Daniela Galdino, por Alex Simões: “Entre o movediço de ser mulher e ser inúmera”
23 de maio de 2017

Quando consideramos o retorno das atividades do blog da Bliss, imaginamos criar uma série de posts inspirados na coleção da EDUERJ que o Ítalo Moriconi inventou e coordenou chamada “Ciranda da poesia”: um poeta faz uma pequena antologia + ensaio de apresentação sobre outro poeta. Nesse sentido, a proximidade com o projeto era também uma proximidade com o espaço – onde os fundadores da Bliss se conheceram – mas também com a ideia de uma Universidade cujo diálogo e relação com a realidade da produção poética ultrapassam a ideia de juízo, procurando sempre o diálogo entre crítica e acontecimento poético.

Convidamos alguns poetas próximos (isso era importante) pedindo uma antologia (uns dez poemas) + um pequeno texto de apresentação de um outro poeta.

O convite ao antologista ia mais ou menos assim:

“a questão que me instiga nesse dialogo (da seleção + apresentação) é que xs poetas tenham uma relação afetiva forte em algum nível. pq o afeto é sempre uma coisa escamoteada criticamente ainda que a gente basicamente eleja o que afeta a gente (dentro de todas as implicações políticas/contextuais em que isso se manifesta). tb pq não achamos que o afeto seja algo acritico ou isento de conflito, saca? pelo contrário.”

Em parte um exercício de escuta critica, em parte um interesse pelo gesto/papel do antologista e toda problemática que isso apresenta. Queríamos uma leitura interesseira e interessada dos poetas antologizados. sem o disfarce do distanciamento ou desinteresse crítico.

Diz o dito que quando pedro fala de chico sabemos mais de pedro que de chico. sendo assim essa série serve de um duplo retrato. antologizado e antologista (um refletido no olho do outro).

Começamos assim na Bahia, em dois lances.

 

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Daniela Galdino, por Alex Simões. Obras de fricções.

Daniela Galdino é Inúmera. Mulher que goza e sente orgulho e faz desse atributo-conquista mais do que um mote, o cerne de sua poética. Sua poesia não é erótica. Seu erotismo é que é apropriado por sua poesia pungente, desconcertante, mobilizadora. Mulher que agrega, que faz junto, que junta, que se articula em rede e sabe que sua poesia sai mais forte na fricção. Branca descompreendida que pulou o muro do constrangimento do privilégio e da passabilidade e cuidou de estudar, difundir, e promover encontros sobre formação de leitores e literatura negra. Mulher engajada. Personalidade forte como a sua poesia, quem não é forte vai ter medo dela. Daniela assusta. Palavras.

Já tinha ouvido falar de Daniela Galdino. Sabia que era poeta, mas sintomaticamente ouvi falar dela por meio de um performer, ZMário. Ele via potência no nosso encontro. E tinha razão. Em 2014, no II Colóquio de Poesia Contemporânea da UEFS participamos de mesas distintas. A minha sobre tradição e ruptura; a dela, sobre mulheres e literatura. Quando ouvi e vi aquela pessoa que ocupava a sala toda do auditório da UEFS com sua voz volumosa, seu sorriso com brilho de aparelho ortodôntico, suas mãos grandiloquentes, entendi o que ZMário tinha avisado. Ao final da mesa, fui cumprimentá-la e disse: “ainda vamos fazer algo juntos”.

Fui ler Inúmera e entendi que aquela força estava toda ali também no texto. Um olhar que se move entre o movediço de ser mulher e inúmera. Um modo de existência que sabe o risco das essencializações. Um livro incontornável para quem quer entender o que se passa na literatura produzida na Bahia nos últimos 20 anos. Não só pela qualidade do texto, pela relevância dos temas e questões que acompanham o livro, mas pela repercussão de público e crítica. São mais de 1500 exemplares vendidos. E isso numa editora do interior da Bahia sem um esquema de distribuição. Acontece que Daniela não só tem carisma, como sabe usar as redes, as virtuais e as físicas, sabe vender seu peixe com dignidade. É um best seller da poesia contemporânea brasileira. E sem notas nos jornais do eixo Rio-São Paulo, sem exposição à mídia do mainstream, vender mais de mil exemplares de poesia contemporânea morando no interior da Bahia não é pra qualquer uma.

Convidados como poetas para fazer intervenções distintas num evento acadêmico, aproveitamos a oportunidade para juntar nossas poéticas performativas e fazer algo juntos pela primeira vez, um ano depois de nosso primeiro encontro. Não lembro se por iniciativa de Letícia Pereira,que nos convidou, minha ou dela, nos ajuntamos e saiu nosso primeiro filho: “Um Canto para as Mulheres Negras”, uma performance em que dizíamos com nosso corpo-e-voz poemas de poetas negras. Podia falar do que foi o resultado, mas prefiro contar do processo. Durante semanas trocar inbox e por e-mail nossas predileções, nossos gostos, nossos desgostos, nossos desconfortos. E no ensaio nos identificamos no rigor obstinado dos que são marginalizados por sua condição de mulher / bicha-preta e não pode fazer por menos.

Poderia falar mais sobre a performance de Daniela, sobre o impacto do que ela faz na minha própria produção e no meu modo de me lançar com o corpo. Mas poderia soar como inveja ou um pouco até de ressentimento. Ela é minha irmã-xipófaga e é claro que nem tudo são flores numa relação intensa. Por isso, prefiro resumir que depois de ver o vide_o_verso com ela e ser convidado para fazer também e depois dela, pensei, é minha chance de fazer melhor. E é isso. Eu faço em boa parte do que faço querendo fazer melhor que Daniela. Porque estou sempre com essa sensação de estar fazendo o que quer que eu faça depois que ela já fez. Daniela já fez e ainda vai fazer muito. Temos muitas coisas em comum, mas tem algo nela que eu não tenho nem invejo, porque nos amamos também por nossas diferenças:

Daniela é poeta do grelo duro.

 

Daniela e Alex / Foto: Cazo Fontoura

Daniela e Alex / Foto: Cazo Fontoura

 

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MULHER ABJETA

Não sei desenhar
não sei fazer conta
só entendo de assustar palavras.

Puxo o verbo pelo rabo
Finco o dente no dorso.

Quero dês-edificar lares
provocar divórcio
entre significante e significado.

Aí será o oco da linguagem varrido pelo avesso…

Encosto a boca na orelha dos vocábulos
e sussurro:
“Deus é a nossa criação necessária”.
Eles habitam pântanos de pânicos.
Estão prontos para representar meus terrores.

Eu não espero pelo dia
em que o meu nome flutuará
nas páginas de uma hagiografia.

Não sei qual evangelho rege
As impurezas de minha arte.

Eu transbordo excrescências,
dúvidas,
luminosidades.

E… só entendo de assustar palavras.

 

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OBRA DE FRICÇÃO

Gosto de homens
que têm buceta imaginária
daquelas bem colocadas
na coxa esquerda.

Gosto de homens
aventureiros de carne e osso
daqueles que vibram
com o encontro das nossas bucetas.

Esses homens incomuns sabem,
no relincho do segundo,
no piscar do silêncio,
que eu explodo blasfêmias
com a voracidade vulcânica.

Esses raros homens sentem,
no calor da obra friccional,
que na dessemelhança
da minha realidade
nada é mera coincidência:
primeiro, o diálogo de bucetas.
Depois, a penetração por trás.

 

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PARALELISMO

Na retomada do tempo
deram-e um corpo
feito mote
e eu glosei.

 

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ARDIL

recolher
a matéria
que é de
silêncios:

eu não
quero
levantar
a palavra
em vão

porque…

quando
eu falar
irão
despregar

todas
as estrelas
do meu
céu da boca.

 

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MARÉ

“nunca alheio me levanto ou deito”

vem você
com filosofias
escritas à pica

acordei alheia
– de ressaca

gozo
trêmula
debaixo
do chuveiro

água fria
na buceta, poemas

coleciono afogamentos

 

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CONVERSA DE MOLHARES

em tua boca
a palavra puta
é balão inflado

bem dentro
do meu ouvido
faz-se motim

peito arregaçado
(sem parcimônia)

buraco no tronco
jatos de saudade

hiatos divididos

festa
dilúvio
se faz
do cu ao coração

 

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CAROLINA COM CÊ-DE

E eu que sou exótica gostaria de recortar
um pedaço do céu para fazer um vestido.
Carolina Maria de Jesus

Toda manhã,
quando acordo
entre a fetidez
e o desalento
da insurgente favela
semeio dúvidas
sobre a onisciência de Deus.

Tomei um melhoral
(e não melhorei).

Escrevo, portanto.

Ocupo o lugar que me convém:
A estreita linha que separa
sarjeta e calçada
varanda e porão.

A matéria lancinante
é o motor de minha escrita.

Meu desafio é sobreviver palavras
tão nulas e esquecidas.

Meu delito é retirar o corpo
do circuito de produção.

Meu desejo é atuar no simples impossível:
“Quero enviar um sorriso amável
[às crianças e aos operários”.

 

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UM PÉ DE ÁGUA

são saberei do corpo celeste
que, devagar, nutre auroras

tocá-lo, percorrê-lo é violentar
o terreno limítrofe das horas

oferecida em displicência
envolta nas dilatações
semeadora de penumbra:
acinte vejo

macero vontades extraviadas

quem respira terremotos
inibe a calma de hesitações

deito-me na barcaça do sonho
ofereço-te grandezas:
esta cachoeira
que se oculta
em minhas pernas

 

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aqui estão as mulheres anfíbias:
habitam águas
percorrem matas

conhecem tudo por dentro:
asperezas e amplidões

e são muitas nesse ofício de reinventar-se…
e são fortes no interstício da realidade…

trabalhar a terra fatigada
plantar
a semente da resistência

entre levantar e levitar
lavrar as dores nossas
(de tão suas).

Colher a polpa do tempo
sorver
o sumo da justiça

entre secar e ensacar
ensaiar alvoradas
nas bocas das crianças

mariscar no sopro da aurora
mariscar…
antes do mar riscar areia fina

entre cavar e catar
sobrepujar a lida
com o que há de profundo

coarar a roupa do tempo
estender
esperanças alvejadas

entre lavar e louvar
amansar correntezas
submergir os temores

varrer o terreiro de silêncios
inaugurar
delicadas cantilenas

entre cantar e caiar
palmear… palmear… palmear…
as mulheres que domam a vida…
“mulheres em domínio público”

 

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NUTRI-END



não durmo em concha
evito acordar infinita

sincero plano de fuga retomo

plantada em terreno baldio
reconheço-me galho inerte

poda se faz

atravessada em ponta de mato
ensaio
colheita interrompida
cinza semeadura

cesta. feira. noite
desandas meu caldeirão
de alquimias grotescas

surges iluminado, pervertido
estacionas culpas e cônegos

inaugurado, pressentido
quedas livre no meu ventre

teus roncos blasfemam
minhas poucas indecisões

festa do céu da boca

durmo infinita
em concha de retalhos

 


Alex Simões, Crítica e afeto, Daniela Galdino