Heyk Pimenta, por Rafael Zacca: Poesia, coragem
6 de junho de 2017

Convidamos alguns poetas próximos (isso era importante) pedindo uma antologia (uns dez poemas) + um pequeno texto de apresentação de um outro poeta. O convite ao antologista ia mais ou menos assim:

“a questão que me instiga nesse dialogo (da seleção + apresentação) é que xs poetas tenham uma relação afetiva forte em algum nível. pq o afeto é sempre uma coisa escamoteada criticamente ainda que a gente basicamente eleja o que afeta a gente (dentro de todas as implicações políticas/contextuais em que isso se manifesta). tb pq não achamos que o afeto seja algo acritico ou isento de conflito, saca? pelo contrário.”

Em parte um exercício de escuta critica, em parte um interesse pelo gesto/papel do antologista e toda problemática que isso apresenta. Queríamos uma leitura interesseira e interessada dos poetas antologizados. sem o disfarce do distanciamento ou desinteresse crítico.

Diz o dito que quando pedro fala de chico sabemos mais de pedro que de chico. sendo assim essa série serve de um duplo retrato. antologizado e antologista (um refletido no olho do outro).

Damos prosseguimento à série, com dois poetas da Oficina Experimental de Poesia.

***
Heyk Pimenta
Poesia, coragem

por Rafael Zacca

 

Exílio

eu sou a raísa
eu sou o giovani e o joannes
eu sou a caroll
eu sou o berimba
eu sou o victor e o bacana
o túlio
o sergio
eu sou a lucia

tomaz
ander
luciana
mariana

eu sou todos os exílios da década

minha mãe e meu pai
minha irmã
cada um a seu tempo

(sopro sopro, 2010)

 

Há 10 anos o Heyk Pimenta chegava ao Rio de Janeiro num caminhão de laranja. Toda vez que o Heyk conta essa história, o Guilherme ri bastante, como quem ri da mentira de uma criança. Conta a Carolla que desceram da carona no Ceasa, no Rio, de onde caminharam até uma estação de trem, para seguir pra Vila Isabel. “Era Picuíra o nome do bonito!”, disse o Heyk sobre o motorista do caminhão. A Carolla se mudou pro norte; o Guilherme tá meio que trancado em casa, tá difícil de encontrar pra uma cerveja, um café; o Heyk tá morando na Tijuca, com a Mari, e juntos eles cuidam do Zoé.

A poesia do Heyk é cheia de nomes e exílios. Não é à toa que tanto no primeiro como em seu último livro de poemas, sopro sopro (2010, maloqueirista) e a serpentina nunca se desenrola até o fim (2015, 7letras), figure como últimos textos os homônimos “todo poeta tem pessoas generosas à sua volta”: num caso, uma lista de depoimentos sobre o livro; no outro, uma lista de agradecimentos do poeta. Poeta-autor e poeta-empírico se fundem no exilado maltrapilho que reconhece que não é por nenhum mérito individual que se vive e sobrevive. São assim também as nossas conversas: a gente resenhando livros de gente querida ou distante e o Heyk me falando sobre um monte de nomes e partidas.

“Afortunados os tempos para os quais o céu estrelado é o mapa dos caminhos transitáveis e a serem transitados, e cujos rumos a luz das estrelas ilumina” – se acreditamos, com a Teoria do Romance, de Georg Lukács, que a marca da modernidade é o apagamento das estrelas e o indiscernimento dos caminhos transitáveis, compreenderemos a poesia de Heyk não como qualquer psicologismo diante de sua condição empírica de migrante, mas sim como a de um poeta que acessou, formalmente (isto é, por meio das formas artísticas), o olho do furacão que abalou as estruturas de orientação. O preço a ser pago por isso, como sugere implicitamente Lukács, é a marca do infortúnio. Um anjo mau parece seguir os poemas de Heyk, colocando-os sempre, de saída, sob o signo das catástrofes, ou ainda, da infelicidade (o desencontro fundante entre as coisas e os desejos). É assim com as pessoas, é assim com os bichos.

hoje não tem beleza nenhuma na casa
nem potência nos retalhos da carne (…)

agora que o desespero já não é estilo
que me fartam tantos quanto te faltam os motivos

como

agora que já vão duas estações inteiras
de você esgotada na praça

foi resolver me atender
se desculpar frouxa na cara lavada
e tocar fresca o domingo

(“agora”, a serpentina nunca se desenrola até o fim)

Ou:

um casulo adoeceu na jabuticabeira
mole e perfurado por insetos
nem ela dá jabuticabas (…)

com o lado esquerdo petrificado
olho patas asas incompletas
do olho direito maduro vê os vaga-lumes
armarem coro
e o verão gritar grosso das nuvens
os beija-flores engordarem
e as plantas que não têm porquê

até que as saúvas as lava-pés
se esquivem dos espinhos
e desfaçam a cigarra incompleta

a que nunca se desfez da casca
a que se desenterrou à toa
a que não soube do amor
a que não viu as árvores de cima

(“cigarra”, idem)

Mas como? Se, entredentes, o Heyk é o primeiro entre nós a tirar sarro das situações, o primeiro a sorrir desgraçadamente de tudo e de todos, a pregar uma peça, a ensinar que a vida na cidade ou no campo, no deserto ou na fartura é e deve ser a vida potente e alegre dos corpos, como pode ser que eu pinte agora a ideia do mineiro imagem e semelhança de uma casa mal-assombrada? O que aí se afina ou faz sentido, se o mau agouro e a infelicidade significam frequentemente a vida reclusa na casa e a resignação absoluta, e se, pelo contrário, Heyk, desde o momento em que o conheci, em 2012, esteve engajado nas revoltas populares, que frequentamos juntos, desde os atos em defesa da Aldeia Maracanã, e das chamadas Jornadas de Junho? O que disso faz justiça à sua obra, se é também quem escreveu que “todas as pessoas que eu conheço / querem / ou vão querer / ser / incendiárias”.

Infelicidade e resignação só podem ser unidas pela ideologia dominante. É ela quem produz a liga do infortúnio com a aceitação triste do destino – pode essa liga receber o nome que for, mas atende primordialmente por “medo”. Nas Palavras Andantes, o Galeano deu forma ao que aqui se diz:

A fome come o medo. O medo do silêncio atordoa as ruas.
O medo ameaça:
Se você amar, vai pegar aids.
Se fumar, vai ter câncer.
Se respirar, vai se contaminar.
Se beber, vai ter acidentes.
Se comer, vai ter colesterol.
Se falar, vai perder o emprego.
Se caminhar, vai ter violência.
Se pensar, vai ter angústia.
Se duvidar, vai ter loucura.
Se sentir, vai ter solidão.

Leio aqui esse texto em conjunto com o verso de Brecht, um pouco desgastado pela recorrência no tempo, mas cujo alcance, por isso mesmo, talvez ainda não tenha sido trazido à luz, e que diz “nada deve parecer natural nada deve parecer impossível de mudar.”

Heyk deve ser lido sob o signo da coragem. É ela quem desfaz com água escaldante a cola da ideologia dominante. Não tem muitos dias, eu conversava com a Ana sobre o efeito do Heyk em nós: aprendi com ele a alegria de colocar o corpo em risco, quando esse risco significa que “já não temos nada a perder”, quando significa um passo na direção de alguma coisa mais justa ou de uma maior dignidade. Esse aprendizado foi uma incorporação ainda mais cruenta da alegria de lutar de que fala Paulo Freire. Mas, se não queremos aqui acessar a ingênua psicologia que uniria poemas e “motivos inconscientes”, nem mitificar essa obra em torno de uma imagem supostamente heroica de Heyk, é preciso ver como o que dissemos até aqui acontece nos poemas.

O fracasso do verão em um bicho é análogo àquele que atravessa também a história das metrópoles. Na sua serpentina, o universo dos bichos arrebentados e da cidade saturada de perigos se costuram ferozmente. É por isso que a evocação de eventos recentes de resistência fadada ao fracasso, como o caso já citado da Aldeia Maracanã, não pode ser descolada daquela dos movimentos que retomaram as ruas dessas cidades desde 2012, bem como o poema “Cigarra” (que fala daquela que não conheceu o amor) evoca, invariavelmente, o poema “Caminhão Pipa” (que não conhece a alegria). Nele, as imagens de carnaval e de passeata se alternam, não sabemos se é caso de festa ou de resistência. Temos apenas a rua como “mesa de dissecação barroca”, “nossa treva / sem qualquer centímetro de recuo”, e “as barricadas do carnaval”. A mistura de festa e comício tem retornado como alternativa aos movimentos sociais, principalmente o estudantil. O caminhão-pipa, que encerra a noite e é motivo do alvorecer, que avança sobre os manifestantes/foliões, se torna um enigma: não sabemos que motivo o conduz; dessa forma, ele nos convida a tomar também outra máquina de interrupções como enigma, aquela que age na história das cidades.

A coragem age, em Heyk, como signo do inconformismo. Tenho um costume chato de imitar as pessoas quando vou me afeiçoando a elas; não era difícil imitar o Heyk falando poemas, com seu bico de bicho e testa franzida de velho. Já não sei imitá-lo: quando sente que será capturado, Heyk muda. No ofício de escritor isso se manifesta da seguinte forma: não procura um estilo, apesar de ser, entre os poetas de sua idade, aquele que talvez tenha alcançado aquela coisa a que costumamos chamar de “escrita própria”. O exílio retorna nessa sua capacidade de fuga: desfaz-se a cola da ideologia, surgem as armas do combate. Contra si mesmo, contra todos. É outro o perigo que se anuncia nesse combate desvairado; se se quiser sabê-lo, será instrutivo ler “Sobre alguns temas em Baudelaire”, de Walter Benjamin.

“Parece um monte de ruína, e uma criança com um porrete na mão”. Foi qualquer coisa desse tipo que disseram pro Heyk sobre o seu último livro. Esse porrete é análogo ao grito de Antígona: parece impotente diante da catástrofe certa. No entanto, assim como Antígona não vai vencer Creontes (não com os resultados do que chamamos, geralmente, “vencer”), também a voz nos poemas de Heyk sabe que não pode “vencer” a história da dominação; ambos têm outra função, outro querer. Antígona quer dignidade para o irmão morto; Heyk, para a cidade, para os bichos, para “as pessoas generosas à sua volta”, para xs fodidxs. Os poemas de Heyk seguem tentando as carnes vivas ou mortas para lhes dar alguma dignidade. O Heyk é uma espécie de casa onde moram os bichos que eu quis pegar pra criar.

 

Da direita para a esquerda: Rafael Zacca, Guilherme Gonçalves e Heyk Pimenta, no CEP20.000

Da direita para a esquerda: Rafael Zacca, Guilherme Gonçalves e Heyk Pimenta, no CEP20.000

 

POEMAS

 

DOIS DIAS ANTES DA CONFERÊNCIA

Todas as pessoas que conheço
querem
ou vão querer
ser
incendiárias

quando sonham veem o lobo
umas veem o caçador
poucas se veem pastando
juntas
ao lado do lobo
que também pasta
sem conseguir
já não tem dentes

Todas as pessoas que conheço
querem
ou vão querer
ser
incendiárias

a cheia diz
barragem

atendem a fazem

mas cada litro seu tem placas de ferro nos ombros

dentro das casas
os moradores viram barragens
dos berços dos chiqueiros
mas a água acha pouco
o tutano deles
têm ossos moles
e os leva

a cheia diz
barragem

e lhe dão as costas

chumbam roldanas nas casas
enfeitam remos
ensaiam ladainha
de navegação

Todas as pessoas que conheço
querem
ou vão querer
ser
incendiárias

Não é por isso que os cavalos
aceitariam os ternos que lhes fazemos
e também não plantam hortas ou flores
guardam um pedaço do bruto puro
que por tanto tempo
vestiram
pensativos
ainda nos dão garupa
por cortesia e para nos
contar das assembleias
¿quantos pistões carrega o amor desses partidários?

Todas as pessoas que conheço
querem
ou vão querer
ser
incendiárias

Mesmo as que só querem
queimar o vizinho
têm como ninguém
um plano ideal
para o mundo

sei de quem junte dinheiro
e estoque querosene em casa

o lobo de cada uma
guarda
papéis dobrados
nos bolsos
sobre o que fazer
com o fogo

fico pensando o que
esses lobos de óculos que passam
as manhãs lendo nas padarias
pensam de nós ao dobrarem
pernas tão finas

são elegantes como ciganos
vampiros
falsificadores
de uísque
mas levam megafones
na valise

já vi mais de um
me olhar com doçura

ficamos mesmo para trás
amarramos o sapato antes
de vestir
não serviu

talvez consigam ainda
aprovar a escravidão

devolvo o olhar com condescendência

aos doces o dulcíssimo

Todas as pessoas que conheço
querem
ou vão querer
ser
incendiárias

a maioria quer
nisso
um jeito de quebrar
os relógios

*

AGORA

hoje não tem beleza nenhuma na casa
nem potência nos retalhos da carne



     você perto
do outro lado da linha
mas vou de silêncio
[como gostaria de querer garantir nenhum pio]


     engolindo
no cansaço do meu último pacote de cigarros
papel e fumo
me deixando seco e fosco por dentro



como
agora que nossos piercings se encaixariam
meu peito esticado de burrice
no seu peito
rosa sem desejo
agora que minha casa é casa
cabe você mil vezes
e tem lugar pras suas crenças nas revistas de decoração


agora que eu estou sem um centavo com               cem quilos de coragem

     e meus lençóis emprestados
pra me agradar fazem laços
no hexágono exato do quarto

minhas coisas também têm complexo de vira-lata

como
agora que deixei a barba
tento arredondar uns quilos
juro bicicletas e exercícios



agora que o desespero já não é estilo
que me fartam tantos quantos te faltam os motivos

como
caroll
agora que já vão duas estações inteiras
de você esgotada na praça

     foi resolver me atender
se desculpar frouxa na cara lavada
e tocar fresca o domingo?

*

DENSIDADE 45

No colchão
filtrado pela capa
ou sorvido em gotas puras
está 10 vezes meu volume

toda a imundície do mundo
acumulando gordura
no canto das coisas

5 anos de mofo e desleixo
5 anos de fervor
5 anos de medo

– Levanta caroll o colchão pra respirar
– Vamos comprar um estrado
– Temos que fazer outra capa

Mas não houve respiro ou estrado ou capa

ele apodreceu
verde sobre marrom
no nosso quarto chinês
seu piso frio e marrom

toda a umidade e samambaias e avencas
do muro de arrimo
em pedra
chupadas a mordidas pelo colchão
que era minha própria cabeça inflada
meus olhos sentidos

hoje
abaulado
no quarto de hóspedes
de pé
na parede
atrás da porta
falta uma quina ao colchão

mais hoje ainda
dobrado em três
tornou-se
um pufe
um sofá
de úlceras
na sala
coberto
entre pulgas

densidade 45 de espuma cinza escuro
capa cinza claro
e um remendo cinza ainda mais claro
clareando de dentro em diante
em camadas
como se o tempo pintasse
em mãos alvas
algum envelhecimento
ou apagasse
cada vez mais branco
o amor

*

PENSO AGORA EM COMO VAMOS NOS VIRAR

nossos olhos são de gato marianna
e andamos mexemos
por dentro das bocas de bicho
que nos demos
mas é você quem me come e guarda
meus restos na mochila pra depois
sou seu cavalo de olhos furados pequena
a
flor fodida onde põe minhocas e cascas de cebola
agora volto sem nada da rua nenhum golpe brotou
gastei nosso dinheiro e espalhei
nossos planos
amanhã não vai ser melhor o despertador
mostrará nossas cuecas penduradas na porta
e dirá eu sei, mas não resta saída crianças

*

LIXEIROS

as crianças corriam
atrás do caminhão de lixo
gritos de criança
perguntando aos gritos
se havia brinquedo

tem brinquedo
dá brinquedo

e não havia
e não havia

os brinquedos do lixeiro
vinham do lixo dos ricos
um lixo com brinquedos
o saco rasgava
antes de cair na prensa
e pulavam brinquedos e brinquedos

não havia prensa ainda
o mundo era grande
cabia muito lixo
nada precisava ser pequeno
nada se apertava para ser
o lixeiro jogava os sacos no baú e só

cheirando lixo em dia de semana e
em fim de semana
jogando bola
de sapatão

mas corriam e perguntavam ao lixeiro
pediam ao lixeiro

dá brinquedo
tem brinquedo

eu olhava
até corria
mas não gritava
não acreditava nos brinquedos

um dia na casa do preto
havia uma trilha de dominó
presa sobre trilhos
para fazer
fixo
o efeito dominó

mas faltava dominó
e não fazia efeito

era brinquedo do lixeiro

o lixeiro achou
finalmente brinquedo
no lixo dos ricos
ou procurou até achar pelos gritos
de menina do preto
ou teria reunido porcarias
brinquedo quebrado
do seu próprio filho de lixeiro
para dar ao preto

com
a irmã grávida
a mãe de boia fria
suja e brava

via cheirando esgoto os cavaleiros do zodíaco
era choroso
colorido na TV na manchete
tinha que ir à casa do preto
para ver
a irmã grávida o desenho
não tinha manchete na minha TV
e tinha o preto
com um pau grande
de criança que não sabe ler

e o caminhão
avisava com o motor
dos brinquedos
e saíamos atrás
gritando
mas era mentira
não havia brinquedo

havia o johnny apanhando do padrastro
com chutes na bunda e fio de rádio
o johnny correndo de casa
esperando a cachaça dormir
a cachorra da comida azeda
magra e grávida igual à irmã do preto
meu minigame enchendo a varanda de casa
o único da rua
16 jogos iguais
e campeonato de minigame

e eu brincando com o preto
sentado em sua barriga fazendo cócegas

o preto foi meu primeiro namorado

*

AVERMELHOSO

cor longa às folhas
as que o verão não queima
o outono doura

*

ABELHAS

os azulejos
de cozinha
pela sala

os vidros limpos
mas foscos

a sacada
presa para o lado de fora

seguram
os picos da tijuca
são robustos como maria
terminando de passar pano
sem saber o que fará com as chaves
indo embora
maria não mora

tem apenas um tiro
como as abelhas
envelhece
sem saber se o cheiro que sente
é de açúcar ou morte


Crítica e afeto, Heyk Pimenta, Rafael Zacca