Yassu Noguchi por Caio Carmacho – entre miopia e utopia, a poesia
24 de julho de 2017

Convidamos alguns poetas próximos (isso era importante) pedindo uma antologia (uns dez poemas) + um pequeno texto de apresentação de um outro poeta.
Em parte um exercício de escuta critica, em parte um interesse pelo gesto/papel do antologista e toda problemática que isso apresenta. Queríamos uma leitura interesseira e interessada dos poetas antologizados. sem o disfarce do distanciamento ou desinteresse crítico.
Diz o dito que quando pedro fala de chico sabemos mais de pedro que de chico. sendo assim essa série serve de um duplo retrato. antologizado e antologista (um refletido no olho do outro). Hoje, no quase-FLIP, seguimos a série em torno de crítica e afeto com poemas de Yassu Noguchi apresentados por Caio Carmacho:


 

Su,

desde que recebi o convite da Bliss
tenho escrito mentalmente esse texto
que é atravessado pelo fluxo ininterrupto
dos últimos acontecimentos

comecei a rascunhar algo sobre a sua poesia
no celular sem querer parecer piegas demais
ou crítico demais e neste exato momento
toda uma paisagem que um dia será nada
passa pela minha janela velozmente
a caminho do trabalho

a cabeça oscila entre as pendências
com os amigos a realização da Picareta
e o texto que deveria escrever sobre a sua obra
em curso (adiando para amanhã
o que já deveria estar pronto)

em tempo: mais um dia sem poemas
/ será que ainda somos / poetas?

seria o ato de procrastinar uma tentativa de dar
tempo ao tempo para o poema nascer sozinho
sem a nossa interferência?

e de pronto reflito sobre nossa
trama de afinidades e coincidências:

1- você e a Eva nasceram no mesmo dia
(mas isso você já sabe)

2- a necessidade de conhecer dialogar e divulgar
autorxs contemporânexs de todos os lugares

3- as OFF Flips da vida

&

4- a coisa toda doida de acreditar que a poesia
essa força estranha
pode mudar o mundo
[seguimos resistindo-teimando-e-tentando
através de versos saraus slams oficinas exposições etc.
levar essa utopia além]

~ digo isto sincerão e mudo o lado do disco ~

quando li seu primeiro livro
era como se escutasse você recitando
esse olho puxado/não puxado
que reorienta o olhar

haicais que transbordam humor
amor transcendência experiência

que se diferem na forma mas não no conteúdo
de sua produção recente
= mais livre e elástica

gosto dos seus poemas
porque eles têm esse jogo
entre o leve e o pesado
ar e chão
ocidente e oriente
ilusão e desilusão

e é desse embate da linguagem
com a realidade que se revela
mel do melhor
a sua verve

poderia esticar a conversa
mas o pessoal tá chegando
ocupando os lugares da frente

que essa peça aqui já foi toda encenada

vai lá, Su, o show é seu:

 

in your eyes
encontrei motivos
pras contas de luz, água e gás

 

*

se tem o olhar,
pra quando não caber em si,
caber em outro lugar

 

*

ela se muda
às pressas
ele havia deixado
um campo minado
mulheres explosivas por toda parte
ela já carregava a experiência de Nagasaki e Hiroshima mon amour
por isso era silenciosa como a impossibilidade
por dentro, em seu coldre vermelho-sangue, uma reação exotérmica capaz de atacar
toda uma cidade ao contrário: refazer
quebra de um instável
já eram, dois menores
então, pra longe do U-236, antes Tsar, cogumelos
ela foge,
ogiva entre as pernas,
em busca de outro elemento, que não
massa de 3 pra 2
lixo atômico, o amor

 

*

vida
o intervalo, possível,
entre um minuto e outro
de silêncio

 

*

Hoje.
Dia de medir palavras, entre pronúncias,
temperaturas, de corpos já mortos,
distâncias, entre polos que se traem,
formas químicas, de inaceitáveis explosões,
criações de coisas, sem edital,
ressacas, de ontem, de tanto ontem.

 

*

o tempo, uma mordaça
amor que nos atravessa
nunca passa

 

*

o passado não me condena
se hoje
escrevi um poema

 

*

se nos encontrarmos – cheios de cicatrizes – nus de tudo nossos corpos travarão uma luta eu sei

se nos perdermos – nessa que dura intermináveis rounds – em fendas de pele, músculos retráteis e luvas de látex, de onde avançamos e quedamos

lona espuma mola céu cimento

os cortes – uma vez superficiais uma vez nada superficiais uma vez uma vez que não se sabe – serão inevitáveis

 

*

o poema que ontem não escrevi
hoje era mais
curto que esse aqui

 

*

a cada dia
enxergo menos (miopia)
e no mesmo a cada dia
enxergo longe (utopia)

 


Caio Carmacho, Crítica e afeto, Yassu Noguchi