OFICINA EXPERIMENTAL DE POESIA: “O continente que quer explodir e ser ilha e ilhas” (Parte 2 de 2).
26 de abril de 2016

Talvez uma questão com a qual todos os coletivos – e grupos artísticos ou não – precisem se haver em algum momento seja a convivência de duas forças: uma, que chama para a coesão do grupo, para os movimentos de (re)afirmação redundante em que cada integrante acaba apontando para o outro na construção de alguma solidificação, e outra, de dispersão, de fragmentação em conjuntos menores – unitários ou não – dos acordos cotidianos possíveis, de como a vida se espraia e se distribui em laços, composições distintas. Não é tanto uma oposição entre um movimento para dentro e outro para fora, muito menos entre o sólido e o que já seria líquido; na verdade, pensando nos textos de três poetas da Oficina Experimental de Poesia que vêm abaixo talvez pudéssemos sugerir uma dinâmica entre o “bico do corvo” – que junta, une, prende – e as “cascas dos ovos”, a “poeira”, ou em outras palavras, entre a “escada rolante redonda” e “caixas mofadas fotografias de crianças”. E, em coletivos, o interessante é encontrar com essas forças nas relações, nos próprios funcionamentos dos grupos humanos, mas depois de modo distinto e redistribuído na linguagem, nos poemas.

No caso da Oficina Experimental de Poesia, é notável que essa força coesiva se dê sempre como força em deslocamento, como uma articulação que talvez possa ser chamada propriamente de política – algo que se perde no modo através do qual eles se dirigem não uns aos outros, mas ao real, ou às construções sociais, como se o seu ponto de reunião fosse também uma forma de enfrentamento. Precisamos estar juntos para lidar com esse mundo. Simultaneamente, estar juntos quer dizer uma dispersão de sensações, pequenos gestos que talvez se anotem para não se perder, mas que parecem estar sempre expostos a uma fragilidade, das “piruetas da vida mínima”, marcados pelo movimento, pela pequenez e pela impermanência.

Não se trata de uma poética comum, e menos ainda de traços de estilo que atravessem os poemas. Estamos antes pensando em um clima, em condições de temperatura e pressão nas quais modos diversos de pensar o poema e práticas diversas de escrita se elaboram.

No poema que dedica a Rafael Zacca, vemos em Guilherme Gonçalves o jogo entre os objetos cotidianos e o lance de luz, as sensações mínimas colhidas em que eles se dissolvem. Um ponto entre o concreto e o luminoso invisível. Uma exploração, oscilação sempre entre limites do denso ao evanescente, que retorna na construção de “prédios telepáticos”, “contra os aparelhos as células”, e nas repetições que mudam o sentido de “companheira” e de “partidos”.

Já em Heyk Pimenta, se dirigindo a Fernanda, encontramos a fricção de imagens que passam do delicado (ou de sua expectativa) ao duro, como depois passará do urbano ao lixo, ao animal, ao ambiental. Como se no fluxo, na torrente de imagens, os focos fossem se reajustando. E a esperança mar, ao final, que falta em São Paulo, fosse tanto catástrofe quanto promessa. Ilha e ilhas como espaço biogeográfico específico. E, portanto, potência dos múltiplos que rompem com o Um. Mas também ilha e ilhas como a distância e o desafio da comunicabilidade, como desejo de explosão.

Nos poemas de Khalil Andreozzi – com anotações como se para performances, vivências tidas ou a serem encontradas – o aspecto de recolher os momentos mínimos como prática de afeto e de deslocamento no/do outro retorna como prática constante, como base de uma vivência que será articulada na inversão dos lugares de fala. Ali, não é Khalil quem se dirige aos outros poetas, mas o ensaio da fala deles, a memória (?) da voz do outro que chama o próprio Khalil. Como se um poeta viesse convocado pelo som que vem dos lábios de um outro. E nessa voz alheia, uma ética do encontro pudesse começar a ser pensada.

Talvez tenha sido oportuno que nosso caminho – ainda que intervalar – na série de postagens sobre poesia, crítica e afeto venha a terminar aqui. De alguma maneira, a procura pela escuta, o exercício de dar voz ao outro é também a pergunta pelo nome – dos coletivos poéticos, da reflexão sobre poesia e crítica e afeto – que queremos tecer. Apontar esse cenário efetivo, das pontes, dos cruzamentos possíveis entre diferentes práticas e diferentes grupos que se questionam sobre a linguagem (comum?) e sobre a linguagem (poética?) hoje não deixa de ser uma indagação fundamental sobre que acordos sociais (não) nos têm sustentado, que outros podemos/devemos pensar.

Oficina Experimental de Poesia: Adiron Marcos, Ana Carolina Assis, Bárbara Coelho, Davi Nascimento, Felipe De Oliveira Menezes, Guilherme Gonçalves, Heyk Pimenta, Karen Campos, Khalil Andreozzi, Liv Lagerblad, Luiz Guilherme Barbosa, Marcos Nascimento, Marcelo Reis de Mello, Claudio Medeiros, Rafael Zacca, Simone Vieira, Vinícius Gonçalves Melo, Yasmin Nigri.

atividade na oficina em 2015 imperator

2015, atividade da Oficina, Imperator.

 

GUILHERME GONÇALVES

dos grãos

para Zacca

um café para refazer-nos
de tanta quilometragem de tempo
meia colher de açúcar
sendo isto a sequência
ao que está posto
palavra em borra
louça que não junto
cascas vencidas
o dito pelo

talvez

um rosto vire a porta
em poeira
ou
em poeira
dissolva-me
a frincha de luz
como se faz ao perdoar
balé de partículas
incoreografável
piruetas da vida mínima
em plano-sequência
deixando a sala
cheiro dos grãos
que o mistério transpassa coleiras
e sobre sete mortes, mudo
mira da janela.


Os partidos

brota flores en mitad de la noche
en mitad de la página
sobre la panza de la muerte
la orfandad lleva un blanco en la frente
E L P O E M A S E A B R E
esa es tu fuerza
(Escrito con um nictógrafo, Arturo Carrera)

Companheira, o poema não pode
desarquivar os prédios telepáticos
em que a mudez fez ninho
a noite infiltra a mecânica do cuco
pela mão intrusa do relojoeiro
gafanhotos moram cartas sem escrita
amarelam os instantâneos
o poema não prova
dos inocentes o olho da lei
a orelha de van Gogh o corpo integral
nós somos os partidos
as solitárias portáteis os fios
que sondam os lábios
contra os aparelhos as células
os partidos
nós somos os partidos
os inocentes são um e o mesmo
a bandeira passando ao pescoço
seus dois substantivos abstratos

sequer havia porões mas limpos rituais
marchinhas tão sebastianas
o hino dos inocentes
o futebol
os inocentes
não perdem a esportiva

companheira, o poema não diz
de quando você caiu por visitar a família
carregando em joelhos frouxos
seu quinhão de guimbas e reuniões
já sem cachos e nome e dentes capazes
de versos e do contrário –
eram suaves nossos dedos
roçando as cordas
antes dos porões
a céu aberto o poema se abre
entre nós
seu enigma e nossos mortos
cantam e cantamos
para não morrer muito
pelo contrário.

***

encontro com pucheu 2014 livro mais cotidiano que o cotidiano

2014. Encontro com Alberto Pucheu, sobre livro “Mais cotidiano que o cotidiano”, Imperator.

 

HEYK PIMENTA

Porcelana

não tem serragem fernanda
a porcelana que carrego pra você por são Paulo

e por isso é bonita
é dura contra o duro da caixa
é dura contra o rosto duro
das mortes que a cidade emana

essa dureza não é força
é deixar no balcão os papéis da garantia
é não ter amortecedores

é segurar com o peito
a tinta viva dos caminhões
os arrebites do metrô

é deter com a casca dos ovos
o bico invencível do corvo
o nariz de pedra do lagarto

é o continente que reza para explodir e ser ilha e ilhas
trinta cacos banhados de mar
para isso há mar

***

enocntro no mam 2015 convite prêmio pipa

2015. Encontro – convite prêmio pipa. MAM.

 

KHALIL ANDREOZZI

“é por que sou torto___assim khalil
corto com vidro faca folha
(olhava pela janela camões
sem olho eu ali coa pelinha beliscada no trinco)
só erro
a minha rua era perto do trem
cortando o méier
a minha casa agora
é perto de uma rua assim___larga
e o metrô nas vísceras
abaixo me põe
tremendo quando corto o pão
passo a margarina
o salame argentino do gui
tudo balança
e rasgo o paninho da mesa
mas não me cai um fruto khalil
acho que vão coisas verdes
ainda que amarelas
(esqueço a sacola da feira a força pros caixotes)
já que vejo de lado
luzes lâminas a lama no quintal de trás
(tudo aguarda no quintal de trás)
os óculos não me cabem
minha miopia sem lentes mandando corações trocados
mas apenas no olho esquerdo
pois me fiz canhoto
cedo ainda que sem anjo
ah khalil no méier me contaram de um anjo
que tinha meu nome
mas não era eu”

carta-do-zacca-pra-khalil-a-ser-lida-com-a-voz-do-zacca-enquanto-alguém-passa-o-café-e-abrindo-os-braços-quando-houver-___

 

*

 

“ah khalil eu
torto___ assim rolando
toda escada abaixo
e a escada sobe só
pra me enrolar um pouquinho mais
e mais na vida caindo
junto com esse tal de weathercock
nos braços por não saber usá-lo
(na minha casa
tem uma escada e uma outra
escada ainda por cima
onde eu nunca caí
enquanto você olhava)
às vezes me pego
naquele seu épico
na escada rolante redonda
nunca escrito em 140 caracteres
mas não gosto de escadas rolantes khalil
lá embaixo não tem porão
e caixas mofadas fotografias de crianças
minha fantasia
que não pude usar quando disseram
que não devia caber
khalil
no vão da minha escada
eu quero um armário
com essas vidas inteiras
a penteadeira que odeio até
quero os chinelos guardados
a barraca de praia coisas da horta
os lugares de tudo o que dei por aí
e os livros de receita ao lado dum cantinho
pra panela de pressão que ainda não comprei
ah khalil mas um armário
no vão fecharia a outra escada a porta
entrando apenas a delicadeza
dos vizinhos com panelas às seis da tarde
e eu tendo
que saltar a janela
alta e meu medo
de não voltar
pra responder as cartas
mas podendo pulando
esquecer as chaves
na pia ao lado da água
que esquentei mais cedo prum café”

carta-do-zacca-pra-khalil-a-ser-lida-com-a-voz-do-zacca-abrindo-os-braços-quando-houver-___-e-vendo-o-gif-da-escada-infinita-em-http://migre.me/sAIpw

 

*

 

“não sei
como chegaram de lá

nossas mãos os cajueiros
finos a manga daquela blusa passando
ainda nos dizem elegantes

mas é você quem atrasa os postais
dançamos o final da festa
e o fundo
da bolsa nos lembra
cigani

não sei

todas as gentes agora
guardam
seus diários de sonhos

a beirada
do viaduto de bicicleta
é só
a calçada da minha casa
eu perdido aceno
sempre comendo os freios

mais cascas juntadas pro teixo
que talvez
plantemos
madeira dos arcos que a mari
conta pra logo já

khalil
cortaram os laranjais
não sobraram
sacas nem se abarrota
um caminhão
em que eu possa
seguir

e nossas botas
errando ainda os pedais
enquanto nos chamam
bichas porque
você
se esqueceu de limpar
os olhos as unhas e eu
o lenço de dândi

não sei
dos dedos
na barragem
quantos deixei
nem tenho mais
notícias do jornaleiro

a
não ser
pela caixa
vazia

volto com nada da rua
planos
diários molhados
sob uma pedra
escorrem e lavam
a escada

hoje dei aos lixeiros
o saco de baratas
mortas que você varreu
mas não pôs pra fora
antes
no dia
em que acabado o mel
esprememos as frutas
por sobre
as frutas
e lambemos as mãos”

carta-do-heyk-para-khalil-a-ser-lida-marcando-as-quebras-com-os-braços-pendentes-e-tronco-pra-frente-enquanto-se-monta-um-cavalo

 

*

 

“khalil você tenta me buscar
no facebook e só
acha um tal dj zant
mas eu não sou dj khalil
mal sei
o meu ukelele sem cordas
e dançar
desaprendi pequeno
depois de todo balé
mas você tentou
pra ana hoje
mostrar o vídeo do gui e eu
na casa do heyk
juntinhos
aquela noite linda
e feliz agora o gui
cantando de olhos fechados
o dizem radiante bêbado khalil
o que diziam também
do tim no dia
em que você não tava lá
amor reaprendo os passos
em inis mór
mesmo que torto pois
já desde homero se fazem
assim os caranguejos
que os deuses ainda chamavam
evitando de atená a dívida
naquela tal
batraquio-
miomaquia
os de muitas patas
e casca
a salvar da morte
no rio
a raça inteira das rãs”

carta-de-zacca-para-khalil-a-ser-lida-em-conversa-com-a-ana-no-celular-com-foto-do-guilherme-sentado-num-barranco-deixando-os-pezinhos-tocarem-a-água

 

 

2014. Encontro com Sergio Cohn e Alberto Bicceli. Sede da editora oitoemeio.

2014. Encontro com Sergio Cohn e Alberto Bicceli. Sede da editora oitoemeio.


Guilherme Gonçalves, Heyk Pimenta, Khalil Andreozzi, Oficina Experimental de Poesia