Lenora de Barros: Qualquer diferença é mera semelhança (Parte 2 de 2).
9 de novembro de 2014

Na segunda semana de postagens dedicada ao trabalho de Lenora de Barros, procuramos selecionar um conjunto de reflexões que se debruçassem sobre dois de seus procedimentos fundamentais em sua maneira de propor o fazer artístico: o desdobrar e o deslocar. De algum modo, se tais aspectos podem ser rastreados desde o seu trabalho em revistas como Poesia em Greve e suas colaborações em periódicos nas décadas de 1970/1980 que ecoaram e foram retomadas em exposições, a partir de desdobramentos (em novos formatos, com nova organização dos elementos visuais ou dinâmicos, etc.) operados na década seguinte, isso se intensifica a partir da sua atividade na coluna semanal …umas, desenvolvida entre 1993 e 1996 dentro do espaço de um caderno cultural do Jornal da Tarde. O material das colunas, efetivamente, chegou a ser tema de exposição recente, entre março e maio deste ano, no espaço Pivô.
         Nesse sentido, talvez a pergunta que mais inquiete, e que por isso de maior interesse, seja justamente a pela passagem – não só a passagem de um jornal para um espaço de reflexão artística (como a coluna sobrevivia, dialogava, recolocava os temas cotidianos da reportagem cultural), mas também dos sentidos, de imagens sobre cabelos e cortes até diversas ordens de experimentação com cartazes de Procuro-me/Procura-se. O que se insinua, na colocação do deslocamento como gesto fundamental da reflexão artística, é uma espécie de recusa dos signos tradicionais da identidade. Toda obra é um pouco Proteu, e existe para assumir novas formas num movimento vertiginoso que convoca a cada momento diferentes formatos, meios, mas também diferentes modos de percepção e de relação com o corpo (da artista, do espectador, etc.)
         As proposições estéticas de Lenora talvez possam ser tomadas não como proposições estáveis, no sentido de encerrarem um esforço conceitual e logicamente estabelecido acerca da natureza do objeto artístico, mas como experiências sobre a duração específica da obra de arte, e seu modo de registrar ou receber o jogo contínuo entre semelhança e diferença. A passagem de um espaço a outro condensa e potencializa transformações que ocorreriam com a passagem do tempo, por exemplo. A passagem de um meio para outro deixa a nu, por outro lado, a insistência de certos temas sobre o corpo, e sobre o pensamento artístico – mudar de meio é escapar da estabilização, engessamento da ideia. Toda a passagem implica uma mudança de perspectiva – de uma ponta a outra, de um jornal a sala de exposição o que muda é o olhar.
         Nessa postagem, apresentamos 3 excertos da dissertação …umas, de Lenora de Barros: trânsitos entre coluna de jornal, proposição artística e arquivo, uma entrevista realizada pelo espaço Pivô, quando da exposição do material, e mais um conjunto de imagens com poemas e fotografias de Lenora scaneadas de Relivro(2012) que reúne sua obra, fotos das obras Não me mostre (2005), Duas operações (1994/2004), silêncio e cala boca (1990/1996), There is no utopy like a place – junto com link para áudio de performance vocal – (1994), e uma entrevista em vídeo sobre sua obra.
        
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Reprodução coluna “…umas” Corpos/Dupla Face (s/d.)

Coluna “…umas” – várias (Imagem Exposição no Espaço Pivô (2014))
Três excertos da dissertação …umas, de Lenora de Barros: Trânsitos entre coluna de jornal, proposição artística e arquivo (Eduardo de Souza Xavier).
Este estudo tem como objetivo analisar a coluna de jornal denominada …umas, assinada por Lenora de Barros no Jornal da Tarde (JT), ligado ao Grupo Estado, entre 1993 e 1996, …umas foi a coluna experimental na qual a artista articulava imagens e textos oriundos de variadas situações, como da mídia, do cinema, das histórias em quadrinhos, do universo das artes visuais, da poesia e do próprio fotojornalismo e onde também veiculava suas performances, poemas visuais, escritos e outras proposições. É interessante que neste jornal, dedicados a noticiar e transmitir informação, Lenora de Barros tenha estabelecido um espaço de criação e experimentação intimamente ligado às questões desenvolvidas em sua trajetória artística, publicando ali suas obras de forma integral, ou em fragmentos, junto com comentários e imagens desdobradas de obras de outros artistas.
         Publicada, semanalmente aos sábados, …umas ocupava parte de uma página do suplemento cultural e de entretenimento do JT. A coluna era publicada sempre no canto esquerdo da página do jornal, medindo 51,5 x 10,5 cm, sendo que sua altura era equivalente à própria página do jornal, enquanto sua largura ocupava cerca de 1/3 da página. Neste espaço, Lenora de Barros apresentava também comentários sobre a história da arte, misturando senso crítico e ironia ao abordar a obra de artistas contemporâneos de importância no cenário nacional e internacional. Em função de seu caráter experimental, pode-se considerar que …umas estava distanciada da habitual crônica escrita nos jornais, pois nela a artista desenvolvia a criação em um espaço gráfico livre, que articulava imagens, textos, palavras e poesias, unidas por um tema distinto a cada semana.
         …umas estabelece uma relação intensa com outras obras de Lenora de Barros, demonstrando o quanto esta experiência, ligada inicialmente a um meio de comunicação, foi incorporada na sua trajetória. Muitas das proposições apresentadas na coluna foram desdobradas em obras, apresentadas em espaços expositivos de artes visuais depois da publicação de …umas. São estes deslocamentos entre os espaços nos quais a artista apresentou suas proposições que motivaram a realização deste estudo.
[…]
Sob a perspectiva dos deslocamentos e desdobramentos na obra de Lenora de Barros, é marcante o exemplo de Procuro-me, obra da artista que foi inicialmente publicada na edição de …umas intitulada Formas Capilares. Em Procuro-me, a artista apresenta autorretratos nos quais está com a mesma expressão de espanto, mas com diferentes estilos de penteado. As imagens foram feitas em um software de montagem de imagens, disponível em salões de cabeleireiro em São Paulo e nelas, a repetição dá lugar à fragmentação e à perda de identidade, pois a artista está sempre igual, mesmo mudando constantemente sua aparência. O próprio contexto para o qual era utilizado o software – um arquivo de penteados já prontos para o usuário automaticamente escolher e mudar o seu visual – é pensado nesse sentido em Procuro-me.
         Quatro de aproximadamente 40 imagens foram publicadas com o título Hair Styles na coluna …umas. Junto a elas, imagens ligadas ao tema “cabelo”, como a obra Xipófagas Capilares (1994), de Tunga; 19781988 (1990), de Lorna Simpson; Escadas de Metrô (1957), de Leda Catunda; uma fotografia de 1921, feita por Man Ray, de Marcel Duchamp com um cometa raspado em sua cabeça; e da mulher com os cabelos mais longos do mundo na época.  (…) inicialmente, a questão centrou-se na temática do cabelo como metáfora para questões como entrelaçamento, união e continuidade.
         Em 2001, sete anos após a realização das imagens iniciais, Lenora de Barros veiculou esta proposição novamente em um jornal.  Motivada pelos ataque às Torres Gêmeas ocorridos naquele ano, as imagens foram publicadas no formato do cartaz de terrorista procurado, veiculado pelo governo norte-americano na contracapa do Caderno Mais!, da Folha de São Paulo. Mesmo que esta versão relacione-se, em certa medida, ao acontecimento histórico do 11 de setembro de 2001, Procuro-me instiga diversos questionamentos que vão além deste fato, os quais viriam a ser desenvolvidos pela artista em desdobramentos posteriores, direcionados para a questão da perda e da procura da identidade.
         O formato do cartaz foi mantido quando Lenora de Barros deslocou estas imagens para um espaço expositivo. Em 2002, no Centro Cultural Sérgio Porto, no Rio de Janeiro, a artista realizou a exposição Procuro-me, na qual apresentou um mural com os cartazes, uma instalação sonora e uma vídeo-performance. A artista distribuiu cartazes pela cidade, fixando-os em muros e distribuindo-os para as pessoas na rua. No âmbito desta exposição, a seriação expande-se no espaço expositivo através da repetição dos próprios cartazes e, nesse sentido, a artista procura a si mesma, nas suas diversas representações presentes nas imagens. Do mesmo modo que cartazes espalhados na cidade por vezes buscam pessoas desaparecidas, os cartazes de Procuro-me parecem indicar a busca de uma identidade perdida e fragmentada frente a uma sociedade composta por multidões de pessoas que se assemelham e que buscam, a todo instante diferenciar-se, por exemplo, através do próprio visual ou do corte de cabelo.
         No mesmo ano, os cartazes expandem-se para ocupar a fachada do Centro Cultural Maria Antônia, em São Paulo, neste caso, voltados para o lado de fora do espaço de exposição provocando quem passasse pela rua. O curioso é que, ao serem expostos na fachada do prédio, os cartazes foram pichados por um grupo chamado Art-Atack, que era contra proposições de arte contemporânea e fazia, inclusive, projetos de suas ações, tendo enviado cartas para Lenora de Barros, Lorenzo Mammi (então diretor do Centro Cultural Maria Antônia) e Fabio Cypriano (que havia noticiado a exposição). Nestas cartas, por exemplo, o grupo planejava tirar dos cartazes a sílaba “pro” de “procuro-me”, formando a palavra “curo-me”, em uma analogia com uma suposta cura da arte contemporânea almejada por seus integrantes.
         O trabalho foi outra vez alvo de um ataque e teve diversas partes recortadas. A partir disso, Lenora de Barros resgatou o trabalho e fez uma espécie de restauro, imprimindo novamente as palavras que haviam sido pichadas e transformando o “procuro-me” em “procura-se”, já que a autoria do segundo ataque não havia sido confirmada. Dois anos depois, com o material que sobrou dos cartazes pichados e recortados, a artista elaborou uma nova proposição, apresentada na exposição Retalhação, em uma das salas do Centro Cultural Maria Antônia, em 2007.
         Como se observa, o exemplo destes deslocamentos e desdobramentos indica questões que estão muito além da técnica ou formato nos quais materializam as proposições artísticas. Os desdobramentos de Procuro-mesão extremamente significativos, pois demonstram o quanto o espaço no qual se coloca determinada proposição influencia na sua percepção e também na relação com o público. Nesse sentido, quando exposta na fachada do espaço de exposição, os cartazes tiveram um destino que não estava previsto pela artista. Ao resgatar o trabalho, a artista acabou agregando sentidos que talvez não fossem aferidos aos trabalhos sem os ataques, por exemplo.
         Nota-se que os entendimentos desta proposição, que tem por base o mesmo conjunto de imagens, modifica-se de acordo com o ambiente no qual é apresentada, indicando a necessidade de uma maior contextualização quanto à situação de cada um de seus desdobramentos. Na mesma medida em que a artista se procura nas imagens dela mesma, se poderia indagar onde está a obra, dentro destes múltiplos deslocamentos que compõem. A resposta para esta questão não seria única, pois é justamente nos espaços entre um momento de apresentação e outro que a proposição se faz e se modifica, questionando o caráter único da obra de arte bem como sua autonomia em relação ao espaço de exposição.
        
[…]
         De maneira a evidenciar a relação entre …umase arquivo, é trazido a seguir um depoimento da artista, no qual relata o modo como realizou a coluna.
“Quando eu vivi a experiência da coluna […], fui criando um método e trabalhava muito com memória. Então, eu começava com um tema, por exemplo, ‘formas capilares’, aí vinha o Tunga. Então, eu ia aos arquivos do Jornal da Tarde e pedia a pasta ‘cabelo’, daí vinha cabelo, cabeleireiro, etc. Era um trabalho que eu fiz muito ali, no arquivo do jornal. […]. O meu ateliê era um pouco o banco de dados lá do Jornal da Tarde. […] Mas, naquele tempo, eu não tinha tanta consciência de que aquilo pudesse gerar outras obras. Foi só um tempo depois que eu parei de fazer as colunas, que comecei a pinçar coisas ali. […] Vendo de longe, se eu fizesse a coluna agora, acho que talvez não haveria diferença entre a galeria e um espaço de exposição. Porque alie era um exercício criativo”. (Barros apud Xavier, 2011, p. 39).
         Este depoimento de Lenora de Barros sobre o processo de criação de …umas aponta para o uso do arquivo em sua obra, que pode ter dois direcionamentos. O primeiro diz respeito ao método de elaboração da coluna a cada semana, realizado em sua maioria nos arquivos do JT. Nesse sentido, a coluna configura-se como uma reunião de fragmentos selecionados pela artista que, interrelacionados, formam novas questões unidas pela temática de cada coluna. Já o segundo direcionamento refere-se à incorporação das edições de …umas em sua prática artística posterior, na medida em que a artista se utilizou de ideias, imagens e problemáticas ali apresentadas, desdobrando-as em novas circunstâncias de apresentação.
         Os dois aspectos estão formalmente ligados ao uso do arquivo na arte contemporânea e fazem parte de uma conjuntura que na última década ganhou força no cenário artístico. O arquivo como uma maneira contínua ou descontínua de ordenar elementos fragmentários do passado encontra-se em diversas abordagens na teoria da arte no cenário atual. Do mesmo modo, a forma do arquivo pode ser encontrada nas próprias obras, através de procedimentos como catalogação, documentação e acumulação de materiais, imagens, objetos, ou mesmo fato descritos.
(XAVIER, Eduardo de Souza. …umas, de Lenora de Barros: trânsitos entre coluna de jornal, proposição artística e arquivo. Dissertação de Mestrado. UFRGS. Porto Alegre, 2012).
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Entrevista sobre Exposição Umas e outras (PIVÔ – 2014)

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De Relivro(2012)



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Não me mostre (2005)

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Duas operações (1994/2004)


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silêncio e cala boca (1990/1996)


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There is no utopy like a place (1994)
Acrílica sobre Mdf, 60 x 50 cm, díptico utopy


Para ouvir a performance vocal da obra, clicar aqui
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Entrevista Entrelinhas


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Artes plásticas, Lenora de Barros