Danielle Magalhães por Bruna Mitrano: da força da falta
27 de dezembro de 2017

Convidamos alguns poetas próximos (isso era importante) pedindo uma antologia (uns dez poemas) + um pequeno texto de apresentação de um outro poeta.

Em parte um exercício de escuta critica, em parte um interesse pelo gesto/papel do antologista e toda problemática que isso apresenta. Queríamos uma leitura interesseira e interessada dos poetas antologizados. sem o disfarce do distanciamento ou desinteresse crítico.

Diz o dito que quando pedro fala de chico sabemos mais de pedro que de chico. sendo assim essa série serve de um duplo retrato. antologizado e antologista (um refletido no olho do outro).

Encerrando a série, Bruna Mitrano apresenta Danielle Magalhães

 


 

“da força da falta”, a poesia de danielle magalhães – por Bruna Mitrano

sonhei que a dani dizia a grécia é logo ali

a dani foi à grécia e publicou no facebook uma ‘carta aos gregos’ que é uma carta à mãe

porque menos interessa os gregos ‘entre o céu e as ruínas’

eu quis te dizer
mãe
a Grécia existe
e seria lindo se você a visse
por um momento
[…]

me senti a mãe da dani e chorei

se a dani diz que a grécia existe, eu acredito

porque é o telefone da dani que está na minha ficha médica porque a dani sabe d‘a potência de não doer sozinha’ porque a dani vê que vivemos e morremos nos vãos e que viver ou morrer é permanecer em dívida por

que a ‘abolição nunca chegou a osório’ por
que mães não chegaremos à grécia

a dani sabe a dani vê a dani está
‘tentando lidar com […] limites’
quando muitos desacreditam deles e do corpo

porque a dani é toda corpo porque a dani deixa beijar só o canto da boca : ‘se eu não lhe dissesse não’

porque a dani escuta porque a dani escuta as respostas porque a dani escuta as respostas como poemas porque resposta ou poema tanto faz

porque a dani cansa do que sempre acontece

agora eu não peço perdão
agora eu te respondo sim

não pede perdão, dani. tempesta ‘canivetes na cabeça’ com seus poemas de desejo gozo vida ‘[…] escorre/ em deslocamento todas as vozes tateando’

poemas da dimensão do inalcançável. ‘[…] sem palavras/ a língua apenas um acenar da impossibilidade’

porque a grécia, sabemos, não é logo ali.

***

Poemas de Danielle Magalhães

 

 

CARTA AOS GREGOS

entre o céu e as ruínas
eu quis te dizer
mãe
a Grécia existe
e seria lindo se você a visse
por um momento
tenho vontade de antecipar meu desejo
de morar fora
só pra que você possa ficar mais perto
da possibilidade de ficar fora
uma vez na vida um dia
ver um pouco do resto do mundo
entre o céu e as ruínas
eu quis te dizer
existe uma sensação de possibilidade
que me invade só de ver
com as próprias pernas
que o mundo é grande mesmo
entre o céu e as ruínas
a vida é possível de muitas formas mas
não sabemos das mãos
que um dia construíram
todos esses vasos gregos
só sei das facilidades que me fazem
poder estar aqui entre o céu
e as ruínas
só sei das dificuldades que te impossibilitam
desde sempre estar aqui
te coloco onde você não está
e não é sem culpa que me vejo
aqui onde você deveria estar
ao meu lado
entre o céu e as ruínas
eu te contaria da vitória de Atená
sobre Poseidon
e juntas riríamos dos pirus
que faltam
nas branquíssimas estátuas
de mármore só há ausência
no corpo dos homens
a ruína também é a sua história
que não foi contada
aos gregos
eu diria de uma tal mortal
brasileira os deuses não sabem
da nossa história os deuses não sabem
dos restos das ruínas da sua vida eles nem sabem
que essa coisa de viajar é super recente
para os brasileiros nunca houve muita saída
só foi a partir dos últimos anos para cá
que brasileiros começaram a viajar
entre o céu e as ruínas eu só posso estar
por uma série de facilidades
que minha mãe nunca teve
agora eu só consigo falar mãe
entre o céu e as ruínas
é difícil sem você mas
escrevo a nossa história
onde ela não está

 

***

ESTAÇÃO TERMINAL

1. supervia

quando você vai de trem
logo de manhã você acaba sabendo
que o espaço mais digno de viver
e de morrer ali
entre o centro e a piedade
entre santa cruz e o centro
o espaço mais digno que resta
para viver e para morrer
é o vão
entre o trem
e a plataforma

2. funeral

não ter dinheiro para enterrar
um ente querido
e parcelar o funeral
na falta de um plano de morte
o que chamam de seguro
de vida é uma das mortes
mais indignas viver a prazo
não tá fácil pra ninguém
morrer é melhor
que ninguém morra
na dúvida dá na mesma
merda viver ou morrer
é permanecer
em dívida

***

SUBURBANA

a abolição nunca chegou a osório
o general depois marechal o herói
do exército imperial
lá nos mil e oitocentos e
hoje mais um
dos imperecíveis heróis
a cavalo
sentado nas praças públicas no rio
do centro à zona sul monumental
e cativo demais para chegar à avenida
suburbana agora
já antiga extinta salva
por dom hélder câmara
da origem por onde chegam os pilares
do norte dessa cidade
até a piedade que ironia
os nomes do eixo do caminho
antigo imperial hoje
o prefeito diz caminho troncal
é sem pernas nem braços dizemos
salvos pelo esquecimento
dos troncos dos engenhos os pilares
insustentáveis mãos amputadas
não mais alcançam
nem a praça
de onde o cavalo de osório continua avistando a praia
agora salva
da abolição que antes chegava
à ipanema depois de um caminho
longo até o ponto
final
do 457
que não chegará mais

 

***

MEIA BOCA

comigo não tem essa coisa
de que comigo não tem
tempo ruim:
se o céu não está azul,
algo aqui dentro vive menos
tempo. essa coisa de sempre ter que
fazer acontecer me cansa
como me cansa o que sempre
acontece é que preciso da força da falta
de chuva caindo como um tapete
sob os meus pés. não sou de sair dançando
com canivetes na minha cabeça,
não. essa coisa de sorrir mesmo
assim, me faz ter mais preguiça
dessa vida que desde sempre foi mais
ou menos.
por isso, beije só um canto da minha boca,
que a outra metade é a que eu mastigo o resto.

 

***

FIZ DAS TUAS PALAVRAS UNS VERSOS

afinal se há potência
no verso a poesia tem que ser lida
vagarosamente e repetidas vezes creio ainda
não ter lido o suficiente mas
não quero tardar em dizer algo
já que sempre
pode ser tarde
se cada verso tem sua potência
cada verso pede
um longo suspiro para que se chegue ao fim
ainda com algum ar
como pode saber do mundo doer
mais que um derrame pleural seja lá o que isso significar
além de muita dor
essa semana li uma frase
se não foi um verso
tem potência de sê-lo
se caímos dos paraísos
ainda podemos erguer
nossos paraísos fugazes
a potência de não doer sozinho
mas me sinto árido como se dentro de mim houvesse
cada vez mais areia e nenhum oásis
a vida está se esvaindo
de mim eu desastrosamente corro
atrás dela como se a sua fuga não fosse
meu próprio correr
eu nem sei bem
se estou pensando
estou muito enjoado
escrevo coisas que gosto mas
não quero postar no facebook
preciso ir
a um lugar
onde eu possa ler
isso
fui ao cinema ver um filme
era um drama
e as pessoas riam
minha amiga é isso
por hoje
o jeito é continuar
dando potência
para juntos continuarmos
na potência dos dois dedos
ou seja
dando verso à prosa
da vida

 

***

FICA AQUI O MEU DESEJO

eu poderia responder a uma esposa
mas escolho responder a uma amiga
eu poderia responder com um eu te amo
mas escolho te escrever
um poema eu poderia não
te responder com um poema
mas escolho te responder com um poema
porque escutei a tua resposta
como um poema
fica aqui o meu desejo
de chegar a você
mesmo achando que isso poderia não ser
chamado de poema porque para mim tanto faz
o poema ou uma resposta qualquer tanto faz
se uma resposta qualquer é um poema ou se um poema
é uma resposta qualquer eu acho mesmo que
um poema só pode ser qualquer
resposta se ele for um apelo como a sua resposta
se ele não for uma resposta mas um endereçamento
se ele não souber responder como a sua resposta
o poema te aceita se você for funda ou rasa
se você for banal ou efêmera
se você for contida ou transbordante
se você estiver sentada
tomando um sorvete
ou pendurada em uma gota d’água
em um dia de sol convulsionando
ou pedalando tanto faz o poema
aceita qualquer merda na alegria e na tristeza
na saúde e na doença o poema aceita o seu estar sempre
junto e o meu estar separado sempre
eu poderia te responder poemas
são o meu modo de viver
poemas me acolhem mais poemas me aceitam mais
talvez porque eu me aceite mais e me acolha mais
quando eu escrevo talvez porque eu te aceite mais
e te acolha mais quando eu escrevo talvez porque
eu aceito mais a vida e acolho mais a vida
quando eu escrevo poemas talvez eu consiga dizer mais
a você do que todas as vezes em que estive com você
tentando lidar com as nossas diferenças
e com os nossos limites
tentando lidar com os meus limites
na gota d’água tentando lidar com os seus limites
no fundo diante do raso da minha gota
diante dos meus limites o poema diz sim
diz não diz até talvez
diante dos seus limites o poema pode dizer qualquer
merda tanto faz o poema acolhe qualquer
diferença qualquer limite o seu diante do meu o meu
diante do seu é por isso que eu escolho a merda
do poema para lidar com a merda
dos meus limites para lidar com a merda
dos seus limites para lidar com a merda
e com a vida das diferenças e dos limites
em uma bola de sorvete
ou em uma gota d’ água eu escolho o poema
para lidar com a vida
da forma que eu consigo
gozar mais
às vezes eu peço perdão por isso
mas agora eu não quero pedir perdão
eu poderia pedir perdão como já escrevi
em um poema peço perdão se o poema
é a minha forma de pedir perdão
quando na verdade deveria ser mais uma forma
de convivência
talvez o perdão
seja a falta e a vontade
de um doar
permanentemente
per-doar
na impossibilidade de doar
perdoar-se
mas agora não
agora eu não peço perdão
agora eu te respondo sim
o poema me faz
amar
mais
o poema me faz eu me amar mais
sim o poema me faz
eu te amar mais
aceitando e acolhendo
com o poema eu gozo mais
e isso também é dizer sim
à vida

 

***

AMÉLIA

como quem não precisa segurar a mão
da mãe para conseguir dormir
como quem não acorda sobressaltado
porque vê que está sozinho
como quem empunha a segurança
no canivete que carrega no bolso
como quem empunha
a marra no andar
impondo na cara
de cara o que eu gosto em você
é o meu contrário
portando a guerra na cara
como defesa
pela culpa de ter nascido
como um filho de uma puta
que pela ironia da vida se chama amélia
a submetida
por você a mendigar
pelo perdão que ela não te deve
por não ter conseguido ser sua mãe
nem quando finalmente tentou
aceitar você com sangue nos olhos
como quem encara qualquer discussão como uma batalha
mortal como quem se defende a vida inteira
da madrasta que nunca te aceitou
e que você sem saber chamava de mãe
sem saber por que
ela te chamava de problemático
sem saber por que ela maltratava
só a você e não as meninas até que
as forças agressivas se formam nas narinas
nos olhos nas mãos nos músculos
a romper a brigar a gritar a socar
até o limite até às últimas consequências até
o golpe final
até que a única mulher que preste
neste mundo seja sua avó
mãe do seu pai seu herói
que te chamou de filho sabendo
que você não era proveniente de um espermatozoide dele
cuja mãe nunca soube do seu segredo
e morreu sem saber
te criando livre e solto te amando
como o varão da casa
o neto mais querido mais prestativo
o neto predileto da vovó
o único homem
dentre tantas mulheres
que também te rejeitaram quando souberam
que o ranzinza o briguento o encrenqueiro
o marrento o problemático
era dispensável
como a culpa que você carrega
como a violência que você compensa
a culpa que você carrega
e traz na violência repetida
em cada final exaustivo de nossas brigas
até que não nos reste mais nenhum fôlego
até que não saibamos mais o motivo inicial da briga
que se finda com a culpa
a culpa é sua
a culpa é sempre essa
que chega no final
a culpa é o que sobra
do passado engasgado que lateja nas suas têmporas
em todas as noites de insônia
que lateja nas suas narinas
nos seus dentes todas as partes do seu corpo
um dia só existiram na força bruta
e magnificente de doses de cocaína
a sensação doentia de se sentir autossuficiente
você continua poderoso suficientemente
seguro suficientemente forte
suficientemente tudo que ninguém é
suficiente só a culpa que extrapola
e que deveria ser a primeira a ser cuspida
como a culpa que eu não devo ter
se eu conseguir aceitar que o que eu gosto em mim
com você é acreditar que minha mão iria te salvar
de você mas eu estaria me condenando
se eu não lhe dissesse não
só por uma segurança que eu nunca tive
só pela mãe que aparento ser
só pela amélia não vagabunda que aparento ser
só pela fragilidade
que tenho que sou que aparento ter
se eu não lhe dissesse não
se eu não lhe dissesse que não quero ficar com você
só porque você é viril assim seguro assim
forte assim a puta que te pariu assim
tudo que na cara de cara eu não sou
então eu não poderia recomeçar comigo mesma
agora é a hora da batalha final

 

***

DIMENSÕES

uma dimensão totalmente nova
de forma coordenada disseram a quem
a poesia lança a voz há uma interrogação
aqui um abismo na fratura há uma infinidade
na outra face da linguagem no mutismo
de uma língua sem palavras o vazio há
quem diz dar vida ao vazio como quem dá forma
ao vazio para ser possível sobreviver mas
um vazio exposto ao qual não se dá contorno não se sabe como
o lápis não sustenta apenas um gesto assustadiço
de quem não consegue de quem já não pode de quem não
é de uma dimensão totalmente nova as agressões
em série disseram foi de uma forma coordenada
cerca de mil os fogos
cruzavam o céu frio de colônia anunciando
este novo ano quando uma onda
de agressões avançou contra os corpos de mulheres
propagando uma nova dimensão
em toda nova dimensão há um morar sem palavras
na língua apenas um acenar da impossibilidade
de falar da impossibilidade eu gostaria
de ter começado com o mundo inteiro
que vai ao meu encontro no momento
em que uma vida clandestina pulsa
dentro de mim no momento em que formas e cores invadem
o teto do quarto conforme o vento suga a cortina
um caminho inventado que se move em
baixa rotação o amor nesses tempos como uma forma de resistência
o começo de tudo uma dimensão sempre mínima posição periférica
nas coordenadas do mundo transitam os corpos que escorrem
no dia a dia em todas as direções os corpos vão
sob o sol na areia no hemisfério sul todos os outros sob o sol
estendido na areia como tudo que cai
e fica no chão o corpo do jadson morto na areia abre uma dimensão
apenas um nordestino morto quem seríamos nós
que já produzimos tantas pausas em domingos ensolarados agora
não há entrave não há nada no meio do caminho a vida escorre
em deslocamento todas as vozes tateando
um encontro qualquer um aceno um grito

 

***

ATÉ QUE UM POEMA ACONTEÇA

não vou fazendo a hora nem esperando acontecer
contrariando a canção vou repetindo
a hora não existe mais
hoje
todos matamos hora porque não aguentamos a repetição
hoje todos matamos a hora
porque tampouco sabemos da espera
acontece que um poema se faz
com as mãos como um protesto
se faz protestando um poema se faz
fazendo o tempo fora da hora encontramos
ainda a repetição até que
da repetição não aconteça
mais a espera até que
aconteça uma vida qualquer ainda que
aconteça de uma força violenta
como um tiro
nada cai do céu como o facebook pode ser o lugar
onde muitos poemas nascem ainda
esperamos muito
pelo poeta
para nascer ainda esperamos para viver
esperamos ainda para morrer
como numa guerra
espera-se por cartas
espera-se por bombas que deem fim
à espera na vida espera-se
por Deus a espera é infinita
e a dor é maior e mais real
porque finita
quando dizem que a espera é feminina
desde o início
o homem conquista
e a mulher espera
o voto conquistado há pouquíssimo tempo na história
a unidade mínima de tempo é
século
hoje todos são penélope
mas os homens ainda
os homens ainda
o homem encontra o feminino na espera
como numa guerra o homem encontra
o feminino você troca de lugar comigo
a partir do século XX
mas quem demorou a votar fomos nós
nunca antes na história se falou tanto em repetição
na poesia hoje a poeta fala da técnica
do cinema no fazer do poema
a repetição e o corte aqui
nós atados na linguagem
tentando fazer um poema ainda
depois de tanto tempo esperamos
o Bertolucci ser preso ainda
mas isso não vai acontecer
como não se ressuscita um morto
para responder pela vida
violentada em vida enquanto encenava
o espetáculo mais consagrado dos últimos tempos
toda uma vida estragada
pela arte uma mulher estuprada para sempre
a cada vez que alguém assiste
em cada tela a mesma cena
na vida real morremos
de repetição
eu me sinto mais morta agora
e eu só me sinto menos morta agora
porque em um longo tempo de espera
em que não consegui escrever nenhum poema
fiquei escrevendo repetidamente até que um poema aconteça
vou tentando escrever um poema
já que não posso matar uma pessoa
vou tentando escrever um poema
para ser salva pelo tiro que não posso disparar até que
saiu esse poema
histericamente
sinto dor por todos os lados
o corpo todo cortado
historicamente boiando nas ondas do mar
da eterna repetição da espera
a violência de um tiro não disparado
na vida real no corpo a repetição
do tiro disparado no final
do filme a morte do homem
pai e amante a tragédia
às vezes não realiza a vida
continua trágica até que
o tiro não disparado
atinge repetidamente nossos corpos
como o meu se debatendo convulsivamente
agora enquanto escrevo este poema
em movimentos repetidos só para enganar a ilusão
de que um dia não haverá mais a espera

 

 

***

TERROR

pensando nos poemas de yasmin nigri

extinção tem sido a palavra de ordem
nestes últimos tempos a violência
não vem do escuro
tudo está às claras
não mais se esconde por trás
da política a sombra da polícia
se mostra de frente por trás por todos os lados
as duas em uma por cima e
por baixo somos violentamente penetrados
por uma máquina de extermínio
hoje eu me pergunto se o mercúrio não tem estado
sempre retrógrado
não mais me pergunto onde a comunicação falha
ela não falha claramente ela acerta
o buraco no qual nos vemos lançados
a cada dia
o mundo vai mal
ando pensando que o último asteroide
aquele supostamente responsável pela extinção
dos dinossauros caiu aproximadamente
há sessenta e seis milhões de anos
segundo fontes duvidáveis como todas
deveriam ser
a maior das extinções
foi há duzentos
e cinquenta e um
milhões
de anos
e acabou
com cerca de noventa
a noventa e seis
por cento
das espécies
a extinção
seguinte a essa e imediatamente anterior
a dos dinossauros foi num intervalo
de aproximadamente cinquenta milhões de anos
então se a última foi há sessenta
e seis já passamos desse intervalo
tudo indica
que estamos ainda
com tempo
a velocidade da rotação da terra anda
ficando mais lenta também
cada dia mais isso não é bom
é uma espécie de extinção apesar de
o processo ser lento e ainda termos algum tempo
é inevitável
os dias são de guerra
há urgência
os poetas andam enxergando
sombras brancas rasgando o breu
em uma única visada
na sombra de um meteoro
cruzando o espaço a barbárie dos tempos
atemporal a colonização penetra
rasga invade a queda se anuncia nos olhos
que fitam o escuro à luz do dia
poucas coisas apontam para uma sobrevida
será que seremos lembrados
após a morte não precisamos de mais tempo
para saber que sobrevivemos ainda
com a poesia
é nela que convivemos intimamente
com corpos estranhos
dar corda no relógio e acelerar o tempo
não faz afastar da noite as sombras
que nos habitam resistentes
andamos nus como os poetas com os poetas andamos
nus porque andar
nu é andar tão somente com
corpos estranhos parir um poema
é parir às custas de si
não há mais o em si mesmo se
ser assombrado é uma sensação de morte
só o é porque é uma sensação de vida
o poema
acontece
no assombro porque é no assombro que nos vemos
fora de nós mesmos suspensos
no tempo e no espaço lançados
numa aporia incurável em que não distinguimos mais
eles de nós somos o engano
podemos morrer
abraçados à lágrima de não existirmos mais
mas na mesma visada as águas que escorrem trazem
também o naufrágio entre a possibilidade de morrer
dobrado sobre a lágrima
e a espera
de a lágrima congelar para ser possível
ir por cima dela por sobre ela entre
a possibilidade e a espera
o que há é a um só tempo
o terror
de naufragar
todas as horas da vida a decisão se impõe
em todas as horas da vida o ser que há incuravelmente
assombrado sobrevive
de braços dados com as sombras
o impossível que cria com o barco invelejável que parte de si o ser
é um blefe
o ser que existe aí para ser lembrado após a morte é um ser com
ela ou com ele porque alguém decidiu gostar
da possibilidade
de se dedicar
todas as horas da vida
à poesia
e gostar dessa possibilidade é gostar
de se dedicar
tão somente ao outro
na noite enquanto todos querem dormir
alguém desperta
e faz da noite
um despertar
todos os dias
meteoros caem e todos os dias
temos ainda algum tempo
uma foice avança
sobre as mãos de todos
os homens que se empenham em destruir em possuir
em governar nestes últimos tempos
é possível amar
diante do terror
do naufrágio
no instante imediato do terror dos tempos
caberia o amor
nas mãos o que não queremos preso
nestes últimos tempos
amar é se dedicar
ao que não queremos preso
nas mãos o coração eis o terror
quando amor
e terror
se entrelaçam
estamos falando daquilo que há de mais frágil
e precário
sabemos que ir ao amor
como ir aos escombros
do terror é ir sabendo da queda
irreparável muitas vezes incurável
em terreno esburacado
como quando fitamos a vida
sem lente sem filtro em sua nudez em tudo
há a possibilidade de ser
um sítio de guerra nestes lugares
onde se está de mãos dadas
com o fracasso não há ombro que salve
a linguagem falha
quando estamos lado a lado
com a ruína o peito
assume a forma de toda a extensão de um sítio frágil
quando amar é correr o risco
de naufragar
o terror de amar encontra o terror de naufragar
na iminência da mesma queda não há saída
tombamos inevitavelmente como quem cai
apaixonado
cair brusca ou brandamente
é apenas uma questão de tempo
para se ver caindo no real o terror
de amar é o medo de tombar
não há salvação enquanto a Terra não para
enquanto o asteroide não cai enquanto a extinção acontece
em todas as horas da vida alguém explode o tempo
como um meio de vida e como um modo de amar
isso sim é uma máquina de guerra

 

 

 


Íntegra da série:

Daniela Galdino por Alex Simões

Heyk Pimenta por Rafael Zacca

Pedro Bomba por Allan Jones

Tereza Seiblitz por Cristina Flores

Yassu Noguchi por Caio Carmacho

Natasha Félix por Caetano Romão

Marize Castro por Ayrton Alves

Baffô por Berimba de Jesus

Danielle Magalhães por Bruna Mitrano


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