Al Berto: enquanto falavas de um mar
30 de outubro de 2016

para ler ao som de “tempo do mar”, tom jobim

 

Poderiam ser duas. Assim como são os discos de Bethânia – de onde veio a inspiração para esta breve antologia.
O mar é imagem recorrente nos poemas de Al Berto (Coimbra, 1948 – Lisboa, 1997).
O mar como origem, destino, destinação, cenário, metáfora (de passagem, de grandiosidade, de violência…).
Aqui, uma pequena seleção. Cheia de sargaço e sal.

 

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~

OFÍCIO DE VIAJANTE

procurei dentro de ti o repercutido som do mar
a voz exacta das plantas e um naufrágio
o deslizar das aves, o amor obsessivo pelos espelhos
o rumor latejante dos sonhos, as cores dum astro explodindo
o cume nevado da cada montanha
difíceis rios, os dias

vivi talvez em Roma
no tempo em que ali chegavam os trigos da sícilia e os vinhos raros das ilhas
a fama remota dos ladrões de Nuoro

todo meu corpo estremeceu ao mudar de voz
cresci com o rapaz, embora nunca tivéssemos sido irmãos
e quando ficámos adultos para sempre
alguém lhe ofereceu o ofício de viajante

eu morri perto de Veneza
e quando atirava pedras aos pássaros sempre me ia lembrando de ti

 

~

 

eras novo ainda
mal sabias reconhecer os teus próprios erros
e o uso violento que de noite eu fazia deles

esta cama de minerais acesos
escrevo para despertar a fera de sol pelo corpo
escorrem aves de cuspo para a adolescência da boca
e junto ao mar existe ainda aquele lugar perdido
onde a memória te imobilizou

enumero as casas abandonadas ao sangue dos répteis
surpreendo-te quando me surpreendes
pela janela espio a paisagem destruída
e o coração triste dos pássaros treme

quando escrevo mar
o mar todo entra pela janela
onde debruço a noite do rosto tocado…me despeço

 

~

 

era um barco
onde os homens regressavam com um lamento
tinham saudades de ilhas…embebedavam-se
no receio de nunca chegar
deitados nas tábuas de sarro do porão
com o cio da noite pegando-se aos membros húmidos
esperavam que se avistasse terra
onde pudessem enfim reabastecer-se de alimentos
água fresca…quem sabe se uma carta não bastava
para saciar a sedes e as fomes do irrequieto coração

assim se quedavam paralisados
os ventres roçando as cordas…as vagas contra o casco
suspirando mansos olhavam depois
a baba acetinada de peixes voando

era um barco
uma sombra do mar com o sol tatuado à proa…avançava
como avançava as vozes aquáticas pelos sonhos adentro
perturbando a navegação da memória
era um barco
com o velame cansado e as mãos calejadas
pelas tempestades das sete partidas do mundo

chegava ao porto
descarregava palavras dialectos estilhaços de concha
espinhas pedaços de cordas na incerteza dos dias
alinhava pelo cais vislumbrado doutro corpo
e voltava a partir
evitando o silêncioso plâncton dos espelhos
acostando somente à memória dalgum distante lugar
onde o amor largou sobre o corpo-amante
uma esteira de conhecidas e sangrentas mercadorias

 

~

 

corpo
que te seja leve o peso das estrelas
e da tua boca irrompa a inocência nua
dum lírio cujo caule se estende e
ramifica para lá dos alicerces da casa

abre a janela debruça-te
deixa que o mar inunde os órgãos do corpo
espalha lume na ponta dos dedos e toca
ao de leve aquilo que deve ser preservado

mas olho para as mãos e leio
o que o vento norte escreveu sobre as dunas

levanto-me do fundo de ti humilde lama
e num soluço de respiração sei que estou vivo
sou o centro sísmico do mundo

 

~

 

o mar arrasta
depois atira o corpo para fora do sonho que me roubou
e a noite
a violenta noite das marés arremessa contra a cama
velhas madeiras restos de vestuário pedaços de corpos
envoltos no coral…rostos
órgãos corroídos pela ferocidade dos peixes

qualquer porto era bom para embarcar
fugir às tribos e ao sol impiedoso
ir em busca de sossego noutras ilhas nocturnas
outros desertos onde o amor se revela e os olhos ficam atentos
ao movimento luminoso dos corpos atravessando
os dias lentos sem regresso

queimava as horas da viagem a esmagar saliva
aprendia a sonâmbula fala dos golfinhos
os dedos enfraquecidos pela amarras
gritava… “Ó fogo de Santelmo! Ajudai! Ajudai!”

e da insuspeita travessia para o sul
vinha a poeira da noite como o embriagante perfume a orquídeas
e a ilusão das suaves índias que não conheço

 

~

 

dizem que a paixão o conheceu
mas hoje vive escondido nuns óculos escuros
senta-se no estremecer da noite enumera
o que lhe sobejou do adolescente rosto
turvo pela ligeira náusea da velhice

conhece a solidão de quem permaneceu acordado
quase sempre estendido ao lado do sono
pressente o suave esvoaçar da idade
ergue-se para o espelho
que lhe devolve um sorriso tamanho do medo

dizem que vive a transparência do sonho
à beira-mar envelheceu vagarosamente
sem que nenhuma ternura nenhuma alegria
nenhum ofício cantante
o tenha convencido a permanecer entre os vivos

 

~

 

enquanto falavas de um mar
derramei sobre o peito os escombros da casa
reconheci-te
nos alicerces devorados pelas raízes das palmeiras
na sombra da ave deslizando junto à parede
no foco de luz rompendo o tijolo onde estivera a chaminé
vivemos aqui
com o ruído dum cano ressumando água
até que o frio nos fez abandonar o lugar e o amor

não sei para onde foste morrer
eu continuo aqui… escrevo
alheio ao ódio e às variações do gosto e da simpatia
continuo a construir o relâmpago das palavras
que te farão regressar… ao anoitecer
há uma sensação de aves do outro lado das portas
os corpos caídos
a vida toda destinada à demolição

tento perder a memória
única tarefa que tem a ver com a eternidade
de resto… creio que nunca ali estivemos
e nada disto provavelmente se passou aqui

 

~

 

Há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida
pensava eu… como seriam felizes as mulheres
à beira-mar debruçadas para a luz caiada
remendando o pano das velas espiando o mar
e a longitude do amor embarcado

por vezes
uma gaivota pousava nas águas
outras era o sol que cegava
e um dardo de sangue alastrava pelo linho da noite
os dias lentíssimos… sem ninguém

e nunca me disseram o nome daquele oceano
esperei sentada à porta… dantes escrevia cartas
punha-me a olhar a risca do mar ao fundo da rua
assim envelheci… acreditando que algum homem ao passar
se espantasse com a minha solidão

(anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no
coração, mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.)

um dia houve
que nunca mais avistei cidades crepusculares
e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta
inclino-me de novo para o pano deste século
recomeço a bordar ou a dormir
tanto faz
sempre tive dúvidas de que alguma vez me visite a felicidade

 

 

RECADO

ouve-me
que o dia te seja limpo e
a cada esquina de luz possas recolher
alimento suficiente para a tua morte

vai até onde ninguém te possa falar
ou reconhecer – vai por esse campo
de crateras extintas – vai por essa porta
de água tão vasta quanto a noite

deixa a árvore das cassiopeias cobrir-te
e as loucas aveias que o ácido enferrujou
erguerem-se na vertigem do voo – deixa
que o outono traga os pássaros e as abelhas
para pernoitarem na doçura
do teu breve coração – ouve-me

que o dia te seja limpo
e para lá da pele constrói o arco de sal
a morada eterna – o mar por onde fugirá
o etéreo visitante desta noite

não esqueças o navio carregado de lumes
de desejos em poeira – não esqueças o ouro
o marfim – os sessenta comprimidos letais
ao pequeno-almoço

 

~

 

INCÊNDIO

se conseguires entrar em casa e
alguém estiver em fogo na tua cama
e a sombra duma cidade surgir na cera do soalho
e do tecto cair uma chuva brilhante
contínua e miudinha – não te assustes

são os teus antepassados que por um momento se
levantaram da inércia dos séculos e vêm visitar-te

diz-lhes que vives junto ao mar onde
zarpam navios carregados com medos
do fim do mundo – diz-lhes que se consumiu
a morada de uma vida inteira e pede-lhes
para murmurarem uma última canção para os olhos
e adormece sem lágrimas – com eles no chão

 

para o marujo marcos walickosky


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