Cecilia Pavón: 27 poemas com nomes de pessoas
8 de janeiro de 2016

por Clarissa Freitas

Seguimos a série de postagens que investigam as relações entre crítica e afeto com 27 poemas de Cecilia Pavón. 27 poemas com nomes de pessoas. Um poema com 27 nomes. Poemas compostos de memória durante 27 dias na praia (se acreditarmos no que diz o primeiro deles).

Campo propício para stalkers e especulação, a extensa lista de títulos passa pelo estudioso de software Lev Manovich, o recluso escritor norte-americano Thomas Pynchon, a própria autora, a artista e amiga Fernanda Laguna, a escritora-atriz-diretora-roteirista-performer-transformista Miranda July, entre outros.

Conversando com Gallego durante o preparo da postagem, ele falava sobre o endereçamento nos textos, em alguma medida distinto da raríssima poesia de e-mail que Cecilia e Fernanda Laguna exercitavam na revista Cecy y Fer (editora Belleza y Felicidad, com traduções em português aqui e aqui). Isso porque nesses 27 poemas, cada nome que é posto em cena repropõe a relação entre título-texto anteriormente estabelecida, numa pergunta ou jogo constante pela fricção entre o reconhecimento (ou não) do sujeito invocado e o corpo do texto. Um poema sobre, uma mensagem, uma citação, a simulação de uma voz, um vínculo afetivo…

 

Em nota – publicada no blog que manteve até 2012 – Cecilia comenta os 27 poemas:

escrevi o livro quando estava apaixonada e sentia que não havia a cultura só uma materialidade da vida cotidiana que era uma materialidade espiritual de pequenas ações, o encanto e intensidade da rotina compartilhada. Ao contrário do que evoca a palavra rotina, quando estava apaixonada a rotina era o extase.

Então, como a cultura não existia, como não havia nomes além de nossa casa tentava conjugar meu distanciamento da cultura (e das outras pessoas) evocando nomes. nomes que me sucitavam conceitos e emoções. os nomes eram como a luz das estrelas ou algo assim.

Sei lá.

Como ninguém sabe o que é o amor. Uma questão de fé ou comércio.

Agora acho que preciso escrever mais e melhor. Você sempre precisa escrever mais e melhor . Ou mais e pior.

 

Cecilia Pavón (Mendonza, 1973)

Cecilia Pavón

 

 

***

27 poemas com nomes de pessoas

(um livro de Cecilia Pavón
em tradução de Thiago Gallego)

 

Lev Manovich

Escrevi esse livro completamente de memória porque estava na praia e não tinha nada pra anotar. A cada dia, desenhei uma página na minha cabeça, tratando de ser breve e simples pra não esquecer. Chegando em Buenos Aires anotei rápido tudo o que lembrava em um caderno que meu namorado tinha me dado de presente.
A poesia é como a brisa do mar.

 

 

Lucy McKenzie

Queria escrever um poema sobre Lucy Mackenzie,
uma artista que trabalha com muita prolixidade
e faz sucesso na Europa com obras que mesclam
arquitetura e decoração.
como ela, eu queria me referir ao aspecto espiritual
dos móveis.
ou melhor, a como os móveis habitam a casa
ou o que habita a casa na verdade
se o sexo ou os móveis ou a luz…

 

 

Juliana Laffitte

Não quero ser artista
não quero ser escritora
não quero ser blogueira
não quero ser comunista
nem intelectual.
não há uma palavra que me defina.
gostaria de saber se a luta poderia se associar
à falta de nome
mas tampouco sei se quero lutar

 

 

Marina Mariasch

Faz mais ou menos um mês,
Marina Mariasch me disse que minha árvore tinha sim abacates.

 

 

Thomas Pynchon

Estou vendo um documentário sobre a vida de Aston Kutcher,
o marido de Demy Moore
aos 15 quis salvar seu irmão atirando-se de um edifício
e aos 18 tratou de roubar uma máquina de guloseimas.
mas o mais importante,
o que realmente me emociona
é quando dizem que não é consciente da sua beleza
e que tem um bom coração

 

 

Damián Ríos

A guerra não me interessa
quero escrever um conto, mas quero que se escreva sozinho

 

 

Rafael Cippolini

Não me importa a tua idade
nem o bairro de onde vem
tudo se trata de escutar uma
canção no rádio
e de fugir.

 

 

Santiago Llach

Claustrofobia
produzida
pelo
mundo
da
cultura
frente
à
qual
a
única
saída
são
os
vínculos
interpessoais
ou
o
consumo
de
mercadorias
sedutoras
fabricadas
na
China
ou
no
Brasil

 

 

Diedrich Diederichsen

Não queremos fazer a revolução
dá muito trabalho
o que queremos é não trabalhar

 

 

Monica Rinck

Um livro é como um sonho
me lembro que uma vez uma guria alemã
me disse que quase perde um avião por escrever

 

 

Sergio de Loof

Não existe nada além de corpos e afetos
não existe
não existe
não existe

 

 

Gabriela Massuh

Não tenho que ter medo
porque o medo é o contrário da radicalidade

 

 

Paula Peyseré

Que difícil é amar um blog
é como se engraçar com um fantasma
muito mais fácil se engraçar com um livro
você se deita com um livro,
beija, abraça
mas não há amor físico possível
por um blog.
de todo modo,
noto que desenvolvo afeto
por certas blogueiras
como Paula P.

 

 

Karen Barad

Queria escrever um poema com onda
não sei como se faz mas vou tentar
é uma frase que me ocorreu caminhando por um parque:
a onda é mais importante que o conhecimento,
e isso é tudo o que vou dizer

 

 

Miranda July

De Belleza y Felicidad, só me resta um açucareiro.

 

 

Washington Cucurto

Prostitutas que mandam dinheiro aos familiares no Western Union de Entre Ríos e Hipólito Yirigoyen, Congreso.

 

 

Nikola Richter

É impossível saber que efeito terá sobre um poeta o ambiente
porque qualquer saída ao mundo é experimental
(se o amor não se afasta
nunca deixarei de pensar
porque as mulheres pensamos através do amor)

 

 

Cecilia Pavón

estou perdida nos meus textos,
e não posso ler mais nada.
tento com ensaios
mas são longos demais
e estão cheios de saltos
que não posso seguir.
só meus poemas são necessários,
e compactos
poemas de três linhas ou quatro
poemas super simples
que provêm todos de um acontecimento real

 

 

Fernanda Laguna

se quisesse me pôr no lugar do outro
inventaria uma consciência falsa
daria com um lugar vazio

 

 

César Aira

Nunca vou deixar de pensar que um poema é uma forma de energia.
temos que romper nossa relação com os objetos
temos que trocar a ciência
e escrever

 

 

Claudio Iglesias

Tratemos de cozinhar em casa
pra não gastar mais grana em restaurantes.

 

 

Timo Berger

Quando não sei o que fazer
vejo televisão

 

 

Carlos Gradin

Sou sindicalista e pós-punk
quero estar drogada às duas da tarde
e sair para comprar roupa em liquidação

 

 

Marina Alessio

“Chegar sozinha
bêbada
e fazer de tudo”

 

 

Gabriela Bejerman

Passear é o mais importante da vida,
mais importante que se distinguir dos outros

 

 

Virginia Negri

Tem gente que se comunica de “outro” jeito
e acredita em formas de comunicação alternativas e
em capacidades emocionais diferentes

 

 

Fernanda Laguna

Por telefone,
nós confessamos
que choramos na frente dos nossos filhos
para manipulá-los.
É terrível.

 

 

Mirta Rosenberg

Leio os livros de Mirta Rosenberg quando ninguém está olhando.

 

 

Claudio Iglesias

Depois de ver o filme Crepúsculo
chegamos à conclusão de que Hollywood entrou
numa nova era
e que as pessoas
diferentes
podem sim conviver

 

 

Daniel Link

Sou da religião da internet
começou como o sonho apocalíptico de uns
militares fanáticos
E vejam no que se converteu.

 

 

Bettina von Arnim

Não quero viajar à Europa
não quero tomar um avião
não quero separar meu corpo dos meus seres queridos

 

 

Editorial Triana, 2010

Agradecimentos a Cecilia Pavón, Angélica Freitas, Jacob Steinberg, Roberta Miranda.


Cecília Pavón, Thiago Gallego, Tradução