Adrienne Rich: Yom Kippur, 1984
1 de dezembro de 2016

 

Quando em agosto de 2013 publicamos alguns dos poemas de Adrienne Rich junto a um link para seu ensaio “Heterossexualidade compulsória e existência lésbica”, a introdução à postagem dizia:

Uma mulher nasce. Uma mulher cresce. Uma mulher sonha ser poeta. Uma mulher lança um livro (tutelada por um importante poeta do período, no estilo desse poeta). Uma mulher casa. Uma mulher lança um segundo livro. Uma mulher tem 3 filhos em 5 anos. Uma mulher começa a se perguntar: “o que é ser mulher?”. Uma mulher investiga a si. Uma mulher investiga o meio. Uma mulher lança um terceiro livro, com o resultado dessa investigação (livro que rompe, de formas distintas, com os dois anteriores). Uma mulher se separa. Uma mulher ama outras mulheres. Uma mulher se declara judia (mesmo tendo nascido de pai judeu e mãe não-judia) e se lança numa cruzada contra as muitas formas de opressão exercidas pelo Estado mais rico e poderoso do planeta. Uma mulher sonha um outro mundo. Uma mulher sonha uma língua comum e se pergunta se a poesia pode ser “impulso de estabelecer ligação”. Uma mulher se torna ensaísta, ativista política, com diversos livros publicados sobre feminismo, poesia e política. Uma mulher trama um poema possa ameaçar o status quo.

Em “Yom Kippur, 1984″, todo esse processo de autorreconhecimento parece ser posto em jogo a partir da enunciação da pergunta: O que é uma judia sozinha?

O poema, aqui em tradução de Luca Argel, tem duas epígrafes, uma vem de Robinson Jeffers, “um poeta californiano que escreveu sobre a costa da California, onde agora vivo e onde eu havia acabado de chegar quando comecei o poema”, conta Rich em uma leitura dedicada a Emily Dickinson (pode ser lida e ouvida na íntegra aqui), “A outra epígrafe é do Levítico, um verso que se refere ao Yom Kippur, o dia da expiação, e como deve ser santificado”.

Convidamos Bruno Cintra para ler o poema à luz do judaísmo. Cientes, no entanto, de que se trata de uma e limitada investida sobre essa investigação do estar no mundo / o que é uma judia sozinha? / em que gênero, origem e religião são inextricavelmente ligados. Essa publicação é, então, um convite a que, nesse mundo “novo e mal-assombrado”, leiamos Rich. Um convite a que compartilhemos essas leituras. De outro modo, o que quererá dizer “solidão”?

 

8th May 1987: American poet Adrienne Rich gestures and smiles while sitting in an office at W. W. Norton Publishers, 500 Fifth Avenue, New York City. (Photo by Neal Boenzi/New York Times Co./Getty Images)

8 de maio de 1987: Adrienne Rich em um escritório da editora W. W. Norton Publishers, 500 Fifth Avenue, Nova York. (Foto de Neal Boenzi/New York Times Co./Getty Images)

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YOM KIPPUR 1984
Adrienne Rich
(tradução: Luca Argel)

 

I drew solitude over me, on the long shore.
-Robinson Jeffers, “Prelude”

Pois toda alma que não se afligir nesse dia, será extirpada do seu povo.
-Levictus 23:29

O que é uma Judia, sozinha?
Como seria não se sentir sozinha ou amedrontada
longe de si e dos seus?
O que é uma mulher, sozinha? (uma mulher, um homem)
Na rua deserta, na praia deserta, no deserto,
o que neste mundo quererá dizer “solidão”?

O octógono de vidro e concreto, suspenso sobre as falésias
a sua cerca elétrica, a sua indevassável privacidade
não são bem o que eu quero dizer.
A pickup com uma metralhadora estacionada numa curva da estrada em Utah, ou nas colinas de Golã
não é bem o que eu quero dizer.
A torre do poeta encarando a oeste o oceano, hectares de floresta plantada a leste, a mulher lendo na guarita, seu cão de guarda de repente em posição de ataque
não é bem o que eu quero dizer.

A 5000km daquilo que eu um dia chamei de lar
eu abro um livro à procura de alguns versos de que me lembrava.
Eram versos sobre flores, alguma coisa que pudesse me ligar a esta costa como as ervas ao redor do quintal uma vez
me ligaram àquele lugar – sim, tremoços sobre a encosta queimada
qualquer coisa que florescia e morria e era então escrita
no livro do poeta, para sempre:
Mas ao abrir o livro do poeta,
encontro o ódio em seu coração: …os de olhos terríveis e corpo de gente é que são como eu: quem amar a multidão há de tê-los

Robinson Jeffers, multidão
é a nódoa atirada contra os vales que descem à terra
e as fazendas que se estendem até ao mar; os tremoços
são multidão, e as papoulas incendiadas, e o Pacífico cinzento desenrolando seus pergaminhos para os surfistas,
e as pessoas sozinhas, debruçadas
sobre máquinas de costura e brim empoeirado, ou curvadas sob o peso
dos céus da colheita,
elas que dormem em turnos sobre camas que nunca ficam vazias, e têm lá seus vários sonhos.
Mãos que colhem, embrulham, cozinham, cosem, cortam, recheiam, ralam, descascam, esfregam, e pertencem a um cérebro como nenhum outro.
Deveria eu defender o amor à nódoa da multidão ou
a solidão de arame-farpado e holofotes, a última solução do sobrevivente? Teria eu uma escolha?

Caminhar longe de si e dos seus,
ouvir a diferença te chamando na distância
e andar naquela direção, sem calcular o risco,
ir ao encontro do Estranho sem medo nem armas, proteção alguma em mente
(a Judia na auto-estrada esburacada na véspera do Natal reza pela outra Judia,
uma mulher entre a deselegância sinuosa das sombras da rua: Faça com que sejam pegadas de mulher; como se ela pudesse acreditar no deus de uma mulher)

Encontre alguém como você. Encontre outros.
Decidam nunca abandonar uns aos outros.
Entendam que qualquer ruptura entre vocês
dá poder aos que querem destruí-los.
Próximo do centro, segurança; nas extremidades, perigo.
Mas eu tenho um pesadelo para contar: estou tentando dizer
que estar com os meus é o que eu mais quero
mas que eu também amo os estranhos,
que eu desejo a separatividade
e eu me ouço gaguejar estas palavras
aos meus melhores inimigos e piores amigos
que vigiam meus erros de gramática
e meus erros no amor.
Este é o dia da expiação; mas seria o meu povo capaz de perdoar-me?
Se uma nuvem conhecesse o medo e a solidão, eu seria esta nuvem.

Amar o Estranho, amar a solidão – e eu estou escrevendo sobre privilégio,
sobre afastar-se do centro, rumo às extremidades,
um privilégio ao qual não podemos nos dar ao luxo neste mundo
os que são como nós: um viado chutado para dentro da vala, uma mulher arrancada de dentro do seu carro enguiçado,
arrastada para dentro do mato, usada e cortada até a morte,
um jovem estudante baleado na porta da universidade numa caminhada numa tarde de verão, seus prêmios, seus estudos, nada, nada o compensa pela sua Cor.
Uma Judia achando que escapou da tribo, das leis da sua exclusão, os homens muito santos para tocar sua mão; uma Judia que virou as costas
no midrash e no mitzvah (mas ainda usa o chai entre os seios, amarrado no pescoço) caminhando sozinha
encontrada com uma suástica gravada nas costas ao pé das falésias (ela morreu como lésbica, ou como Judia?)

Solidão, tabu, espécies em risco de extinção,
entre a névoa daquela montanha, eu queria um revólver para te defender.
No deserto, na rua deserta, eu quero o que não posso ter:
sua irmã mais velha, Justiça, sua grande mão de pedinte estendida,
seus olhos, meio vendados, agudos e verdadeiros.
E eu me pergunto, será que joguei fora minha coragem?
Será que a troquei por algo que não sei o nome?
A que extremos iria eu para conhecer o extremista?
O que eu faria para defender a minha vontade ou a vontade de qualquer um que procure por si
longe daqueles a que chamou de seus?
Será que eu encontrarei, solidão,
suas plumas, seus seios, seu cabelo
contra o meu rosto, como na infância, sua voz como um melro cantando
Sim, és amada, então por que esta canção?
nos lugares de antigamente, em qualquer lugar?

O que é uma Judia, sozinha?
O que é uma mulher, sozinha? (um homem, uma mulher)
Quando as cheias do inverno arrancarem a torre da pedra, destruírem a terra do profeta, e as fazendas deslizarem para dentro do mar,
quando o leviatã entrar em risco de extinção e Jonas virar um vingador,
quando o centro e as extremidades colapsarem em uma coisa só, desde as fundações do mundo,
quando as nossas almas chocarem-se, Árabes e Judeus, uivando juntos a solidão de nossas tribos,
quando a filha do refugiado e a filha do exilado reabrirem as portas bombardeadas da cidade proibida,
quando nós que recusamos ser mulheres e homens como mulheres e homens são cartografados,
contem as nossas histórias de solidão passadas entre a multidão. Mas
no seu mundo, como ele deverá ser, novo e mal-assombrado, o que quererá dizer “solidão”?

 

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uma leitura
por Bruno Cintra

O dia 10 de Tishrei é a data mais sagrada do calendário hebraico. Chama-se Yom Kipur, traduzido livremente como “Dia do Perdão” ou “Dia da Expiação”. É a coroação dos chamados Aseret Yemei Teshuvá, os “Dez Dias de Arrependimento” contados a partir do primeiro dia do ano novo, ou Rosh HaShaná (literalmente “Cabeça do Ano”); período esse em que D’us, diz a tradição, decide se seremos inscritos no Livro da Vida. Em suma, os judeus fazemos a reparação pelas transgressões do ano que se encerra e rezamos pela dádiva de Vida para o ano que se inicia. Isso faz de Yom Kipur uma data especialmente solene, uma data voltada para espiritualidade e para a reflexão, na qual os judeus exercitamos nossas mais severas restrições físicas. Não comemos, não bebemos, não temos relações carnais, não tomamos banho, nem ao menos passamos perfume ou qualquer tipo de loção. Sendo a alma a força vital do nosso corpo, um corpo desconfortável traz desconforto à alma, e a dor que sentimos no aproxima das dores dos demais. A fragilidade é um elemento central do Yom Kipur; assumimos condições que nos afligem mas não nos matam. A fragilidade da vida evoca a humildade que o arrependimento exige.

Nós aprendemos que a genuína força não está na nossa capacidade de subjugar alguém, mas de derrotar nosso impulso de fazê-lo. A figura de Satanás inexiste na tradição judaica (salvo como imagem poética que raramente evocamos), a origem do Mal é humana da nossa yetser hará, ou má inclinação. Ela é tão imanente quanto a yetser hatov, a boa inclinação, que a contrapõe, enquanto tendência que havemos de seguir. Segui-la, no entanto, requer força. A fragilidade perante D’us nos preenche de força e humildade a um só tempo. Rezamos a Ele repetindo que “não temos nenhum Rei a não ser Ti”, sugerindo que somente Ele tem poder sobre nós, sobre nossa vida, sobre nossa morte.

O hebraico, um idioma antigo, do ramo semítico-ocidental das línguas afro-asiáticas, não se traduz facilmente, e o vocábulo conotativo de “pecado” expressa “transgressão”. Pedimos expiação/perdão às uma transgressão da Lei, da Torá, que D’us entregou a Moisés como a contraprestação por nos libertar do Egito. O dia 10 de Tishrei, aliás, marca a data em que Moisés recebeu de D’us as segundas tábuas da lei, perdoando-nos pela transgressão do Bezerro de Ouro (justamente a que levou Moisés a quebrar as primeiras). A exegese judaica é bastante clara: a esse tipo de transgressão pedimos perdão a D’us, porque foi contra Ele que as cometemos. Mas o perdão pelas transgressões cometidas contra outras pessoas vem mais delas do que Dele. Passamos o dia na sinagoga, enumerando as várias categorias de transgressão cometida (e.g., “as transgressões das quais temos consciência, as transgressões das quais não nos damos conta”). Mas muitas determinações da Torá se referem ao modo como tratamos o Outro; transgredi-las nos torna responsáveis a D’us e à pessoa ofendida. Ele conhece nossos corações e gosta de nos perdoar (“sabemos que não gostais de matar Teus filhos, mas de vê-los corrigir o caminho”); é bem menos simples ganhar perdão de outros seres humanos. Mas o gesto de pedi-lo é forte pela fragilidade de ficarmos humildes. Adrienne Rich, criada no Cristianismo da mãe, se reencontrou com o Judaísmo do pai já adulta, e por um lado há um sentimento de retorno por todo o poema — teshuvá, aliás, significa tanto “arrependimento” quanto “retorno”.

A solidão é sentimento dos mais frágeis, mas a fragilidade espiritual de quem concretiza sua humildade ao privar-se do corpo, em Yom Kipur, é oposta à fragilidade social de quem é humilhado ao ser privado de sua dignidade, num mundo injusto. Nas referências do texto, como no ativismo de Rich, há injustiça na opressão de gênero e na Guerra do Líbano. Rosh HaShaná e Yom Kipur são chamados de Yamim Noira’im, “Dias da Reverência” ou “Dias da Penitência”. Nós reverenciamos a Torá, que permite nem opressão, nem guerra. Nos penitenciamos por perpetuá-las.

 

(Bruno Cintra, Bacharel em Direito, estudante de História, membro do Coletivo Judaico de Esquerda)


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