Baffô por Berimba de Jesus: depois dos cotovelos cinzas
10 de outubro de 2017

Convidamos alguns poetas próximos (isso era importante) pedindo uma antologia (uns dez poemas) + um pequeno texto de apresentação de um outro poeta.

Em parte um exercício de escuta critica, em parte um interesse pelo gesto/papel do antologista e toda problemática que isso apresenta. Queríamos uma leitura interesseira e interessada dos poetas antologizados. sem o disfarce do distanciamento ou desinteresse crítico.

Diz o dito que quando pedro fala de chico sabemos mais de pedro que de chico. sendo assim essa série serve de um duplo retrato. antologizado e antologista (um refletido no olho do outro).

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Esse poeta, como todo outro artista, tem ego, e é esse ego que o fez explorar caminhos que eu também segui, aquele que as altas castas sociais não querem que nós sigamos. E nesse caminho longo, sinuoso, cheio de empecilhos, que não é desejado a nós, conseguimos destaques, uns por nos fazermos de bestas outros por sermos mais espertos do que pensavam, mas, sobretudo pela poesia. O Baffô de quem vos falo, foi e é um desses poetas espertos, que forja a vida pela palavra, pelo gesto, pelo ego.

Ele é um homem de pele preta como a minha. De mãe preta como a minha. De quem o estado cuidou da educação, pois em casa era o pirão d’água, o feijão de caldo grosso com farinha, o arroz como comida por dias, a sobra da feira, o esporro. O esforço da mãe preta, solteira, cuidando sozinha de vários filhos. Foram seis e nem um tem passagem pela polícia. Imagino que nossa formação seja parecida. Nada de novo do mesmo.

Nos conhecemos na Vila Madalena, numa noite vadia. Nos vimos no Masp, na Benedito Calixto, nos bares. Desses encontros conheci sua poesia, fiz parte de sua amizade, publicamos seu primeiro livro juntos, pelas Edições Maloqueirista. Antes da poesia, vivia de pequenos golpes, vendendo tênis, calças, relógios óculos, piercing, tatuagens em frente à galeria do rock na 24 de maio. Depois Heyk Pimenta, peri_go. Quando seus poemas começam a girar pelo mundo. Boas ideias, bons encontros, pilantropia.

Baffô não virou poeta da noite pro dia, foi às vielas, aos encontros. Os livros debaixo do braço,  novos lugares que o fizeram traçar melhor os versos e se envolver na relação palavra-homem, se fazer poeta sem eira nem beira e se distinguir daquilo que todos ousaram em pensar quando viam um menino de pele preta com canela e cotovelos cinzas.

E como todo homem tem defeitos.

Apresento aqui este malungo, e me sinto privilegiado por estar vivo e poder compartilhar alguns de seus textos, pois ele foi um dos que me fizeram continuar a exercitar o juízo tendo como base a poesia.  Segue cinco poemas de sua autoria, do primeiro ao quarto são textos de seus primeiros livros editados em parceria com a poesia Maloqueirista nos anos de 2010 e 2011, o quinto foi feito em parceria com outro poeta que admiro Heyk Pimenta e os últimos são inéditos. Espero que tenham bons vôos.

I.

Em casa de menino de rua,
o último a dormir apaga a lua

 

Favela

Esses becos
Essas vielas
quantos poemas me deram?
quantos me tomaram?

 

Cotidiano

Matar
um leão por dia
e dormir rei.

 

Favela 2

Essas vielas apertadas
e sem horizontes
é o que nos põe
a olhar estrelas

 

A saga do rinoceronte branco
Com Heyk Pimenta

O rinoceronte branco.
Olha.
É um longa de
55
Minutos

Colorimos
[o cinza]
Todo o couro
Passamos a tarde azul
Nas costas do bicho
Usando a gravata
Em que o sapo passeava,
Jorge

O vento
Assovia
Nos ouvidos
Flores
[nasceram] nas costelas
Antes gado.

Girassóis que giram mesmo
Dois campos inteiros
Pastados na sola do casco
Do seu chifre de pelo

Vestidos floridos
Alegram o passeio

Bicicletas
No limite
Do asfalto
Com fitas de santo relampejam

Gritando
Palavras
Que
O tapete e vagalumes
Apagados esquecem

O rinoceronte é
[
O peso e o lastro
Que galáxias    sustenta

Anoitece
E seu rastro
Pare frutos de
Manhã tardia
]
Branco

Mergulha suspenso
Escafandro &
Chapéu

No céu
De cor
Romã infância
Andorinha e sereia
Sorriram ontem

Uma zona
Uma
Zona
A

Um fela Kuti
De arma e armadura
Tocando tambor
E o som abraçado
Ao silêncio

Parte colorido e mergulha
Na barriga do lago

Que dorme.

(…)

a

aaSem o balé dos cardumes
as ruas não suportam
aao que sabem os cofres

aaaaao mar guarda náufragos
anêmonas &
relógios de pulso

 

{corais}

febris
submersos
& por isso sem vento

aao mar.
espesso
aasem a doença das janelas
a solidão dos bípedes
& o pó das cortinas

aao horizonte.
explosivo laranja
sem a agonia
das senhas
& o serpenteio
das filas.

Dragões

a cidade não me cabe a morte é diferente de quê?

Lacraias mostardas seus motores de zinco

metralham a metrópole de pizzas noturnas
giram,giram desordenados

Sevilha tua garoa barroca secular
é verde
sem palavras só entranhas

combater os profetas conformados
explodir citações
tornar os dias tratores indomáveis

(…)

uma bola de fogo mergulha no atlântico a dois mil quilômetros desse poema.
sussurro de carteado e fumaça densa de cigarros vermelhos
racharam os lençóis
no sétimo
a solidão bate mais forte quê ex pugilista cubano brigando na rua
meus olhos duas câmeras escondidas no corredor da morte.
-com sorte capta últimos desejos de culpados e inocentes indecentes derradeiras
aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa[reflexões
-o mesmíssimo trapo        traje roído de banho. lâmina-
e uma amada do interior levada no peito tatuado
(a
tinta de esferográfica.)
o cimento queima no espelho o cinza da memória
costura   asa
delta descaminha, escama derrota a palavra abismo
o algoz usa dois relógios
e salga nossa última refeição.

 


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