Lenora de Barros: “Deve haver nada a ver” (parte 1 de 2)
2 de novembro de 2014

A princípio, a influência das concepções da arte concreta se fazem significativamente visíveis na produção de Lenora de Barros: não só pela repetição do mote a partir do qual se compreende o trabalho poético com o signo linguístico, vale dizer, na consideração de sua materialidade verbivocovisual, mas também pela apresentação de uma constante de percurso em seu pensamento artístico. Lenora parece sempre partir da lógica construtiva de quem quer tornar um conceito experimentável, criar um nome na medida em que ele se apresente simultaneamente como matéria para os sentidos. É assim que ela parece se aproximar, em suas realizações, de questões conceituais próximas a uma reflexão filosófica (note-se, por exemplo, a problematização poética da relação entre tato e visão, tema que intrigou autores como Locke, Leibiniz, Diderot, entre outros que se interessaram por estabelecer diferenças entre as sensações simples; ou então, as perguntas acerca da angústia, ou que residem na angústia, em uma série como “deve haver nada a ver”). Entretanto, os deslocamentos que a artista coloca também são efetivamente flagrantes e incontornáveis, recolocando certa forma de pensar ou de propor a linguagem em outros termos e horizontes: destaque-se, nesse sentido, a reiteradamente afirmada influência tanto da arte pop quanto do grupo Fluxus em seu trabalho. Nesse sentido, a emergência do corpo como temática e sua entrada no espaço da reflexão estética parece anunciar uma curva significativa com relação ao projeto concreto e construtivo estritos, permitindo tanto o surgimento de questões políticas concernentes às relações de gênero quanto uma abertura para o fluxo e para um deslocamento sucessivo dos signos inesperados. Assim, criam-se linhas narrativas formais em sua obra, que se dão quase sempre em torno dos signos do jogo, e nesse sentido, quase tudo pode estar em jogo: o eu, o outro, as palavras que se instalam entre os campos de linguagens diversas, etc.

         Lenora de Barros, nascida em São Paulo, em 1953, é filha do artista concreto Geraldo de Barros, publicou, ao longo das décadas de 1970 e 1980, poemas em que se mesclavam materiais fotográficos, performáticos e experimentações gráficas em periódicos como Código e Qorpo Estranho. Em 1983, participa da 17ª Bienal Internacional de São Paulo, com poemas em formato de videotexto, publicando em seguida seu primeiro livro de poemas, Onde se vê. Se a questão visual aparece como um foco de interesse de sua obra, no decorrer de suas atividades questões como a performance vocal e a dinâmica temporal e interativa das instalações ganham espaço. Igualmente, com o decorrer de seu trabalho, o discursivo vai cedendo lugar a operações de fragmentação e divisão, que ao fazer correr a sílaba, movimentam a frase numa espécie de curto-circuito entre significados possíveis e paradoxais.

         Nessa primeira postagem dedicada a sua obra, selecionamos obras de diferentes momentos de sua carreira, numa espécie de panorama poético e visual de sua prática, bem como croquis para suas performances, uma entrevista de 2002, quando da I Mostra RioArte Contemporânea, realizada por Fernanda Lemos. Além disso, um podcast com Arte Sonora, em que diversas performances vocais são mostradas ao público e há uma conversa detalhada sobre o percurso da autora com uma interessante oscilação quanto a sua perspectiva com relação ao futuro e suas obras presentes ao final, e vídeo que recupera uma obra sua como “Deve haver nada a ver”.

***

Entrevista de Fernanda Lopes com Lenora de Barros. Rio de Janeiro, 2002.

F: Fale um pouco sobre o trabalho apresentado na I Mostra RioArte Contemporânea.

L: “Deve haver nada a ver”, a instalação que apresento na 1ª Mostra RioArte pretende dar continuidade, em nível mais amplo, à reflexão que venho desenvolvendo desde minha exposição O que há de novo, de novo, pussyquete? (Março, 2001, Galeria Milan, São Paulo). De certo modo, ela é um pouco um “resumo”, uma versão compacta e essencial de questões que eu colocava (e principalmente me colocava…) naquele momento. A necessidade de espacialização da palavra, a transposição de uma estrutura verbal para uma estrutura visual, por exemplo. Na instalação, cada placa acrílica, transparente e suspensa corresponde a uma frase diferente extraída da frase inteira, tal como “deve haver nada”, “nada a ver/ a ver nada”, etc., impressa em bolinhas de pingue-pongue. É como se fossem “diversos versos”, compondo um “poema móbile”… Essa estrutura visual é complementada pela oralização do texto que você ouve nos headphones. A leitura feita por mim e tratada em estúdio pelo músico Cid Campos, procura reproduzir, no aspecto sonoro, os vários planos de leitura – ou seja cada texto é lido de forma diferente e em alturas diferentes de acordo com seu sentido (tal qual as placas e bolinhas suspensas…). Procurei trabalhar com transparências, suspensão, bolinhas soltas, sonoridades diferenciadas, tudo muito sutil de modo a criar uma atmosfera quase “invisível/inaudível”, no limite da leitura e da apreensão.

F: O que são “ping-poems”?

L: Criei essa expressão a partir da exposição “Poesia é coisa de nada”, que realizei em 1990, em Milão, na galeria Mercato del Sale. Ela nasce como título de um trabalho – uma bolinha com essa frase impressa, colocada “estrategicamente” sobre uma almofada. Visualmente você tinha a impressão de que a bolinha era muito pesada, embora sabendo, mentalmente, o quanto pesa uma bolinha de pingue-pongue… Minha intenção, nesse caso, foi criar uma espécie de paradoxo visual, “estranhamento”… É ainda nesse momento que começo a usar bolinhas de pingue-pongue como suporte para outros textos poéticos (“coisa em si”, “coisa de nada”). Desde então, passei a chamar toda a série que realizo usando bolinhas, ou o universo do jogo de pingue-pongue, de “ping-poems”. A partir da minha exposição na Galeria Millan, em São Paulo, cunhei também uma outra expressão que se refere aos trabalhos realizados com raquetes, as “pussyquetes”…

F: A palavra é uma presença acho que quase constante no seu trabalho. Qual a função/papel da palavra nos seus trabalhos?

L: Sim, de fato, e no meu caso não poderia ser de outra forma. Iniciei minhas primeiras experiências a partir da palavra, mas já nesse momento, influenciada pela poesia concreta, estava preocupada com o aspecto visual, sonoro, matérico dos signos, e de como ressaltar e expressar esses aspectos formalmente. Publico meu primeiro livro, “Onde se vê”, em 1983. São 12 poemas visuais, alguns deles produzidos anteriormente em videotexto para uma exposição organizada por Julio Plaza no MIS de SP (1982). Sair do espaço bidimensional da página e trabalhar com  videotexto foi para mim fundamental – ou seja, experimentei novas possibilidades formais com palavra, até então “desconhecidas” por mim: o uso da cor, da luz, do volume, do movimento como elementos constitutivos do poema. Essa experiência, sem dúvida, foi uma das coisas que me impulsionaram a me aventurar mais para o espaço propriamente dito. Eu já desenvolvia também, desde meados dos anos 70, algumas experiências com a fotografia – ou seja, “performances fotográficas”, nas quais apareço como “personagem”, agente de uma ação. Nesses trabalhos, nem sempre a palavra está presente. Geralmente, como uso o recurso da sequência, acabo criando sentidos que podem ser apreendidos só visualmente.

         De todo modo, a palavra é, sim, uma dimensão fundamental dentro de meu processo criativo. Ela cria liames, sentidos entre os elementos visuais. Ela é a “costura” dos possíveis significados. Desde 1994, quando participei da mostra “Arte e Cidade – a cidade e seus fluxos”, com a instalação “Ácida Cidade”, passei a desenvolver mais verticalmente o aspecto sonoro da palavra, através de oralizações como a que mostro no RioArte. Essa dimensão da linguagem verbal, a sonoridade X sentido, tem me interessado bastante e é o caminho que venho tentando desenvolver, especialmente quando trabalho com instalações, onde posso expandir essas questões mais plenamente.

F: A utilização dela passou por mudanças ou sempre foi tratada sob um mesmo aspecto (sonoridade, escrita, significado…)?

L: Acho que de algum modo já respondi a sua pergunta, mas há algo a acrescentar a tudo isso… Percebo, ao longo da minha trajetória, que a minha relação com a palavra vai se tornando, digamos, mais “atômica”. Melhor dizendo, a presença dos sentidos transmitidos pelas palavras em meu trabalho é cada vez mais concentrada, pontual: textos curtos, palavras “soltas”, imagens verbais isoladas, sílabas, frases rarefeitas…

         De algum modo, algo que venho perseguindo desde “poesia é coisa de nada” pode estar começando a se esboçar…

[…]

F: A questão do lúdico, a participação do público também é um traço do seu trabalho, não é? (…) Como seus trabalhos lidam com a participação do público? A participação direta do público é importante para o seu trabalho?

L: Sim, sem dúvida. Muitos trabalhos meus, principalmente os que envolvem a dimensão sonora, só funcionam e se realizam plenamente se o espectador “entrar no jogo”.

         Eu confesso que sou uma pessoa interativa por excelência. Adoro interagir, me comunicar. Às vezes preciso até me policiar e me aprumar em direção ao silêncio, à intimidade, à solidão, à concentração… Acho que de algum modo esse traço de minha personalidade acaba se refletindo formalmente em alguns de meus trabalhos. Por outro lado, sou uma artista formada no século XX e sob o signo da Modernidade, sou de uma geração que realmente acredita na máxima do Chacrinha: “quem não se comunica, se trumbica” – seja com a palavra, com a imagem, com a música, ruídos, com o corpo, e até mesmo com o silêncio, que também, hoje sabemos, significa, lembrando aqui John Cage…

F: Como é seu processo de trabalho?

L: Não posso dizer exatamente como é o meu processo de trabalho, isso porque ele varia muito. De um modo geral, trabalho muito com anotações, croquis, faço vários projetos ao mesmo tempo e vou deixando “fermentar”.

         Não há uma regra fixa dentro de meu processo criativo que determine prioridades de linguagens. Ora a palavra, uma frase, um “verso” surge e a partir dessa forma verbal estabeleço a expressão visual que vou dar a esse “conteúdo”. Ora o processo se inverte, a linguagem visual se impõe e a partir dela concebo o texto. Ora só crio textos “puros”, ou somente imagens fotográficas, ora somente objetos, poemas-objetos e/ou instalações onde essas várias formas de linguagem se confrontam… De todo modo, acredito totalmente numa frase que meu pai costumava dizer: “O processo de criação é 10% inspiração e 90% transpiração”.

F: Qual a influência que seu pai (Geraldo de Barros) teve na sua formação como artista plástica?

L: Meu pai era um homem maravilhoso, de personalidade forte e, principalmente, uma pessoa extremamente criativa, curiosa, inquieta. Foi determinante na minha formação e na de minha irmã, Fabiana, que também é artista plástica. Fez questão, e não media sacrifícios para isso, desde que éramos muito crianças nos dar todas as condições para que exercitássemos nossas vocações. Adorava levar-nos a museus e nos mostrar tudo aquilo que ele considerava interessante e belo. Era também um homem de opiniões radicais, e, em alguns momentos, pouco flexível. Nesse sentido, tínhamos, às vezes, alguns confrontos, mas, no final, bastante salutares do ponto de vista intelectual. Posso seguramente afirmar que devo muito, muito mesmo a ele, que me ensinou a “olhar e ver” a realidade, sempre de uma forma diferenciada, “subversiva”, a acreditar no sonho, no poder da criação, e preservar, sempre, a qualquer custo, a liberdade da imaginação. Tudo isso, com muito rigor e consciência construtiva. A imagem que meu pai usava para descrever o ato de criação e para mim um lema: “Criar é saltar do viaduto do Chá e sair andando…”.

F: Você vê proximidades entre o seu trabalho e o dele?

L: Não propriamente uma proximidade muito explícita, visível, “palpável”, mas acho que fui muito influenciada por um certo “modo de ver” e apreender a realidade de meu pai, conforme já disse. Ele, obviamente, pertencia a uma outra geração, quando as questões, no âmbito da arte, eram outras também. Suas “utopias” eram outras, diferentes das minhas… O mundo era outro… É claro que não posso negar e nem quero a sua presença dentro de mim, e, de certa forma, dentro de meu trabalho. Isso é inevitável… Por outro lado, procuro manter um distanciamento e me relacionar com a obra de meu pai da mesma forma que me relaciono com a obra de outros artistas. Tenho, por exemplo, outras influências dentro de meu trabalho que, de algum modo, dialogo com mais freqüência…

[…]

*

De Não quero nem ver (2005 – scaneado de Relivro, Automática Edições, RJ, 2012)




Croquis & Anotações para vídeoperformance Nem me mostre

Há mulheres

O tato do olho

*
Poema (1979)







Poema, Performance Fotográfica, 1979.

*

Garotas são POP (Scaneado de Relivro, Automática Edições, RJ, 2012)



*

Homenagem a George Segal (1975 – 1985/1990)

Homenagem a George Segal, 1990 (Foto p&b por Ruy Teixeira).
 
Homenagem a George Segal, 1990. Stills da videoperformance.

Para ver a videoperformance [1984], clique aqui

*

Procuro-me (2001/2003)


*

Ping-poems para Boris & Ping-poem/ Deve haver nada a ver (2000/2002)


Ping-poemas para Boris, 2000. Foto: Sérgio Guerini.


*

Podcast com Arte Sonora

*


Artes plásticas, Lenora de Barros