Lançamento do primeiro livro de poemas de Thiago Gallego: “Histeria Coletiva ou o mundo acaba quando ganha”.
16 de outubro de 2014

Sábado, 18/10, depois de amanhã, junto aos Jardins Portáteis, faremos o lançamento do primeiro livro de poemas de Thiago Gallego. É a primeira publicação dos editores deste blog e do projeto coletivo Bliss não tem bis. O livro, parte do projeto Poetry will be made by all, parceria da LUMA Foundation e 89 plus, faz parte de uma exposição internacional com obras de artistas nascidos após 1989 (leia mais aqui).
A poesia de Thiago Gallego se coloca a partir dos diálogos, ou duetos, que escolhe – seja com o recente livro de Marília Garcia, um teste de resistores, seja com os poemas da argentina Cecilia Pavón – numa espécie de reconhecimento de que qualquer coisa como a voz se dá sempre como um híbrido. Ao invés de buscar – inatingivelmente – o ponto em que a membrana se fecha, fazendo algo de propriamente seu, encontra singularidade nos modos em que vozes outras atuam nas vozes diversas que acontecem somente a partir de sua garganta. Uma experiência polifônica, mas de um jeito bastante característico em que discursos normativos e religiosos são dramatizados para chegarem ao oposto de sua violência e em que a língua ocorre numa ambiência dupla, abrindo espaço para outros idiomas, ou línguas gerais como um portunhol flutuante, e deslocamentos sucessivos de estruturas sintáticas. Um pouco como o jogo do traduzir sem saber o idioma, o que se encena é o momento da leitura que como um susto faz surgir a pergunta: “que porra de idioma é esse?”.
As imagens do livro percorrem desde narrativas, entre uma potência mítica caída na ruína – o rio poluído aos pés da maçã podre do paraíso – ou invadida pela banalidade – Carolina e seu refúgio impossível no mato que é espelho que é neblina –, até ecos distorcidos dos discursos que batalham o contemporâneo e que arrastam suas tensões históricas para a experiência do poema, passando por captações do mundo próximas à síntese dos quadrinhos, em que se inscreve no que fala algo como o fracasso do próprio mundo. Como uma corrida rumo ao beco sem saída, o mundo acaba quando ganha.
Aproveitamos a ocasião e publicamos um conjunto de poemas inéditos de Thiago que não constam no livro junto de uma seleção de Histeria coletiva ou o mundo acaba quando ganha.
Agora, estejam convidados, estejam ajardinados, estejam ensaiados – o lançamento contará com apresentações dos editores Clarissa Freitas, Lucas Matos e Marcio Junqueira, além de Carolina Aleixo, Julia Karam, Ismar Tirelli Neto e Dimitri BR.
QUANDO: sábado, 18 de outubro. às 13h
ONDE: Sede das Cias (Rua Manoel Carneiro 10, Lapa – logo no pé da Escadaria Selarón)
VAI TER: leitura de poesia; cachaças; frutas
QUANTO: 30 dinheiros por 1 exemplar + 1 dose de cachaça a escolha (opções em breve)
TRAJE: Saia. Qualquer tipo. Todo mundo.

***
Thiago Gallego, Marcio Junqueira, Clarissa Freitas & Lucas Matos. Os quatro cavaleir@s da Bliss.
Inéditos

rapaz púbere à fila da urna
fio único de barba
saltando o queixo
aparelho nos dentes
maturidade talvez limitada
para levar adiante compromisso
tamanho com a qual me
acostumo e talvez deseje de
camisa preta e calças jeans onde
um corpo magro
e púbere
espera decidir o futuro
do país
meu
voto vai pra você

*

meu teste


ontem à noite comecei a ler o livro novo da marília garcia
um teste de resistores
comecei a ler pelo último poema
a poesia é uma forma de resistores?
comecei a ler pelo último poema porque já tinha ouvido uma versão dele
lida pela marília na casa de leitura dirce côrtes
no humaitá
e tinha vontade de ouvir de novo
acontece que quando li o último poema
a poesia é uma forma de resistores?
não era a minha voz na minha cabeça
que lia o poema
era a voz da marília nos encontros
da casa de leitura dirce côrtes
e hoje no ônibus quando comecei o primeiro
poema e o que vem logo depois dele
ainda era a voz da marília na minha cabeça
fiquei fascinado pela ideia de ler com uma voz e um ritmo
tão diferentes do meu
fiquei fascinado e imaginei que todo o livro seria isso

desci do ônibus pensando com aquele ritmo aquela voz e escrevendo com eles
também
passei o dia assim

ao contrário do que eu esperava
conforme avançava
no anfiteatro da puc
em outros dois ônibus
a voz na minha cabeça foi se tornando um híbrido
entre a da marília e a minha
ora era como eu e quase só eu
lendo
ora era a marília
mas na maior parte
um dueto

escrevo com algum medo de que soe uma tentativa
de imitar um texto tão vivo
ainda assim escrevo
num híbrido algo tosco
de vozes
porque acho bonito
muito bonito
quando uma coisa dessas
um ataque direto do poema no corpo
feito bactéria
acontece

*

mi ensayo


comecei a ler o livro da marília  no ônibus
comecei no ônibus e tive que interromper assim que cheguei no ponto
enquanto andava em direção à faculdade preparava na cabeça textos
com a voz e o ritmo dos poemas da marília
mas não podia parar e escrever porque estava atrasado
para a aula de espanhol
cheguei na aula de espanhol
no meio de um jogo
como uma performance
cada aluno tinha que dizer como se llama
e repetir a pergunta ao outro
numa corrente
yo me llamo felipe y tu como te llamas
yo me llamo gabriela y tu como te llamas
yo me llamo thiago y tu
numa corrente que terminava impactante
a última pessoa apenas dizia seu nome
e não perguntava mais nada
a nadie
numa quebra de ritmo
e expectativa

no exercício seguinte tínhamos que completar as profissões
a professora
celina
dizia uma profissão no masculino
a turma respondia o feminino
ou o contrário
el dentista
dizia celina
la dentista
respondia a turma
la barrendera
celina
el barrendero
a turma
celina interrompia o jogo com observações
em palavras como
la poeta ou
el escritor
para explicar que não são profissões
são ocupações
mas estavam na lista do mesmo jeito
ou ainda nas palavras
el albañil
la empleada doméstica
la niñera
que não teriam correspondente
no sexo oposto
por não existirem
no sexo oposto

ao fim do exercício celina nos dividiu em grupos de 4
para decidirmos quais seriam as melhor e pior profissões
minhas colegas disseram que el medico
era a melhor
um el medico pode receber 8 mil
por plantão
e isso é bom
a segunda talvez fosse o jogador de futebol
que não aprendemos
mas recebe milhões
e se aposenta aos trinta
não chegamos a consenso
quanto ao pior
eu não abria mão de algumas opções
la albañila
el empleado doméstico
el niñero                 sem lugar
na língua

me llamo nadie
y tu   

*

a gente fez um trato
ia ser ponte de cimento e
concreto
polidos pero brutos

em cima iam os passantes
distraídos os amantes
atirados suicidas todo tipo
de confusão a gente
sustentaria

*

ready-made no masp


Disse o hispanofalante para a menina de 8 anos:
toulouse-lautrec,
uno de los grandes
pintores impressionistas
del siglo
18

estan todos muertos

*

this is just a contemporary facebook poem


retorno às canções fundamentais
ele diz
eu podia dizer como me sinto
o menino caminha no parque
envolve uma rapariga pelo pescoço
os tempos são outros

refrão
fala numa rejeição do corpo
como num problema
pergunto o que seria
mais importante

a menina derruba o guri no chão
dá mãos à outra
desaparecem
agora é sobre a gente
ele diz
mas isso nunca parece te fazer bem

refrão

fala numa rejeição a murakami
uma rejeição japonesa
que corre
antes da técnica
corre
do corpo e do que
ele diz

tem também aquela outra
começa assim
o futuro parece maravilhoso
é a cor do sangue
caos

eu gosto daquela parte
i’m only lucid when i’m riding buses


refrão (x3)

*

aprendi com a distância
que ficar duas semanas
sem te ver significava ficar
duas semanas sem te ver
todos os dias todas as horas
eram duas semanas
duas semanas demoravam
muitas outras semanas
sem te ver

hoje faz três dias que não te vejo
prasempre

***

Thiago Gallego & Marcio Junqueira
De Histeria Coletiva (ou o mundo acaba quando ganha)

p.s.:

eu tinha que te matar. estava escrito
no envelope que me entregaram. estava escrito
“eu tinha que te matar” no envelope que me entregaram.
perceba que, fosse outra a posição das aspas,
eu teria te matado
no envelope que me entregaram. perceba que,
fosse outra a posição das aspas, matar seria “guardar
para sempre
no envelope”. perceba que,
fosse outra a posição das aspas, eu não estaria
chorando.

em que tragédia eu seria
descrito estranhíssimo
prometeu
(prometi?)
pros alunos da pontifícia?

em que tragédia o herói precisa matar
aquilo que não quer
matar? qual é aquela em que o herói precisa matar
aquilo que quer
matar?

tem a bíblia.
o cara precisa matar
o filho. não é deus
não é deus o pai.
o cara tem que matar o filho e não mata porque deus
– que é o pai do filho
que não é o filho cujo pai
que tem que matar o filho
tem que matar –
impede. porque deus às vezes
parece esquizofrênico.

não importa, porque
a bíblia, a despeito de sua origem,
não é exatamente uma tragédia grega.
a vida também
não. e, talvez
, essa seja a única chance.

*

da diferença

eu queria ao menos dizer que você veio
e eu não estava esperando
agora vai e eu
espero, ainda que seja todo esse movimento
defeito da minha cabeça
pifada que subverte a ordem de
não ser e ser, não sei ainda –
sofista ou eleata –
de que lado da discussão.
como questiono se qualquer deles
responde à carência humana (a saber:
o homem é carente
eu sou o homem
eu sou o homem é carente)

como questiono por que jamais
pensei você pensar
o próprio ir e vir ou
não. como sei ser mais fácil
conversar sozinho nos dois
papéis:
eu sou eu
e você
e o homem é carente

*

acho bonito que venham
a essas regiões montanhosas
só pra sentir como o mundo
é grande grande grande
mas se você fosse ___________ seria
maior maior maior

a) uma formiga
b) você mesmx
c) um antropólogo cotidiano
     (ou o bob dylan)
d) formiga não consegue
    ver montanha

*

se malas feitas para thiago
recomenda-se que saiba
idioma é perigo
por exemplo
eu gosto de você
eu realmente gosto
de você diz
-se e aí
tudo bem

ou o uso peculiar
daquilo a que até
então não acreditavam
correspondentes
fora da língua
portuguesa:
vamos tomar uma cerveja

*

poema queer

não existe, quando se fala em sexualidade, outra coisa que o heterossexual
qualquer outra categoria falha, armarista.
daí que se contraponha e diga (e cause): há homossexual, eu sou homossexual
oh
tudo mentira, não é. é consumidor e consumo é outra coisa que não orientação
sexual. consumo, se fosse, ou quando é, seria heterossexualidade e só
e tentam de novo essas bichas incansáveis: eu sou homossexual, mal consumo
para de falar difícil, criatura. tu é viadinho, marica, paneleiro. e nada disso
é que não preconceito, fast-food.
não existe, quando se fala em sexualidade, mesmo o heterossexual. existem
outras coisas.
existe consumo e preconceito. código e cultura. autodeterminação e segredo e vontade nojo libido e mais código.
mas não me venha com categorias se não novas
senão queer

*

histeria coletiva

em 1518, em estrasburgo
centenas de pessoas dançaram
sem música sem motivo
até cansar até morrer
450 anos depois,
na região de tanganyika, tanzânia
cidades inteiras riram
um ano e meio
a mesma piada
na índia de 2006,
uma cidade bebeu
do rio mais poluído
súbito doce súbito potável
até o dia seguinte
sujo de novo

nenhum caso, porém
espanta mais que aquele
milhares de anos atrás
o casal imortal que jurou
ver na árvore a cobra
na cobra a fruta na fruta
a mordida o pecado a voz
“vocês foderam tudo”
desde então, acreditam povoar
o mundo, acreditam o mundo
desde então, sentados no jardim
maçã apodrecida aos pés
vivem a ilusão de ser 7
bilhões
dançar sem motivo
rir por anos a mesma piada
beber do rio podre
podre podre podre
meu deus, que rio imundo
feito fosse potável
feito fosse doce

*

o rafa quando anda
parece que pula
hoje ele tá triste
aí não pula

*

eu queria que todo mundo
pulasse
na piscina
mas o sol tá forte
a gente não pode pular
porque o sol tá muito forte

*

um barco
a motor
aposta corrida
com a gaivota

o mundo acaba
quando ganha

*

Thiago Gallego