (Sheila Heti e Darren O’Donnell) estamos criando um evento chamado Relacionamentos Arranjados. A proposta é que pessoas solteiras serão unidas uma a outra ao acaso, depois de concordarem contratualmente que vão sair com essa pessoa escolhida ao acaso por um mês. (Mais especificamente, elas vão se comprometer a conversar com essa pessoa todo dia e se encontrar duas vezes na semana. Elas não têm nenhuma obrigação de algo físico e são autorizadas a namorar, sair com outras pessoas).
         Nós estamos escrevendo para pedir por nomes e endereços eletrônicos de pessoas solteiras que você conheça e que sejam mais ou menos desejáveis (razoavelmente gentis, razoavelmente atraentes, razoavelmente inteligentes), que tenham talvez espírito esportivo.
Nós vamos então enviar a essas pessoas um convite genérico para participar – sem dizer quem foi que nos deu o nome delas. (Você pode, é claro, informá-las que as indicou, ou pedir a permissão delas).
         Para o primeiro evento, estamos procurando por heterossexuais entre as idades de 25 e 35 anos (ou perto) que morem em Toronto. Observe-se que há uma taxa de participação (a ser discutida através de correspondência com os interessados em participar).
         O propósito dessa experiência é determinar a grandeza de fator que o elemento da escolha desempenha em nossas insatisfações com relacionamentos. Somos mais tolerantes, ou nos sentimos mais relaxados para curtir a pessoa, quando a escolha é tirada da equação? Nós nos treinamos para ser excessivamente críticos, avaliar o outro muito rápido? Nós não damos oportunidade suficiente para o outro? O que acontece quando se impõe a forma cultural dos casamentos arranjados de culturas não-ocidentais? É possível gostar de um encontro com alguém que você não escolheu? As nossas escolhas são motivadas por desejos pessoais que podem, paradoxalmente, não ser o melhor para o nosso interesse? Se você é forçado/a a passar tempo com alguém, você é capaz de se adaptar e achar alguma coisa em comum? A atração pode se desenvolver de algum modo, se o destino ou o acaso forçar em algum aspecto o contato?
Participantes são obrigados a comparecer a um evento em Janeiro, e um segundo momento em Fevereiro, no qual nós vamos nos reencontrar para ver como foi a experiência de todos. Data e local a combinar.
Por favor, nos envie os endereços eletrônicos de quaisquer homens e mulheres que você pense que nós devemos contatar, incluindo você mesmo/a, se estiver interessado, ou encaminhe este email para eles para que possam entrar em contato diretamente conosco através do arrangeddating@gmail.com.
Muito obrigado,
Sheila and Darren
www.sheilaheti.net
www.mammalian.ca
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foto de Sheila Heti


Clarice Lispector, Correspondência, Sheila Heti


Com que então você não deu bola pro meu pathos? – Dois quartos vazios. Cartas de Ana C. Correspondências Parte 2.
23 de julho de 2013

Voltamos às cartas, com as cartas, voltamos à Ana C. e às correspondências incompletas. Como resistir a alguém que pedia, aos leitores, “Me escrevam cartas”? Aqui, nos deparamos com a pergunta retumbante, com que talvez nos desarme, e que é o eixo do entremeio de seu exercício epistolar, e possível também de seu exercício poético: “por que técnica equaciona com insinceridade? E a minha escrita é de o quê?”. E então observações sobre a caligrafia, o corpo da letra do outro, os restos dos gestos no desenho da palavra.
Há um livro recente sobre a poeta, escrito pelo também poeta Marcos Siscar e publicado na coleção Ciranda de Poesia, da EdUERJ, em que muito lucidamente o autor se propõe a desembaraçar as estratégias de leitura que se depositaram sobre a obra de Ana Cristina ao longo das décadas, não cedendo nem aos que querem-na como César, perdida entre marginais, nem aos que pretendem ver nela uma nova crente da transparência entre linguagem poética e real. Ali, em um momento, ele diz, falando de si, mas talvez como convite tenso para todos nós: “Se eu considerasse minha participação nessa ciranda interrompida como uma carta a Ana C., arriscaria  começá-la assim: ‘Prezada autora, preciso voltas e olhar de novo aqueles dois quartos vazios’”. (Marcos Siscar. Ana Cristina Cesar. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2011).
Olhar para essas cartas com os olhos de quem vê outra vez dois quartos vazios. São quatro cartas no total, três destinatárias – todas datadas de Maio de 1980, quando a poeta se encontrava na Europa, terminando seu Mestrado em Tradução. Elas se voltam em comentários metalinguísticos, em que a própria escrita de cartas se problematiza, às vezes de um ponto de vista de quem escreve, às vezes da entrega de quem lê, de quem se deixa ler. Um ponto suspenso entre a sedução e a provocação.
***
7 de maio de 1980
Helô, minha querida,
Desculpa a demora e o suspense e os cartões enigmáticos e os telefonemas desvairados, mas só agora cheguei mesmo no meu canto e posso escrever direito. Direito mais ou menos, porque hoje tirei um quisto do olho e estou de pirata, com imensas bandagens extravagantes debaixo dos óculos. Lance de hospital público inglês, tantos velhos puxando papos deprimidos, a enfermeira segura sua mão na hora da anestesia, falando banalidades “to cheer you up”, e você sai de um olho só, sem equilíbrio, passantes lançam olhares discretos, leve curtição masoquista, vontade de estar elegantíssima, aprumo o passo e vou ao banco e ao supermercado representando minha própria competência. Caolha.
E foi caolha que me propus a recomeçar. Fiz uma alta sopa de legumes e botei ordem na casa. Mamãe foi embora domingo e eu ainda fiquei uns dias na casa da Mônica (amiga de Maria Elena) botando pra chorar. Pedi para ela descolar uma pessoa tipo apoio-psicoterápico uma-vez-por semana. A história se repete ligeiramente.
Fiquei contente quando soube que minha mãe vinha. Entrei numa de produção, traduzi cinco poemas e meio da Emily Dickinson, com a ideia de transar antologia no Brasil ou mesmo doutorado com o Augusto de Campos, que seria simplesmente isso: poemas traduzidos seguindo-se comentário da tradução.  Escrevi os comentários e ficou pronto o primeiro ensaio para a universidade. Faltam só três e uma tese. Com dois olhos acho que faço. As traduções legaizinhas, com rima e tudo. E a Emily é incrível demais.  Outra ideia é um texto sobre Emily/ Maria Ângela Alvim, que tal? Tipo literatura, que atualmente eu quero é fazer literatura mesmo.
Então foi assim. Conheci um carinha ótimo na véspera da partida, almoçamos em Covent Garden, que é um daqueles lugares que desmentem que Londres é um cemitério; planejei a viagem toda, comprei passagem de ônibus-seajet-ônibus, comprei malinha vermelha de nordestino (made in Tchecoslovakia) e rodinhas; sobretudo planejei não ficar na casa de Beth, porque da outra vez me deu o maior stress, ela não para de falar, nem de receber até seis horas da manhã, nem de seduzir as moças bobas como eu. Um stress mesmo. Ela não para de fazer discurso teórico sobre homens e mulheres (“bofes” e “rachas”) e bichas e sei lá. Ela acha que tem uma coisa chamada “coco” entre as mulheres, que eu e você temos um coco, você e a Carolina, ela e a Maria Clara, a mãe dela e a amiga dela, eu e ela, sei lá. Cheio de coco de mulheres.  E um clima em cima. E eu muito impressionável e stressada. Ouvindo sem parar. Enfim, o que interessa é que dessa vez eu não queria nada disso, ora pombas. Peguei meu ônibus e me hospedei na casa de um casal que mora em Paris. Lá fui eu. Passei uns três dias ótimos lá.  Fui a um cabeleireiro chique, chamado Gérard, ele chegou e disse “je vous écoute”. Eu falei pouco francês ele escutou, escutou (isto é olhou, olhou) e fez um corte incrível, mudou tudo, fiquei com cabelo CURTO, FRANJA, e ainda por cima umas perolazinhas trançadas aqui e ali, um barato. Comprei macacão cor-de-rosa, sapatinho lilás e um batom do St. Laurent rosa choque (n°23), no estojinho de camurça preta, um barato. À noite no apartamento teve até cena de studio  e eles me fotografaram de new look. Quando eu vi estava até ficando bonitinha pra mamãe. Enquanto isso fazia um lindo dia, eu ia passear com a menina por Paris, altos papos ou silêncio na Place de Vôges, de onde aliás te escrevi um cartão postal. Livre de Beth, de mania, de confusão. Quieta, e com aquelas pessoas simpáticas, comendo bem e esperando mamãe. Comprei uma conchette para Nice onde íamos nos encontrar. Transei o hotelzinho no Quartier Latin. Aí o casal foi me levar à gare de noite e tinha um engarrafamento, uma manifestação politica, um encontro de motoqueiros, sei lá, o fato é que eu perdi o trem. Que chatice.  Perdi por dois minutos. Fomos pro bar de Montparnasse beber muito, encontrar gente.  
                                                […]
Dia seguinte, tudo normal. Um pouco de ressaca. Mamãe tinha chegado a Nice, falamos por telefone. Eu ia pegar o trem essa mesma noite. Outro dia lindo.  Tarde no Centro Pompidou, o lugar mais bonito de Paris.
                                                              […]
Recebi notificação do correio para ir buscar uma carta. Era a tua de janeiro, que veio de navio, e eu ainda paguei a diferença. Selagem errada e notícias antigas, detalhes dos Anos 70. Marta e Pedrinho ainda namoram? Hoje chegou cartão dele dizendo que me ama tanto… A tal Grazyna Drabik  é uma polonesa que transa com aquele meu primo que você achou bonito na praia, o Rubem César, lembra? Não conheço.
Gostei da matéria da Veja sobre Impressões. Mas mais ainda de você escapando da gabeirice. Gênio.
Liguei pro Marcos no aniversário, mandei presente, cartão americano, tudo, e ele nada. Dançaram os desejos de casar com quem quer que seja, estou em fase de achar que eu estou desenganada, e além do mais acho que a insegurança do Marcos ia me dar nos nervos. Mas ainda acho que é o melhor partido para mim.
A tua carta sem selagem não dizia nada sobre o João, vai ver qualquer dia eu recebo outras notificações.
Ontem chegou carta atrás do convite das Impressões.  Não recebi o livro mas Maria Elena já tem. Vou lá ver. Recebeu os livrinhos de Paris, e o caderninho?    
Li da barra daí no Le Monde. Li não, minha mãe irradiava para mim enquanto eu delirava num canto onde parecia que não tinha real.
Eu não quero fazer o erro de cálculo da Clara nem virar uma desvairada. E daí?
Planos práticos: vou ficar aqui em Colchester até acabarem as aulas, isto é, final de junho. Aí me mudo se Deus quiser para Portsmouth, onde vou dividir uma casa com dois ingleses. Quero passar o verão à beira-mar escrevendo a tese. Se pintar companhia faço viagem. No meio da loucura de Paris teve uns projetos tipo – vamos para uma praia na Espanha, em Ibiza? Mas nem pensar. Agora acontece o seguinte: se pintar na minha frente eu me jogo de cabeça outra vez.  Tem um drama de uma renúncia que por favor não me diga que é lá trás, mamãe e tal, acting-out.  
Minha passagem de volta acaba em um ano, isto é dia 23 de setembro que foi quando eu embarquei. Aí ou eu volto ou pago a diferença para renovar a passagem. Não quero voltar correndo.  A ideia é essa casinha dar certo, e dar para ficar escrevendo e andando de bicicleta ao máximo. Talvez um empreguinho leve nessa cidade. Queria ir em NY em setembro. E queria desfazer o mito de Paris, está me irritando: toda vez que eu vou lá apronto uma e fico achando aqui um convento. É mesmo, mas será que não dá para entender que me dou bem no convento?
Vagamente tenho o Natal como data da volta. Me chateia um pouco, porque aqui eu tenho uma vida fácil , dinheiro no banco, sossego total, não tem o menor sufoco, fica só a cabeça pendurada. Aí vou ter que despendurar tudo. Tuas cartas me dão a maior força.
Eu imaginei que aqui através de uma série de provas meio heroicas eu ia “entrar nos eixos”, que é mais ou menos parar de ser infeliz de cabecinha pro lado e de esperar com certa esperança que BLISS vai pintar mais cedo ou mais tarde.
Foi essa a minha fantasia de viajar. A fantasia boa.
Voltei pro convento.
Adoro ver televisão, a invasão da embaixada do Irã em todos os detalhes. As homenagens a Hitchock.
Enquanto isso tem um bando se divertindo em Paris, a Cidade-Luz?
Porra, Helô, está difícil. Eu estava tão contentinha quando cheguei, tinha até namorado italiano. Fui pra Paris e me fodi. Me engajo no que posso, vou fazer o diploma, tirar o tampão do olho para ver melhor, ler Katherine Mansfield, cozinhar, ver uns filmes, vamos ver se pintam umas entrevistas, mas porra! Buraco preto. Será que vou dançar na vida? Meu olho vivo tá tapado. O lado de fora bate pouco.
Saiu meu texto no Alguma poesia? Espero que tenha dado para corrigir. Isso ia me consolar.
Espero os livros & cartas.
                                                Milhões de beijos


                                                Ana


P.S. Me manda um contato com o Augusto de Campos (pedido sem a menor convicção).                               
***
14.5.80
Cecil, querida,

Recebi o telegrama dias depois porque estava em Londres com minha mãe. Te liguei e foi a menina que atendeu, ai azar! Será que ela deu o recado? Também mandei minha mãe telefonar e encaminhar a roupinha… E Ana Candida conta que o bebê é lindo, e eu me sinto tão longe, sem poder acompanhar nada. Aumentam aqueles ciúmes (será que ela ainda é minha amiga agora que tem DOIS bebês) que a proximidade e o contato sempre desmentem. […] Para você ver que até de um mundo pro outro os nascimentos batem de todos os lados. Esta carta começou errada, era para ser uma carta para um nascimento, mas minha efusão estava toda no telefonema; me diz uma hora infalível que eu queria falar com você. De resto muita curiosidade, como foi o parto, como o João Luís (agora todo mundo tem que usar dois nomes, como é que vocês estão fazendo?) reagiu, como você está? Tenho a impressão que dois filhos muda tudo, se constitui mais do que nunca uma família, é verdade? Você fica intimada a me contar tudo ou então marcar a tal hora infalível.
Acabo de voltar de uma viagem a França com minha mãe. Foi ótimo encontrar com ela, embora o contato com os amigos de Paris minha cabeça tenha pirado novamente. Paris cruelmente bela como sempre. A volta foi depressiva no começo, ainda mais que mamãe viajou meio doente, mas agora recupero meu espaço, e ainda por cima está fazendo sol e calor pela primeira vez, como se o verão tivesse chegado a 18 graus. As aulas praticamente acabaram e resta escrever trabalhos e teses. Só fiz um (traduções de Emily Dickinson) e estou completamente indolente. Apesar das suas exortações (e da Clara, e da Helô) não vejo em que um 2° mestrado poderia ajudar, a não ser me fortalecer (?) no mercado. Mas nunca pensei em largar tudo. Não sou de largar nada. Pelo contrário, eu precisava aprender a largar mais. Estou simplesmente sem a menor convicção de escrever 3 ensaios e uma tese até dia 30 de setembro. Leio muito e escrevo sem parar um diário íntimo infernal que pode ficar impublicável, o que é uma pena. Aqui me sinto protegida das minhas feras e paixões, quase em recolhimento espiritual. Pouco preparada para sair do convento.
Em Paris, cortei o cabelo num lugar incrível – dançou a permanente, fiquei de franja e pela 1° vez em muitos anos com o cabelo puxado para o curto. As fotos do 2° novo visual estão todas em Paris, e espero que me mandem apesar das complicações.
Refaço aos poucos meus contatos ingleses, tão diferentes dos contatos parisienses. Aqui conto muito menos com essa minha arma letal que é a sedução e que na hora h apesar de tanto tranco entra em ação. Não tenho nenhum caso específico, só transas ocasionais (quase sempre insatisfatórias – acho que é uma boa optar pela abstinência consciente [e me desligar de vez da tal fantasia de que tenho um caso em cada casa, embora achando que nenhum me prende e que no fundo eu prendo a  todos; estou no meio da circunferência e por pensamento mágico  não caio]) e amizades à inglesa.  Tenho dois ou três amigos homens e já sei que é inteligente evitar sexo, embora às vezes as manobras para evitar soltem demais a fantasia, e aí vem uma insatisfação… que coitada eu pensei curar em desvarios em Paris.
Preciso voltar à análise porque tenho uma teimosia de bater pé. “Você não perde por esperar”, diz a teimosia quando acho que estou quieta no verão inglês.
Planos imediatos: andar de bicicleta diariamente até fins de junho, quando me mudo para Portsmouth, à beira-mar, facing France. Vou dividir uma casa grande com dois rapazes – Mike, com quem me retraí sexualmente, e como ele é tímido e “sempre de bom humor”, sabe o tipo?, nossa amizade não foi abalada, e com um amigo dele muito simpático, que escreveu um livro sobre rock. Quero curtir a casa, escrever o que puder, nem que seja literatura (queria tanto poder soltar e escrever pra caralho), ir à praia e, se pintar, fazer pequenas viagens, mas Europa acho que não porque no verão é chato. Minha passagem de volta perde o valor dia 23 de setembro. Se tiver dinheiro renovo, e aí prolongo ao máximo isso tudo aqui que ainda não vi bem o que é. Quanto à volta… pinta esse ano mas ainda não quero pensar.
Vou tentar trabalhar um pouco, estou vadiando a horas. Fico aguardando notícias, e RETRATOS. Muitos beijos no João Luís, no João Pedro, no Gelson. Pra você, com carinho especial.

Much love,


Ana
  
***
28.5.80
Helô, querida,

Recebi o Café com letra e fiquei puta sim, com que então você não deu bola pro meu pathos? Só tem um jeito, da próxima vez mando uma carta muito mais bem escrita pra você ficar arregalada de horror. Eu me derramando por páginas sem fim e você me rabiscando um mísero bilhete atrás do Café com letra. Derramando não, porque lá tinha um narrador calando comentários, mas acontece que a técnica não é de propósito, já incorporou, e por que técnica equaciona com insinceridade? E a minha escrita é de o quê?  (Ainda por cima sua caligrafia está piorando.) Você tem que entender uma coisa, eu estou aqui, sem muita ocupação, e tenho um ritmo na cabeça que fica falando e não me deixa adormecer, então o jeito é escrever, estou completamente numa, adoro papel e tinta, o que é que eu posso fazer? Confesso que ao reler aquela carta, na qual espero que você tenha tocado fogo, publicar só dando nome aos bois, eu tive second thoughts as well, aquela vaga allofness do narrador parecia de propósito, eu até previ que ia te irritar um pouco, logo você que me escreve cartas no calor da hora, mas embora eu seja melhor na premeditação (daí não dormir bem) do que no improviso, juro que foi de verdade etc. etc. e você mesmo já aconteceu de narrar um pathos e a tua “fala” era de (não entendi a palavra), ficava ágil e engraçada, mas não tinha sido de verdade?! É que na hora de contar, a hora de contar, ficar contando já era um jeito de destramar o sufoco, às vezes só o interlocutor percebia isso…
Dessa vez sou eu que estou passando dos limites. Pra dizer a verdade eu não fiquei puta, eu fiquei rindo à toa com o seu bilhete; quando eu te liguei a % de aflição estava alta e quando eu me propus a te escrever e contar “tudo” (?) também, mas eu errei quando dei a entender que era uma confusão; eu errei não, você percebeu meio profeticamente (não sei nem como te dizer isso, mas você sem dar a entender está ficando tipo sábia, and softer, ou então eu é que não tinha percebido? Juro que tem um pique novo, tipo “síntese”, eu menos dramática do que dou a entender, você menos desatenta – acho o contrário que v. presta uma atenção danada -, uma coisa que vai ficando quieta e começa a transar totalidades, e às vezes dá uma fragilização e tudo) qual foi a minha viagem. Eu fui fazer uma viagem. Te liguei na hora da volta no improviso, sob os olhares condescendentes. Eu voltei e ficava chorando, cozinhava e chorava , estudava e chorava etc. e tenho que confessar que era bom, não interrompia nada e ia saindo. Depois bateu um verão inglês. Eu ia pro Hole in the Wall, que é um pub com varanda numa muralha romana, e ficava tomando shandy e sol com bronzeador francês bem caro e peguei uma cor e sardas numa semana. Saía de bicicleta e fazia uns programas com ingleses, teve até uma casa no countryside, Campari e Ray Charles na beira da piscina, um espanto de praia com ventania em Portsmouth e uma infinidade de pubsmais ou menos decorados. Escrevia umas coisas que eu estava adorando (eu quero fazer prosa, contar histórias, sintaxes coleantes, “Going-to-her!/ Happy- letter! Tell her-/ Tell her- the page I never wrote! / Tell her, I only said the syntax – / And left the Verb and the Pronoun – out!” –  Emily Dickinson). Tem uma coisa meio decadente, um ritmo narcisista com ironia sacaneando o pathos, Sylvia Plath é muito bom mas sai, azar! And please não fica puta porque eu fico fazendo literatura, cartas inclusive; eu lembro de você falando e dava um efeito parecido , será que ela gosta de mim com todo aquele estilo?  “Escreve devagar e conta a vidinha tipo dia a dia e os projetos de volta…”. Eu estava fazendo um esforço de dia a dia! Enjoada desses papos de sintaxe! Artifícios decadentes até nas minhas cartinhas! (E um júbilo meio escolar também)
Outra vez passando dos limites. Se eu estivesse em pessoa você me dizia assim na cara? Food for thoughts. Também te adoro. E não estou com falta de ar nenhuma. 
Entrei numa de trabalho involuntário, já escrevi 2 essays e encaminhei meia tese (K. Mansfield). Estou me divertindo muito fazendo tradução, fico absorvida e feliz. Estou meio que namorando o inglês que mora no andar de baixo, é tipo lindo & rough, e como estava cada um pro seu lado e vai cada um pro seu lado o namoro é tipo brinde, finge que não é namoro, curamos anomias mútuas. Desde que eu me ocupe… Entendo também que Paris pintou no auge da desocupação, e além do mais com uma puta margem de segurança. Minha curiosidade recuou outras vezes em situações sem essa boa margem. Já pensou não poder tirar o cavalinho da chuva em seguida, chorar, inventar ocupações interessantes, escrever cartas, enfeitar, deixar de ficar chata? Fui e voltei, pronto. Não sei se tenho que entrar outra vez nesse barato, que está aqui domesticado mas que eu imagino que está em Paris pronto pra me devorar; tudo depende das ocupações da vida. O fato é que estou me sentindo mais interessada em ficar ocupada. E você está com tudo de transar a mil (desde que não dê muito cansaço – nem encurte as cartas!) Por uma estranha coincidência uma amiga inglesa legal, a Shirley, se enrolou  numa transação semelhante e vamos  para o pub  conversar  (mania de shandy, cerveja com soda limonada dessas de gás) e você tem toda razão, eu sei onde tenho o nariz. Fiquei sacaneando no início da carta mas vê se discrimina. É sério que muito estilo é esquisito, dá uma aflição, but you know better.   
Vou jantar em grande estilo num jointtransado em Covent Garden no aniversário. Amigos ingleses legais. Maria Elena já anda ocupada demais, tenho timidez. E você, traduziu a Antonieta? Já que você não manda, quero ver na volta o portfolio de recortes, quê que tem? Aliás a M. Elena disse uma coisa engraçada, que eu tenho mais é que fazer + análise  porque fico batendo o pé que nem criança. Ela também disse que eu entrei “de gaiato” no meio de 2  com tara por 3, mas ainda não admiti muito porque desenfeita. E ela diz que o meu problema é que eu enfeito, quando você… Vê se escreve devagar, porra!


                               Beijos, beijos

                              Ana
***
                                                                                                                                           29.05.80
        
         Candida, darling,

Tua carta me consola, me aquece, sinto uma paz e não quero dizer nada, quero ficar quieta com esse calor e mais nada. Te sinto perto e terna. As teorias recuam, assim como uma sintaxe meio delirante que às vezes me ataca a cabeça em mania. Fico horas no meu quarto e gostando inventando coisas para fazer. Entrei numa de literatura, é o meu brinquedo. Depois da Emily Dickinson, estou em fase Katherine Mansfield, leio tudo, inclusive biografias ordinárias (que leio arrepiada, I must confess que para dizer a verdade estou achando cartas e biografias mais arrepiantes que a literatura) e fico sonhando com essa personagem. Também escrevo um caderno, quero fazer um livro que é prosa, que é quase um diário, que conta grandes coisas se passando nos quartinhos. Penso em Grécia incessantemente, e como por destino caiu nas minhas mãos a poesia de Cavafis, numa bonita tradução espanhola. Vou à Grécia sim, mas não antes e sim depois da invasão turística. Medito na paixão que não está doendo. Não estou com pudor de virar uma “literata” porque é assim que afago e cuido da paixão. Sendo assim não vou ficar “literata”.  Muitos sentimentos passaram, acho que talvez o que mais incomode, porque é muito insinuante, seja uma certa vergonha de perder o controle sobre o desespero. Escrevi uma carta rasgada para […] e não tive resposta.  Depois de 3 semanas passei dias elaborando um cartão que aliviasse o meu pathos. Agora não estou derramando, esse pathos é meu, e sinto que fiz uma viagem e voltei. Entrei numa do tal título, estou fazendo os trabalhos sem sofrimento, é muito bom ficar ocupada – a não ser que faça sol, mas esse recuou por uns dias. Às vezes tenho grandes ânsias de outras terras, mas não gosto de viajar para nowhere sem ninguém à vista. Estou transando leve com o Chris de quem reclamei. Aliás não era dele que eu devia  estar reclamando e sim da minha depressão, meu corpo querendo outra coisa. Estamos transando leve, moramos na mesma casa. Ele é bonito como um Apolo e tem duas coisas que gosto num homem, uma certa brutalidade, uma franqueza que me dá a segurança de eu poder dizer o que me passa na cabeça , e um gosto pela sacanagem, um olho sacana, uma coisa meio devassa. O mais engraçado é que tudo isso era absolutamente insuspeitado, me espanto. Mas de leve. Estávamos cada um pro seu lado, em andares diferentes, e naturalmente vamos cada um pro seu lado, esse é um pressuposto de leveza.
Cato no Time Out o filme de Fassbinder, não está passando e eu queria tanto ver. Só quero ver e ler e escrever sobre paixão. Tenho medo de voltar porque no meu quarto invento um cotidiano literário e sei que no Rio não vou ter esse espaço. Decidi ficar até o último tostão, prolongar ao máximo, renovar minha passagem por mais um ano. Ainda tenho pena de queimar 800 libras no título universitário. Mas estou num momento bom pra fazer trabalhos, me sentindo nada universitária, mas sem nenhum horror específico.
Me emocionou também você botar o Drummond pra mim, como quem  bota cartas, sabendo, sem explicar. Gostei, de novo, muito do poema. E pedaços de Fernando Pessoa. Ficou comigo. Li e reli sua carta, os detalhes que não comento aqui, a mudança e o curso. Você está comigo. Conta da vida. Beijos
Dia seguinte, biblioteca da universidade:
Acabo de ler uma das biografias da KM, escrita por LM, her wife, e tenho diante de mim outros pontos de vista, o journal, and of course, a correspondência. Esqueci os contos for the time being, uma coisa muito construída. Comento episódios com a Shirley e ela me diz se eu não acho meio obscena essa publicação de todas as intimidades de alguém, a escrita íntima que não é produzida para a reprodução industrial e o leitor desconhecido. Mas eu estou fascinada pelo conflito entre as versões, e pelo conflito entre as cartas de KM para diferentes interlocutores, e pela tentativa de fazer da literatura um lugar menos obsceno que toda essa aparente confusão da verdade – higher up. Sei que alguns modernos já brincaram com isso, as várias versões por onde se filtra ou escapa a verdade, os mosaicos e focos narrativos da vida, mas não é nesse sentido quase teórico, para estudante de literatura. Entendo quando o Borges diz que imagina o paraíso como uma biblioteca infinita, mas como uma biblioteca emocional, e não como um blefe de erudito.  Queria eliminar todo ranço de teoria. A psicanálise tem de ser um discurso que bate e silencia como pedra no lago. As interpretações pedem um silêncio como você sentiu tão bem.  Por um momento não posso suportar a “Teoria da Literatura”, nem as amigas de Londres que discutem o psiquismo na mesa de jantar. Uma coisa improvisada, talvez imprevista, que toma jeito nas cartas. Aquelas coisas metalinguísticas, delírios de Derrida que a escritura jaz lá desamparada, me revoltam, ou não interessam mais.          
             
(Ana Cristina César. Correspondência incompleta / Ana C.: organização: Armando Freitas Filho e Heloisa Buarque de Hollanda – Rio de Janeiro: Aeroplano, 1999).

Ana Cristina Cesar, Correspondência


Correspondências – Jogos de Cartas, Cartas de Viagens. Parte 1.
2 de julho de 2013

 “Escrever cartas é mais misterioso do que se pensa. Na prática da correspondência pessoal, supostamente é tudo muito simples. Não há um narrador fictício, nem lugar para fingimentos literários, nem para o domínio imperioso das palavras. Diante do papel fino da carta, seríamos nós mesmos, com toda a possível sinceridade verbal: o eu da carta corresponderia, por princípio, ao eu ‘verdadeiro’, à espera de correspondente réplica. No entanto, quem se debruçar sobre essa prática perceberá as suas tortuosidades. A limpidez de sinceridade nos engana, como engana a superfície tranquila do eu
Ana C., em Escritos no Rio.
Conhecemos o perfil típico do personagem – o antologista de cartas. Algo devasso e espalhafatoso, mas também tímido e (quase) um perverso, um erudito. Ali, quando o voyeur encontra quem estuda textos, textualidades diversas. Temos cá conosco uma dessas figuras, organizou o making of da revista e sempre está à cata de cartas (enviadas, ou não, guardadas em envelope para nunca conhecer os correios), e-mails, mensagens de celular, mensagens trocadas em redes sociais. Vai acumulando, cruzando com outras cartas de outras pessoas para outras que nunca conhecemos, que só ouvimos falar bem depois de já terem ido. Hoje, inauguramos um espaço de correspondências diversas, de correspondências incompletas com o que ele separou como ‘cartas de viagens’. Há uma de Mário para Bandeira sobre uma travessia pelo Norte do Brasil, e uma do Daniel Massa (para quem?), em que ele registra em forma de diário (e aqui só vai a primeira parte do diário) um Mochilão pelo Marrocos. O antologista de cartas, como se sabe, é um curtidor, matreiro sabido, porque saca que, em toda carta, o que há é matéria-prima para outros escritos, e quem sabe, outras cartas.
***
De Mário de Andrade para Manuel Bandeira.
Por êsse mundo de aguas – VI – 27
Manú
         Estamos numa paradinha para cortar canarana da margem pros bois dos nossos jantares. Amanhã se chega a Manaus e não sei que mais coisas bonitas enxergarei por êste mundo de aguas. Porêm me conquistar mesmo a ponto de ficar doendo no desejo, só Belem me conquistou assim. Meu unico ideal de agora em diante é passar uns meses morando no Grande Hotel de Belem. O direito de sentar naquele terrasse em frente das mangueiras tapando o teatro da Paz, sentar sem mais nada, chupitando um sorvete de cupuassú, de assaí, você que conhece mundo, conhece coisa milhor que isso, Manú? Me parece impossível. Olha que tenho visto bem coisas estupendas. Vi o Rio em todas as horas e lugares, vi a Tijuca e a Sta. Tereza de você, vi a queda da Serra para Santos, vi a tarde de sinos em Ouro Preto e vejo agorinha mesmo a manhã mais linda do Amazonas. Nada disso, que lembro com saudades e que me extasia sempre ver, nada desejo rever como uma precisão absoluta fatalizada do meu organismo inteirinho. Porêm Belem eu desejo com dor, desejo como se deseja sexualmente, palavra. Não tenho medo de parecer anormal pra você, por isso que conto esta confissão exquisita mas verdadeira que faço de vida sexual e vida em Belem. Quero Belem como se quer um amor. É inconcebivel o amor que Belem despertou em mim. E como já falei, sentar de linho branco depois da chuva na terrasse do Grande Hotel, e tragar o sorvete, sem vontade, isso me dá um gôso incontestavelmente realização de amor de tão sexual.
         Quanto a êste mundo de aguas é o que não se imagina. A gente pode ler toda a literatura provocada por êle e ver todas as fotografias que ele revelou, si não viu, não pode perceber o que é. A gente já sabe da monotonia porêm monotonia á palavra mais estupida do mundo. Tem monotonias insuportaveis e tem monotonias que a gente não se cansa de gosar. Assim esta do Amazonas. Tem uma variedade prodigiosa si a gente põe reparo nela. E si não põe e se deixa prender por ela então é uma gostosura niilisante como não se pode imaginar outra, é sublime. Aliás ela tem sido bem relativa porquê o Amazonas vai sendo camarada conosco, mostrando tudo o que possui, jacarés, até o morto descendo o rio e com barriga estufada pra riba, bandos de garças de duzentas e mais, toda a passarada do museu Goeldi, todos os geitos de tardes, de noites, de manhãs e meios-dias, e todos os peixes e frutas pro nosso paladar. Não sei si já contei pra você que o por aqui vou bancando o jornalista celebre. Fazem tudo por nos agradar é lógico que por causa de Dona Olivia e eu passo por homem ilustre e grande inteligencia aí do sul. Só vendo quanta amabilidade e quanta coisa preparada só prá gente. Navegamos no mel. Si não fosse a cacetada dos protocolos oficiais, palavra que não faltava nada pra isto ser uma paraizo pra mim. Imagine porêm que até um discurso de improviso tive de fazer, respondendo a uma saudação do Dionisio Bentes, presidente do Pará! Sou incapaz de improvisar. Falei um quarto de duzia de coisas familiares e me assentei tremendo feito bobo. Pelos asneira creio que não saiu nenhuma não!
         Vou tomando umas notinhas porêm estou imaginando que viagem não produzirá nada não. A gente percebe quando sairá alguma coisa do que vai sentindo. Desta vez não percebo nada. O extase vai me abatendo cada vez mais. Me entreguei com uma volupia que nunca possuí á contemplação destas coisas, e não tenho por isso o minimo controle sobre mim mesmo. A inteligência não ha meios de reagir nem aquele poucadinho necessario pra realizar em dados ou em bases de consciencia o que os sentidos vão recebendo. Estou gazlich animalizado me observo porquê não encontro aquela clarividencia discrecionaria que pra uso pessoal sempre conservei, mesmo nos momentos de maior prazer. O batimento intelectual é quasi que completo. Vivo de arrastão numa vida de pura sensibilidade. O gôso que passa morre sem comparação sem critica nem mesmo posterior, estou quase irracional. Aliás esta carta bestissima prova isso mais que qualquer afirmativa minha.
         Amanhã chegamos em Manaus. A merda dos protocolos vai recomeçar. Felizmente que somos decididos e sabemos não nos prender nem nos prejudicar com isso. e creio que não te escrevo mais. Esta carta está me deixando numa tristeza que você não imagina. Estou besta. Enquanto a festeira durar vou ficar quietinho sem pegar no lápis mais.
         Um abraço do
MARIO.
***
De Daniel Massa para ?
26 ou 27 de fevereiro de 2013
Atravesso o Marrocos a bordo de um trem noturno. Divido o vagão com quatro pessoas. Há um homem na cama abaixo da minha. Sonhei com um diálogo entre o homem e o funcionário do trem. Ele pedia para ser acordado na estação de Rabat. O funcionário dizia que não era possível ajudá-lo, indicou o tempo médio do percurso até a cidade e sugeriu que ele colocasse o celular para despertar.
O árabe rasgava o meu ouvido, mas eu podia entender cada palavra que eles disseram. Em algum momento, eu havia me tornado fluente na língua.
Acordei no meio da madrugada com um despertador. O homem desceu. Pela janela, eu conheci Rabat.
*
Há muita coisa em minha cabeça agora. Não sei direito que horas são.
Mais cedo, presenciei um cortejo fúnebre na Medina de Tânger. Trinta homens se revezavam para carregar um caixão que era erguido acima da cabeça de todos eles. Em nada se parecia com os cortejos de minha infância em Saquarema. Marchavam como se coreografados, eram soldados de uma guerra suja qualquer.
Gritavam palavras de ordem, uma oração que parecia amaldiçoar a deus.
Somos todos soldados de uma guerra já perdida.
Se vamos ser derrotados, que ao menos cuspamos no chão e deixemos claro o nosso desagrado.
Atravesso a mim mesmo a bordo de um trem noturno.
27 de fevereiro de 2013
Jamma El Fna.
            Repito por três vezes enquanto o taxista corrige a minha pronúncia.
            Quando me vejo na praça, tudo se apaga.
            Homens se misturam a macacos e a cobras e a laranjas e a barracas e a barracas e a homens e a bicicletas e a motocicletas. São milhares de motocicletas.
            Não há pobres na Medina. Não há ricos na Medina.
            Todas as normas de segurança do código de trânsito se resumem a uma:
            – Encontre espaço.
            Todas as orientações de higiene da vigilância sanitária se fazem uma:
            – Experimente.
            Eu durmo cheio.
28 de fevereiro de 2013
E foi assim que me apaixonei à segunda vista.
            Você não pode se perder se não há um destino te esperando.
            E eu flanei por todos os becos da Medina de Marrakech. Bailei entre motocicletas, me deixei tocar por árabes, judeus, turistas, pessoas, paredes.
            Há qualquer coisa de ordem no caos.
1 de março de 2013
Você desce para cima nas montanhas do Alto Atlas. Por mais que o ônibus insistentemente cisme em se jogar estrada abaixo, há sempre um novo abismo que se mostra após cada curva.
            Me canso e durmo.
            *
Em Aït-Ben-Haddou eu volto dez vidas. Haverá num passado distante uma reencarnação que tenha me feito berbere.
            Deixo um pedaço aqui.
2 de março de 2013
As montanhas agora são dunas e onde havia cinza vejo apenas vermelho.
            Tudo que é sólido desmancha no ar. E o Marrocos se esfarela pela janela.
            *
Caminho duas horas sobre o deserto em companhia de um camelo.
            Meu companheiro mastiga algum resto de comida durante a viagem. Eu rumino qualquer coisa que já não é mais. Se houvesse um espelho, talvez eu pudesse me ver espumar como ele. Mas o que tenho na boca é intragável e não me alimenta mais.
            Cuspo.
            O sol some por trás das dunas.
            *
Omar nasceu no Saara. Fala a língua berbere, inglês, francês, árabe e um pouquinho de espanhol.
            Omar não gosta de cidades grandes. Quando precisa ir a Marrakech, amarra um elástico no deserto para puxá-lo de volta.
            Omar não ama o mar.
            Quando Omar ri nasce uma flor no deserto. Nessa noite ele quase sorriu e eu pude ver alguma coisa verde no meio da areia.
*

O melhor do Saara é mijar sob as estrelas e sentir o vento gelado do deserto beijar a cabeça do seu pau.

Correspondência, Daniel Massa, Mário de Andrade