Quando Piva viu um lençol branco esvoaçante e disseram que era a alma de Breton e outras histórias de São Paulo (50-60)
21 de setembro de 2014

Por Clarissa Freitas
A postagem dessa semana vem primeiramente da mala secreta do Carlos Lima (como mencionado na postagem sobre poesia surrealista aqui). Depois é toda influenciada e montada a partir do documentário “Outra Cidade” de Ugo Giorgetti que fala do encontro de jovens poetas e intelectuais na década de 50 e 60 em São Paulo. A cidade como um afluente de encontros que confluíam em livrarias como a Francesa, Mestre Jou, Loja do livro italiano, Phaternon e Palácio do Livro; nos cinemas Metrópole ou Niterói; nas festas ou nos bares da Rua São Luis. Eles se encontravam na poetização permanente, no afeto e no compromisso visceral com a vida. Eu falei com o Lucas que precisávamos fazer uma postagem sobre os “poetas marginais” em São Paulo. Apesar de saber da intensa carga categórica do termo, continuo usando-o, pois se naquele momento eles respiravam essa poetização e a faziam no encontro diário com o vinho barato misturado a leituras de San Juan de La Cruz e Artaud e beijavam a palavra e visitavam cemitérios, arrotavam a hipocrisia moralista, libertavam as questões partidárias, conviviam com traficantes que sabiam de cor Baudelaire, talvez assim se encontre a linha do uso do termo. Só para constar, esses poetas também são conhecidos como os Novíssimos.
Antonio Fernando de Franceschi, Rodrigo de Haro, Roberto Piva, Jorge Mautner e Claudio Willer se conheceram em São Paulo e dizem que o Piva era o grande agregador do grupo, mas falam também que a cidade parecia pequena nessa época. Invariavelmente, todos acabavam se encontrando tanto no circuito de livrarias como de bares. Dizem que as associações cinematográficas para a vida deles na época era “A longa noite de loucuras”  de Pasolini, “Boulevard do Crime” de Marcel Carné e “La Dolce Vida” de Fellini.
Um dos mestres para essa geração de poetas foi o pensador Vicente Ferreira da Silva. Vicente casado com a também poeta Dora, os dois disponibilizavam as suas histórias, pensamentos e ideias com jovens cheios de desejos e impulsos literários. Vicente publicava uma importante revista de cultura chamada Diálogos, na qual ele publicou Mautner com apenas 17 anos. A revista não tinha incursões acadêmicas nem Vicente; de qualquer modo, toda a geração nesse momento se importava em ser antiacadêmica e antimídia.

Esses poetas eram cinéfilos, assistiam avidamente os filmes nacionais, a Nouvelle Vague e cinema Japonês. Sim, enquanto no Rio de Janeiro tínhamos também nessas décadas muitos cineclubes, em São Paulo haviam mostras de Cinema Japonês que eram muito admirados, cineastas como Tomu Uchida e Eizo Sugawa. Voltavam no cinema repetidas vezes, “Morte à fera” é um desses filmes.

Outra referência que não pode deixar de ser mencionada é o editor Massao Ohno, que publicou os primeiros livros desses poetas. Conhecido como o editor Samurai, apresentava um trabalho diferenciado ao pescar poetas novos e combinar com trabalhos gráficos únicos. Massao acreditou nessa pluralidade poética dos novos poetas. Um dos seus escritos Massao de 2010: “Brecht aconselhava: ‘Quando tudo estiver perdido, monte um bar.’ Os bares proliferaram e disso nada resultou. Os bêbados é que mudaram. Não se faz mais ébrios como antigamente, sociais, brilhantes, abertos. A bebida, de dionisíaca passou a apolínea. E nada pior do que um etilista frio, individualista, calculista”.

As influências são as mais variadas desde os Beats, Romancistas Russos, Rimbaud, Baudelaire, Fernando Pessoa,  Henry Miller, Murilo Mendes, Rilke, Augusto de Campos até Monteiro Lobato. Reconhecidamente sobressai a influência dos Surrealistas e dos Beats. Em contrapartida desinteressava profundamente o formalismo.

Um relato maravilhoso do Piva mostra essa adoração por Breton quando o mesmo conta que andava na Av. Rio Branco perto da Casa Verde quando passa um caminhão de mudança com uma das portas do guarda-roupa aberto e preso um lençol branco esvoaçante. Na hora, seu amigo Michelli gritou: “Olha lá a alma do Breton”, isso deviam ser umas cinco horas da tarde. No dia seguinte, assistiu o noticiário sobre a morte do Breton no dia anterior às 16:30. Passaram-se anos e Piva leu o 3º Manifesto do Breton, no qual ele escreve: “Eu sempre digo aos meus amigos que quando eu morrer me leve ao cemitério num caminhão de mudança”.

Ao trabalho com imagens extremas e um discurso que se volta sobre os lugares, onde os pensamentos se despedaçam pelo excesso do desejo, juntam-se geografias, traços da cidade sobre o traço da escrita, violência e psicodelia da experiência urbana. Nos olhares de Piva, Haro e Willer sentados na sala de estar passa um caminhão fantasmagórico sobre aquela aventura que antecedeu ao golpe militar. Depois vieram as neblinas, as mortes, as despedidas, o trabalho, os casamentos, os descaminhos da cidade de São Paulo.

Links importantes:

http://minhateca.com.br/hudson_kadosh/Paranoia-Roberto-Piva,12264927.pdf

http://acervomohnoeditor.wordpress.com/2010/06/15/massao-ohno-1936-2010/

http://desenredos.dominiotemporario.com/doc/12-poesia-ClaudioWiller.pdf

http://www.panfletosdanovaera.com.br/detalhe/3976

***

Rodrigo de Haro

O COZINHEIRO INFERNAL

Não podes desejar quem não devoras.

Não podes desejar se não devoras.

Não podes devorar quem não desejas.

Observo membros sonhados

Numa arena íntima que recuperas

De memória, com precisão de ourives

Escutas o latejar das têmporas

E teus maxilares crispam-se

Enquanto refletes na carne ex-

Posta do amado, para ser consumida

Pulsando ainda entre blocos de gelo.

Não podes desejar quem não devoras.

Não podes desejar se não devoras.

Não podes devorar quem não desejas.

Primeiro coração, carmim absoluto.

Logo o fígado, o ácido pâncreas

Onde os pensamentos sufocados petri-

Ficam-se em jardim de cartilagens.

Mas convém voltar depressa

À epiderme, onde abaixo das claví-

Culas, inclino-me para morder

Duas rosáceas antes de descer

– rubro e ofegante –  até as graças

Da tensa e amável cintura. Depois,

Depois de longo tempo, saciado, sob

As frescas copas de qualquer oásis

Irei deitar-me, tendo as garras,

O queixo e o peito negros de sangue seco.

Não podes desejar quem não devoras.

Não podes desejar se não devoras.

Não podes devorar quem não desejas.

(De Ofícios Secretos, inédito)

*

FIGURA CONTEMPLA UMA NOZ

O peso da noz cabe na mão

Decidida do rude visionário. Tu que

Me vês, és tu real? Tu que me lês,

Acaso a idade tens da pedra?

Cego que tropeças, de tua primeira

Casa ainda recordas? Quantas portas

Já rompestes sem obter guarida?

O peso da noz na palma determina

A extensão da tua vigília. Insistes

Em parti-la, em separar as frias

Hemifaces, em escrever na lousa

A fórmula do ponto luminoso.

Fitas a noz. Como emblema

Conciso e secreto do ominoso, fazes

Gira-las entre os dedos repetidos.

Rondas a cela curva, meditas

Astucioso. Quantas mensagens

Guarda este cofre fechado?

Como vulgívaga romã, plácido

Ovo, consideras a noz de

Substância parecida. Mais

Que alimento ela é

Símbolo e atributo. Fitas

A noz. Nada mais te per-

Tence neste mundo.

(De Ofícios Secretos, inédito)

*


OMBRA MAI FÚ…

É tempo de entoar a ária, de procurar

O deserto abraçado ao cometa sem

Esperar pelo sinal cruciforme dos

Empoados nos camarins, sempre

Conspirando contra o Príncipe.

Tua memória

São construções empíricas do mundo,

Licença libertina, feroz ades-

Tramento. Somos todos parecidos,

Sussurro e sombra fustigando

O Tenor imprudente, dilacerado.

Pela vaidade, esquecido

Da santa hierarquia, desabrido

Locutor da fria igualdade.

Atenta bem para a estrutura

Das moradas. Obedece:

– Esta é a ária. Teu fado é

Recomeçar sempre

A imodesta aventura da fala.

(De Ornitorrinco, Inédito)

*

LAS MORADAS

Apanha um tamborim e dança no meio

Da cozinha, esquecida das terrinas e

Dos pratos empilhados nas mesas. Segue

Até o pátio dando vozes para

Combater ameaças

Do êxtase. Pois nem Sempre

Se permite tê-los, com tanta louça

Para secar e todas estas doidas

Ansiosas pro visões.

Dança,

Um carro de bois avista-se ao longe.

O ruído monótono e doce de suas rodas

Morde obstinado a fímbria da paisagem

Seca, em pacientes ondulações

Sonoras de acalanto meridiano.

A mulher alta continua dançando e

Pequena sombra move-se agilmente

Debaixo dos seus pés no ritmo

Sacudido da folia onde se oculta

Discreto fio de mistério Sefarad.

A luz e o calor emitem som estrídulo

De chocalhos e guizos de cascavéis.

Tereza prossegue o baile envolta

Em luz, fugindo de outro arrebatamento

Inoportuno. O ruído, o clamor

Insistente das rodas

Esta cada vez

Mais próximo.

(De Tesouro dos Melodramas, inédito)

In: http://www.revistazunai.com/poemas/rodrigo_de_haro.htm

***

Cláudio Willer

POEMAS PARA LER EM VOZ ALTA

1

EROS
viajantes inertes
imersos no silêncio dessas horas
quando o tempo não é mais tempo
porém lassidão
e nossos corpos arquejantes construções
envoltas em nudez
testemunhada apenas pelos objetos da casa, os quadros na parede, os pesados móveis, os livros e suas lombadas, vasos de plantas, espelhos, e mais a negra silhueta dos prédios recortados contra a janela
rosto cego da cidade agora adormecida a observar-nos fixamente
eu bruxo, você sibila
que deuses cultuamos?
parados na pausa entre sobressaltos
que alquimia inventamos?
o peso que nos paralisa e adormece
não é cansaço
porém outra coisa
sensação do profundo
o obscuro sentir
do mundo que respira
pelos poros da escuridão
e nós, manietados pelo prazer, apenas conscientes
da presença dos objetos da casa, móveis, vasos de plantas, livros, almofadões
espalhados pelo chão, nossas roupas jogadas ao acaso, mais o negro recorte dos prédios
por trás da janela,
perfil da paisagem urbana, impassível testemunha
mal sabemos quem somos
lembramo-nos apenas dos nossos nomes
restam-nos o repouso e uma intuição
desperta para o morno mundo de nossos corpos
nunca, nunca havia sentido isso antes assim

2

quando o calor da noite de verão
e a chuva da noite de verão
se encontram
e são a mesma torrente de vida a escorrer por nossas artérias
então
reconhecemo-nos pelas carícias
um arco-íris pode sentar-se à cabeceira da cama
uma nuvem pode servir de cobertor
uma paisagem de sol nascente
em uma praia pontilhada de tendas de campistas
reflete-se no lago luminoso do seu ventre
a montanha e sua encosta recoberta de matagais
onde certa vez nos perdemos entre nascentes de rios
projetam sua sombra em suas coxas
planícies batidas pelo vento alísio
que atravessa o continente, o universo
são nossa imaginação febril

3

a colcha era verde
e a lâmpada azulada
costumavam ouvir músicas lentas e suaves
achavam que a estante repleta de livros tinha um ar solene
e gostavam disso
de qualquer coisa
que sugerisse um ambiente sobrenatural
eram rápidos, muito rápidos em seus jogos intelectuais
serviam-se em taças transbordantes, borbulhantes
e tudo era praticado com uma certa indiferença
com a naturalidade de há tanto tempo
termos nos habituado a estar juntos, a ficar nus, a beijar-nos na boca
deitar-nos sobre a colcha verde do sofá, à luz azul da lâmpada
ao lado da estante de livros compondo um clima de ritual
sugestão de coisa esotérica
decerto olhavam-se
e ficavam de voltar a encontrar-se outro dia
(as noite passavam depressa)

4

nossos hábitos delicados e perversos
nossas diversões meio delinquenciais, meio filosóficas
nossos prazeres íntimos e raros
as conversas irisadas de memória
gestos aos poucos entretecendo-se
na plenitude da nudez familiar
enquanto íamos nos transformando
nos pulsantes personagens crepusculares
de nossas narrativas
rodeados por um silêncio vivo, um tempo latejante
da noite percorrida
para não chegar a lugar algum
durante o dia
éramos simples mortais

5

é hora de dizer claramente como são as coisas:
você abre suas portas suas pernas seus braços sua boca seu corpo
você se escancara
eu embarco em você
eu me engajo me prendo me agarro navego em você
plano em um jogo de arriscado equilíbrio
atiro-me em seus abismos
singro suavemente sua brisa
enfrento seus maremotos
viajo por sua velocidade
perco-me no emaranhado de seu pântano, no labirinto de terra e de areia,
de água do mar e de água doce
– nós somos o pântano e somos o labirinto
cego-me em sua brancura
alço-me em sua ondulação
você é o planeta onde pouso
a nuvem em que me envolvo
aura estelar, dissipação de caudas de cometas
leva-me e me conduz
nessa dança desarticulada
para mais longe para o alto para o
profundo
me arrasta
amor oxímoro
amor, palavra de paradoxos

6

seus olhos têm muitas cores
que refletem o brilho de cada hora
estranhas palavras
atravessam nossas conversas
É PRECISO QUE SEJAMOS MODERNOS COMO O AMOR
mas não sei
se não recuaremos
confundidos diante da visão da nossa crueldade

7

ah, mas você não viu nada
essa festa para a qual me convida
só pode ser na clareira do matagal em chamas
no subsolo do edifício que desaba em escombros
pois o verdadeiro amor, o amor somado ao prazer, é outra coisa
overdose, êxtase infernal
que fatalmente nos destruirá

*

RUÍNAS ROMANAS

Quantos poetas
já não estiveram aqui
quantos poetas
já não escreveram
sobre a ofuscante aniquilação
diante desses dramáticos perfis minerais
tão próximos da pedra original
do barro anterior à forma
coisas
reduzidas a não mais que montanha
quase natureza
coisas
na fronteira da mão que trabalha, do vento, da água
aqui
ressoam os silvos do vento
aqui
ecoa a ensandecida voz do oco, do cavo,
da fresta

silêncio matizado de sussurros
e agora
eu também sou um dos que enxergam:
o informe
o monstruoso passado

foram os escultores do avesso
que as reduziram a isso
os autores
do cruel teorema
que nos condena ao presente
e repete
que nada sabemos,
nada vale a pena
pois passado e futuro só existem
como passo para a informe eternidade

a custo divisamos lá fora
a realidade logo ali, logo aqui:
outro lugar
onde existiremos menos ainda
nós
é que somos os fantasmas
e a solidez
é o que está aí,
nas ruínas
que não param de repetir
que isto-
NADA-é tudo o que temos

***

Antonio Fernando de Franceschi

CORPO

“… o único roteiro é o corpo. O corpo.”
João Gilberto Noll

o corpo quer ordena sem recusa da vontade
a implacada ira seu domínio sabe altíssimo
sobre toda resistência quer o corpo em sanha
o outro corpo que no enlace o corpo assanha
e é fúria o doce nome seu jubiloso corpo
livre de amarras ou temores na aguda hora
que sempre mais e muito o infrene corpo quer
e a seu regaço incita em febre o corpo alheio
e logo é quieto o escuro abismo intranscendido
pois só o corpo aplaca o corpo em seu roteiro

*

SERPENTE

cauda e dente
inteira
se morde
a serpente
lenta se devora
ao norte
funda se engole
ao sul
e nada sobra
de uma e outra
a que come
e a comida
mais que a mesma
ancestral serpente
e a infinda fome
que a devasta
e nem morta
de si mesma
se sacia

*

GEOGRAFIA

“… Touch me, touch the palm of your hand
to my body as I pass…”
Walt Whitman

O leve arrepio de tuas mãos
me comanda suave
sigo-te pelos lugares de mim
que não conheço
amanheço-me vales
me percorro colinas
sou o campo em que te apraz
me transformares
ou senda perdida
num dorso de montanha

Me desvelo geografia
ao teu desejo
qual queiras
para colher-te em prados
ravinas
e na fina erva que me cobre o peito
te sentir os dentes
palmo a palmo cortando rente
sem pressa de me cegares
no olho da paixão

***

Jorge Mautner

POESIAS DE AMOR E MORTE

Ouço agora lá longe
Os acordes finais
Como os hinos de um monge
No templo dos samurais.

Espinhos e rosas
Rosas e espinhos
Como é que tu gozas
E não tens nem dás carinhos?

Vagueio no meio
De muitas pessoas e gentes
Só não sei se sou lindo ou feio
E se existem mais de três continentes.

Como se fazem versos?
Como se fazem mundos?
Assim como se fazem universos
Em segundos vagabundos?

Entenda: Meu lema
É não se venda
E não tema
Cavaleiros
Medievais
Feiticeiros
E bacanais.

Meu desejo não quer esperar, como eu erro!
Leva você pra longe de mim
Vou dar aquele grito, aquele berro
Eu vou chamar o Anjo Serafim.

Que é como um Arcanjo
E é amante do Arlequim
Todos tocam seus banjos
Só eu toco bandolim.

***


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