Marize Castro por Ayrton Alves: uma criança que deseja o inferno
16 de setembro de 2017

Convidamos alguns poetas próximos (isso era importante) pedindo uma antologia (uns dez poemas) + um pequeno texto de apresentação de um outro poeta.

Em parte um exercício de escuta critica, em parte um interesse pelo gesto/papel do antologista e toda problemática que isso apresenta. Queríamos uma leitura interesseira e interessada dos poetas antologizados. sem o disfarce do distanciamento ou desinteresse crítico.

Diz o dito que quando pedro fala de chico sabemos mais de pedro que de chico. sendo assim essa série serve de um duplo retrato. antologizado e antologista (um refletido no olho do outro).

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uma criança que deseja o inferno. mistura de lobas. de mulheres incendiárias. de fêmeas inflamáveis. incandescentes.  pula de prédios e sempre experimenta a liberdade possível de um primeiro voo. resignifica as mordidas dos rios. ereta, expele líquidos. venenos. para nossa sorte, quem a lapidou esqueceu de tirar-lhe o veneno. feiticeira, vândala, ave, telhado, cratera-oceânica nuns punhados de mãos. mãos que se estendem e imploram ao seu silêncio. silêncio que ensina a gritar, a voar e, por vezes, a ser concha. concha que desafia a resistência do ar, sob o lodo, aumentando pérolas. topázios. a força de um útero. Marize. mar. fome. a mesma fome há milênios arrancando o que é mais precioso e doce e o que é mais divino e víscera daqueles que se entregam à potência concisa dos seus textos, dos quais me valho de algumas imagens para uma tentativa de introdução.

recebi o convite da Bliss há algum tempo e decidi escrever sobre Marize Castro, poeta potiguar nascida em 1962, pelo estremecimento que seus poemas me causam quando adentram no meu corpo, e por eu sempre escutar o brado de mulheres  – milenares e atuais – revestindo o seu grito. amplificando-o. nos seus textos e no seu olhar que me causa uma mudez súbita, como um aviso de atenção, para a beleza que também é fortaleza e dor. o olhar de quem dorme com batom nos lábios e acorda com o espanto de não poder chorar ou sentir cansaço, por também ser homem. nesse ponto, chegamos a uma das principais características de sua produção: a androgenia.  uma androgenia que se transfigura em sensações cotidianas, em objetos e na construção de um sujeito lírico que faz questão de se insinuar e se (re)construir a partir de um lugar poético complementar e experimentável. um lugar onde convivem mitos, símbolos, ritos e ícones gestados para cheirarem à resistência, para se acoplarem e darem caminho a outras vozes.

a produção poética da também jornalista e editora é composta em livros por sete títulos, são eles: “marrons. crepons. marfins” (1984), “rito” (1993), “poço. festim.mosaico” (1996), “esperado ouro” (2005), “lábios-espelhos”(2009), “habitar teu nome”(2011) e “a mesma fome” (2016). desde o início a atenção a outras mulheres é exposta em forma de dedicatórias, como se fossem retalhos dessas mulheres que, da existência, não saram nunca. ana c, orides fontela, hilda hilst, euricléia, macabéa, penélope, teresa de lisieux, yona wallach, zila mamede e tantas outras que ornam uma espécie de escudo mariziano usado numa batalha com a existência que não sara nunca. tal escudo não terá eficácia na travessia pelos poemas que se seguem, na seleção que dá uma prova do que teci até agora. elegi-os, pois são eles que me vêm à cabeça quando penso em marize, quando falo sobre ela para um amigo, quando a vejo ou quando agradeço por sua vida, nesta esquina de continente, quando olho o sol se pôr no rio potengi. o grande rio do norte que parece nascer dos seus olhos e, ao mesmo tempo, é lágrima e acalanto, de múltiplos olhos, para aqueles que não têm medo de se afogar. deixo agora a palavra com Mar, ou melhor, com a mulher que ela escolhe para compor a cena e gritar com ela.

 

***

 

não escrevo como mulher porque não sou mulher
sou um destroço que boia. um relato lendário.
alguém que tem a dor nas mãos e negrumes secretos no sexo.
estou secando e ouço gritos.
uma desesperada louçã se anuncia.
— o melhor do mundo é não viver nele.

em um escabelo sento a contemplar uma sede sem fim.

mrs. dalloway, você está aí?
senhora d., posso chorar ao seu lado?
euricléia, quando eu voltar você me lavará os pés?
sra. ramsay, então o farol é isso? só isso?

em contínua tristeza os forasteiros vivem.

hoje dormi com batom nos lábios.
o cansaço era tanto que esqueci que também sou homem.
e não canso. e não choro. nunca.
deslindo-me e me desarrumo porque sou gaveta.
telhado. quase cratera. olhicerúlea.

ah, teseu, qual o tesouro secreto que o pai te revelou?

hades me quer. eu digo não. ainda não.
é urgente falar com tirésias.
ir de uma ponta a outra do tâmisa. sozinha.
com uma alegria insuportável.

em mim, femíneos simulacros:
macabéa, qual o tamanho da solidão dos domingos?
blanche, também já dependi da bondade de estranhos.
cabíria, você me ouve?
choro contigo o sentimento trágico da vida.
clitemnestra assassinou cassandra.
mesmo assim eu a amo.
amo as arestas. o que é subterrâneo:
plutão. dioniso. osíris.

estou respirando e tudo é silêncio.
não deslembro mais. simulo.
já sou pélago.
poço. festim. mosaico.

esmerada forma de arder.

(Poço. Festim. Mosaico., 1996)

 

***

 

mulheres se matam porque cansaram do cheiro do açafrão.
e vivem molhadas. medonhas. invadidas de poesia e pedra.
mulheres viram pássaros
porque do alto têm a certeza que serão salvas.
de lá, contemplam o mundo.
escrevem livros. constroem casas. parques. elipses.
pintam quadros. dão aula. vão para o palco.
dirigem carro. motocicleta.
leem homero. dante. vieira. camões. platão. pessoa.
são crianças e desejam o inferno.
depois o céu. e novamente o inferno.
andarilhas, herdam vestígios.
e são preciosas. perfumadas.
olham dentro dos olhos dos peixes
e os retiram da água para serem seus companheiros.
planetas delicados são as mulheres.
engravidam de balões. de profundidades.
sentem cólicas. a placenta rompe. o útero se revira.
os ovários se mantêm em segredo. preenchidos.
mulheres choram nas tardes de chuva.
andam de ônibus e são olhadas.
adornam-se de arbustos.
tornam-se perigosas. camufladas.
com leite derramando da alma.
têm tetas. asas.
dívidas. agendas. mapas. bússolas. dor.
aprenderam a ouvir o canto do homem com a língua de madeira.
são antigas. milenares. pertencem a templos.
consultam oráculos. fazem preces ajoelhadas.
oram pela felicidade do mundo e têm certezas guardadas.
mulheres são alquimistas: transformam topázio em esmeralda.
esmeralda em safira. safira em rubi. rubi em ametista.
ametista em orvalho. orvalho em anêmona. anêmona em girassol.
girassol em cassidônia. cassidônia em ágata.
ágata em nave. nave em águia. águia em águia.
mulheres cortam os pulsos. abrem o gás. caem de edifícios.
sobem montanhas. andam de bicicleta. barco. avião.
sentem medo. atravessam paredes.
e se tornam metáforas. anáforas. foguetes.

 

(Poço. Festim. Mosaico., 1996)

 

***

 

Salgar os pés e unir as mãos. Na vertical.
Numa confissão de ternura.

 

(Rito, 1993)

 

***

 

sim, os olhos do abismo são castanhos,
e eu te amo em qualquer país. poço. nação.
tenho sede.
na sua dor eu me reconheço.
você de inchados pés
arranca de mim o que é mais precioso e doce.
o que é mais divino e víscera.
desliza por minhas coxas o seu sacro bastão.
flores, escudos, espessas ternuras.
sim, o homem é um adágio.
um rio corrente que rasteja e morde.
deus não é o perigo.
o perigo é nascer. parir. carregar óvulos. útero.
ser anônima. inquieta. inatingível.
arder.
depois murchar. repleta de memória e céu.
sim, o mundo é um terreno minado.
e o amor, um assombro.
não é a primeira vez que me precipito.
e caio. esgotada. cingida.
ser pouco não me interessa.
a minha vagina contraída, contém o universo.
e o meu amor te chama
enquanto resgato em espirais de esmeralda
o destino dessa humanidade de prata, ouro e merda.

 

(Poço. Festim. Mosaico., 1996)

 

 

***

a

AFÃ

a

Minhas harpas em arpejos
denunciam o meu Desejo.

Delicado rapaz, eu te chamei porque me quero assim.
Dentro de ti.
Sólida.
Expelindo líquidos.

 

(Rito, 1993)

a

 

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a

Néctar

a

A verdade aproxima-se.
Olha-me com os olhos
abismados da beleza.

Não sou a mulher
que corta os pulsos e se joga da janela
nem aquela que abre o gás
nem mesmo a loba que entra no rio
com os bolsos cheios de pedra.

Sou todas elas.

Escrever me fez suportar todo incêndio

– toda quimera.

(Esperado Ouro, 2005)

 

 

***

a

Solar

a

Cadáveres despertam depois do amor.
Lágrimas choram e se estrangulam.

Não sou a mulher que você vê.

Não sei o que é o inverno
– nunca vi a neve.

O meu ofício é reinventar asas para o sol.

(Esperado Ouro, 2005)

a

***

a

a

Perigo

 

É perigoso, menina, sair de casa
sem seu guarda-chuva perolado
sem seu fogo mortífero
sem seu sexo sempre aberto
aos apelos do mundo.
É perigoso, menina, se deixar para trás,
subir até a mais alta montanha
e de lá não se jogar.
É perigoso, menina (muito perigoso)
não parar de buscar o paraíso
e se lambuzar de prazeres alheios.
É perigoso, menina, beijar a boca
de alguém tão mais velho
e se perder assim:
não mais saber onde reside
a primeira luminância, a última escuridão.
É perigoso, menina, acreditar na memória
jogar-se de tal altura
inflar-se de clichês
quebrar suas tão jovens asas

e não cair

É perigoso, menina, proteger-se
e se armar demais, querer o outro, ser o outro
– habitar o inabitável.

 

(A mesma fome, 2016)

 

***

 

Sou
a   mais ave do que aço
Dias varo
perpetuando voos
colhendo as ostras
que se escondem
sob
a   o lodo.

 

(Marrons. Crepons. Marfins, 1984)

 

 

***

FLAGRÂNCIA

Flagro-me arrancando do mundo montanhas de bondade.
Arder me emociona desde que aqui cheguei.

(Esperado Ouro, 2005)

***

 

Vídeo que contém alguns poemas de marize, na sua própria voz, pertencentes ao livro Poço. Festim. Mosaico. (1996). Direção: Augusto Lula, Natal-RN, 1996.


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