Natasha Felix por Caetano Romão: cada centímetro dos teus cabelos me sugere quilômetros
22 de agosto de 2017

Convidamos alguns poetas próximos (isso era importante) pedindo uma antologia (uns dez poemas) + um pequeno texto de apresentação de um outro poeta.
Em parte um exercício de escuta critica, em parte um interesse pelo gesto/papel do antologista e toda problemática que isso apresenta. Queríamos uma leitura interesseira e interessada dos poetas antologizados. sem o disfarce do distanciamento ou desinteresse crítico.
Diz o dito que quando pedro fala de chico sabemos mais de pedro que de chico. sendo assim essa série serve de um duplo retrato. antologizado e antologista (um refletido no olho do outro).

Hoje, Caetano lê Natasha através de um mergulho entre conversas e pistas construímos esse retrato afetivo cheio de suspiros e descobertas.


 

são nove e quarenta e cinco da manhã e é quinta-feira, talvez.

Natasha me acorda enquanto diz que já são nove e quarenta e cinco e me oferece café.

a janela de sua sala é larga e entra muito sol. sua janela ainda não tinha cortinas nesses dias. nós comemos bolachas de água e sal e escutamos um pagode pelo youtube. comentamos dos sonhos que raramente lembramos. tentativas inúteis de discernir se aquilo teria sido de fato um pesadelo. e então o torcicolo.aquela vez.a sua última pimenteira escancaradamente morta no dia em que você voltou de viagem. uma foda meio morna que ressurgiu de março pra cá.o jeito com que alguns homens babam sobre o travesseiro. mensagens estranhas na sua caixa de email. sua tabela de verbos em espanhol. o bambolê. os teus livros roubados. os livros que te roubaram.

juntos, contamos e recontamos todas as oportunidades que perdemos no último mês e como pilantras feito nós não merecem segundas chances. pois acho que é essa nossa glória. mas, juro, eu sei. sei do risco e juro que adoro o risco de esboçar todo o itinerário da nossa próxima fuga e me danar contigo por cada cafundó.

embaralhamos os rostos com os nomes com as datas, todas as escalas e medidas, temos vocação para os equívocos – pela parte que me toca, confesso que cada centímetro dos teus cabelos me sugere quilômetros.

pra que Natasha pouse então a caneca de café no braço do sofá e leia seus últimos riscados. ela lê como que tirando sarro, como que tirando a casquinha de uma ferida. não é nem meio-dia e Natasha me delata qualquer coisa.

pois, se tenho alguma certeza é a de que ninguém jamais será inocente diante da poesia da Natasha. que ninguém nem deve ser . da mesma forma que não é assim que sua poesia se pretende. seus poemas são um convite violento à nudez do qual ninguém sai ileso.

lembro de Herberto Helder em uma de suas correspondências íntimas pensando sobre corpo e escrita.  Helder fala de como o nosso corpo é a todo tempo acobertado, codificado, ocultado, de jeito que “a decifração é o único acto de amor”.

e acho que é contra isso que Natasha se volta ao escrever: a essa formatação esmagadora dos corpos e também à maneira como nossa sexualidade é educada de forma tão opressora. repleta de tarjas e silenciamentos. negando-se o gozo enquanto instância legítima do corpo:

esse tumulto debaixo do vestido. / chego perto/ a atrofia dos dedos / na culpa cristã” ou ainda “de certa maneira / fazemos como manda a bíblia / ele não me compra flores / nem me promete o próximo encontro / mas me lambe o períneo” apontam para uma negativa de Natasha em relação a essa moral civilizatória. a essa visão pecaminosa do desejo. com aguçada ironia, ela desdenha das frases feitas, do “bom gosto”, do pudor que regulam e reprimem as práticas sexuais. Natasha como que caçoa das trepadas que só acontecem se a luz estiver bem apagada.

essa compreensão, assume diferentes feições ao longo de sua poesia, como a figura do“corpo sujo”que é “barrado no ___ mercadinho municipal na farmácia no enterro do sobrinho na missa do galo na reunião de moradores do bairro”.

expondo a marginalização imposta nas mais diversas esferas do público e do privado, Natasha reivindica seu espaço enquanto ser desejante, num processo que transfunde seu corpo com o próprio corpo da palavra.“deixa água de lastro por ele inteiro / o sistema contaminado pelo chorume / o sistema linguístico agora extraviado / do cômodo bem instalado”. dessa forma, a poeta segue lúcida resistindo, consciente da estreita ligação entre o sexual e o político: permanece assim mesmo incomodando, atraso ao contrário”.

pois o corpo-poema da Natasha, é um corpo que se dói todo e que goza. sobretudo faz doer e faz gozar. e é desse jeito que Natasha às tantas me passa a rasteira e me quebra as pernas. cada verso uma bordoada. cada verso como a dizer – devora-me ou te decifro – enquanto ela percebe impiedosamente a minha nudez, sem que sequer o poema tenha acabado. dali então me sei homem rapaz moleque. me sei aquele outro. aqueles tantos outros. você parada no contraluz, sem trégua ou vulgaridade, me refletindo a mim, a partir de nossa dessemelhança mesma.a boçalidade de eu me compreender eu, diante da sua fúria e da sua ternura. é. o objeto as vistas, não pressupões os olhos.

pois Natasha mora no oitavo andar de seu prédio e a janela de seu apartamento dá pro rio. de lá se veem os botecos. o jockey. viadutos engolindo as avenidas bem aos olhos de Natasha. mas sem vícios. jamais refém das altitudes. você nunca desaprendeu a queda. do alto de seus oito andares, você resguarda consigo toda a possibilidade de um corpo qualquer que cai.

foi aquele guindaste. lembra? acho que foi você mesma quem me falou.“o que está por ser erguido / o que pressupõe a queda-livre”. às vezes não é nem meio-dia, e Natasha é um objeto não identificado a despencar trinta metros. às vezes não é nem carnaval, e Natasha é uma proposta de nos estraçalharmos no asfalto daquelas cidades. samba e sangue: é linda a maneira como você dança.

e mesmo o susto. aquelas semanas. coisas interditas pelas vias. talheres engordurados deixados de molho.o noticiário dizendo fatos que não entendemos. a fronha por arrumar: tem dias em que se fala muito do medo. o rumor, quem sabe, de que logo ali. no apartamento ao lado. o cismo. o boato de um novo incêndio. você fitando seu botijão de gás com a mesma cumplicidade de sempre. teimando em lembrar. entre o sétimo e o nono andar / não existe nada / além do anúncio breve de uma escada /nenhuma parede”.

e então o que eu julgava argamassa e ferro e fibra. as paredes se sucedendo uma a uma. pregos arrancados fora às tábuas. a consistência morna daquela habitação. e mais: unha cal cimento. frágil arquitetura carne nossa. eu talvez dissesse. você talvez dissesse. tentando ignorar. as louças pelo assoalho. nossa nudez coberta até aqui de pó. e a terra como que deitando fora todas as coisas nulas e sem prestígio, que um dia tomamos como nossa.

pois penso que Natasha entendeu: provisoriamente, a parte de quaisquer subterfúgios, há de se fazer morada a palavra. a poesia como nosso escombro e nossa possibilidade. e que é assim mesmo. minha irmã. esse empenho com que forjamos o calçamento do nosso abrigo. porque é inútil e porque não basta. mas que é assim mesmo. pois penso que Natasha entendeu e acho que foi ela mesma quem me ensinou.

sei que nunca trabalhamos sobre promessas. deixamos esse linguajar para quem soubesse fazer bom uso dele. mas com o perdão e o risco do sentimentalismo. é que às vezes sinto saudade do que seremos. vontade de te dedicar qualquer coisa que fale um pouco sobre amor. mas nada me ocorre além de, por hora, soletrar teu nome: obrigado os dias que ao total foram tantos.

Natasha

às vezes é coisa tão amada que nem a sei.

mando um beijo pra ela.

 

***

 

A ESTRUTURA

1

o comprimento de uma cigarra varia entre 6 e 15 cm
……equivalente ao tamanho de uma lâmpada ou de um copo americano.

em algumas áreas do Brasil ela é chamada de gafanhoto
o que não significa que seja o mesmo inseto
o que não significa que não possa ser o mesmo inseto
……….ou outra coisa
como uma lâmpada ou um copo americano.
………………………………………………..[dependendo do ângulo de observação.

no sudeste asiático esse desarranjo não existe
mesmo se tratando de um local com gafanhotos e cigarras.

mas isso não implica a ocorrência de outros tipos de desarranjo
…..entre os animais.

também não é raro a cigarra chocar-se contra os baobás
em parte porque não é uma lâmpada ou um copo americano

em parte porque voa mal
mesmo com seus dois pares de asas
bem articulados.

2

o observador w nota uma cigarra e nomeia gafanhoto
o observador x nota uma cigarra e nomeia cigarra
o observador y nota uma cigarra e nomeia a fuga
o observador j olha uma cigarra e nomeia outro bicho

3

quando eu falo estou esperando o sol
voltar de novo ao sol mesmo que estou me referindo

quando eu falo estou esperando a casa
voltar de novo à casa mesma que estou me referindo
quando eu falo estou esperando o termômetro
voltar de novo ao termômetro mesmo que estou me referindo
quando eu falo você estou esperando incendiar
de novo o corpo mesmo que estou me referindo
quando eu falo você estou esperando recupar
de novo na mesma perda a queimadura de amanhã.

4

o observador j não é observador.
não como esperam que seja.
isso não é um poema
não como esperam que seja.
o tempo permanece estável durante a tarde
apesar das nuvens.

5

a gengiva sensível reclama a dificuldade em
mastigar determinados resíduos.

lembrete: o que não é estrutura é sedimento;
as pessoas precisam se agarrar em objetos fixos
………………………não há mal nenhum nisso
sobrevivência pede uma casa
………………………eu não tenho uma casa
sobrevivência pede     quite suas dívidas
………………………eu não quito minhas dívidas
sobrevivência pede pernas
………………………eu não tenho pernas

j. me olha demorado e me nomeia cigarra
enquanto simulamos o suor da linha do equador
ele me permite gritar
um pouco

6

j. me pede
……faz um filho comigo

pobre j.
……para isso você tem que cantar.
antes de mais nada você tem que cantar &
eu tenho que recuperar o que há entre a casa e as pernas.
o comprimento das asas e dos nomes.

 

*

 

esquina

dias perdidos nos bolsos.

alguém conta sobre o passeio de bicicleta
pelas ruas de buenos aires,

como se o país não desmoronasse
sem pedidos de desculpa anexados a planilhas.

pés velozes e elegantes
debaixo da noite.

alguém dança em um cubículo
do outro lado da fronteira.
..& pensa em um amor sem ruptura
enquanto olha para os lados

o quadril se move em silêncio
diante das batidas nas caixas de som.

aniquilados antes mesmo de terem sido.

cada um num canto da cidade
engalfinhados em seu próprio idioma.

os dois bolariam planos
como salvar-se do inimigo –
fiéis ao que não tocam.
perfeitamente fiéis.

enquanto desengorduram panelas de teflon
segurando firme nos sonhos
entre o detergente e os dedos enrugados
….calos brotam como pássaros.

 

*

 

o abalo dos joelhos,
ossatura da construção,
entre o sétimo e o nono andar
não existe nada
além do anúncio breve de uma escada
nenhuma parede.
você escolhe não pensar
no país deixado atrás de si
moribundos e felizes eles
longos
os que se fecham ao vazio
pulso que tomba.
você escolhe mordiscar as cutículas
não regar as plantas ou
desengordurar panelas
no entanto,
olhar o guindaste
o que está por ser erguido,
o que pressupõe a queda-livre
de outra coisa dentro dele mesmo –
não.
isso você não pode ver.

 

*

 

esse tumulto debaixo do vestido.
chego perto
a atrofia dos dedos
na culpa cristã
…………………….já não existo aqui
desse ponto adiante
sou daniel aos leões
dentro

um coração de gueixa
fechado em si
recolhe os próprios cacos

ritual
impenetrável
não se deixa ver.

não movo uma peça
você parado no outro extremo
do quarto,

conto sobre o poeta
enterrado no deserto do namibe
para ter certeza.
conto os dedos das mãos mais uma vez
para ter certeza.

vigio a porta da frente
na espera do bote, os felinos.

aqui o tempo não chega
areia no sexo
suja
completamente suja
mais imunda a cada banho

o que fazer
agora
não explicam.

 

*

 

na cozinha ruídos de louça
estardalhaço de vidros
agora nenhum barulho
porque no quarto
acorda mal humorado
e é preciso que se faça silêncio
mas isso não termina bem
como nunca terminam
as coisas escondidas
muito quietos sim
os segredos se comportando feito bicho preso pela pata
se debatendo
em azul no escuro

 

*

 

CONTÁGIO

o corpo sujo é barrado no ___
mercadinho municipal na farmácia no
enterro do sobrinho na missa do galo na
reunião de moradores do bairro. no hospício o
corpo sujo é bem vindo. o meu corpo
sujo é hospício
enquanto no banho lugar de onde
saio cada vez mais imunda
porca sem rabo preso azul no entanto
a língua suja de mulher suja não se aguenta
tem nome de urubu quando fala urubu
tem nome de tesão quando fala tesão
tem nome de socorro quando fala
é suja também imunda muito a língua
quando ousa o sistema linguístico

deixa água de lastro por ele inteiro
o sistema contaminado pelo chorume
o sistema linguístico agora extraviado
do cômodo bem instalado onde habita e o
corpo sujo ainda treme e vacila os joelhos
como um fungo uma doença como
árvore de joão bolão o corpo desavisado
permanece assim mesmo
incomodando, atraso ao contrário.

 

 

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