Tereza Seiblitz por Cristina Flores: ora mouro, ora aurora
6 de julho de 2017

Convidamos alguns poetas próximos (isso era importante) pedindo uma antologia (uns dez poemas) + um pequeno texto de apresentação de um outro poeta. Em parte um exercício de escuta critica, em parte um interesse pelo gesto/papel do antologista e toda problemática que isso apresenta. Queríamos uma leitura interesseira e interessada dos poetas antologizados. sem o disfarce do distanciamento ou desinteresse crítico.

Diz o dito que quando pedro fala de chico sabemos mais de pedro que de chico. sendo assim essa série serve de um duplo retrato. Antologizada e antologista (uma refletida no olho da outra). Essa semana, Cristina Flores apresenta Tereza Seiblitz.

— ALERTA —
Essa pode parecer mais uma de nossas postagens nesse ambiente virtual mas é / uma caixa
Tereza entrega para Cristina a caixa / tem textos e fotos e colagens e áudios
Cristina retira e remonta e adiciona / textos e fotos e colagens e áudios
à caixa / da Tereza / atravessada / pela Cristina

Personagens:
Cristina Flores
Tereza Seiblitz


 

Introdução:

Tereza escreveu 1 caixa.

“INTERCESSOR-MÓR, ORA MOURO, ORA AURORA”

 A ordem é  garantida por 1 grampo,

 são paginas c/ e s/ números,de linguagens distintas,existem fotos, cartas, poemas ligados.

Foi entregue faz 1 tempo, Cris, 1 caixa num envelope pardo de detetive ordinária/ ainda era Laranjeiras/ depois demos até 1 pulo no supermercado / o Temer ficaria encantado /se a gente não fosse feminista.

Venho abrir a caixa só/ 1 jirau é duplex, Santa Teresa depois/ agora vc me imagina diante de 1 janela  enorme, que dá pra cidade inteira/ invadir/ e no papel, no fim de 1 espaço de centímetros, Tereza:

“PRECISO MATAR ALGUMA COISA. PRECISO PARIR ALGUMA COISA.”

— Abre a terceira margem pra reza pro meu pai assassinado no Rio, não abre?

:


Pai te agradeço c te morrido quan-doeu tinha 8 anos  pra eu te ver
com calma ao longo de toda vida e poder entender q vc era só
humano q morria e vivia do seu jeito q não nada seria como planejado
q a vida era maior q o maior homem do mundo
q o maior homem do meu mundo não seria o super homem seria meu pai q morre
q nasce toda vez q lembro toda vez q esqueço toda vez q peço toda vez q rezo feito pra mãe do woody allen na enorme nuvem pra vc q nunca apareceu de novo q bom pq eu teria tanto medo q nem do pai do hamlet mas na sua ausência acabou me contando o q eu precisava saber pra continuar papai vc continuou me educando morto por estar morto
então pude entender sem ter medo demais chegar muito perto da gente o suficiente pra nos humanizar te agradeço aquelas massagens nas pernas aquela resposta praquela dor nas pernas é dor do crescimento filha esfrega q sara.

Tereza, Cris, aqui, Santa Teresa,

Cai cai caixa:

Amor, comece a andar em mim,

Nesse corpo onde me pesquiso e te pesquiso

P

O

R

D

E

N

T

R

O de mim, uma larva-migra

Amor, uma larva que migra./

/Sempre tive a impressão, desde muito pequena, de estar dentro e fora de mim, como cientista/

/ … guiada pela larva que migra, o intercessor-mór, ora lúcifer ora mouro ora aurora/

/… não sei se sou brava, sei que não tive escolha

Alguém tem?/

/A gente pensa o que pode./

frase anotada num caderno, curso sobre o zaratustra do Nietzche.

—A gente ama como pode. A gente ama como pensa o amor. Soa a voz do Renato Russo tão contrário a si é o mesmo amor…cantando Camões, aquele Camões que deixou a mulher morrer afogada em alto mar mas salvou os manuscritos d´Os Lusíadas.

Fragmentos de Ibsen, A Dama do Mar,

Um mar da Noruega.

Élida.

As focas, na verdade, são pessoas que por vontade própria, se lançaram no mar e se afogaram. Todo ano, na noite de reis, elas podem vir à costa e tirar as suas peles de foca. Ficam iguais a qualquer pessoa.

Bolette.

Uma carta durante a montagem de A Dama do Mar

( sabia que a Tereza fez a Élida?A carta é maior, catei esses pedaços ):

Amor água parada/… Preciso ir embora/ afogada/sangue/sucessivas/ hemorragias internas. Este é um pântano profundo, o amor está em estado de pântano…estarei algum dia livre deste pântano?/ Oferendas para orixás. Durante 3 dias as comidas ficam ali, oferecidas, orixás se alimentam do cheiro, do invisível…e eu?…A que me ofereço? O que é que me prende aqui? O que é que me faz escrava de coisas que não quero? Espécie de prisioneira apaixonada pelas correntes, pelo musgo que nasceu delas…Preciso matar alguma coisa… Preciso parir alguma coisa.

E foi o começo do fim. Na época eu jogava I-CHING. Na época eu tava grávida.

Te chamei pra atravessar a grande água. Juntei meus exércitos aos teus. Iniciamos a caminhada. O mar se abriu diante de nós./…/ De repente você começa a recuar… olho para um lado, olho para o outro, só vejo água, ondas enormes/…/

violência impessoal/…/mar aberto, suspenso

você não ouvia,  apenas recuava com seu exército enquanto o meu desaparecia/…/quis beber toda a água daquele mar sozinha, até morrer desfeita em mar./

Corte-seco. Ar. Interrompida a gravidez. Ar na barriga. Ar passaporte. Ar. Aeroporto. Ar.

“Vou junto e vou ficar com você o tempo todo. Eles só deixam o ar entrar e então é tudo completamente natural.”

“E o que fazemos nós depois?”

“Vamos ficar bem depois. Como antes.”

(Colinas como elefantes brancos, Hemingway.)

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Sonho: um leão na árvore. Um baobá. Um bebê está dormindo numa rede em um galho do baobá. Alguém me manda cuidar do bebê. Mas o leão sou eu.

Outro sonho: tinha morrido assassinada por um homem mais velho, poderoso e amado, talvez um feiticeiro, e tinha morrido na cama depois de transar com ele. Ele me queimava com o meu consentimento. Comentavam minha morte, diziam que ele tinha matado a mulher rebelde; eu mesma comentava, subindo e descendo as ruas do pelourinho, na Bahia. Descobrem que eu renasci e o mesmo homem aparece, só que agora mais jovem, mais bonito, meio dourado, numa cama enorme na beira de um mar bravio. Ele pergunta onde está o meu cavalo, dentro de mim; eu estou nua e quero que ele entre em mim e ache o cavalo selvagem, eu não quero morrer de novo. Ele procura, há vários livros abertos em volta de mim com pinturas de cavalos em atitude de rebeldia, correndo, empinando, olhos abertos, bocas abertas, pinturas de goya. Ele fala, pergunta onde está seu cavalo? eu não respondo, não posso responder. Alguma coisa acontece e ele não me mata, saio correndo da cama e vou correndo pelos corredores da casa, eu quero entender porquee ele quer me matar. Por alguns momentos entramos num acordo mas ele diz que não pode garantir que não vai me matar porque isso é maior do que ele e eu sei que é assim, não pode ser diferente. Ando pela casa querendo fazer minhas malas, pegar minhas coisas, jogo rápido algumas roupas dentro da mala, algumas fotografias e quando vou botar os discos, o processo fica lento, começo a não reconhecer os discos. O tempo todo o olhar do homem em mim. Os discos estão lacrados. Ele me ama e me ameaça. Eu gosto dele mas sei que ele não consegue deixar de me matar.

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(2 vezes grávida , 1 tirei, 1 perdi, na que perdi salvei 1 poema pro pai do bebê perdido, a gente terminou amigo: Pai do nosso bêbê/

O q  quero pra mim/

É o q quero pra vc/

Q eu consiga entender q um bem é um bem tão precioso q nunca será meu/

Q não existem proprietários de gente q não se tornem imediatamente/

Escravocratas/

Q eu consiga, em meu amor, observá-lo amando/

A mim e a quem mais vc quiser/

Q eu consiga não matar seu amor feito 1 bicho pequeno/

Q as cercas só diminuem o mundo e a força das pernas dos cavalos/

Q sua passagem na terra seja admirada orgulhosamente por mim/

Por te amar/

Por ser amada/

De perto em zoom nas nossas camas/

De longe em paisagem nas nossas distâncias/

Inevitáveis & desejáveis  /

ou seria o sabido fim do zoom/

o amor pede instrumentos variados/

trecos tão distintos quanto podem ser/

vôos e mergulhos/

nosso tempo não equipa bem/ amor romântico panpanpan quantas cabeças/ admoestamos instintos dos mais preciosos/ força vital tratamos como excesso ou erro nossa capacidade de amar/ transformamos encontros em culpa, perdão/ construção em brinquedinho

me sinto carente de práticas em direção a amar alguém sem possuir, esse raciocínio capitalista q parece ter contaminado tudo,

q não me contamine

q não te contamine

q a gente consiga suspender esse amor novinho e ancestral q certamente

carregamos um pelo outro

feito parangolés

vestir dançar junto

feito picolés

chupar

leves e doces

q eu não te pese

q vc não me pese

q seja leve e profundo

como carregar 1 bebê há 6 semanas

sei q está profundamente aqui mas não existe peso nenhum

caminho como se  fosse

1 salada leve que comi nualmoço gostoso

feito  sexo  q te trouxe ao mundo.

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TEREZA:


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Decroux diz: Il faut pas regarder les autres dans les yeux, ça abîme la distance pour mantenir le personnage quón a besoin. Jouvet diz: il a quelque chose dans le ventre. Eu não tenho mais quelque chose dans mon ventre e toda posição nas aulas de mímica me trazem a imagem, a sensação de um esqueleto em formação.

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O fio, a tecelã, mãos delicadas que puxam fios, velozes, coloridos, renda de bilro, costuras, remendo imprevistos. Tecer o rio, as ondas do rio. Muitas pedras do fundo do rio; as pedras provocam correntezas. Na calma aparente do rio cristalino pulsam correntezas de pedras imprevistas, pedras aparentemente dóceis, redondas, seixos rolados…O rio prendeu o pé do menino pequeno e ele morreu afogado. A mãe chorou muito. O pai falou que fazia outro. Eles jantaram um pão meio cru e a sopa estava fria. A mulher chorava e não queria mais se mexer. O homem não sabia o que fazer. Lá fora a velha sentava em cima de um tapete e sentia o sol na pele. Que bom estar viva e sentir o sol na pele num tapete em cima de um gramado.

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Por que se calam as mulheres? Porque me calo com um nó na garganta nesse quarto de hotel em Casablanca onde Sam não quer rien de tout PLAY IT AGAIN AND AGAIN AND AGAIN GANINDO no corredor. Como quem aprende um novo idioma me calo e presto atenção pra ver se entendo, se capto, tento várias linguagens, a do riso, a do corpo, a de morfemas…está difícil again and again and again qual é a palavra? Farejo o que é que estou errando e vejo que o homem deitado na cama me trata assim porque assim trata a si mesmo. É um sobrevivente. Do quê? Marrocos é um país de homens; quando fomos tratar o carro alugado para atravessar o deserto quem falava francês era eu, mas o marroquino olhava para o homem que estava comigo enquanto me ouvia, um ventríloquo ao contrário. Agora, enquanto o homem dorme eu desespero. Bebo água e escrevo enquanto o homem dorme. Hoje é dia 13 de agosto, aniversário do meu pai lá no Brasil. Quero falar com ele. Vejo por aqui vários marroquinos com a cara do meu pai. Queria estar no colo dele agora brincando de formiga que escala pernas até chegar na barriga e ouvir o coração do pai. Não dá. Tudo muito longe. Chamo meu pai, o mouro nas etimologias de nomes próprios para bebês. Não dá pra ligar. Complicado. Fuso horário. Dizer o quê? Quero pegar o balão do vestidinho e voar pro Brasil. Não dá. Dou voltas pelo corredor do hotel. O homem dorme. No fundo do corredor escuro uma cortina que voa. Uma fotografia se revela, é um pai que tenho dentro, talvez entre as costelas, no timo. Com ele volto pro quarto e durmo. Ouço sua voz cantando: mañana por lá, mañana te espero, Juana, junto ao café, te juro, Juana, que tengo gana de ver te la punta al pé…

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Cristina Flores, Crítica e afeto, Tereza Seiblitz