Caio Carmacho: “A brisa como ela é”.
13 de setembro de 2014

Um móbile transparente. Tanto que se confunde com o próprio vento. A não ser, talvez, pela percussão mínima das peças de sua arquitetura de quando a brisa sopra. Difícil pensar em imagens que não sugiram leveza, frescor, ou em sons como o do farfalhar, o do deslocamento de ar quando se passa de raspão por alguém: todo um conjunto de coisas aproximadas ao vento, ou na sua forma mais delicada, a brisa, vem à mente quando estamos diante dos poemas de Caio Carmacho. Trata-se de brisa, mas brisa que, ao invés de fazer carinho aos sólidos prometendo o dom do que é suave, desloca-os, movimenta-os, tirando de seu espaço cotidiano, recombinando-os, fazendo trocas (de órgãos, de sexos, mashups de discursos e corpos múltiplos) e enxertos impossíveis.
Ao lado da questão do peso e do movimento, outro elemento que a poesia de Caio traz à cena é uma figuração do tamanho através de um exercício de perspectiva: só se fala do que é comumente tido como grande a partir de um ponto de vista ancorado no mínimo (pilares da filosofia se encontram nos gestos de lavar e de enxugar a louça), e o mínimo, em exame microscópico, se encontra sempre deslocado ou em deslocamento – imagens em trânsito, desfocadas em função da velocidade. Em afinidade, um dos poemas de seu primeiro livro, publicado pela Ed. Patuá, em 2013, livre-me, lê-se: “tenho carinho especial por canetas/ isqueiros e bujões de gás”. Aqui, o que importa não é apenas o conjunto de objetos reunidos em sua pouca elevação poética, mas a rapidez da passagem – do instrumento da escrita ao objeto incendiário, de líquido inflamável, do líquido ao gasoso. Afinidade entre o ar e o fogo.
Caio organiza todo ano, em Paraty, cidade onde cresceu, o evento poético Picareta Cultural que, no próprio nome, busca desviar de qualquer gravidade e oficialidade pretensa que quer a poesia a salvo da pinga, do movimento da brisa, do fogo e do vento.
Nesta semana, 5 poemas novos de Caio Carmacho, e uma pequena antologia retirada de livre-me.
***

Poemas Novos

Imagem de divulgação do evento Picareta Cultural, 2011

a filosofia ocidental

se fundamenta em três pilares
de sabedoria:

lavar a louça
enxugar a louça
pensar na vida

*

tao e quao

será que sou um monange a sonhar
com a xuxa

ou a xuxa
a sonhar que é um

monange?

*

cena do crime

o voo do pássaro
não é igual ao voo
da mosca

o voo da mosca
não possui a mesma carga
poética que o voo do pássaro

o voo da mosca é antes de
tudo ideológico
assim como a aparição
de uma barata

e foi assim que tudo aconteceu:
havia uma mosca e havia um
baygon

sinatra cantava ao fundo

fly me tothemoon

*

canção de ninar futuros

descanse em paz
tudo que é resto

matéria ignota
de obra em progresso

sobras completas
digeridas à lamartinho

devagar
devagarinho

enquanto te cubro de silêncios
e estrelas

sussurro vanguardas
dentro de headphones
de conchas marinhas

só e somente só para os seus ouvidos:

dorme menino
*
mudança de pele
S
onho
que sou uma
cobra
dentro
de
                                               outra
cobra
que
se
devora
que
se
adapta
em
                                      cada
lugar
que
passa
deixando
pra trás
somente
a carcaça

o ofício do ofídio
: as presas à mostra
nem adão nem eva
me banirão
do paraíso

na lira
do delírio
enveredar
minha
história
acordar
                                                        para
o
fu
tu
ro
com
                                      o
sonho
de
                   agora
***
De Livre-me (2013 – Patuá).

meia furada

são trinta,
trinta e cinco
centavos

trinta e cinco
segundos

trinta, trinta
e tantos avos
desesperados

essa meia furada
sou eu
por isso amor,
não me ligue a cobrar

*

a brisa como ela é

viaja meses sem passaporte
os agentes do governo nem desconfiam
a ousadia
enquanto barram imigrantes de diversas etnias
vai passando incógnita pelo detector
de metais
com seu hálito de halls preto
vitimiza rostos narizes olhos nucas orelhas
e sai pela porta da frente à francesa
sem autógrafos flashes
adeuses

atravessa ruas
descabela as horas
arranha gargantas
escapa às definições
e aos dedos

não contente
, antes de voltar ao trabalho,
tira para dançar
todos os sacos plásticos abandonados
pelas feirinhas dos bairros

e os passantes pensam:
‘ai ai que ventinho bom…’

e os velejadores pensam:
‘hoje é dia!’

e a mocinha do tempo:
‘uma nova frente fria se aproxima…’

e os parapentistas:
‘voar-voar subir-subir’

e a nasa:
‘houston, we have a poem’

e os andinos da praça da sé

bem… os andinos da praça
da sé
só pensam em tocar céline dion

para suas lhamas apaixonadas

*

latin lovers

um dia você vai entender
que eu não sou nada daquilo que
você esperava

príncipe de bengala
escondendo a espada

um dia você vai esperar
que eu nade a favor da corrente
rente à raia da ponta esquerda da piscina
onde você me aguarda
com raiva e uma toalha

meu piscalerta aceso
minha saída da sauna ou da praia

um dia você vai nadar e nadar e nadar
não dar em nada

e até lá talvez você me interne e eu te entenda
e passemos a nos frequentar religiosamente
às terças

um dia trocaremos enfim o sexo
e os papéis
e leremos juntos a gê magazine
do vampeta

e desse dia em diante
todo canto de sereia
será regido
por escopetas

*

fuga de alcatraz

e de repente a gente arrisca
risca o fósforo sobre a monotonia
tchau colchão
zona de conforto
falsa alegria

*

rins

o que me entristece
não são os 5 reais gastos,
mas a alegria
transbordando a latrina

*

no dia em que eu parar de fumar

não haverá fogos nem rojões
de torcidas organizadas e desorganizadas
não me ofertarão virgens para serem sacrificadas
não me convidarão para surubas ou festinhas
vegetarianas
regadas a suco de laranja

no dia em que eu parar de fumar
nenhuma estrela brilhará inédita no céu
nenhum feriado será decretado
nenhuma moção de aplausos acontecerá

ninguém reprovará minha loucura
ninguém recomendará terapia
ninguém dirá o que todo mundo diz

no dia em que eu parar de fumar
me tornarei careta oficialmente
e dispensarei todo o álcool do planeta

e todos os poemas serão saudáveis
com o hálito fresco brotando
da boca, corpo e cabelos

no dia que eu parar de fumar
por maior que seja a minha vontade
o mundo não se acabará

*

saravá onan!

um lance de dedos jamais abolirá
o desejo

*

ESTE LADO PARA CIMA

não se deixe enganar caro leitor

para ler este poema é necessário
CUIDADO
muito cuidado

sua arquitetura branca e
FRÁGIL
pode não impressionar no princípio

afinal, para compreendê-lo a fundo é preciso
familiaridade e um manual prático
para a interpretação de tipos

porque nem toda surpresa vem embrulhada
em papel de presente

nem toda surpresa
inclui pilhas

nem toda surpresa
chega lacrada com um
cartão: de: para:

que nem todo entregador não
consiga violá-la

porque o poema, caro leitor,
é um eterno convite

conteúdo que cabe
numa embalagem que se abre

*

o poema pergunta ao poeta como veio ao mundo

papai fez você de pau duro

*

baratas aladas


vêm                      e                          vão
                            vão
         e                                    vêm
                             no

                   vaivém         do

                            verão

*

mashup

eu de cueca abrindo uma brahma gelada
a queda do muro de Berlim
o espelho do banheiro, o embaço, o suor das coisas suas
gotas
crianças atirando pedras nos jambeiros
um lençol branco um corpo estendido pessoas ao redor
de pessoas
: “não há nada para se ver aqui”
é proibido proibir
a vida com suas lentes polarizadas
convida para
uma dança espontânea
uma foto espontânea
um macarrão instantâneo
uma barra forte rasgando ruas sem freio
abrir os olhos dentro da piscina
abrir os olhos dentro do mar
abrir os olhos dentro da vagina:
respirar
uma coleção de clichês pode me servir perfeitamente neste
momento
plataforma de petróleo
extraindo lágrimas do olhos

um pavão que abre seu leque
prismático
não sabe os abalos sísmicos que provoca

a beleza é uma península situada
entre o coração o pulmão e o cérebro

de nada adianta fotos e postais

quem nunca esteve lá, além de não saber
o que estou
sentindo

não faz ideia do que estou
falando

*

western spaghetti

a trégua cessou com a chegada
do carteiro
não se aproxime, eu disse
ele ignorou
adverti-o novamente
me olhou de esguelha
um feno cruzava as duas extremidades
da garagem
um carro de som anunciava as pamonhas
de piracicaba
as contas do mês
me acertaram mais rápido que
qualquer bala

*

oração para ades, o deus suco

ergo o cálice de requeijão
e faço um brinde
ao deus dos deuses
invocando das profundezas
de minha gaveta de verduras decaídas
e frutas imemoriais
a fé inquebrantável em sua força
oculta

vaca profana de tetra pak sob a luz
frígida de minha geladeira

seu sangue de maçã de soja tem poder
seu sangue de uva de sola tem poder
seu sangue de manga de soja tem poder

abençoado vou à academia
onde te abro e te sorvo
como um fiel absorto
na sua própria adoração

sejam louvados em todo o universo
todas as casas todas as camas todas as gôndolas
de todos os supermercados
paratodoosempre

ó magnificiente deus sucão
e seu insólito rebanho

amém!

*

lição 100% algodão

a mãe adoeceu,
não teve jeito

aprendeu sozinho
a lavar
as próprias roupas

desde então
nunca mais tirou da
cabeça
as pequenas coisas
                   importantes

a mãe, o alvejante

*

a importância do convívio

dia de velório reúne
a família

ninguém sabe ao certo
o motivo
é um aniversário
ao contrário

a morte
serve para lembrar
o que se deve guardar

plantar os vivos

cuidar

dos vivos

aguentar os vivos

viver
com os vivos

enquanto há tempo

*

composição

e agora
que faremos

?

faremos nus

*

livre-me III (ensaio & conclusão)

livre-me como um pedido do livro-objeto
um mendigo que dá moedas no semáforo
um slogan de modess

livre-me como passe de mágica
oferenda de réveillon
abolição da autorreferência

livre-me: um mantra
uma proposta
um estratagema

livre-me dos rótulos
dos complexos
olheiras
correntes

literárias ou não

livre-me dessa cruz pesada
leve-me para casa
lave-me com buchinha

and love me
como se não houvesse amanhã
***

Caio Carmacho, Poesia contemporânea