Lydia Davis: “Eventos isolados num contexto misterioso”.
26 de outubro de 2014

Como meu corpo faz para saber que está segurando duas folhas de papel ao invés de uma? Quais são os indícios físicos de que estamos pensando? Se conseguirmos obstruí-los, então paramos de pensar? Quantos sinais de perturbação você consegue enumerar na sua vida mental cotidiana?
          Esse conjunto de perguntas parece apontar um eixo em torno do qual a prática de contar histórias da norte-americana Lydia Davis orbita: o que importa, aqui, talvez seja reconhecer não só sua capacidade de observação empírica e sua seleção de detalhes, cujos implicadores emocionais funcionam como o movimento que guia a narrativa como um todo, mas principalmente a ideia de que todo fenômeno é perturbação.
O que mais parece nos atingir em suas histórias é uma espécie de zona inderteminada em que não se tem um narrador de um lado e uma matéria narrada de outro, mas a captação do pensamento enquanto formas narrativas a partir da ideia de que seu surgimento se dá nas rachaduras, nas fissuras. Suas histórias, numa subtração súbita tanto de organizações morais e lógicas consolidadas, provocam, desatam o que se opera enquanto incômodos, coceiras, insistências problemáticas.
Nesse sentido, boa parte do seu trabalho busca turvar a fronteira verbal entre mundo narrado e mundo comentado – seja incluindo narratividade em formas ensaísticas, seja utilizando uma observação atenta do mundo sensível como fios que ou obstruem ou carregam a sequência da história. É assim que suas narrativas buscarão flexões temporais, extensão material, argumentatividade, deslocamento de detalhes, jogos entre concentração e dispersão do foco de atenção e da temporalidade narrativa, etc. que contradizem a expectativa linguística do leitor – em especial do que busca classificar aquilo que lê, genericamente ou a partir de quaisquer outros padrões literários.
Lydia publicou sua primeira coletânea de contos, The thirteenth wooman and other stories [algo como A décima terceira mulher e outras histórias], em 1976, e desde então já chegou a quase uma dezena de livros com suas ficções. Tem se destacado igualmente por sua atividade como tradutora. Selecionamos, para a postagem, histórias do seu livro Break It Down, de 1986, traduzidas por Lucas Matos, e algumas das narrativas de Tipos de Perturbação, livro de 2007, cuja tradução, de Branca Vianna, foi publicada pela Companhia das Letras em 2013. Além disso, acrescentamos um vídeo inspirado em sua obra, realizado pela atriz/performer Cristina Flores e da videoartista Flor Brazil.
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vídeo inspirado em Tipos de Perturbação (Lydia Davis, 2007) por Cristina Flores/Flor Brazil (2014)

De Break It Down (1986)
História
Chego do trabalho, e tem uma mensagem dele: que ele não vem, que ele está ocupado. Ele vai ligar depois. Espero o telefone tocar, então às nove horas vou até onde ele mora, vejo o carro dele, mas ninguém em casa. Bato na porta do apartamento dele e então todos os portões das garagens, sem saber qual é o portão da garagem dele – nenhuma resposta. Escrevo um bilhete, leio e releio, escrevo um novo bilhete, e prendo na porta dele. Em casa fico inquieta, e tudo que consigo fazer, mesmo tendo muito a fazer, que eu viajo pela manhã, é tocar piano. Ligo de novo às dez e quarenta e cinco e ele está em casa, foi ao cinema com a ex, e agora ela está ainda está lá. Diz que vai me ligar de volta. Fico esperando. Finalmente, sento e escrevo no meu caderno que quando ligar, ou ele virá até mim ou não virá e eu vou ficar furiosa, então ou terei ele comigo, ou minha fúria, e pode ser tranquilo, já que a fúria é sempre um ótimo conforto, como descobri com meu marido. E então eu vou e escrevo, na terceira pessoa e no pretérito perfeito, que ela sempre precisou ter um amor mesmo que fosse um amor complicado. Ele liga de volta antes de eu ter tempo de terminar de escrever tudo. Quando liga, é um pouco depois de onze e meia. A gente discute até quase meia-noite. Tudo que ele diz é uma contradição: por exemplo, ele diz que não quis me ver porque queria trabalhar e mais que isso queria ficar sozinho, mas ele não trabalhou nem ficou sozinho. Não tem como eu fazer ele reconhecer nenhuma de suas contradições, e quando esta conversa começa a soar igual a muitas que eu tive com meu marido eu digo tchau e desligo. Termino de escrever o que tinha começado apesar de que agora já não parece verdade que a fúria seja um conforto, nem um pouco.
          Ligo para ele de novo em cinco minutos para dizer que sinto muito por toda essa discussão, e que eu o amo, mas ninguém atende. Ligo de novo cinco minutos depois, pensando que ele pode ter ido até a garagem e voltado, mas de novo ninguém atende. Penso em dirigir de novo até onde ele mora e procurar sua garagem para checar se ele está lá trabalhando, porque ele tem uma escrivaninha lá e seus livros e lá é onde ele vai para ler e escrever. Estou de camisola, passa da meia-noite e eu tenho que sair de manhã às cinco. Mesmo assim, me visto e dirijo o par de quilômetros, mais ou menos, até sua casa. Estou com medo que quando chegar lá vou ver outros carros, na calçada ao lado, que não vi mais cedo e que um deles será o da sua ex-namorada. Quando passo pela cancela, vejo dois carros que não estavam lá antes e um deles está parado tão perto quanto possível da porta dele, e eu penso que ela está lá. Dou a volta no pequeno edifício até chegar nos fundos onde está seu apartamento, olho a janela: a luz está acesa mas não consigo enxergar nada direito por causa das venezianas pela metade e do vidro embaçado. Mas as coisas dentro do quarto não são as mesmas que eram no início da noite, e antes não tinha embaçado. Abro o portão de fora, e bato na porta. Espero. Nenhuma resposta. Deixo o portão bater e vou embora para checar as garagens. Agora a porta abre atrás de mim enquanto estou indo embora e ele sai. Não posso vê-lo muito bem porque está escuro no beco apertado ao lado da porta dele e as suas roupas são escuras e toda a luz vem de detrás dele. Ele vem até mim e põe seus braços em volta de mim sem falar, e eu penso que ele está sem falar não porque esteja com sentimentos intensos mas porque ele está preparando o que vai dizer. Larga de mim, anda à minha volta e na minha frente até onde os carros estão estacionados ao lado das vagas das garagens.
          Enquanto estamos andando até lá, ele diz “Olha,” e meu nome, e eu fico esperando ele dizer que ela está lá e também que está tudo acabado entre nós. Mas ele não diz, e tenho a impressão de que ele pretendia dizer algo assim, pelo menos dizer que ela esteve lá, e então ele pensou melhor por alguma razão. Em vez disso, ele diz que tudo que deu errado hoje à noite foi culpa dele e que ele lamenta. Ele para com as costas contra a porta da garagem e seu rosto na luz e eu na frente dele de costas para a luz. Numa hora ele me abraça tão de repente que a brasa do meu cigarro se esmigalha contra o portão da garagem atrás dele. Eu sei por que estamos aqui e não no seu quarto, mas eu não pergunto nada até tudo ficar certo entre nós. Então ele diz: “Ela não estava aqui quando eu te liguei. Ela voltou depois”. Ele diz que a única razão de ela estar lá é que alguma coisa está perturbando ela e ele é o único com quem ela pode falar sobre isso. Então ele diz: “Você não entende, né?”.
          Eu tento descobrir.
          Daí eles foram no cinema e então voltaram para a casa dele e então eu liguei e então ela saiu e ele ligou de volta e nós discutimos e então eu liguei de volta duas vezes mas ele tinha saído para tomar uma cerveja (ele diz) e então eu dirigi até lá enquanto isso ele voltou da cerveja que tinha tomado e ela também tinha voltado e ela estava na sala então a gente conversou no portão da garagem. Mas o que é a verdade? Ele e ela ambos podiam mesmo ter voltado no pequeno intervalo de tempo entre minha última ligação e minha chegada na casa dele? Ou a verdade é que durante a ligação que ele me fez ela esperou do lado de fora ou na garagem ou no carro dela, e que ele então trouxe ela de volta para casa, e que quando o telefone tocou com minha segunda e terceira ligações ele deixou tocar sem atender porque estava de saco cheio de mim e de discutir? Ou a verdade é que ela foi embora e voltou depois mas ele permaneceu lá e deixou o telefone tocar sem atender? Ou talvez ele trouxe ela de volta e então saiu para a cerveja enquanto ela ficou lá esperando e ouvindo o telefone tocar? A última é a menos provável. De qualquer modo não acredito que teve nenhuma saída para tomar cerveja.
          O fato de que ele não conta a verdade o tempo todo faz eu ficar incerta de sua verdade às vezes, e então me esforço para descobrir por mim mesma se o que ele está me contando é a verdade ou não, e de vez em quando eu consigo descobrir que não é a verdade, e de vez quando eu não sei e nunca sei, e de vez em quando só porque ele diz isso para mim de novo e de novo eu fico convencida que é verdade porque não acredito que ele repetiria uma mentira tantas vezes. Talvez a verdade não importa, mas eu quero saber, ao menos para que eu possa chegar a algumas conclusões sobre umas dúvidas tipo: se ele está com raiva de mim ou não; se ele está, quanta raiva; se ele ainda ama a ex ou não; se ele ama, quanto; se ele me ama ou não; quanto; qual a capacidade dele de me iludir na hora e então depois disso quando conta.
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Os medos da sra. Orlando
O mundo da sra. Orlando é um mundo de trevas. Em sua casa, ela sabe o que é perigoso: o forno a gás, a escada íngreme, a banheira escorregadia, e vários tipos de fiação ruim. Fora de casa, ela sabe alguma parte do que é perigoso mas não tudo, e vive aterrorizada por sua própria ignorância, e ávida por informação sobre crime e desastre.
          Embora tome todas as precauções, nenhuma precaução é suficiente. Ela tenta se preparar para passar fome, frio, tédio, e para grandes hemorragias. Nunca está sem bandeide, alfinete de segurança, e uma navalha. No seu carro, ela tem, entre outras coisas, uns metros de corda e um apito, e também um Casa Grande & Senzala para ler enquanto espera as filhas que muitas vezes passam horas fazendo compras.
          Em geral, ela gosta de estar acompanhada por homens: eles oferecem proteção tanto por seu tamanho largo quanto por sua visão racional do mundo. Ela admira a prudência, e respeita o pretendente que reserva mesas antecipadamente e também o que hesita antes de responder qualquer uma de suas questões. Acredita em contratar advogados e se sente mais confortável falando com advogados porque cada uma de suas palavras é endossada pela lei. Mas ela pede para uma de suas filhas ou uma amiga ir fazer compras com ela no centro, antes de ir sozinha.
          Ela foi atacada por um homem num elevador, no centro. Era de noite, o homem era preto, e ela não conhecia bem o bairro. Ela era mais nova na época. Ela foi encoxada várias vezes num ônibus lotado. Num restaurante, uma vez, depois de uma briga, um garçom exaltado derrubou café nas suas mãos.
          Na sua cidade, ela tem medo de ser levada embora nos subterrâneos na linha errada do metrô, mas não pede direções a estranhos de uma classe mais baixa. Passa por muitos pretos que estão planejando diferentes crimes. Qualquer um pode assaltá-la, até outra mulher.
          Em casa, fica horas no telefone com as filhas e tudo que fala são premonições de desastre. Não gosta de expressar contentamento, porque tem medo de estragar uma maré de sorte. Se acontece de ela dizer que algo vai bem, ela usa um tom sussurrado e bate na madeira da mesinha de telefone. Suas filhas contam bem poucas coisas, sabendo que ela vai achar algum mau agouro no que contam. E quando elas falam tão pouco, ela fica com medo que algo vai mal – ou com a saúde ou com o casamento delas.
          Um dia ela conta para elas uma história pelo telefone. Esteve no centro fazendo compras sozinha. Saiu do carro e entrou numa loja de tecido. Ela olhou os tecidos e não comprou nada, mas leva um par de amostras na bolsa. Na calçada tem muitos pretos andando de um lado pro outro e eles a deixam nervosa. Ela vai até o carro. Enquanto ela pega suas chaves, uma mão segura seu tornozelo de debaixo carro. Um homem estava deitado debaixo do carro e agora agarra seu tornozelo sob a meia com uma mão preta e diz numa voz abafada pelo carro para ela deixar sua bolsa e sair dali. Ela faz assim, apesar de mal conseguir se manter de pé. Espera apoiada na entrada de um prédio e observa mas a bolsa não sai do lugar onde foi deixada na esquina. Algumas pessoas a encaram. Então ela anda até o carro, ajoelha na calçada e olha embaixo. Vê a luz do sol sobre a rua adiante, o cano de descarga, entre outros, na barriga do carro: nenhum homem. Pega sua bolsa e dirige até em casa.
          Suas filhas não acreditam na história. Perguntam por que um homem faria algo tão peculiar, e em plena luz do dia. Remarcam que ele não pode simplesmente ter desaparecido, simplesmente virar fumaça do nada. Ela fica fora de si com sua descrença e não gosta de jeito que elas falam em plena luz do dia e virar fumaça.
          Alguns dias após o ataque a seu tornozelo, acontece um segundo incidente. Está dirigindo seu carro de noite até um estacionamento perto da praia como faz de vez em quando, daí ela pode sentar e assistir ao pôr-do-sol pelo para-brisa. Esta noite, porém, assim que ela olha para o calçadão e para a água, não vê a praia deserta em paz que vê normalmente, mas um pequeno amontoado de gente em volta de algo que parece estar estirado na areia.
          Fica curiosa imediatamente, mas meio inclinada a ir embora sem assistir ao sol se pôr, ou ver o que está na areia. Tenta pensar no que poderia ser. Provavelmente um animal de algum tipo, porque as pessoas não olham tanto tempo para algo a não ser que tenha sido vivo ou que esteja vivo. Imagina um peixe imenso. Tem que ser imenso porque um peixinho não é interessante, nem qualquer coisa como uma água-viva que também é pequeno. Imagina um golfinho, e imagina um tubarão. Também pode ser uma foca. Mais provável é que já esteja morta, mas também pode estar morrendo e o amontoado de gente pretende vê-la morrer.
          Agora, afinal, a sra. Orlando tem que ir e ver com seus próprios olhos. Pega sua bolsa e sai do carro, deixa tudo trancado, atravessa uma mureta de concreto e afunda os pés na areia. Caminhando devagar, com dificuldade, de salto alto na areia, pernas bem abertas, se agarra em sua bolsa brilhante e dura pela alça, e ela fica balançando violentamente pra frente e para trás. A brisa marinha gruda o vestido florido contra as suas coxas, e a barra da saia ondula alegre em torno dos joelhos, mas seus cachos arrumadinhos não se movem e ela franze as sobrancelhas enquanto avança.
          Mistura-se às pessoas em volta, e olha para baixo. O que está estirado sobre a areia não é um peixe, nem uma foca mas um homem jovem. Ele está deitado muito aprumado com seus pés juntos e os braços ao longo do corpo, e está morto. Alguém o cobriu com jornais mas a brisa fica levantando as folhas e, uma a uma, elas se soltam e deslizam até se prenderem entre as pernas dos transeuntes. Finalmente, um homem de pele escura que parece um pouco índio aos olhos da sra. Orlando puxa com o pé a última página de jornal e agora todos podem dar uma boa olhada no homem morto. Ele é belo e esbelto, e sua cor é acinzentada e começando a amarelar em alguns pontos.
          A sra. Orlando fica observando absorta. Espia os outros ao redor e vê que eles também estão esquecidos de si. Um afogamento. Isto é um afogamento. Isto pode até ser um suicídio.
          Atravessa a areia de volta. Quando chega em casa, ela liga imediatamente para suas e conta o que viu. Começa dizendo que viu um homem morto na praia, um afogado, daí começa tudo de novo e conta mais um pouco. Suas filhas ficam incomodadas porque ela se anima tanto a cada vez que conta a história.
          Nos dias seguintes, ela fica dentro de casa. Então sai, de súbito, e vai até a casa de uma amiga. Diz para a amiga que recebeu um trote obsceno, e passa a noite lá. Quando retorna no dia seguinte, ela acha que alguém invadiu a casa, porque certas coisas estão faltando. Mais tarde, encontra cada coisa num lugar incomum, mas não consegue desfazer a impressão de que um intruso esteve ali.
          Fica sentada, dentro de casa, temendo intrusos e atenta ao que pode dar errado. Enquanto está sentada, e especialmente à noite, escuta muitas vezes barulhos estranhos que ela tem certeza que são predadores sob o beiral da janela. Daí ela precisa sair e olhar a casa de fora. Percorre seu entorno no escuro e não vê nenhum predador, volta para dentro de casa. Mas depois de ficar sentada lá dentro por meia hora sente que tem que sair e checar a casa do lado de fora de novo.
          Entra e sai e no dia seguinte também entra e sai. Então fica lá dentro e só fala pelo telefone, mantendo os olhos nas portas e janelas, atenta a sombras estranhas, e durante algum tempo ela não sai de casa, a não ser bem cedo de manhã para examinar o chão em busca de pegadas.
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O que ela sabia
As pessoas não sabiam o que ela sabia, que ela não era uma mulher mas um homem, muitas vezes um homem gordo, mas mais vezes provavelmente, um homem velho. O fato de que era um velho tornava duro para ela ser uma jovem mulher. Era duro para ela falar com um homem jovem, por exemplo, embora o jovem estivesse claramente afim dela. Ela tinha de se perguntar: “Por que esse jovem está flertando com um velho?”.
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O peixe
Ela está parada diante do peixe, pensando sobre certos erros irrevogáveis que cometeu hoje. Agora o peixe está cozido, e ela sozinha com ele. O peixe é para ela – não tem mais ninguém na casa. Mas ela teve um dia problemático. Como pode comer este peixe que está esfriando na superfície de mármore? E até o peixe, também, imóvel como está, despido de seus ossos, coberto por sua pele de prata, nunca esteve tão completamente sozinho como está agora: violado de modo definitivo e observado pelo olhar cansado desta mulher que cometeu o último erro do seu dia e fez isso com ele.
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Miriam e o oboé
Noite passada, Miriam, minha vizinha do andar debaixo, se masturbou com um oboé. O oboé bufava e guinchava em sua vagina. Miriam gemia. Depois, quando pensei que tinha acabado, ela começou a gritar. Fiquei deitada na cama, com um livro sobre a Índia. Podia sentir o prazer passando pelo teto dela até o meu quarto. Claro que poderia haver outra explicação para o que eu ouvi. Talvez não fosse o oboé, mas quem tocava o instrumento que estava penetrando Miriam. Ou talvez Miriam estivesse atacando seu cachorro com algo fino e musical, como um oboé.
          Miriam, que grita, mora embaixo de mim. Três mulheres de Minas moram acima de mim. Então tem uma moça pianista com duas filhas no andar do térreo e umas lésbicas no subsolo. Sou uma pessoa sóbria, uma mãe, e gosto de ir para a cama cedo – mas como posso levar uma vida regrada nesse prédio? É um circo de vaginas saltando e cabriolando: treze vaginas e apenas um pênis, meu filho caçula.
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Mães
Todo mundo tem uma mãe em algum lugar. Há uma mãe no jantar com a gente. É uma mulher pequena com óculos de lentes tão espessas que parecem óculos escuros quando ela se vira. Daí a mãe da anfitriã telefona enquanto estamos comendo. Isso faz anfitriã se afastar da mesa mais tempo do que se esperaria. Essa mãe pode estar em São Paulo. A mãe de um convidado é mencionada na conversa: essa mãe está em Rondônia, um estado do qual poucos de nós sabe qualquer coisa, embora já tenha acontecido de um parente morar lá. Um coreógrafo é mencionado depois, no carro. Ele vai passar a noite na cidade, a caminho, na verdade, de uma visita para sua mãe, de novo em outro estado.
          Mães, quando são convidadas de um jantar, comem bem, como crianças, mas parecem ausentes. Muitas vezes o caso é que elas não conseguem acompanhar o que estamos fazendo ou falando. Também é o caso, muitas vezes, de elas só entrarem na conversa quando ela se volta para a nossa juventude; ou elas se acomodam quando acomodações são indesejáveis; sorriem e são mal compreendidas. Ainda assim, mães são sempre vistas, sempre procuradas, mesmo que só em feriados. Elas sofreram por nós, e no mais das vezes num lugar onde não podíamos vê-las.
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Numa casa sitiada
Um homem e uma mulher moravam numa casa sitiada. De onde eles estavam agachados na cozinha o homem e a mulher escutavam pequenas explosões. “O vento”, disse a mulher. “Caçadores”, disse o homem. “A chuva”, disse a mulher. “O exército”, disse o homem. A mulher queria ir para casa, mas ela já estava em casa, bem ali no meio do país numa casa sitiada.
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Visita ao marido
Ela e o marido estão tão nervosos que durante a conversa ficam indo ao banheiro, fechando a porta e usando a privada. Então eles saem e acendem um cigarro. Ele vai e urina e deixa a tampa levantada e ela vai e abaixa e urina. Perto do fim da tarde, eles param de falar em divórcio e começam a beber. Ele, uísque; ela, cerveja. Quando está na hora de ela partir para pegar o trem, ele bebeu muito e vai no banheiro uma última vez para urinar e não se faz questão de fechar a porta.
          Enquanto se preparam para sair, ela começa a lhe contar a história de como conheceu seu amante. Durante a fala, ele descobre que perdeu uma de suas luvas caras e fica imediatamente chateado e distraído. A história fica pela metade e ele não acha a luva. Ele está menos interessado na história quando volta para a sala sem ter encontrado sua luva. Mais tarde quando estão andando juntos na rua ele conta alegremente como comprou para a namorada sapatos de trezentos reais porque está amando.
          Quando ela fica sozinha de novo, está tão preocupada com o que aconteceu em sua visita ao marido que atravessa as ruas muito rápido e esbarra em várias pessoas no metrô e na estação de trem. Ela não enxerga nenhuma delas mas vai de encontro contra elas como uma força da natureza tão repentinamente que ninguém tem tempo de desviar e ela fica surpresa de haver pessoas. Algumas delas a acompanham com o olhar e dizem “Céus!”.
          Na cozinha dos pais mais tarde ela tenta explicar alguma coisa difícil sobre o divórcio para o pai e fica furiosa quando ele não entende, e então percebe no fim da explicação que ela está chupando uma laranja apesar de ela não se lembrar de ter descascado nem de decidir comê-la.
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A mãe
A garota escreveu uma história. “Mas como seria melhor se você escrevesse um romance”, disse a mãe. A garota construiu uma casa de boneca. “Mas como seria melhor se fosse uma casa de verdade”, disse a mãe. A garota fez um travesseirinho para o pai. “Mas uma colcha não seria mais prático”, disse a mãe. A garota cavou um pequeno buraco no jardim. “Mas como seria melhor se você cavasse um buraco grande”, disse a mãe. A garota cavou um buraco grande e foi dormir dentro dele. “Mas como seria melhor se você dormisse para sempre”, disse a mãe.
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Problema
X está com Y, mas vive do dinheiro de Z. Y por sua vez         sustenta W, que vive com seu filho com V. V quer se mudar para o Rio mas seu filho mora com W em São Paulo. W não pode se mudar por está num relacionamento com U, cujo filho também mora em São Paulo, mas com a mãe, T. T recebe dinheiro de U, W recebe dinheiro de Y para ela mesma e de V para seu filho, e X recebe dinheiro de Z. X e Y não têm filhos. V encontra pouco com seu filho mas o sustenta. U mora com o filho de W mas não tem como sustentar.
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Cinco Sinais de Perturbação
De volta à cidade, ela está sozinha a maior parte do tempo. É um apartamento amplo que não é dela, apesar de não lhe ser estranho.
          Passa os dias consigo mesma, tentando trabalhar, e às vezes tirando os olhos do trabalho para preocupações como encontrar um lugar para viver, porque ela não pode ficar neste apartamento depois do verão. Então, no fim de tarde, ela começa a pensar que devia ligar para alguém.
          Fica observando tudo muito de perto: ela mesma, este apartamento, o que está do lado de fora das janelas, e o clima.
          Tem um dia de trovoadas, com amarelo escuro e verde claro nas ruas, penumbra no beco. Ela olha para o beco e vê espuma descendo o concreto, da limpeza das calhas pela chuva. Então um dia de muito vento.
          Agora, ela está em frente à porta e observa a maçaneta. A maçaneta de bronze está se movendo sozinha, muito suavemente, de um lado pro outro, então balançando. Ela fica assustada, então escuta passos do outro lado da porta, e tecido se arrastando pela porta, outros barulhos suaves, depois de um momento, se dá conta de que é o porteiro que veio limpar a entrada. Mas ela não se move até a maçaneta parar de mexer.
          Olha para o relógio várias vezes e fica ciente da hora exata, e então daqui a dez minutos, mesmo sabendo que não precisa saber que horas são. Ela também exatamente como se sente, inquieta agora, furiosa em dez minutos. Está careca de saber como se sente, mas não consegue parar, como se fosse desaparecer (ir por aí) caso parasse de observar por mais de um instante.
          Tem uma luz forte vinda da cozinha. Ela não acendeu nenhuma lâmpada. A luz vem da janela aberta (é quase o final do verão). É de manhã.
          Noutro dia, o sol, bem cedo, baixinho, ilumina o parque do outro lado da rua pelas beiradas, de modo que um tronco nu e as folhas na extremidade externa desse lado do bosque fiquem esbranquiçados pelos raios solares como se alguém tivesse jogado um punhado de cinzas sobre eles. Atrás deles, escuridão.
          Na sua frente, enquanto ela fica parada diante da janela olhando para o parque, as plantadas no beiral perderam algumas de suas folhas.
          Ela sabe que se falar no telefone, sua voz vai comunicar algo que ninguém quer ouvir. Terá dificuldades em se fazer ouvir.
          No meio dos ruídos aleatórios vindos do pátio (ela os cataloga de tarde: pratos tinindo, a risada de uma mulher, uma descarga, uma televisão, água corrente), súbito começa uma briga entre um homem e sua mãe (ele grita com seus graves: “Mãe!”).
          Ela pensa, estando de volta após alguns anos, que este é um lugar cheio de dificuldades.
          Assiste a muita televisão, mesmo que não goste muito de nada, e também tenha um problema em focar a imagem. Assiste ao que quer que tenha uma transmissão clara, mesmo que possa achar ofensivo. Numa noite, assiste a um rosto num filme por duas horas e sente que seu próprio rosto mudou. Então, na noite seguinte à mesma hora, não assiste à televisão e pensa: a hora pode ser a mesma mas a noite não é a mesma.
          Depois, quando lista e faz uma conta dos sinais de perturbação pelo menos dois são associados ao aparelho de TV.
          Agora ela não pode adiar por mais tempo. Precisa sair e procurar um lugar para morar. Ela não quer fazer isso porque não quer dizer a si mesma que não tem um lugar que seja seu. Preferia não fazer nada quanto ao problema e fica neste apartamento o dia inteiro.
          Diversas vezes ela sai para olhar apartamentos. Não pode pagar muito, então olha os mais baratos. Olha um em cima do mercadinho, e um acima de uma pizzaria. O terceiro não passa de uma carcaça com um grande buraco no piso do quarto de fundos, e o jardim está tomado por espinheiros. O agente imobiliário pede desculpas.
          Muitas vezes ela chora com o que vê na televisão. Normalmente, é algo do noticiário da tarde, uma morte, ou muitas mortes em algum lugar, ou um ato de heroísmo, ou um filme sobre um recém-nascido com uma doença grave. Mas às vezes um anúncio, se envolve idosos ou crianças, também vai fazer com que ela chore. Quanto mais nova a criança, mais facilmente chora, mas mesmo um filme de adolescente vai às vezes fazer com que ela chore, apesar de ela não gostar de adolescentes. Muitas vezes, depois que o noticiário acaba, ainda está soluçando enquanto caminha até a cozinha.
          Janta na frente da televisão. Depois de uma hora ou duas começa a beber. Bebe até ficar bêbada, então derruba coisas no chão, e sua caligrafia fica difícil de ler, deixa de fora algumas das letras de certas palavras e precisa ler todas as palavras de novo com cuidado, acrescentando as letras faltantes e depois disso gravando algumas palavras uma segunda vez acima da escrita ilegível.
          Está se esquecendo de suas ideias sobre moderação.
          Lava a louça tão selvagem que o detergente espirra para todos os lados, e a água derrama no chão e nas suas roupas. Durante o dia, lava as mãos muitas vezes, esfregando uma na outra vigorosamente, quase com violência, porque sente que tudo o que toca está coberto por gordura.
          Para em frente à porta e escuta alguém assobiando no lobby de mármore.
Um dia, vê um apartamento no qual está disposta a ficar. Não é muito bonito, mas ela se sente pronta para ficar com ele porque quer ter um lar de novo, quer sentir seu vínculo com a cidade pelo aluguel, não quer seguir se sentindo do jeito que está, solta no mundo, a única sem lugar nenhum. Imagina que quando se mudar, vai dar uma festa. Assina uns papéis. O agente imobiliário vai ligar mais tarde e dizer se o negócio foi adiante ou não. Anda até em casa, e para para comprar comida no caminho com uma espécie de tranquilidade forçada, como se algo fosse se quebrar se ela se movesse muito rápido. Continua se movendo desse jeito, de leve, com ponderação, o resto do dia. Então, mais tarde, à noite, o agente liga e diz que ela perdeu o apartamento. O dono decidiu, de repente, não alugar. Ela mal pode acreditar na explicação.
          Agora ela está certa de que nunca vai encontrar um lugar para morar.
          Deita na cama com uma garrafa de cerveja. Termina a cerveja e quer colocá-la de lado. Não pode pôr direto sobre a madeira da mesinha de cabeceira porque vai deixar marca, e a mesinha não é dela. Põe em cima de um livro, mas o livro também não é dela. Desloca para outro livro, um que é dela, um songbook.
          Então ela levanta porque vê que as roupas que despiu mais cedo estão amarrotadas numa cadeira. Quer deixá-las esticadas para o caso de decidir usá-las no dia seguinte, vai esticá-las, mas como está um bocado bêbada elas ficam meio amassadas, como pode ver. Está bêbada porque tomou duas garrafas de cerveja, um copo de Drambuie, e então uma terceira garrafa de cerveja.
          Apesar de estar bêbada, ainda consegue manter algumas coisas na cabeça, mesmo que com certo esforço. Ela vê quão bem está mantendo as coisas na cabeça e pensa que ainda é esperta. Pensa no quanto sua esperteza não parece servir tanto assim, não do jeito que era. Sua esperteza contou menos e menos conforme ela foi crescendo. Fica deitada no escuro tentando se recompor. Ela pode sentir a beira do precipício, este recuo. Agora passa das duas da manhã, mas ela não pode se deixar adormecer.
          Na parte branca de um caminhão, uma águia azul-escura com suas asas abertas. Observando, ela vê pela janela o caminhão dos correios parar ao lado do hidrante. Vê o pacote do correio lançado para fora do caminhão na calçada, e o zelador do prédio o carrega pela calçada e então começa a segurá-lo sobre os ombros enquanto conversa com outro zelador, e ela fica furiosa conforme observa porque pode haver uma carta para ela no pacote.
          Ouve falar de um apartamento numa ruazinha legal, mas não vai olhar porque também ouve dizer que no andar debaixo vivem um doente mental e seu pai e eles brigam e gritam, e ela não quer ter que ouvir isso.
          O dia está escuro de novo com a ameaça de chuva. Sob a luz amarela, ela limpa as folhas mortas das plantas da casa e molha os vasos. Neste dia, há mais ordem.
          Na sala de jantar, ela endireita livros pesados que estavam muito inclinados para o lado nas prateleiras e abertos, estatelados, por tanto tempo que as capas perderam a forma original, empenadas. Tem outra estante na sala de estar, com portas de vidro, e no topo dela um relógio que emite um silvo toda vez que o ponteiro dos segundos passa de certo ponto. Agora, ela anda pelo corredor, endireitando mais livros conforme se aproxima deles. O corredor é longo e escuro, com muitos ângulos, de modo que cada quebrada dá em novos corredores, e o corredor parece, às vezes, infinitamente longo.
          No quarto, onde ela assiste à televisão, escuta muitas vezes um quarteto de cordas, ou alguma outra música clássica. É um som diminuto, mas perfeitamente claro. Quando o ouviu pela primeira vez, se havia um rádio em algum ponto do quarto ligado com o volume bem baixinho. Andou lentamente ao redor do quarto, escutando. As paredes são escuras, as janelas manchadas, e tem uma cômoda larga e baixa de madeira verde riscada, com um espelho na parte de cima, para onde ela olha de novo e de novo, e também olha nos três grandes espelhos do armário. A música estava vindo do aquecedor, que fica abaixo de uma fotografia emoldurada de um homem barbudo; é o clássico cujos livros estavam caindo na sala. Ela colocou o ouvido próximo ao aquecedor e descobriu que a música vinha da torneira. Agora às vezes ela deita na cama ouvindo a música. É apenas baixa o suficiente para não impedir de pensar.
          Um dia, umas mosca anda sobre sua mão e ela sente que a mosca é uma presença amigável. No mesmo dia, ela quer parar um policial na rua e conversar com ele. Então o impulso passa.
          Ela decide ligar para diversas pessoas. Diz a si mesma que precisa conversar com alguém. Fica preocupada e então com raiva de si mesma, por estar sempre pensando em si e olhando o mundo de modo tão sombrio. Mas ela não sabe como parar.
          Lê um livro sobre o zen e anota num pedaço de papel as oito partes do caminho óctuplo do Buda, e pensa que ela pode seguir isso. Vê que basicamente se trata de fazer tudo certo.
          Apesar de já ser suficientemente tarde para ir para a cama, ela come mais alguma coisa. Cereal, e então, depois do cereal, pão com manteiga, e então marshmallows, e outros petiscos. Deita de bruços e olha as capas de uns livros. Ela pode continuar lendo agora sem comer. Sua barriga está tão cheia que não tem como deitar sobre ela confortavelmente, e ela se sente como se estivesse deitada sobre uma pedra ou sobre um bando de palitos. Encheu a pança como se estivesse enchendo uma mochila ou um bote para uma longa jornada. Vai ser lento e quente, e ela vai acordar e dormir de novo várias vezes, ter sonhos desagradáveis, ou nenhum sono mas questões incômodas. Nenhuma lágrima, entretanto.
          A chuva continua a cair constante, um pouco mais alta apenas que o ar-condicionado. É uma percussão suave com um ocasional espirro mais alto vindo do pátio.
          Não consegue dormir. Deita com seu ouvido no colchão e escuta as batidas do seu coração, primeiro o fluxo de sangue bombeado pelo peito, que ela pode sentir, e então um meio segundo depois o baque no ouvido. O som é tum-dum, tum-dum. Então ela começa a dormir e acorda de novo quando sonha que seu coração é uma delegacia de polícia.
          Outra noite, são os pulmões; fecha os olhos e sente os pulmões tão extensos quanto o quarto, e tão escuros, e protegidos por uma frágil casca de ossos, e em um pulmão escuro, ela está agachada e o vento sopra em seu redor, para dentro, para fora.
          Algumas coisas em seu comportamento agora lhe parecem estranhas. Então acontece alguma coisa que devia amedrontá-la, mas ela não está amedrontada.
          Como acontece: no final do dia, ela liga no noticiário e imediatamente está em contato, olho no olho, numa intensidade quase insuportável, com o âncora. Ele é a primeira pessoa que falou com ela no dia inteiro. Agitada por esses poucos minutos de contato direto, ela vai até a cozinha fazer um omelete. Bate os ovos e despeja na frigideira, onde a manteiga está começando a derreter. Enquanto toma forma, o omelete borbulha e murmura , fazendo sua própria espécie de barulho violento, súbito ela pensa que ele vai começar a falar. Amarelo claro, cintilando, manchado de óleo, suspira suavemente e se recolhe na frigideira.
          Ou melhor, ela não espera que o omelete fale, mas quando ele não diz nada, ela fica surpresa. Mas quando ela pensa depois no que aconteceu, vê que na verdade sofreu algo como uma invasão. A mudez do omelete emanava dele como um imenso balão e pressionava contra seus tímpanos.
          Mas não é esse incidente, senão o último sinal de perturbação, na estrada, que a amedronta o suficiente para fazê-la listar e contar os sinais de perturbação, embora ela não consiga, ainda assim, definir se o que lhe parece um sinal de perturbação deve contar como tal já que justamente é o seu normal, como falar consigo em voz alta, ou comer demais, ou se deve ser contado porque para alguém deve parecer pelo menos de algum modo anormal, e assim, depois de pensar em dez ou onze sinais, ela oscila entre cinco e sete sinais como sinais reais de perturbação e finalmente opta por cinco, em parte porque não pode aceitar a ideia de que haja tantos, até sete.
          Ela espera que tudo isso seja apenas efeito da exaustão. Pensa que vai terminar quando encontrar um lugar para morar. Não vai se importar muito com que tipo de lugar é, não a princípio pelo menos. Agora tem duas possibilidades: um apartamento iluminado e espaçoso num bairro que ela acha um perigo, ou um conjugado apertado e atravessado pelo barulho do trem numa parte da cidade de que ela gosta.
          O que aconteceu foi que chegando numa fila para o pedágio numa estrada, ela tinha setenta e cinco centavos na mão. A tarifa era de cinquenta centavos, então ela tinha que pegar duas moedas e deixar uma de lado. O problema é que ela não conseguia decidir qual moeda deixar. Ficou olhando para baixo, para as moedas, então para frente de novo, tentando dirigir ao mesmo tempo, chegando cada vez mais perto do guichê, afastando-se da esquerda para o centro como se soubesse que poderia precisar parar. A cada vez que olhava para elas, separava os setenta e cinco centavos em grupos de vinte e cinco e cinquenta, mas sempre que se sentia preparada para deixar uma, lhe parecia que era uma das que fazia par, então não poderia deixá-la. Isso aconteceu de novo e de novo, conforme ela se aproximava do guichê, até que finalmente contra a sua vontade, ela colocou uma de lado. Disse a si mesma que a escolha era arbitrária, mas sentiu a forte impressão de que não era assim. Sentiu que na verdade era governada por uma lei importante, apesar de ela não saber que lei era.
          Ficou amedrontada, não só porque havia violado algo, mas porque não era a primeira vez que por alguns minutos tinha perdido a capacidade de agir. E porque, apesar de no final ter conseguido devolver uma das moedas, dirigir até o guichê e pagar o pedágio, e seguir para aonde estava indo, ela podia facilmente não ter sido capaz de fazer nenhum movimento, e podia ter parado o carro no meio da estrada e permanecido lá indefinidamente.
          Além disso, se ela não tivesse sido capaz de tomar uma decisão sobre algo tão pequeno, como poderia não ter sido, então ela podia não ser capaz de tomar uma decisão sobre qualquer outra coisa, porque o dia inteiro tem decisões assim a fazer, como entrar nesse ou naquele quarto, andar pela rua nessa direção ou na outra, ir do metrô à rua por essa ou aquela saída. Havia muitos modos de raciocinar sobre cada decisão, e muitas vezes ela não conseguia decidir nem o modo de raciocinar, ainda mais tomar a decisão em si. E assim, desse jeito, ela poderia ficar completamente paralisada e incapaz de seguir com sua vida.
          Mas mais tarde nesse dia, enquanto se pôs de pé na água, submersa até a cintura, pensou que estava certa: tudo isso provavelmente não é senão exaustão. Está de pé, sem os óculos, com água na altura da cintura, em uma praia rochosa. Ela está esperando algum tipo de epifania, porque sente que uma está vindo, mas apesar de vários outros pensamentos lhe ocorrerem, nenhum parece muito com uma epifania para ela.
          Está de pé olhando direto para as ondas acinzentadas que vêm de encontro a ela, agitadas por um vento forte de modo que elas têm fragmentos ásperos, como rochas, e ela sente seus olhos serem lavados pelo cinza da água. Ela sabe que são as rachaduras maiores de sua que a perturbam, não apenas a falta de casa, mas encontrar uma casa, ajudaria. Pensa que tudo isso provavelmente vai acabar dando certo, que não vai acabar mal. Então, ela observa as chaminés da fábrica bem distante, quase invisível através do estreito e pensa, todavia, que isso também não era a epifania que ela estava esperando.
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De Tipos de Perturbação – ficções (Companhia das Letras, tradução de Branca Vianna, 2013).
Colaboração com a mosca
Eu pus a palavra na página,
mas ela acrescentou o acento.
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Ideia para um documentário de curta-metragem
Representantes de diversos fabricantes de produtos alimentares tentam abrir suas próprias embalagens.
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Mão
Além da mão que segura este livro que estou lendo, vejo outra mão, ociosa e um pouco fora de foco – minha mão sobressalente.
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Conhecendo seu corpo
Quando seus globos oculares estão em movimento, quer dizer que você está pensando, ou prestes a pensar.
          Se não quiser pensar neste momento, tente manter seus globos oculares parados.

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Lydia Davis, Tradução