Pedro Bomba por Allan Jones: uma pequena arma, um maço de poemas e um corpo para dizê-los
22 de junho de 2017

Convidamos alguns poetas próximos (isso era importante) pedindo uma antologia (uns dez poemas) + um pequeno texto de apresentação de um outro poeta. O convite ao antologista ia mais ou menos assim:

“a questão que me instiga nesse dialogo (da seleção + apresentação) é que xs poetas tenham uma relação afetiva forte em algum nível. pq o afeto é sempre uma coisa escamoteada criticamente ainda que a gente basicamente eleja o que afeta a gente (dentro de todas as implicações políticas/contextuais em que isso se manifesta). tb pq não achamos que o afeto seja algo acritico ou isento de conflito, saca? pelo contrário.”

Em parte um exercício de escuta critica, em parte um interesse pelo gesto/papel do antologista e toda problemática que isso apresenta. Queríamos uma leitura interesseira e interessada dos poetas antologizados. sem o disfarce do distanciamento ou desinteresse crítico.

Diz o dito que quando pedro fala de chico sabemos mais de pedro que de chico. sendo assim essa série serve de um duplo retrato. antologizado e antologista (um refletido no olho do outro). Hoje:

 

PEDRO BOMBA POR ALLAN JONES

Pedro Bomba está de cócoras, untando com o veneno de uma rã a ponta de uma flecha, está de cócoras ao redor de uns alicates, amarra sobre si um cinturão de fios desencapados e trabalha, amanhã estará disposto a tudo, trabalha por debaixo de uns cobertores, um pote de salitre, uma garrafa de óleo diesel, fita adesiva, mel. Levanta-se e o que tem contigo é a sua pequena arma, um maço de poemas e um corpo para dizê-los:
veja/ quando corre a velocista / o chão dispõe a queda.
E isto é mesmo com a vida Pedrinho, o chão enorme dispondo a queda durante todo o percurso, é uma sentença aberta a nós, os animais sem asas, temos mesmo poucas convicções tão certeiras como a de que tropeçaremos, desconfiamos, são para isto os nossos pés. A queda é de todos, ninguém escapa, estamos despencando, no entanto, há o poema feito por debaixo das ruínas, dos barracões cercados de policia, milícia, o poema dos inquietos, dos que não tem mais paciência, é curto o pavio
Uma multidão de caídos, de touros com umas setas nas costas, uma multidão de agoniados e ali está ele, nos intervalos da guerra, tomando nota numa caderneta:
um gregário de touros/ que foge das jaulas da Pamplona/ e segue em nervosas terminações/ pra vingar as seis banderillas cravadas/ nas costas de uma injustiça.
O poema é um frame do mundo, e de Pedro poderíamos dizer, tem a câmera nos olhos, e tem ódio, graças a deus, na cabeça, e lirismo, o dedo de fotografar também puxa o gatilho. Amarra sobre si o cinturão de pólvora e canta aos seus. É um lobo coletivo, um terrorista do avesso, porque ama a vida e tem pressa de que ela não acabe. Não escreve cartilhas, não desvenda armadilhas de um mundo possível, não introduz nem desenvolve: escreve como um animal que a nós se entrega aberto em duas partes, 1 – amor, 2 – coragem,
pois as pernas são para caminhar / pra correr da repressão / pra pular catraca dançar na rua / subir ladeiras chutar bomba de opressão / as suas pernas, amor/ são pra se confundir com as minhas/ quando nessa estrada tu caminhas e vai longe / e vai / porque carrega de monte / o movimento das coisas.
Isto é a chave, paradoxo, salitre, diesel, granada & mel. Pedro Bomba, Pedrinho, um cigarro nas mãos e uma matilha uivando dentro da cabeça, os olhos bem abertos, um gravador de bolso, e toda a disposição para o labirinto:
a escolha de pegar uma esquina / e trombar-se com o inusitado/ é o nosso caminho / nenhuma linha reta / guarda o desconhecido / é certeiro o ponto cego / para distinguir a trilha.
Avante no incerto poeta, estamos todos perdidos, angustiados, fudidos, não saberemos nada do futuro de agora em diante, à nossa disposição: o chão, a literatura, que ela seja âncora, morada, par de asas, luta, bússola, bote – nosso ataque, e nosso salva-vidas. Pedro bomba é um poeta sergipano, nascido em 1989, publicou em 2017 o seu primeiro livro: O chão dispõe a queda, seguem aqui alguns dos seus poemas.

 

Pedro Bomba

 

POEMAS DE PEDRO BOMBA

 


*
PARADOXOS

o que escrevo
não são poemas políticos
de protestos panfletos partidos
ou coisa do tipo

não escrevo cartilhas nem
desvendo armadilhas de um mundo
impossível

não faço do poema uma folha em
branco sendo escrita nas normas da
abnt

não introduzo nem desenvolvo
até porque…

quem muito lattes não morde
você sabe disso

quando escrevo sou reboliço
escrevo a vida assim como ela se
faz a hipérbole é eufemismo
paradoxo quebras grama ti
…………………………………………cais

quando escrevo
poema
escrevo como quem
abre um animal
passando a faca
afiada fazendo linha
vertical

eu
quando escrevo o
poema sou o próprio
animal oferecendo o
que há de dentro
pra uma festa
ancestral

escrevo como quem
trabalha e ama e
dança e corre
e tropeça e come e
bebe e bêbado
e emprego e
desemprego

escrevo com quem
salário como quem
noite
como quem vende
como quem o próprio
corpo

escrevo como quem é
cego e enxerga pelos
ouvidos

como quem tem rimas
terceirizadas e todo
dia bate o ponto

final.

como um filho
da puta que rala na
tentativa de também
ser gente
como quem vem de
longe sendo estrada
consequentemente

escrevo
como quem atravessa
a rua na diagonal
na pressa de viver de
se poder chegar mais
longe.

*

 

 

AMOR-CORAGEM

o nome que se dá ao amor

seja ele qual for ou qual tipo seja
no primeiro gole de cerveja
molha e mergulha as palavras
talvez você saiba
que arame que fura farpado
mata o amor de infarto que não é
brincadeira

cerca cercando gaiolando
prendendo os braços abafando

o amor se encolhendo quase se
convencendo de que é assim
sempre

o amor abafa a gente que nem
polícia faz

o amor é assim né, rapaz
corrente que prende e para?

parem…

a minha boca fala de outro amor
amor coragem
que é alicate cortando cerca de
qualquer pastagem amor-
coragem

que age sem máscaras e sem
disfarces que escreve na própria
face

as marcas da vida

essa ideia fodida de propriedade
vai deixar de existir

coragem, amor, coragem

pois as pernas são pra caminhar
pra correr da repressão
pra pular catraca dançar na rua

subir ladeira chutar bomba de
opressão

as suas pernas, amor

são pra se confundir com as
minhas quando nessa estrada
tu caminhas e vai longe e vai
porque carrega de monte o
movimento das coisas

coragem, amor, coragem pra
derrotar as dores que
perseguem esses dias

pra derrotar a apatia a mais-valia
e claro, o presidente

eu sei que nessa cidade tem um
monte de gente

que não tá nem aí pro que se diz
eu sei eu vi eu ouvi

mas é que a coragem é assim
rebelde ousada
não respeita nada

e quando se junta com o amor

ela é o que há de mais
revolucionária

coragem, amor, coragem.

*

 

SOU SEU AMOR NO PEDAÇO DE MUNDO QUE ESCOLHER

fazem quatro dias que deixei de ser
magnes, o pastor de ovelhas
quatro dias que não ponho os pés na ásia,
na região da magnésia em busca da pedra
de
…..[mileto

mesmo com a ponta de ferro do meu cajado
apta a desvendar as teorias da física

ao tempo que chineses criavam ovelhas e
búfalos em campos magnéticos

e faziam dos imãs bússolas
só pra dar nortes às navegações
arquitetadas

por isso abandonei de ser o astrólogo

de ser o cartógrafo nas investigações da
terra

porque era um prato quadrangular que
descrevia o mundo

era nele onde eu repousava a agulha, a
rolha e o imã
porque queria improvisar uma bússola de
baixa precisão
queria descobrir a passagem que leva
pessoas a peregrinarem
………………………………………[ao sul
dos convívios
a tornarem-se ventos do norte e fascínios

porque cristo só veio posteriormente e
quando veio já era
……………………………………………………….[tarde
demais

não desvendara nada

nem sequer esclarecera o fato das ovelhas
não obedecerem
[mais
às ordens
porque eu não quis dar ordens
porque eu fui a própria ovelha que corria
pelos campos e lendas

de modo que magnes já não é mais meu
nome de modo que sobressai somente essa
ligação magnética
…………………[existente entre a ponta de
alívio da minha cabeça
e a fenda que se abre em sua boca

ao tempo em que somos cúmplices da
pronúncia de uma destreza
ao tempo em que você diz:
sou seu amor no pedaço de mundo que
escolher.

*

 

ALUGUEL

pois você disse

estou buscando um canto pra morar
depois falou encontrei a casa

e habitou nas minhas pálpebras

e sucessivamente surgiu nas minhas
letargias quando foi que fez a mudança?

qual foi o instante exato que você

alojou-se dizendo esse lugar é ótimo pra
mim e o lugar que você escolheu
é a ponta de meus dedos

inventei uma tecnologia de improvisar
poemas toda vez que um roxinol-
pequeno-dos-caniços migra, em minha
barriga, da europa à áfrica toda vez que o
solstício de inverno
canta seu canto de notas repetidas

o tempo que dura é de uma criança
crescer e entender a palavra fantasma
que pode ser alguém que já morreu um
lençol sobre o nosso corpo

ou uma pessoa que a gente amou e fez
da nossa cabeça sítio

de modo que é preciso ter cautela
quando alguém faz de você sítio

e rega os pés e os pretextos

e grita cresce plantinha cresce

desde então é uma transportadora que
guia seus indícios

e é a minha língua
que alimenta os carregos

porque você anunciou estou de
mudança subiu num rochedo e falou
estou de mudança, veja

e quando, foi a pergunta que eu fiz pois
você disse a todo momento, veja

eu vi seu nome derramado numa
borboleta: esmeralda cauda-fina

eu vi quando vestiu uma avenida inteira
à medida que uma casa estava pra
alugar.

*

 

 

*

 

LOS MAESTROS

portanto

quando ouvires que o sol não
iluminará as manhãs por toda
vida desconfie

há mais ciência nisto
do que coragem

é preciso confiar nas lagartas
no seu andar
e nas montanhas móveis elas
narram com intensidade

sobre isto que delineamos
agora

lembrei o dia

em que o café da manhã era
acompanhado por conversas
sobre nossas histórias sobre
como seria a gente

se habitássemos em outro
lugar
que não esse de negar o voo
dos pássaros

sempre estacionávamos nas
escolhas difíceis

era quando contemplar o céu e
o sol vestia-se de nuvens e as
transmutáveis formas
ressaltavam as expressões de
uma criança

bem

era aí que pousavam nossos
sonhos nas confissões e nas
crianças

às vezes acho

que errei na escolha você dizia

veja

quando corre a velocista o
chão dispõe a queda a cada
segundo

a escolha de pegar uma
esquina e trombar-se com o
inusitado

é o nosso caminho nenhuma
linha reta guarda o
desconhecido
é certeiro o ponto cego pra
distinguir a trilha

ontem a gente estremeceu
você
mais ainda

o que o sistema faz é
desumano a professora
recusou-se arrancando
a própria vida

havia mais crueldade institucional na
escola do que ensinamentos

o trabalho transformado em salários
congelam nossa sensibilidade
e é incrível a naturalidade com o fato
de pessoas tornando-se coisas

vejo que confia em outro lance vejo
como seus olhos abrem quando
descreve sobre a paixão

em dar aulas, em ser a pessoa
responsável por oferecer mapas de
voo

pra passarinhos e borboletas

não foi uma escolha errada
concluímos

escolhas são escolhas e dependem
do amor que erguemos com elas

lembra quando o menino disse pra
turma que você era poeta?

e você é poeta
incrivelmente poeta, professora

na comuna de oaxaca em dois mil e
seis los maestros ensinaram nas ruas

a fome de aprender

e a necessidade de compartilhar

as ondas radiofônicas espalharam un
poquito de tanta verdad

los maestros valientes como você

vivem inventando desserviços para
arruinar o sistema

e isto
é uma das coisas mais lindas que
existe

descobrir geografias inteiras pra
derrubar castelos

acho que levarei você por toda minha
vida acho que levo você por minha
vida

acho que você mora dentro de meu
peito e dois corpos ocupam o mesmo
espaço

certeza

que há mais coragem nisto do que
ciência.

*

 


Allan Jones, Crítica e afeto, Pedro Bomba