Entrevista com Luciana Maria di Leone. 1ª parte: Outras Cenas de Leitura – “é muito difícil viver junto num poema”
18 de novembro de 2015

Estar em obras é uma questão tanto física quanto psíquica. Quando começamos a tocar a reconfiguração do nosso espaço – este blog – pensávamos que duraria em torno de 01 mês, e que, no máximo, no fim de maio, poderíamos retomar nossa agenda de postagens semanais. Como costuma acontecer, as coisas não foram como o esperado. Foi apenas recentemente que tudo ficou pronto e só agora que estamos voltando ao nosso cotidiano. Para os participantes do coletivo, entretanto, não foi um ano de pouco trabalho, ou de silêncio – Lucas Matos, no dia 20/07, lançou seu primeiro livro de poemas pela editora 7letras, “Três semblantes, ou No meio da piada você percebe: ninguém vai achar graça, ou Para cada sentença clara há um engano”, e Marcio Junqueira lançou também sua primeira obra, “Lucas”, no dia 24/10 dentro da programação da ocupação “Campo Minado dos Afetos”, no MAC de Feira de Santana, que incluiu obras de Thiago Gallego e Clarissa Freitas, bem como a intervenção “Bliss: Peace and Noise”.

 

Na verdade, o desejo de retomar as postagens do blog ainda este ano é um desejo por retomar um diálogo, um conjunto de reflexões sobre edição, tradução, criação poética, um conjunto de atravessamentos – interrupções no fluxo dos dias para que possamos olhar, escutar, estar com outras coisas, nossas e não nossas. Quer dizer, o desejo de retomar as postagens do blog ainda este ano é um desejo de reconstituir um convívio em que algumas informações e experiências possam ser trocadas – ainda que convívio tateante neste difícil espaço em que tudo tende a se perder na algaravia geral das coisas.

 

Por isso, não deixa de ser oportuno que, neste retorno, apresentemos a proposta de um ciclo de postagens voltado à reflexão sobre crítica e afeto. O par pode ser combinado de diversas maneiras, desde um esforço crítico que tematiza o afeto enquanto ideia (complexa, uma vez que procura pensar movimentos, modos de relação, ao invés de formas estáveis) até a experiência daquilo que me afeta como base da operação crítica.

 

Escolhemos conversar com Luciana di Leone, a partir do mote de seu livro Poesia e escolhas afetivas: edição e escrita na poesia contemporânea, lançado em 2014 dentro da coleção Entrecríticas da Editora Rocco. O livro é resultado de seu doutorado concluído em 2011 na UFF. Luciana é argentina, formada pela Universidad de Buenos Aires. Ela veio para o Rio de Janeiro, fazer Mestrado em Literatura Brasileira na UERJ, sobre a poesia de Ana Cristina César, tendo praticamente fixado residência no Brasil desde então. A partir de sua dissertação, escreveu o volume Ana C.: Tramas da consagração, lançado pela editora 7letras em 2008.

 

Atualmente, Luciana é professora de Teoria da Literatura da UFRJ e tem se destacado pela combinação de uma crítica aguda com uma escuta generosa, de quem tem disposição de conversar com a produção contemporânea em diálogo marcado por uma reflexão teoricamente densa, politicamente contundente, mas também pela delicadeza da construção do pensamento.

 

Conversamos com ela numa tarde de abril deste ano no pátio da Casa Daros, Rio de Janeiro. Enquanto a luz caía, escutamos Luciana di Leone entretecendo reflexões teóricas sobre a constituição de diferentes cenas de leitura com abordagens de poemas de Ossip Mandelstam à Marília Garcia, falando sobre as dificuldades de se viver junto, a repetição como armadilha de esvaziamento conceitual e seus monstros, o movimento do que lhe afeta. Talvez o que tenhamos aqui sejam apenas ecos, os traços deixados pelos gestos trocados, compartilhados então. Começar e realizar esse ciclo de postagens é fazer uma aposta pelo que ali nos moveu, pelo que ainda pode (co)mover.

 

capa imagem válida

 

***

 

BNTB: No mestrado você investigou as tramas de consagração de Ana Cristina César, como ocorre essa passagem das tramas da consagração para as escolhas afetivas? O que existe de continuidade e o que existe de ruptura?

 

L: Eu acho que fazer uma pergunta sobre as escolhas afetivas é fazer uma pergunta sobre as tramas, é trocar em miúdos, é a mesma pergunta. Basicamente porque há varias nuances ali: o que pra mim se tornou eminente na pesquisa com a Ana Cristina César é que o que estava em jogo eram as redes de leitura, com diversos interesses e compromissos. Quando falo em interesses não são só interesses econômicos ou de fama, mas interesses também afetivos.  Ali se desenhava uma rede, na qual também meu olhar se inscrevia. Quando falo em escolhas afetivas também falo de uma rede de leituras, o afeto que também é uma das nuances que já estavam nas leituras que eu procurava na Ana Cristina César, que basicamente me interessavam eram as leituras de seus contemporâneos que evidentemente são leituras marcadas por afetos de forma mais tradicional, mas também, as releituras de outros artistas, ou seja, já estamos falando de outro tipo de afetação, mas evidentemente algum tipo de “toque” que houve entre a leitura de Ana Cristina César e a vontade de um escritor escrever sobre ela e o empenho por uma leitura crítica. Acho que falar de escolhas (afetivas) é falar de uma rede de leitura também. É falar de rede de leitura e modos de legitimação. E os modos de legitimação que é o foco mais evidente nesse segundo livro estão em Ana C. Vejo que apenas mudou o objeto, que o olhar não é o mesmo (meu olhar também mudou), mas a perspectiva que me interessa continua sendo a mesma. É menos a vontade de entender um objeto do que entender o modo de leitura.

 

BTNB: Tem uma passagem do livro em que você fala do momento em que a coleção da Moby Dick surge, e você vai pegar as passagens especialmente da Marilia Garcia e do Aníbal Cristobo, o que eles publicaram pela coleção é reunido na antologia da Ás de colete publicada pela Cosac Naify em parceria com a 7letras. Algumas das coisas que você está especialmente investigando tendem a se perder ou desaparecer nesse percurso, alguns poemas específicos, e você faz uma pergunta sobre se as escolhas funcionam em dois contextos que precisam ou não ser diferentes, um contexto convivial até ligado a uma edição pirata e outro que precisa ser institucional e até ligado a essa questão da consagração. Podem os afetos ser profissionais? Esses dois contextos são necessariamente opostos? O que é possível de conciliação e qual é o problema entre eles?

 

L: O que eu tento nessa passagem, eu tento mostrar que a mudança da Moby Dick para Ás de colete, assim como relaciono das coleções artesanais de 70 para as publicações da Brasiliense, uma passagem que coloca em evidência o problema da institucionalização da profissionalização, mas que evidentemente se provoca um problema é porque não anula a afetividade anterior. Então eu deixo a pergunta porque para  mim se dá como uma pergunta: podem os afetos serem profissionais? Eu acho que é a pergunta que esses livros colocam. O que se perde e se incorpora nessa mudança no modo de circulação? Como essa mudança do modo de circulação também vai selar uma mudança no modo de escrita? Evidentemente estamos colocando uma pergunta, pois não existe uma “anulação”, a dicção de Marilia Garcia e Aníbal Cristobo, mas também a dicção da Ana Cristina César passando de um lugar para o outro não é a do apagamento não é uma profissionalização contundente, é de uma profissionalização problemática. Dolorosa, eu acho que principalmente no caso de Ana C., talvez não seja tanto no caso de Marília Garcia e Aníbal Cristobo, talvez seja isso algo que a gente ainda possa comparar e estudar.  Acho que talvez haja um outro tipo de investimento nessa profissionalização, também é uma profissionalização que  não se dá nos mesmos termos. É outro momento no mercado editorial, outro momento no mercado da poesia, é outro contexto politico, ou seja, se profissionalizar não tem tantos custos ideológicos como tinha para a geração em 70.  Acho que esses movimentos são vividos de forma menos dilacerante porque tudo me parece um pouco menos dilacerante. Não que os tempos sejam mais fáceis. Me parece que a poesia da Geração 00 ou poesia contemporânea, sei lá o nome que a gente puder ou quiser dar, me surpreende um pouco por ser uma poesia dos afetos e paixões mais sutis, de movimentos mais sutis.

 

BNTB: Por que te surpreende?

 

L: É uma boa pergunta: por que me surpreende? Para mim, em algum ponto a realidade me parece uma coisa inaudita, e não que a poesia deva dar conta. Evidentemente não. Não há essa pretensão, mas me surpreende que a poesia tenha feito uma opção pelos afetos mínimos e pelas sutilezas.  Isso é também uma forma de resistência. Uma outra forma. Eu gosto muito de um poema da Marília Garcia que se chama “Olhando a poeira”. É um poema com muitos diálogos com a poesia do Aníbal Cristobo. A figura da poeira é a figura da leveza, são pequenas figurações que vivem nessa poeira. Uma poeira da memória, mas também a poeira como uma tela, na qual se vê imagens. Agora não vou lembrar de cor o poema. Então é um poema das sutilezas da inscrição. Não é um Mandelstam olhando para a fera, um animal feroz, e o poeta está com a coluna vertebral quebrada. Isso é dilaceramento. Aqui os afetos são muito mais sutis. Os animais que aparecem na poesia contemporânea são insetos, bichinhos. O krill de Anibal é uma coisa mínima, quase imperceptível, porém fulgurante (tem luz). São uma espécie de vagalumes. Acho que agora a poesia traz uma opção pelos vagalumes e não pelos holofotes. Eu acho que isso me surpreende, e é bom que me surpreenda.

 

***

 

Olhando a poeira (Marília Garcia)

 

I.

chega ao café e não sobrou

ninguém só um rastro de eco

para aquele que coleta plânctons

e pixels e não volta mais porque

essa cidade é muito forte mas pode

ser que visite no domingo a feira

onde encontrará o livro

que mais espera, feito só

de números.

pensa sempre em

duas noites sem encaixe: na I partia

de madrugada, ali parada com sua

chave e o tubo cilíndrico de chá para

o dia seguinte – a sala vazia

amanhecendo, a sombra no táxi

e o verde derretendo dos seus

olhos.

na 2, escutava

música sob o fundo azul e lia

um poema, estava mais no

fundo de um oceano, sua voz

deixava ecos no mar ou essa foi a primeira

vez, também não lembra o que

era quando chegou – lima no es ni

linda ni fea, dizia ali com ganas de recomeçar

olhando a poeira “as pessoas

gostamos de começar, para que tudo

pode ser e quase sim”.

 

II.

depois de uns dias apaga

as cores dessa rua molhada só para

parecer nouvelle vague. tinha um pouco

daquela alegria de viver junto ou

o choque de chegar: no quilômetro

mil sentado com o livro entre os

dedos, dispensa o w/t porque já pode

dizer tudo e termina com uma pergunta

porque um dia esse lugar chega

a ser.

 

GARCIA, Marília. 20 poemas para o seu walkman. São Paulo: Cosac Naify; Rio de Janeiro: 7letras, 2007.

 

*

 

A Era (Ossip Mandelstam)

 

Minha era, minha fera, quem ousa,

Olhando nos teus olhos, com sangue,

Colar a coluna de tuas vértebras?

Com cimento de sangue – dois séculos –

Que jorra da garganta das coisas?

Treme o parasita, espinha langue,

Filipenso ao umbral de horas novas.

 

Todo ser enquanto a vida avança

Deve suportar esta cadeia

Oculta de vértebras. Em torno

Jubila uma onda. E a vida como

Frágil cartilagem de criança

Parte seu ápex: morte da ovelha,

A idade da terra em sua infância.

 

Junta as partes nodosas dos dias:

Soa a flauta, e o mundo está liberto,

Soa a flauta, e a vida se recria.

Angústia! A onda do tempo oscila

Batida pelo vento do século.

E a víbora na relva respira

O ouro da idade, áurea medida.

 

Vergônteas de nova primavera!

Mas a espinha partiu-se da fera,

Bela era lastimável. Era,

Ex-pantera flexível, que volve

Para trás, riso absurdo, e descobre

Dura e dócil, na meada dos rastros,

As pegadas de seus próprios passos.

 

1923

 

(Tradução de Haroldo de Campos)

 

Poesia russa moderna: nova antologia. São Paulo: Brasiliense, 1985.

 

***

 

BNTB: Por que o seu interesse pelo contemporâneo?

 

L: Surgiu num seminário com Célia Pedrosa na UFF, eu ainda estava fazendo o mestrado sobre Ana Cristina César e me chamavam atenção as formas de legitimação por citação, um nomeando o outro e de uma forma muito próxima. Aparece na poesia dos 70, as dedicatórias, há muitos poemas dedicados. Há muitos poemas em que aparecem outros poetas como personagens. Eu fiquei curiosa com essa questão, pois estava trabalhando na dissertação e um colega me alertou sobre a existência do blog “Escolhas afetivas”. Então é a partir daí que eu resolvo que meu objeto de pesquisa ia ser esse. (Eu sou da teoria, então meu objeto não é o objeto. Também não vou dizer que eu poderia ter tomado qualquer outro objeto, evidentemente foi esse com o qual consegui estabelecer um diálogo.) Na verdade o que me interessava era uma pergunta: Que forma de legitimação estranha é essa que se dá pela citação explicitamente afetiva? Não nos juntamos mais porque gostamos de determinado tipo de poesia, não nos juntamos mais porque gostamos de determinada tendência politica, só nos juntamos porque gostamos uns dos outros e isso é suficiente: gostamos porque gostamos. O que marca é o fim das explicações por conteúdo. Estamos juntos porque precisamos estar juntos, sem muito motivo. Isso para mim incentiva uma série de questões teóricas. Foi para poesia contemporânea, mas depois do doutorado trabalhei também com a poesia de Carlos Drummond de Andrade com o que se chama de poesia de circunstância. Aí você começa a fazer uma outra genealogia, a poesia de Drummond me levou para a poesia da Arcádia Portuguesa e a Arcádia se passa pelos epigramas. Então é toda uma genealogia que a gente pode montar observando não características estéticas no sentido mais tradicional, mas observando outras formas de agrupamento, outras formas de estabelecer redes.  Para mim, o interessante é isso: que essa perspectiva me possibilite traçar toda uma outra genealogia.

 

BNTB: No seu livro [a partir do artigo Singular e Anônimo, de Silviano Santiago, cf. Referência] você fala em dois tipos de cenas de leitura, quais são as cenas de leitura que você quer e que acha necessário criar?

 

L: O diagnóstico que Silviano Santiago consegue traçar em relação a Ana Cristina César continua bastante vigente. Esses são os nossos grandes fantasmas: o estético puramente estético e um biográfico puramente biográfico. Eu acho essas duas cenas de leitura autoritárias, no sentido de pretender dizer tudo sobre o texto. O legal de Silviano está ali, não só no Silviano, na verdade são anos depois do Estruturalismo, o pós-estruturalismo fazendo outras genealogias. A desconstrução não nasce no pós-estruturalismo, na verdade ele sabe muito bem disso. Ele está pensando no Oriente, ele está pensando no Surrealismo, ele está pensando nas cavernas, ele está pensando em muitas outras coisas. Bom, eu acho que essas outras formas de leitura estão cada vez mais presentes, ou seja, continuam aí nossos inimigos, mas estão cada vez mais presentes outras leituras com jovens como vocês e inclusive professores que estão tentando articular outro tipo de prática em sala de aula. A gente vive esse “revival” dos saraus, uma poesia mais performática onde o que não está em primeiro lugar é a construção poética. Não é que se abandone a ideia de construção de uma poesia, mas não é isso que está em primeiro plano. E também não está em primeiro plano uma identificação biográfica, na verdade o que sai da mesa é a ideia de que vamos achar uma explicação. E aproxima-se a poesia da performance. Na verdade, aproxima-se de algo que é dela desde que a poesia existe e que se a poesia foi parar num papel é também por um movimento muito localizado. Tem um texto maravilhoso de Eduardo Sterzi [Da voz à letra, Sterzi, 2012] que ele fala do soneto justamente como forma poética que seria um exemplo dessa passagem da voz à letra. Na poesia medieval, nos Cânticos de Amigo, na poesia trovadoresca, há uma poesia da voz, hoje chamamos de performance, um termo que realmente não gosto. Uma poesia da voz, dos ritmos vitais, da onda do mar chegando e indo, chegando e indo. Um Cântico de Amigo é isso, um movimento tosco e repetitivo da onda que foi feita para se aprender de cor (De coração). E a memória vai se relacionar com esse ritmo. Já a poesia barroca, o soneto, é uma poesia para ser lida. Se você não ler no papel um poema barroco, você perde o mais interessante que são aqueles joguinhos de filigranas passando de uma sílaba para outra e de um verso para outro, aquela coisa microscopicamente construída. São outras cenas de leitura. Acho que nos últimos anos, não me arriscaria a dizer de um esgotamento do poema no papel, mas talvez tenha algo a ver. Não um esgotamento, talvez uma nova aventura do poema tentando experimentar de novo a voz que já coloca uma cena que não é autoritária. E onde não há nada por trás. Tudo está na cara num poema lido.

 

BNTB: É, eu estava fazendo essa relação entre esses dois elementos que você está comentando, tanto essa coisa da performance e da exploração da voz com a questão do afeto? Não existe um caminho aí?

 

L: Escrever uma tese é algo bem difícil, basicamente é difícil porque, como diria Borges, a linguagem é linear e você tem que colocar uma coisa depois da outra, que você pensa de uma forma menos sucessiva. Há formas mais ou menos bem sucedidas de fazer isso. Bom, eu evidentemente separei os capítulos de uma forma que eu não sei se me satisfaz hoje. Então, de certa maneira no livro ficaram dois movimentos que não são nada separados. Um que tem a ver com (entre milhares de aspas) a formação de campo, com tramas de legitimação, de produção de leitura, e depois análise dos poemas. Isso ficou separado, mas para mim está junto. A questão do afeto é uma questão que aparece nos modos de produção, mas que aparece no próprio poema e é: (1) abrir mão de definições identitárias; (2) Um investimento no contato, de novo não num contato grosseiro, são contatos muito sutis. Tão sutis são que a gente não pode categorizar e dizer uma poesia da amizade, um louvor da amizade. Interessa justamente pensar onde a amizade é um problema. A amizade é um problema. Não pode ser uma coisa incontestável, porque é difícil viver junto. É difícil viver junto para organizar uma coleção, é difícil viver junto num poema. Porque é muito difícil que convivam pacificamente o pronome pessoal de 1ª pessoa e o de 2ª. É muito difícil esse convívio. É isso, e não se trata de coisas tão contundentes. São movimentos sutis de acomodação entre uns e outros. Por isso para mim se a gente observar o poema as marcas estariam na insistência de se referir a uma 2ª pessoa. Na insistência de colocar falas dos outros no meu poema. Os poemas desses autores têm uma quantidade surpreendente de aspas, de caixas de diálogos que você não sabe bem de onde vêm, mas tem essa presença. Tem muitas marcas, ou seja que tenha muitas marcas, é que a própria voz, a voz do poeta está totalmente rasurada. Como diz o [Émile] Benveniste [linguista francês, autor de Problemas de Linguística Geral I e II] “nós nos tornamos sujeito é na linguagem, não somos sujeito antes dela.” Se a gente se torna sujeito quando diz “eu”, necessariamente se torna sujeito quando diz o “tu”. O “eu” não existe sem o “tu”. Não teria motivos para existir se não fosse pelo “tu” e vice-versa. Ou seja é isso que começa a surgir na poesia. É esse vínculo com o outro atávico que está no poema e está na forma de produção. Certamente seria mais interessante que tudo isso fosse misturado na hora de fazer uma análise, que a gente não precise fazer essas mudanças de foco.

 

BNTB: Quais as consequências para os poetas de não terem um projeto e um programa? Não sei se consequência seria a melhor palavra, mas que impacto isso traz para a poesia no espaço público? O que se tem são mudanças talvez bastante fortes nessa relação não só da década de 70 para cá. Por exemplo, alguns textos de Drummond eram publicados em jornal diário, ou seja com uma penetração muito maior e isso também colaborava para uma visão do leitor comum acerca do que se produzia, ou do que constituía o cenário poético de sua contemporaneidade.

 

L: Bom, são muitas coisas que você está colocando. A relação da poesia com seu tempo é sempre uma relação complexa. A pergunta talvez seria: a poesia tem capacidade de intervir no espaço público? Acho que existir um mainstream, existe sim. Vai continuar existindo. Na verdade, agora e cada vez mais o mainstream é uma questão de mercado. Sempre foi. Drummond é uma questão de mercado também. Só que eu acho que é cada vez mais evidente como as editoras constroem os grandes escritores. A poesia sempre teve um lugar muito paradoxal realmente, talvez o Brasil seja um caso particular, de ter grandes poetas. A Argentina tem grandes narradores, não tem grandes poetas no sentido mainstream. Esses autores canonizados, meio de forma que são incontestáveis. Quais são as formas que a poesia está ensaiando para se inserir no espaço público? As estratégias creio que são outras, não é mais a estratégia do jornal, mas porque o jornal está bastante desbotado para dizer o mínimo. Eu não sei, realmente teria que fazer uma leitura mais panorâmica. Há outras tentativas de leitura, há um investimento na poesia oral, nos saraus, na poesia em praça pública, que me parecem muito interessantes. A poesia como coisa lúdica, a volta da poesia para as salas de aula nas mãos desses jovens professores. Inclusive muitas vezes via cultura popular, ter um outro tipo de vínculo com a cultura popular e que a poesia entre nesse vínculo como mais uma expressão, sem “pó de arroz”. Há uma certa vontade de dar um outro tipo de circulação para a poesia. A década de 90, e nos primeiríssimos anos de 2000, esteve bastante mergulhada nas produções de revistas. Revistas muito próximas ao livro. Agora temos menos circulando ao que me parece, talvez eu esteja pouco informada, mas não tem tanta revista circulando. As revistas que estão circulando, bem como vocês mesmos, têm um pé na internet. Não por causa das novas tecnologias. A internet é a praça pública. É a democratização do polo de iniciação. Eu não sei o quanto isso tem de intervenção, acho que tem uma série de formas de circulação que também tem que ser pensadas a partir da afetividade, das questões do doméstico. As informações na internet não circulam como palavra de ordem, mas por redes de amizades. Com uma ideia de amizade que devemos olhar com cuidado. Não é amizade tradicional dos “amigos para sempre”. Uma amizade complexa. Tem a ver com meio de comunicação. Acho que tem uma abertura, uma expansão da poesia, também uma certa perda de soberba, acho que andam um pouco juntas essas coisas. Não sei no que vai dar, não sei se isso vai estabelecer radicalmente outro tipo de vínculo. Evidentemente ainda há os defensores da alta poesia. É o que eu falava, as cenas de leitura que Silviano descreve, continuam estando aí, continuam sendo os nossos inimigos. A leitura de poema e do poeta com letra maiúscula. O poeta inalcançável, da palavra sublime, ainda tem os seus adeptos. Eu acho que esse tipo de leitura, além de perigosa, não me interessa. Parece autoritária, construtora, monárquica e etc.

 

BNTB: Em um ponto do seu livro, no final da página 59, você diagnostica que a recusa contundente das palavras identitárias e de ordem por vezes leva à obrigação de aderir a palavras de desordem, como afeto e relacional. Mas o elogio repetido e esvaziado de qualquer atitude desestabilizadora dessas noções e/ou desafios, como nomadismo, comunidade, amizade, devir, faz com que elas se tornem facas de dois gumes, ou uma faca cega. Então, que estratégias de cooptação, esvaziamento são usadas para inviabilizar essas palavras contra hegemônicas?

 

L: Ali o que estou colocando é uma discussão teórica, de como são utilizados os conceitos. De como teoricamente, mas não só teoricamente, eu vejo uma comunicação total ou bastante fluida entre a teoria e a prática. Mas eu vejo um rápido esvaziamento de conceitos que são potencialmente revolucionários, então, ao longo da história, temos um rol de conceitos que foram desativados a meu ver.

 

BNTB: Acho que a pergunta é um pouco sobre isso. Como é que isso acontece? Quais são as estratégias de desativar?

 

L: Eu acho que não podemos dizer que são estratégias montadas de desativação. Eu acho que, no caso, e não precisamos nos circunscrever aos poetas, a celebração e a repetição esvaziada de conceitos como amizade (“Ai, que legal, somos todos amigos”), ou, indo para trás, com a ideia de devir. Começou a se observar o devir em tudo, e tantos autores solicitando para si uma poesia do devir, uma poesia “ah, não porque a minha poesia é de resistência, é de máquinas de guerra”, e os críticos teóricos cometendo erros, para mim, bastante sérios. Sim, aquele tipo de título de paper “O devir em Ana Cristina César”. Bom, quando você identificou o devir em Ana Cristina César, é porque já não há devir. É porque você deu um jeito de deter o devir. Ou “O afeto na poesia de Fulano de Tal”. Bom, o que você vai ver? O afeto é uma coisa que você vê? Para mim, é muito difícil, foi muito difícil escrever sobre coisas que são só pegadas. Não tem consistência, e que eu estou tentando contextualizar, mas que, na verdade, são movimentos. A mesma coisa o dialogismo de Bakhtin, vocês são mais novos, mas Bakhtin num momento foi um grande teórico, e as pessoas viam carnavalização em tudo. Qualquer coisa era carnavalização. É uma forma de desativar teoricamente, é principalmente uma discussão teórica que eu estou comprando ali.

 

BNTB: Mas também é uma questão de leitura, não é?

 

L: Sim, e uma questão de legitimação. Porque, nos Estados Unidos, tem inclusive um nome, que é uma etiqueta, que é a virada afetiva. Outro dia, alguém me perguntava se eu endossava a virada afetiva, e não, eu não endosso. Eu acho que a questão da literatura é uma questão de afetos, mas que a gente não pode ver. A hora que a gente começar a identificar, a achar que eles são coisas simples, e que não há nesses afetos envolvidas questões, por exemplo, de economia, a gente não vai poder se sentar para discutir. Uma coisa que eu vejo, por exemplo, é isso: esvaziar a ideia de afeto de qualquer conflito. Uma coisa que desativa a ideia de afeto é essa: falar de afeto como um sentimento puro, como se ele não fosse um sentimento complexo, que justamente afeta, que produz atritos, que produz desencontro. Como se afeto fosse um puro sentimento, como se estivéssemos voltando ao Romantismo, que não envolve questões de política, de economia, de biopolítica, como se afeto fosse apenas uma questão de doação, como se o afeto fosse uma bandeira que eu possa levantar, em nome da qual eu possa fazer qualquer coisa. O afeto, não. O afeto, segundo eu vejo, não é de jeito nenhum uma bandeira. O afeto é um modo de relação, então não é algo que pode ser embandeirado. Me parece que aqueles poetas ou aqueles críticos que vão definir a sua própria poesia ou a poesia de alguém como uma poesia dos afetos, vão ter um trabalho grande para me convencer.

 

BNTB: Logo no inicio quando você apresenta a questão, você fala de outros poetas, mas resolve focar no Aníbal e na Marilia, no caso do Brasil e em outros no caso da Argentina. Você considera que essas escolhas também poderiam ser chamadas de escolhas afetivas? E o que isso significa para você no caso da crítica? Como crítica, você se propôs a esse desafio?

 

L: É, tem uma antologia que eu chego a mencionar de Arturo Carrera sobre poetas contemporâneos que ele resolve chamar de monstros [Monstruos. Antología de la joven poesía argentina. F.C.E: Buenos Aires, 2001]. Ele diz no prólogo: Esses são os meus monstros, são aqueles poetas (não há nada representativo, não são os melhores, nem os piores, são os meus monstros). Eu acho que toda a crítica é afetiva. Isso não simplifica e nem vai simplificar a ideia de afeto que estou colocando. É uma crítica da “vulneração” (vulnerabilidade?), do impacto, do choque. É uma crítica estética no sentido de uma não anestesia. Uma crítica formal. Não porque escolhe ou acha os poetas melhores, mas são esses que me afetam. Eu preciso procurar, é assim um exercício crítico: a procura pelo afeto. Por se sentir afetado pelas coisas que são muito próximas, sim, esses são os meus monstros. Mas insisto, meu foco não está nos objetos, claro que esses objetos me ajudam a pensar no jeito que eu estou querendo pensar ou mais do que querendo, estou conseguindo pensar. Não é uma redução só, eu tenho o meu olhar e eu posso lançar meu raio sobre qualquer objeto. Há evidentemente essas coisas, não eles em pessoa, mas esses poemas me disseram muita coisa. Ou seja tem  importância no objeto, não estou colocando como um valor em si, eles não têm um valor em si, intrínseco. Eu não posso dizer: não, os poetas bons são tal e tal. Eu só posso dizer: esses são os meus monstros. Eu acredito que nessa relação de trocas entre o meu olhar e os objetos isso pode vir. Eu poderia dizer: por que alguém iria querer ler essa minha relação com os meus monstros? Porque acredito que é uma tentativa de encerrar outro tipo de relação que pode ser produtiva não só para gente.

 

BNTB: Que tipo de mercado sugere as estratégias das pequenas editoras?

 

L: É uma estratégia de guerrilha, eu não sei se coloca outro tipo de mercado. Eu tenho certa, eu acho que as pequenas editoras correm risco grande e de fato já são uma parte vital do mercado. Tem várias nuances. Como surgem essas pequenas editoras? Essas editoras que não têm nome específico: pequenas ou artesanais? Elas também não são um grupo homogêneo. Cada editora tem uma particularidade, tem umas que começam entrando naquilo que acham que é nicho de mercado. Digamos um lugar no qual o grande mercado não entra, então elas entram, ou seja têm uma finalidade mercadológica. Querem ter uma parcela pequena no mercado, mas garantida. Outras têm um objetivo mais autoral, se centra na figura do editor que na verdade é uma figura muito forte no mercado tradicionalmente. Nos últimos anos, na expansão radical das grandes editoras, a figura do editor ficou um pouco deturpada, mas [se mantinha] nas coleções importantes que lançaram aqueles romances todos do boom latino-americano. Na Argentina, tem coleções fantásticas da Centro Editor da América Latina, da Eudeba de Educação, tem uma editora que gosto muito também por uma questão sentimental que a remete a minha infância que é a Colihue, mas é uma editora tradicional, eles mesmos falam que é uma editora argentina . Ou seja, você tem uma marca que de um lado é de resistência, é uma editora que não foi comprada pelo capital estrangeiro, mas ao mesmo tempo usa a ideia de uma editora argentina como nicho. Também não podemos nos mantermos puros, os jogos são bem complexos. Inclusive nas grandes editoras continua existindo a figura do editor, não é que sumiu. Por que que as pequenas seriam diferentes? Acho que não podemos ser categóricos, nem maniqueístas. Não são grandes contra pequenas. Há um tipo de convívio entre elas, evidentemente muito mais difícil para as pequenas, mas que parece funcionar nesses arranjos permanentes. Então não acho que elas vão ser totalmente “cooptadas” pelo grande mercado. Nem que elas sejam incólumes a influências mercantis. Se você voltar aos conceitos consagrados como autógrafos, ideologias, canonização, depois veio o devir agora estamos no afeto com a virada afetiva. A questão do afeto se você for observar está quase que virando um clichê dentro das grandes editoras e dos pequenos editores. As pequenas editoras têm uma circulação que eu chamo de doméstica (afetiva meio familiar) e as grandes editoras não trabalham com esse tipo de circulação, mas cada vez mais levam a uma retórica do afeto. A retórica do afeto está presente em todos os cantos. Isso é muito forte, veja como é uma questão problemática. A gente não pode fazer um canto de louvor ao afeto. Acho que não vão ser totalmente “cooptadas” pelo mercado, mas acho que as pequenas editoras são focos de resistência. É algo que deve ser avaliado permanentemente. Acho que elas sim são foco de resistência, mas também são foco de “aggiornamento”. Acho que sempre que as coisas têm movimento a gente deve se policiar e ver que lugar no nosso projeto nós estamos sendo. Onde estamos sendo resistentes e onde nós estamos negociando. Acho que todo o projeto, toda atitude na vida tem um pouco disso, na hora que você dá uma aula, na hora que você caminha pela rua, na hora que você escolhe aquilo que vai comer. Editar poesia tem algo disso, justamente a isso que damos valor porque há uma resistência.

 

Leia aqui a 2ª parte da entrevista.

 

Referências.

 

LEONE, Luciana di. Poesia e escolhas afetivas: edição e escrita na poesia contemporânea. Rio de Janeiro: Rocco, 2014.

______. Ana C.: as tramas da consagração. Rio de Janeiro: 7letras, 2008.

SANTIAGO, Silviano. Singular e anônimo. In: Nas malhas da letra. Rio de Janeiro: Rocco, 2002.

STERZI, Eduardo. Da voz à letra. Alea: Estudos Neolatinos (Impresso), v. 14/2, p. 165-179, 2012.

Monstruos. Antología de la joven poesía argentina. Selección y prólogo de Arturo Carrera. Presentación de José Tono Martínez. Buenos Aires, F.C.E, 2001.

 

 


Crítica, Crítica e afeto, Entrevista, Luciana di Leoni