OFICINA EXPERIMENTAL DE POESIA: afetos, atravessamentos, políticas, cidades (Parte 1 de 2).
23 de março de 2016

Talvez um dos espantos deste coletivo de práticas artísticas e poéticas seja o nome: Oficina Experimental de Poesia. Sua organização é fundamentalmente a do trabalho coletivo na construção de textos, performances e obras poéticas diversas, estruturando-se efetivamente como uma oficina. Também em sua linguagem ou em sua maneira de propor a reflexão própria que buscam elaborar sobre o poético não falta o caráter provisório, de construção e reelaboração permanente, de tentativas de caminhos e mesmo certo método que caracteriza a experimentação. O nome espanta não pelo que apresenta, mas pelo que, nele, está ausente. Aqueles que tiveram contato com as práticas e com a linguagem dos poetas/artistas que integram o coletivo percebem uma de suas características mais notáveis é a politização de cada passo dos encontros, numa reflexão que busca, o máximo possível, uma radicalidade democrática. As formas coletivas pensadas para a apresentação dos textos, a comunhão dos espaços, a abertura para múltiplos pontos de vista e a experiência de trânsitos entre lugares de fala diversos orientam e reorientam a dinâmica sempre no sentido de uma poesia que se quer como linguagem da cidadania.

gaya - free staly

Gaya Rachel, 2015

Esse pode ser o cerne para manter vivo um coletivo de 18 integrantes, todos participantes de diferentes etapas de elaboração e participação das atividades, de acordo com o que querem, com o que os move. Além da horizontalidade e da valorização da prática do diálogo, outro aspecto que evidencia ou problematiza o modo como pensam o que é uma atividade de produção cultural pode ser percebido no histórico do grupo e suas diferentes relações com os espaços que ocupa. Tendo iniciado em maio de 2011, a princípio, em locais fechados codificados como próximos à cultura do livro, ou à classe artística, como a livraria Pargo das Letras, ou o Centro de Cultura Laurinda Santos Lobo, e a sede da editora Oitoemeio, no Flamengo, deslocaram-se posteriormente, sem convite ou apoio, para o Centro Cultural Municipal João Nogueira, o Imperator, no Méier.

A mudança é significativa não só como deslocamento com na cidade, para além de seus espaços imaginários de “produção de cultura”. É também um traço da reflexão sobre o espaço público, que pode, precisa ser ocupado por qualquer um disposto a produzir seus conjuntos de obras, símbolos que povoem a cidade. Foi nesse sentido que os encontros semanais da Oficina se transferiram para o terraço do Imperator, permitindo a aproximação e participação livres de quem estivesse interessado, nesse sentido também que até ano passado os encontros se mantiveram como prática de ocupação do espaço que é público – com alguns desencontros com as instituições que, a princípio, regulamentariam e garantiriam esse espaço. Desde o ano passado, a sua persistência conta com a administração do Centro Cultural Municipal João Nogueira, que agora lhes garante um mínimo de apoio técnico e financeiro.

Os encontros da Oficina se dividem em momentos de propostas de exercícios criativos, pesquisa/seleção de livro, discussão/debate crítico sobre o livro selecionado para leitura, e roda de conversa com o autor. Além dos funcionamentos, nas quartas-feiras a partir de 19h, no Imperator, este ano, de 2016, o grupo expandiu seu conjunto de parcerias, oferecendo, no Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica – no centro do Rio – turmas de práticas de criação poética.

Do ponto de vista da linguagem, a perspectiva comunal, a divisão de experiências, propicia não algo que poderia ser descrito simplesmente como uma língua em comum, ou como qualquer coisa que poderia ser entendida como conjunto de princípios e regras de composição, uma proposição de poética. O que talvez se possa dizer é que suas fissuras se comunicam. Importa perceber não apenas o gesto, o endereçamento – no sentido de eleger ou se direcionar ao outro – mas o quanto as vozes parecem vazadas por canais que se comunicam, mas que também extraviam pequenas sensações, deixam surgir, no arrepio, outros sentidos.

Escolhemos o coletivo da Oficina Experimental de Poesia para encerrar nosso ciclo, nosso conjunto de postagens sobre crítica, poesia e afeto. Nessas trocas de correspondência e poemas, um pequeno vislumbre de uma reflexão que quer pensar a palavra nesse espaço atravessado, da cidade, da democracia, do poético. As imagens que ilustram essa postagem são aquarelas da artista Gaya Rachel, em 2015, feitas durante os encontros das oficinas.

 

Oficina Experimental de Poesia: Adiron Marcos, Ana Carolina Assis, Bárbara Coelho, Davi Nascimento, Felipe De Oliveira Menezes, Guilherme Gonçalves, Heyk Pimenta, Karen Campos, Khalil Andreozzi, Liv Lagerblad, Luiz Guilherme Barbosa, Marcos Nascimento, Marcelo Reis de Mello, Claudio Medeiros, Rafael Zacca, Simone Vieira, Vinícius Gonçalves Melo, Yasmin Nigri.

 

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gaya - outrodia

Gaya Rachel, 2015

 

CAROLINA TURBOLI & YASMIN NIGRI

 

Correspondência

 

(Enviado por: Yasmin Nigri

Para: Carolina Turboli)

 

Carol, me ajuda, minha vida é igual violão eu não sei tocar violão. Essa oscilação louca vontade de passar tudo sujo, já não sei por onde contornar escorpião retrógrado. Pra completar ainda tem essa epidemia de ebola, menina, eu tô num momento da minha vida que eu não tô podendo pegar ebola, juro, tô cheia de carnê pra vencer. Deixa eu te falar da Julinha, a menina ta aqui em casa esparramada no sofá e vem meu pai falando quando você tiver sua própria casa emprego e pagar suas contas você assiste o tanto de galinha pintadinha que quiser eu precisei sair correndo pra não falecer Carol, tô morta só de lembrar. Aí levei Julinha pro quarto e fiquei lendo pra ela pegar no sono quando me toma esse desejo urgente de te escrever e contar que as coisas tão mudadas e nem tanto e que enquanto eu lia os 12 trabalhos de Hércules pra Julinha imaginei a coisa toda se resolvendo no agora e Hércules postando uma selfie no instagram com o leão de Nemeia e a legenda “começando os trabalhos”.

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(Resposta de: Carolina Turboli

Para: Yasmin Nigri)

Yasmin, mulher é tudo escorpião comandado
por abelha-rainha. Precisamos rever os nossos poemas
porque Ana C. falou que quando escreve é homem
e temos falado demais de ser mulher e ter bunda
tem atrapalhado na hora de sentar os meninos
é que dizem. Medo e mulher andam juntos pra todos
no nosso caso o medo é acompanhante e o pai e o ex
o diretor do circo são os eguns de ronda. Yasmin
eu odeio o Vinicius de Moraes vamos jogar os livros
no berço dos meninos e ir pra Lumiar antes da noite
porque andar sozinha é pedir pra ser estuprada.
Lembra do Hércules, meu ex? Ele tá gordo e me disse
que Saturno é cheio de anel que isso é coisa de mulher
que retrógrado é nome de mulher e que escorpião é um tanque
vivo comandado por formigas tanajuras. Tenho medo
de contar pros meninos do escândalo de mel de estar nesse
tanque fazendo mel de mulher acho que somos alquimistas
eu não sei o que vai ser deles sem a mamadeira de rambaud
eu quero lamber as santas eu quero lamber as santas mulher
é bom demais pra ser altar (os homens é que inventaram a loucura)
o gravador apita “vou invocar as musas” mas elas estão correndo
nas montanhas jorrando leite e compondo. Chega de porta-voz.
Aliás a loba da Virgínia te mandou um abraço lá das pirâmides
dizendo que a buceta da esfinge é dela e ela abre pra quem
quiser.
Baco morreu ontem engasgado de tantos Peixes mas a Globo
é um aquário que não vê o grande mar da nossa era.
No mais avisa pra Julinha que a galinha só está no diminutivo
porque vive olhando pra baixo, eu não vim falar das asas eu vim
voar.
Amanhã estamos aí fechando com Vênus fazendo pérolas
da lama dos porcos e cantando o que a gente quiser e
não o que o Chico mandar. Mulher que diz que Chico Buarque
entende de mulher não sabe o gosto que uma mulher tem.
Quem ouviu o galo cantar pode contar porque quem ouviu
a sereia não tá aí pra contar a história. Eva era cantora.
Às vezes acho que ser mulher é um ENEM malfeito
onde passa quem lê mais textos grandes no facebook
mas o Graal é muito maior que um pau e ser mulher
é algo que não escrevo como não falo o que é ser uma pedra.
Estou cansada. Por que Ebola é feminino?

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Poema inédito de Yasmin Nigri

Duas bêbadas

Estávamos à beira mar
Rindo
Do que estávamos
Fazendo
À beira mar
Completamente bêbadas
Àquela hora
Com um baseado
Perdido na ventania
Semeando a areia da
Praia de Copacabana
Ríamos desesperadamente
À beira mar
Do baseado
Perdido na ventania
Da madrugada da
Praia de Copacabana
Mãos de maresia
Repletas de areia
Entre unhas e dedos
Buscando o baseado
Perdido na ventania
Ríamos
Da madrugada da
Praia de Copacabana
Desesperadamente bêbadas
À beira mar
Areia entre os dedos
Sem baseado
Repletas de areia
Enquanto enrolávamos
Voou seda
E baseado
Semeando areia úmida
O vento levou seda e
Baseado
Na madrugada da
Praia de Copacabana
E ríamos desesperadamente
Bêbadas
Enquanto corríamos os dedos
Buscando areia
No baseado
Repleta de dedos
Que o vento soprou da seda
À beira mar
Levou seda
Levou baseado
Dedos cheios de areia
E ríamos desesperadamente
Na madrugada da
Praia de Copacabana
Bêbadas
Desesperadamente bêbadas
Ríamos completamente

 

***
Poema inédito de Carolina Turboli

Garota ideal

Gosto de te prender com as pernas
Abafando o gemido do alarme
Insistir no abraço necessitado
Gosto de te agredir todo dia
De te tocar e sentir o choque
Digo que tenho um ventríloquo
De ternura que me lubrifica
E te faço cuspir sangue
Você me bate e corre a rua
Para pedir perdão ao Sol que te rasga
Meu ódio te aguarda iluminado
Você é patético
Para ti todos os meus risos
Quero fazer contigo
O que a espremedeira faz
Com as laranjas

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gaya - PhotoScan

Gaya Rachel, 2015

 

RAFAEL ZACCA

Carta para Khalil, 20/08/2015

Khalil, esta é uma conversa de mim comigo mesmo, mas você está todo aqui dentro. Em mim cresce a tua amizade como crescem nas pessoas as fibras que cobrem florosas a imensidão do corpo. E se ando com tal substituição de camadas, cotidianamente, que é o teu nome comigo, ando tranquilo. Tudo é um suceder de infâncias; o fim da incapacidade de falar cede lugar à incapacidade mesma de falar, ainda mais errada, ainda mais gaga. Eu não queria escrever assim, Khalil, não queria ter essa voz segura. Acho mesmo que devemos ser as crianças que somos, tateando o mundo, balbuciando as coisas, cedendo os joelhos diante do perigo. Eu já te escrevi um bocado, mas ainda não consegui te dizer dessas coisas. Hoje derrubaram galhos e mais galhos das árvores de minha vila, as pessoas não gostam dos morcegos, e como consequência aconteceu de os pássaros pousarem todos às 16h30 em frente à minha casa para piar descontroladamente. Os meus vizinhos discutiam sobre as contas da vizinhança, cifras e salários. Também eles piavam, pensei por um momento que eram todos pássaros que haviam perdido seus ninhos, há muito tempo atrás. Uma visão de morte tomou conta de mim: de repente, todos eram o pombo daquele poema sobre meu pai, aquele que tombava na pedra portuguesa, e que não era ainda o poema. Mas não, eles são duros, não vão cair, nem os pássaros. “A indestrutibilidade da vida suprema em todas as coisas.” Você é uma revoada de cantos, Khalil, embora a sua voz seja tão grave. Não, ela não é grave: é um marulho. Grave são os tempos. Ainda bem que o temos por perto. Esta é uma carta aberta dos meus papagaios (eu ainda sou esse pássaro que não aprendeu a piar, quero perder a fala contigo).

 

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Poema para o Heyk

Uma barata no cemitério de Inhaúma

“sem saber se o cheiro que sente
é de açúcar ou de morte”
Heyk Pimenta

Uma barata, Heyk,
esmagada na gaveta da dona Julieta
no cemitério de Inhaúma

morria sozinha
ainda no portal
metade era só pasta
a outra, miragem às avessas
areia enfim
rodeada de gente
eram brutas as gentes
quando choravam –
hoje não choram mais

a delicadeza
é uma terra arrasada
tática dos russos
a delicadeza
é um desespero de guerra

tanta gaveta sem jeito
uma delas com adesivo
do Tom & Jerry

eles nunca morriam
nem ficavam mancos
não tinham esse corpo
frouxo

dentro do metrô do rio
só o escuro
trazendo a dona Julieta
ela e os latifúndios
ela e os carregamentos de borracha

era manca
mas não tinha o corpo frouxo
dentro uma lagoa
e uma noite sem fim
e pés de buriti
crescendo entre as patinhas

só o mel vazando
do corpo a última gota
e o convite às moscas

não tem estação do metrô
em São João de Meriti
mas é como se tivesse
a linha 2 enforca
a Pavuna
e São João
a linha 2
é uma casa de engorda

a dona Julieta
morreu no Cachambi
por isso morreu magra
alçando voo sem asa
não era bicho de desenho animado
era uma água negra
parada

antes do voo
foi grito urro televisão no último volume
incomodou o vizinho
recebeu multa
120 reais

, a barata, Heyk,
eu não sei se ficou viva
se tentou ainda as carnes
da dona Julieta
ou se recebeu
multa de condomínio

morria sozinha
a delicadeza
era manca
um desespero de guerra
crescendo entre as patinhas
só o mel vazando

mas os teus poemas
seguem
tentando as carnes
vivas ou mortas
para lhes dar
alguma dignidade.

Heyk, você é uma casa onde moram os bichos que eu quis pegar pra criar.

***

Poema para Khalil
A marina das coisas

um segredo para Khalil

Não é tão tarde que não se possa
selar o céu com o marulho das conchas.
A frágil casca das coisas se abre em segredo
e convite à escavação

– a mão
que encontra antenas
é a mesma que se rasga na areia

assim se abrem as crianças:
entre o sangue e o brinquedo
num rolar de tatuíras
batendo

o dente e o dente (um segredo de cálcio,
quem adivinha o metal
que aí se elabora? arrisco:)

um clarão de sol secando
castelos vazios
sem reis – ruína de crustáceos
sem história – deslizamentos de terra
sem serviçais – o mundo aberto no vagar
dos que não têm casa
a mão pequena, se nos toca,
nos faz, a todos, desterrados.

É por isso que as crianças
, se podem ir à praia,
salvam o mundo

ao cavar fundo

articulam
a marina das coisas
os bichos inexplicáveis
o tumulto do nácar.

 

gaya - lucas

Gaya Rachel, 2015


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