Ela assopra: correspondências de Lygia Clark
25 de dezembro de 2014

Antes dessa postagem, o último contato que tive com a obra da Lygia Clark foi um vídeo documentário em que aparecia a mesma apresentando sua obra e detonando suas impressões de arte, sua fascinação pela observação e nitidamente sua grande artimanha de articular seu pensamento em palavras vivamente selecionadas. Lygia falando era uma obra-poema-teatro (bem ao gosto neoconcreto), pintava e bordava aquelas palavras. Fiquei sem dormir, desconhecia esse lado de sua obra. Para além das grandes performances e obras queremos mostrar alguns escritos de Lygia Clark. Escolhemos três cartas endereçadas uma a Mondrian e outras duas a Hélio Oiticica.

 Não interessa nesse momento articular apresentações formais de obra e trajetória de Lygia Clark apesar dos links que serão sugeridos ao longo da semana na nossa página do facebook, mas sim viajar “desordem de ordem” que Lygia nos lança. Caetano Veloso em entrevista a Suely Rolnik (http://www.bcc.org.br/filme/arquivo-para-uma-obra-acontecimento/037834) relata o que presenciou das experimentações de Lygia chegando até a fazer terapia com a mesma. A experiência com os objetos que ela relata catar na rua observada na carta a Helio passando pelo corpo-experiência como objeto artístico e a arte potencializada através de um atendimento ao outro.

Essas cartas recolhem trechos únicos de como a vida e obra de Lygia se misturam, de como sua afetividade está entrelaçada a sua criação, de como há um olhar atento ao outro, e seu poder de observação de si, forma um cafuné nas inquietações de todos nós. Ela não dá nome aos abismos, mas divide suas pontes nas obras plásticas e escritos.

                                                   



Lygia Clark
Carta a Mondrian
Maio 1959
Hoje me sinto mais solitária que ontem. Senti uma enorme necessidade de olhar o teu trabalho, velho também solitário. Dei com você numa foto fabulosa e senti como se você estivesse comigo e com isto já não me senti tão só. Talvez amanhã possa dar também de meus olhos, de minha solidão e de minha teimosia a alguém que será um artista como eu ou talvez ainda mais, como você. Não sei para que você trabalha.  Se eu trabalho, Mondrian, é para antes de mais nada me realizar no mais alto sentido ético-religioso. Não é para fazer uma superfície e outra… Se exponho é para transmitir para outra pessoa este “momento” parado na dinâmica cosmológica, que o atrista capta. Você que era um místico deve quantas e quantas vezes ter vivido “momentos” como este dentro da vida, ou não?

Dizem que você detestava a natureza – é verdade? Pois eu senti hoje essa transcendência através da natureza, na noite, no amor – como você poderia ter raiva da natureza? Você acha que a obra de arte é o produto de duas polaridades, que é a dinâmica da vida humana? Você estava preso à terra tão profundamente e o voo no sentido da verticalidade era sua medida?

Pois a natureza me alimentou, me equilibrou quase que de uma forma panteística. Mas com o tempo, numa outra crise, já isto não adiantou e o “vazio pleno”, a noite, o silêncio dela que se tornou a minha moradia. Através deste “vazio pleno” me veio a consciência da realidade metafísica, o problema existencial, a forma, o conteúdo (espaço pleno que só tem realidade em função direta da existência desta forma…).

Mondrian: você acreditou no homem. Você fez mais: num sonho utópico, estupendo, pensou em eras vindas em que a própria vida “construída” seria uma realidade plástica…

Talvez isto te salvasse da tua própria solidão. Pois eu, meu amigo, não sonho porque não acredito. Não por excesso de realismo mas para mim o coletivo só existe na razão desta desordem de ordem prática e social. Se o homem não pode sentir como é importante esse desenvolvimento interior – chamemos de uma forma que nasce com a pessoa como um punho fechado, talvez se abrindo no primeiro tempo com o próprio nascimento – então ele jamais poderia atingir sua plenitude como a rosa que se abre dentro do seu próprio tempo e morre amorosamente realizada, inteligente e feliz…

Mondrian, um segredo que vou te contar: às vezes, eu me sinto tão desesperada , porque no momento em que “checo” a solidão, o frio, o “medo do medo” me envolve com todos os seus braços e procuram fechar este novo tempo que desabrocha na minha forma interior, amassando pétalas frescas e delicadas que levarão novo tempo para se abrirem como se abre um olho devagar, depois de ter levado um bom murro.

Mondrian, de sua força pode me servir, seria como o bife cru colocado neste olho sofrido para que ele veja o mais depressa possível e possa encarar esta realidade às vezes tão insuportável – “o artista é um solitário”. Não importam filhos, pois dentro dele ele vive só. Ele nasce dentro dele, parto difícil a cada minuto, só irremediavelmente só. Você seria talvez a chuva que molha a flor que nasce no areia ou no asfalto, se você prefere, pois é cidade e não natureza.

Você hoje está mais vivo para mim do que as pessoas que me compreendem, até um certo ponto. Sabe por quê? Veja só se tenho razão ou não. Você já sabe do grupo neo-concreto, você já sabe que eu continuo o seu problema, que é penoso (você era homem, Mondrian, lembra-se?). No momento em que o grupo foi formado havia uma identificação profunda, a meu ver. Era a tomada de consciência de um tempo-espaço, realidade nova, universal como expressão, pois abrangia poesia, escultura, teatro, gravura e pintura. Até prosa, Mondrian… Hoje a maioria dos elementos do grupo se esquece desta afinidade ( o mais importante) e querem imprimir um sentido menor a ele, quando preferem que ele cresça sem esta identidade para mim imprescindível, numa tentativa de dar continuidade superficial este movimento. Você bem sabe que, no cubismo, as formas foram várias, mas no sentido mais profundo que era esta nova realidade espacial, foram respeitadas. Só o tempo a meu ver traria continuidade real a este movimento.

Agora, velho, simpático mestre, diga-me com toda a franqueza: meu desejo é deixar o grupo e continuar fiel a esta minha convicção, respeitando a mim mesma, embora mais só que ontem e hoje, eu serei amanhã, pois as pessoas que se aproximaram um dia, há bem pouco tempo, se afastam desorientadas sem enfrentarem a dureza de estar só num só pensamento, sem resguardar o sentido maior, ético, de morrer amanhã, sozinha mas fiel a uma ideia. Diga, meu amigo: é duro, é terrível porque é deixar de ter, mesmo sem se afastar realmente do grupo, pois já se fragmentou a unidade, a verdade dura e terrível feita a sete para se multiplicar em realidade pequenas – reconfortantes por certo, a centenas.

Hoje eu choro – o choro me cobre, me segue, me conforta e acalenta, de um certo modo, esta superfície dura, inflexível e fria da fidelidade a uma ideia.

Mondrian: hoje eu gosto de você.
                                   


Lygia Clark
14, RueCassini, Paris, 14 ème.
21.9.1968

Meu caro Hélio,

Custei muito a te escrever por vários motivos, mas aqui estou eu, como sempre, com muitas saudades suas. Comecei já a trabalhar catando pedras nas ruas, pois dinheiro não há para comprar material! Uso tudo que me cai nas mãos, como sacos vazios de batatas, cebolas, plásticos que envolvem roupas que vêm do tintureiro, e ainda luvas de plástico que uso para pintar os cabelos! Já fiz alguma coisa interessante, como um capacete feito de capa de um disco que tinha aqui, com duas luvas que saem diretamente da cabeça. Tem um plástico sensorial que você, depois de meter as mãos nas luvas e o capacete ficando com as mesmas ligadas à cabeça, você toca na altura dos olhos esse plástico cheio de ar. Fiz também duas luvas de plástico coladas por um dedo e você vive a mão como uma totalidade. Fiz também um plástico ultra erótico com um pano de guarda-chuva velho, o que dá um enorme mistério e é mais erótico que todos os outros.

Ontem Argan me telefonou, pedindo para vir aqui pois, diz ele, quer comprar coisas… Fiz um bom contrato com uma galeria na Alemanha que tem por trás o Dr. Kulterman que é figura de maior projeção aqui na Europa e a mesma galeria (Thelen) já pediu exclusividade para toda a Alemanha.

É para essa galeria que quero te indicar, pois estarás muito bem representado lá, depois de Londres. Para isso preciso de material fotográfico, slides, etc., pois devo ir para a Alemanha em fins de outubro: a exposição será em princípio de novembro. O Givaudan vai começar por fazer múltiplos do Bicho de bolso e também espetáculos das roupas na rua (ideia dele). Depois fará mais coisas… sugeri ao Jean Clay de fazer um Robho* especial sobre você. Ele alegou que tinha pouco material para ele ou para mim o mesmo, pois é importantíssimo um número nessa revista. O meu está atrasado, pois as traduções do meu livro ficaram péssimas… Estou fazendo com o Jean Clay tudo de novo. Ele está fora de Paris, parece que na Argentina. Se ele for aí não deixe de lhe dar bastante material para o seu número. (…)

Aqui estou eu como sempre, pronta a fazer por você tudo o que for possível como sei que farias o mesmo por mim. Conheci dois grandes elementos da ExplodingGalaxy: Miky Chapman e Edward Pope. Ainda não conheci Medalla. Mas conhecendo o seu trabalho como conheço e ainda tudo o que ele pensa, creio que são as três personalidades de maior importância por aqui. Ontem vi uma espécie de documentário sobre o México. Tem-se a impressão de que é um povo sempre debruçado sobre o seu passado. Essa vitalidade brasileira pura, ingênua e maliciosa, sem passado, ainda é o que de mais importantes temos! O mexicano tem uma expressão ultra-dramática e toda festa que fazem são verdadeiros psicodramas em que a morte é sempre o moto contínuo. Talvez o filme fosse sofisticado, pois foi feito por um jovem francês. Estou cada vez mais convencida que o futuro pertence a um povo subdesenvolvido. A absoluta ausência de sentido do povo aqui é notável. Fora o France Soir que é o maior jornaleco daqui e que lembra um pouco os nossos jornais populares, o resto é silêncio. Televisão chatérrima, só é boa para aprender geografia, o que ando fazendo.

Falta um Chacrinha, uma Dercy e um casamento na TV. O frio já começa estou toda enrolada em xales e cobertores. Imagine no inverno… Eduardo perdeu ou vendeu, sei lá, o sobretudo do pai, que maçada! Quando vieres a Londres vou arranjar dinheiro para comprares um lá que é mais barato que no Brasil ou aqui na França, onde tudo é caríssimo! Imagine que tive que ir a um dentista, escultor frustrado que me pediu a bagatela de mil dólares para consertar a minha articulação que está toda fora de circuito. É um louco varrido, querendo me colocar três jaquetas sem precisar, por pura estética, querendo fazer às minhas custas um chef d’oeuvre… Já sarei da pelada nervosa. Também tanta coisa acontece ao mesmo tempo: morte do velho Aluísio, fiquei viúva alegre, invasão da T. pelos putos dos russos e ainda meu balão da Bienal explode!

Ainda me considero com muita sorte de ter sido tão pouca coisa depois dessa operação monstro que aí fiz. Outro dia no banho, vendo a minha “cesariana”, tomei consciência de que foi preciso fazer a Roupa-corpo cesariana para fazer em seguida a minha… acho que sou a mulher mais maluca do universo, amém.

Vou comprar para mim uma pistola de gás para poder sair à noite sozinha pois as mulheres aqui são atacadas por tarados sexuais aos montes. Se a gente tivesse a certeza de sair da aventura com vida talvez não fosse tão dramático, pois… “guerra é guerra”, como dizia a velhinha na anedota. Por falar em piada, lá vão duas: Uma vampira falando para a filha: – Toma a sopa rapidinho, senão coagula… Outra: Num velório de um anão, o grupo que estava lá saiu pela terceira vez para tomar um café num boteco ao lado. Entra o vigia do velório e diz: – É essa a última vez que vocês saem da sala, pois pela terceira vez tirei o anão da boca do gato… Terríveis, não é? Vi um grande filme húngaro: Le rougeetleblanc.  Quase um documentário, seco, terrível e belíssimo!

Ontem fui a um cinema com a Giselda (…). O Mário me paga esse abacaxi que ele me botou pela proa. É chatérrima e além do mais burra pra valer. Enfim, nas horas amargas de falta de companhia total eis-me aqui chupando as últimas jabuticabas de um prato vazio onde sobraram as mais mixas e podres.

Continuo sozinha e parece que para sempre. Isso não me deprime em nada. Por outro lado estou usufruindo numa grande alegria toda essa liberdade, longe de problemas de filhos, desse ambiente daí que às vezes vira até sufocante.

Já bati o queixo aqui por crise, angústia, mas semprelúcida para saber que aí bateria da mesma maneira e que sou uma pessoa fundamentalmente só e terei que me aguentar sozinha. Estou começando a amarrar coisas e tive muita crise quando conheci o terceiro membro da Exploding que se chama Eduardo- misto de homem e bicho. Tudo cheira, prova, lambe e de uma sensibilidade tão aguda que me botou toda de antenas para fora de mim mesma, em relação a sua presença. Me arrebentou toda por dentro mas eis como sempre me recompondo, me amarrando já de outra maneira com outras aberturas. Fui deflorada na alma, mas o corpo continua virgem. Muito bacana você saber que pode ser jogada nessa altura da vida para o espaço embora caindo na terra abra um terrível rombo e viva um pouco como um abismo sem fundo. Foi graças a isso tudo que pude recomeçar a trabalhar, pois tive uma enorme e profunda necessidade de expressão. Escreva-me e conte como vão os amigos e também os conhecidos. Diga-me quando vens a Paris também. Estou radiante com a perspectiva da vinda de Mário e Mary. Como também em relação à sua vinda… Será espetacular.

Muitos abraços ao Raimundo que adoro. Mil beijos para você.

        Clark                       




Lygia Clark 
para Helio Oiticica 
Paris, 17.5.1971
Queridíssimo:
         Até que enfim veio uma carta comunicação me dando como sempre enorme alegria e também uma enorme saudade de você. O que gostaria de comunicar é tão simples e tão complexo, como a própria realidade-vida, que nem sei por onde começar. É por essa razão que gosto das novelas em televisão, nas quais as coisas nunca acabam de acontecer, como a vida. Comigo é sempre assim – enquanto eu vivo mil voltas em volta da Terra o resto do pessoal daqui está marcando passo, com raras exceções, indo para trás, e nada é dinâmico, tudo é pausa e morte. Na própria vida nota-se o processo. O quotidiano, que para mim é sempre mágico, rico e nova aparência, para eles é vazio, a repetição, e nada representa como maturação. Até acho que invento minha própria vida, que a recrio todos os minutos e ela me recria à sua imagem; vivo mudando, me interrogando maravilhada, sem controle de nada, dos mínimos acontecimentos, me deixando fluir, despojada de quase tudo, guardando somente minha integridade interior. Me sinto como caldeirão da própria porra, processo, me sinto toda lá até antes do nascer e acho que é nesse misturar que hora aparece a menina, o leite na mamadeira, a adulta-adúltera, a louca, a velha de 5 mil anos de idade, a atual, a equilibrada que sendo atual nunca é uma só e a consciência não é de colar pedaços que foram quebrados com culpabilidade mas o recriar-se inteira a partir de novas experiências antigas como o próprio nascer, ou até antes. Sem nada controlar, eis a contradição, me reconstruo, faço minha biografia, eis-me qual obra antes projetada para fora dividindo pessoa e coisa, hoje uma só identidade. Onde a patologia, onde a saúde, onde a criação. Nada sei. O não saber é lindo: é a descoberta, é a aceitação da mistura das situações de “decalagens”, das integrações do recomeço, do não-tempo linear, da percepção pura da descultura que nunca tive, fundando a minha própria, que é posta em questão sempre. A descoberta nunca para e às vezes penso que viver uma vida é viver todas as fases anteriores da humanidade. Depois de Carboneras, na redescoberta do meu Eu deixando de ser “o outro”, tudo mudou em mim. Perdi o “estado de graça” vivido por mim assim e catalogado provavelmente pelos outros intelectuais de ninfomaníaca ou prostituta pelos burgueses e comecei a ter sonhos belíssimos com “o casal” integrador dessa imagem que fora por mim tão quebrada e destruída na infância. Depois o acordar, o trauma de se estar só, cinquenta anos sem possibilidade de realizar casal com alguém. O dormir passou a ser o medo da realidade, do amanhecer, da solidão profunda do ser-se só. A paz só voltou quando me apercebi que o importante não era viver essa experiência na vida real, mas viver isso no inconsciente já era o suficiente. Compenetrei-me de minha idade, aceitei-a e daí me amarrei de tal maneira que ela deixou de ter importância e não mais existe como problema. Fase belíssima qual punho fechado, tranquila, me rindo dos outros que talvez agora me achem menos puta, exatamente agora que redescobrindo o meu Ego, readquiri de outra maneira o pecado original… Não é maravilhoso o conhecimento que se pode adquirir através de uma experiência pessoal de um antigo e lendário pecado? E não é fantástico que a própria aceitação no meio cultural venha não de um estado, mas de uma aparente identidade, tabu do que se chama pecado?

         Minha estadia em Belo Horizonte foi em duas etapas. Na primeira, em que o meu pai pensava que não ia mais voltar para Paris, me tratou como namorado com enorme carinho e houve pela primeira vez dentro de mim uma enorme aceitação da minha casa de infância, do ventre de minha mãe, do pau do meu pai. Jamais senti tamanha paz e alegria numa situação que antes me destruía completamente, sendo-me insuportável a permanência no meio onde fui gerada com gozos, onde nasci entre dores e gritos, onde quase morri de fome nos primeiros meses de vida, onde cresci me sentindo fora da família, tentando arrancar cada noite minha pinta, sinal vivido por mim como signo de marginalidade, afastando também várias imagens dramáticas da minha infância, tal como a do banho de ducha no hospício entre loucas, de ser jogada na banheira de água fria de madrugada ainda dormindo, botes de cobras, urutus, cascavéis, embaixo dos pés, pousados na caixa que as continha, no caminho do sítio ao instituto, porão rastejante coberto de teias de aranha e outro bichos, onde entrávamos para tirar o vinho para o pai, galos de briga, eu pequena raspando pelos do pescoço, massageando, assistindo à luta na companhia do pai, a morte, o olho furado, o galo morto. A faca da empregada louca, a corrida escada acima, o avô que acariciava e contava toda sorte de mitologia em linguagem crua e real, os pesadelos, a gosma que saía da boca perdendo substância vital, sonho que há pouco tempo reintegrei reengolindo a mesma, o túnel me emparedando, me separando morta-viva, unhas ruídas até o sabugo; desespero, a feia, a enjeitada, a menina que fugiu um dia de casa para vender doces na rua com a Tia Olinda – fabuloso ato falho: era Teodolina o verdadeiro nome, mas não para mim, que era parentesco, a menina deflorada, assentada embaixo de uma árvore enorme, passividade total, tio morto, hoje destroncando todos os dedos dos pés e das mãos, os gozos sentidos nas safadezas das descobertas infantis, depois, bem… toda uma vida para recompor ou construir uma personalidade que nunca se completa, enorme decalagem entre o interior e exterior. Na segunda ida a Belô, meu pai lembrando que o havia há 16 anos mandado tomar no cu, ameaçou quebrar-me todos os dentes e a boca e eu parti para ele na posição de briga para quebrá-lo também aos pedaços, dois loucos varridos, quase na polícia ou hospital, sendo a briga impedida pelo Álvaro, presente! Perdi aí a imagem do pai, até a porra, e só pude engoli-lo no Rio depois da volta, num pileque, sentindo como sou no fundo parecida com ele, em toda a sua loucura, toda a sua violência, toda a sua lucidez dentro da loucura, não tendo herdado dele somente o pênis, o que hoje posso aceitar tranquila, tranquila… Veja, anjo, tudo mexe comigo e o que isso não deve ter influenciado esta minha nova concepção do casal. Até aceitar consertar minha fase antiga de trabalho, obra, aceitei! É como se pudesse reparar os estragos que eu mesma fiz antes e que foram reparados agora. Já não sinto o desespero da nostalgia da “normalidade” e nem o medo da loucura, o que sempre foi a balança da minha vida… que a própria vida me deu. Fora toda a normalidade, de toda a patologia, de toda a cultura, de todo um contexto mesmo aparente, eis-me aqui – o meu testemunho sou eu-obra e não a obra que eu fiz.

         Ao mesmo tempo me assumi como personalidade, sem grandes paranoias no delírio de integração e muita solidão. Também no Brasil me deu a consciência de que aqui estou afetivamente superprotegida e tudo o que lá passou é que é a vida mesmo. Vi, emocionada, Eduardo cais numa crise, chorando como criança; ergui nos braços minha filha numa fase pré-edipiana, descobri maravilhada que sempre amei o Schemberg, tendo ido também a São Paulo e tendo tido uma grande briga com ele em que a violência foi de tal ordem que, se tivesse uma bomba na mão, destruiria o mesmo, a mim própria, a cidade inteira, a imensa massa humana; me senti atraída por ele pela primeira vez fisicamente, e não a velha libido “declanchada” através do fascínio da sua falação. O Schemberg para mim é a única permanência que sobrou! Gigante adormecido, mas gigante, sempre, hoje, amanhã e depois! Senti o abrasador amor-paixão que me liga ao Vitinho no abraço do dia da chegada, encontro que parou o tempo, nos dissemos em silêncio juras de amor eterno, de paixão de fogo, de lava de vulcão, aterrador, esfomeado mas verdadeiro. Descobri emocionada que o filho que mais amo é o Álvaro, mas a paixão é Eduardo e a maior comunicação é a Beth: mundo maravilhoso – é como se cada filho correspondesse a uma dobra uterina onde foram gerados, mas separados, embora no mesmo útero!

         De volta a Paris vim magra, velha, traumatizadíssima, só agora depois de um mês estou outra vez mais gorda e disposta. Encontrei toda a gente na mesma, ou escondem a vida ou estão mortos. Minha vitalidade parece que agride – fui superagredida, apontada na minha magreza, na minha velhice, não perdoam o meu renascer, a minha vitalidade, a minha alegria de receber toda a minha transformação, todo o sofrer como positivo… negação de cada dia passado, descoberta no dia que está presente. Nessa hora encontrei o velhinho adorável Pedrosa, vivo como um corisco, inteligentérrimo, sabendo escutar e gigante na comunicação… Nos vimos diariamente, e chorei muito quando partiu. Pela primeira vez na minha vida a morte, que era coisa abstrata, passou a ser concreta, só que no momento em que aceitei o fato o problema desapareceu também! Eu por ora ando parada. Fiz algumas experiências só com o corpo sem objeto algum. É curioso – você encontra novos relacionamentos entre os corpos através de novas percepções de espaços. Não sei se é válido ou não. Se é novo ou velho. Só sei que é o seguimento do meu pensamento e não sei até onde irei. Nem sei para quem falo. Às vezes penso que falo para mim mesma e pensei em fazer algo como “pensamento mudo”. Nenhum diálogo verdadeiro a não ser Violeta, que é torturada mas tem fôlego na escuta e também na comunicação. Não sei se aí irei, pois fazer uma exposição por fazer não dá pé. Não é que seja contra galerias, não sou a priori contra nada. Não quero criar nova elite. Quero é gente, e talvez em lugares recuperados é que eu tenha mais sentido, procurando dar outro às pessoas. Repito: quero é gente, não importa cor, idade, nacionalidade, estado de sanidade mental, burgueses, proletários, crianças, não importa, eu quero é gente e gente é que é importante, o sistema que se foda! Estou bolando “trocas”, mas sempre há um ritual tribal, ação e depois nada sobra.

         Isso não é uma carta, mas sim um monstruoso vômito que, no dizer de García Márquez, atravessaria o Sena, se jogaria no oceano e jorraria da sua torneira. Te beijo muito e muito.

P.S.: Descobri maravilhada que redescobri uma enorme estima por mim própria e tudo veio junto à aceitação de restaurar minha obra antiga! Adorei o que você escreveu para o Pasquim! Só não suporto o mesmo…


Correspondência, Lygia Clark