José Leonilson: “O desejo é um lago azul”
30 de agosto de 2014


Na postagem da semana passada Ana Chiara  ensaiava uma carta  que dizia do artista no feminino.  Um artista empenhado num processo de sedução continuada : parece que, ao artista no feminino, caberá a mobilização do outro, afetá-lo contaminá-lo sem oferecer a narrativa de uma experiência. Ana via em Leonilson, Ana Cristina César e Sylvia Plath, notadamente, elementos desse processo.  Retrospectivamente, Chiara queria alertá-los  do perigo do outro olho, queria empoderar os meninos sensíveis e as garotinhas odiosas.  Transformá-los no olho que eles queriam ganhar.

Na vogue deste mês (agosto / 2014) comentando duas exposições com trabalhos de Leonilson,  recentemente inauguradas em são Paulo, Ana Carolina Ralston vai chamar o artista de poeta visual.

No principal ensaio do catálogo de “São tantas as verdades” – primeira grande individual pós-morte de Leonilson  –  Lisette Lagnado classifica o trabalho de Leonilson como “Ficção Epistolar”:  cada peça foi rigorosamente construída como uma carta para um diário íntimo.  Discípulo de um ideal romântico malogrado,  Leonilson foi movido pela compulsão  de registrar sua interioridade a fim de dedicá-la aos objetos do desejo. Esse legado, enunciado por um “eu” cuja expiação é incessante, reavalia a subjetividade após as experiências conceituais. Isto é, desgastada a reflexão sobre o destino da arte, que teve a metalinguagem como ápice , a obra volta-se neste momento para o questionamento do destino do sujeito.   
  
Os textos enfatizam os elementos (auto)biográficos  da obra de Leonilson. O uso intenso da palavra com valor gráfico remete à tradição da  poesia visual.  Especialmente aos poetas concretos.  Mas enquanto os concretos vão usar fontes normalmente industriais – que é absolutamente condizente com seus projetos de modernidade – em  Leonilson a fonte é manuscrita. Esse gesto associa diretamente o trabalho do artista as escritas intimas (cartas, diários, agendas).

Arnaldo Antunes num dos 40 escritos fala da relação entre traço / timbre.

Gostaríamos de pensar a caligrafia como marcas/representações do eu-lírico nos trabalhos. Digo eu-lírico porque gostaria de pensar alguns trabalhos – particularmente os que tem no papel seu suporte – como poemas líricos.  Se tomarmos a definição clássica de poesia lírica como o tipo de “texto” onde o eu-lírico “canta” seus sentimentos subjetivos conseguimos identificar facilmente o trabalho de leonilson dentro dessa classificação.  O conceito de eu-lírico (máscara que veste o poeta em sua performance) para entender a relação de contaminação da arte à vida no trabalho de Leonilson, nos parece mais produtivo que uma leitura centradamente (auto)biográfica. O risco das leituras biográficas no tipo de jogo que propõe trabalhos como o de Leonilson (e Caio F. e Ana C., entre outros)  é transformar as obras em registros /documentos.   Eu-lírico e autor não são categorias pacificas. (Nem em si, nem em suas relações).
Essa semana no blog uma seleção de trabalhos de Leonilson onde a palavra é elemento destacado.  Junto publicamos fragmentos de uma série de entrevistas realizadas por Lisette Lagnado com o artista entre outubro e dezembro de 1992, alguns meses antes do artista morrer. Ao fim do post, o curta “Com o oceano inteiro para nadar”, de Karen Harley,  construído sobre uma série de diários gravados que o artista manteve nos últimos anos de sua vida.         




PARA COMEÇAR A FALAR EM LÖIC (1)

Para começar a falar em Löic preciso tornar atrás

um tempo e ver o quanto passamos naquele lugar quen

te e úmido onde ele construía seu iglú

Löic devia apresentar mais um projeto para a banca

examinadora ( eu também para a minha ) e nós tratá

vamos de continuar brincando de engenheiros mirins

apesar da falsa seriedade do caso

As bancas eram fictícias assim como o cérebro dos

jurados e o que mais atrapalhava era a seguran

ça destinada a nos atender

eu o havia conhecido no meio de uma festa de artis

tas ou num dos escritórios da banca que nos havia

convidado a preencher aquele espaço com 1000 dóla

res de nossas ingenuidades ( casuais )

nos mantivemos firmes eu com meu piano e Löic com

seu iglú, ele não era bretão nem desenhava menires

no ar enquanto assoviava

mas sabia subir rápido uma escada e havia me ensina

do a andar de cabeça para baixo e a recortar mol

des de gelo para o iglú , esse ficava no meio de

uma planície perto da jamaica talvez , seus vizi

nhos viviam numa horrenda construção preta quente

e inabitável

Löic havia ganho também uma espécie de terreno mura

do como o meu mas quadrado, não havia lugar para

fazer fogo por isso usava um grosso pullover

não tinha nenhum rio e lá longe podia ver-se o lago

O chão era duro como cimento e uma grande coluna

branca servia para deixar seu cavalo mas dificulta

va a escolha do lugar para o porto e a nave naufra

gada

Foi ele quem me mostrou o que fazer com o meio da

espiral , foi ele quem fechou o piano e me fazia

dormir cedo esquecendo a maioria das festas a que

éramos convidados

vários sacerdotes e carrascos nos viam juntos o que

gerava uma certa inveja neles e nos deixava muito

felizes, parávamos e comíamos nozes ou pedaços de

provolone

Quando meu terreno já estava plantado resolvi mudar

para sua terra, no começo fiquei pelos cantos até

que ele deixou que eu o ajudasse . O porto já tinha

seu lugar fixo e as bases de uma nave estranha ( mu

ndo ponte navio ) já estava ao largo do estuário

seco .

No meio deste tempo conhecemos uma pequena duende

japonesa que riscava paredes chamando de aspirado

res elefantes ou dinossauros àquilo que fazia

gastamos 15 dias na construção do iglú

os vulcões não foram acesos e meus livros foram

roubados

Como éramos gente do deserto , Löic e eu resolve

mos subir até a montanha na cidade das casas anti

gas , mais um quarto comprido e fino , nessa tarde

achamos um patinho de vidro provavelmente de se

colocar na frente de uma carro americano .

Agora estou de volta nesse continente estranho

cada cidade me mostra sua espécie de crise

desde aquela com pilares no rio e seu novo gover

no socialista . Passei também por aquela cidade luz

onde o rio tem várias pontes e vários palácios che

ios de guardas bravos que tem medo das bombas que

seus superiores mandam colocar para espantar seus

súditos e criar neles um espectro de racismo .

passei pelas termas de uma civilização romana e

cheguei até o lugar onde as pessoas põem o dinheiro

em contas secretas , no meio de bêbados reacioná

rios , vendedores de cobras de vidro e moedas

estrangeiras, encontrei uma América do Sul com

vulcões de lamparinas ( era um sinal , Löic est

va ali ) e pela segunda vez íamos nos encontrar ,

eu tinha a missão de dizer a ele que seu caminho

nessa terra tinha gerado frutos vermelhos e ouro

e aos depositantes isso lhes aprazia e ele devia

manter-se de olhos abertos para que algum maluco

não acabasse vendendo as pontas das unhas que ele

acabasse de cortar .

Mas , meu amigo Löic , tu és teu bom dono e sabes

manejar bem teu caiaque .

e eu que só sei de meu piccolo pianoforte que te

posso dizer? acho que deveria sim , dizer aos

mais habituados que nós somos hippies e que gosta

mos de garagens , nos custa suor fazer esses peque

nos mundinhos e nos

dão o prazer suficiente para aguentar vê-los troca

dos por dólares ou cruzados de prata ou quem sabe

dizer que somos cínicos ou ingênuos o bastante

para manejar os arcos e chamar o falcão que nossos

pais adestraram e fazem a nosso vigília .

Mas se sairmos do campo da representação sabemos

que os habituados também tem o seu ponto certo e

talvez já tenham cruzado o ar mais que nós

mas te digo também ( como Lawrence ) que

nós vamos cruzar esse deserto e chegar a Akaba , lá

começa a luta , a mais sangrenta .

Será que mataremos também como loucos ou veremos e

deixaremos os xerifes executarem os raptores das

belas sabinas .

volto para o Löic e lembro do riso que me deu

assim que desci do trem .

tínhamos palavras semelhantes para dizer e mais

uma vez estávamos sobre a mesma ponte ou sob ela

no mesmo rio , por isso não cumpri a missão de

fazer dele um bom manager .

Resolvemos esquecer que estávamos no concurso

e fomos à praia construir um vulcão de areia .

Löic era cristão tinha uma família e um aparta

mento no meio de uma cidade barroca , era especiali

sta em iglús e pontes metálicas , acho que rezava

todos os dias e também sabia o nome de alguns san

tos

fizemos alguns passeios e ele sabia o vocabulário

das árvores e das lojas de brinquedos

falava com os tambores as focas e os aviões , me

ensinou a língua dos aeromodelos e eu o ensinei

a tocar piano e a gostar de comida árabe

alguns podiam achar que era um moralista , mas

nem todos podiam entender que um cara podia gostar

apenas de fazer seus iglús e deixar que alguns

sonhadores tratem de comercializar isto ou aquilo que

ele deixou escapar

o transatlântico

blue

blue way

take me from here

oh my baby

I”m sure

(1) Texto transcrito respeitando a diagramação, pontuação e ortografia do original datilografado. 



Terceiro dia
18 de novembro de 1992
No ateliê

– Levantei aqui algumas recorrências no seu trabalho. Há sempre uma figura  desenhada de uma maneira singela, com os joelhos recolhidos  para o peito; outras vezes o sujeito está dentro de uma composição em espiral.  Um halo de luz contorna o desenho.
– É. A posição é de autoproteção. O halo é energia.   
– Nem sempre a figura está sozinha. Ela também vem em pares.
– Às vezes. Uma característica do meu trabalho é a melancolia. E a figura pode ser sempre parecido com outra porque acho que este é o desenho mais simples que você pode realizar de um ser humano.
–  A figura, no meio de outros elementos, serve como uma decisão inicial para o desenho ou é uma assinatura que você se inventou ?
– Não, não. Ela é o ponto de partida. Os desenhos são sempre dentro de retângulos ou quadradinhos.   A partir da figura surge o que está em volta. É uma pequena reconstrução do mundo.


– A cabeça parece desproporcional e raramente apresenta traços fisionômicos.
–  Sim, porque às vezes eu erro. Alguns trabalhos mostram cabeças dentro de outras, mais ou menos  como quando você está pensando em alguém. Eu gosto  desse tipo de imagem. Há também figuras de cabeça para baixo.
–  Em Rios de palavras, há duas cabeças unidas por um rio que sai do ouvido e passa pela boca. A referência à palavra era tímida. Hoje você dá um outro peso, os trabalhos podem ser construídos exclusivamente da palavra. Há também a recorrência do rio com seus afluentes, que remete ao tronco da árvore com suas raízes, ou ainda, às veias e artérias do corpo.
 É uma outra ideia que eu gosto muito. Sempre gostei de ficar vendo mapas quando lia sobre o Oriente, para procurar os lugares. Raízes de árvores parecem caminhos de mapas ou um desenho de anatomia. Eu relaciono as três coisas. Em Todos os rios levam a sua boca, de uma boca vermelha no meio da tela saem vários rios da região Oeste de São Paulo, misturados com frases minhas. Às vezes acho que pode ser um exercício de memória, para ficar relembrando.




–  É como o diário onde você faz uma simbiose entre o aspecto gráfico do mapa e seu mapa interior, registrando os lugares e as influências.
–  Em 1989, não sei direito a data exata, fiz um mapa com a localização da família do meu pai e da minha mãe, que foi vendido para um museu nos Estados Unidos. A família da minha mãe tinha uma fazenda no Rio Negro. A família do meu pai ficava na descida do rio Madeira, em direção à Bolívia.  Fiz o rio Amazonas com seus afluentes  – que têm nomes lindos -, um moinho e aqueles peixes gregos com a boca aberta.
– Outros elementos recorrentes são números, ampulhetas, bússolas, relógios. Instrumentos de medição do tempo e do lugar.
– Sempre fui muito ruim em matemática, mas tinha uma atração pelos números, por serem elementos gráficos. De vez em quando eles assumem uma verdade que pertence  ao sujeito , por exemplo minha idade,  ou meu peso ou minha altura. Adoraria estudar matemática. Quanto à ampulheta, ela traz uma noção de tempo que não acaba porque você sempre pode virá-la e começar de novo. Já a bússola foi um de meus brinquedos favoritos.
– A forma da ampulheta remete ao infinito. Você fez muitos trabalhos como número oito associado ao infinito. O que mais constitui seu tesouro mítico?
– Os peixinhos. Às vezes um, outras vezes em pares. E a escada, tipo escada de pedreiro.        
– A ampulheta ficou obsoleta. Você me lembra um alfaiate, aquele sujeito nostálgico cuja atividade foi varrida pela modernização.
– Mas isso não é a memória? A ampulheta conta o tempo que passa. Nos desenhos de 1989, a palavra entrou realmente nos trabalhos . Eu estava muito apaixonado. Ficava sozinho, sem saber direito o que fazer. Então pensei em escrever nos desenhos em vez de ficar escrevendo em cadernos.



– A realidade da palavra é totalmente autobiográfica?
– É.
– A discussão da arte contemporânea se voltou para a questão da autonomia da linguagem em relação ao sujeito. A pintura, que havia convivido estreitamente com a literatura, passa a reivindicar  em lugar autônomo. Como você  vê a questão da subjetividade hoje?
– Houve isso que você está dizendo, mas ao mesmo tempo existiam pessoas trabalhando num sentido contrário.  Louise Bourgeois, Palermo, Eva Hesse. Mesmo diante das obras de Walter de Maria, que poderia se encaixar na sua discussão, ou até  Beuys…
– Sim, Beuys é absolutamente autobiográfico.
– Acho que existem pessoas que insistiram no lugar do sujeito  dentro do trabalho, e eu sou um deles. Mas existe também os que trabalham ao contrário. Não sei dizer se a gente tem mais liberdade…
Como você vê o fato de um indivíduo fazer o espectador  participar de suas angústia , de seus desejos?  A pintura se torna uma espécie de palco para exteriorizar sentimentos ou uma narração na primeira pessoa. A autorreferência não seria um aspecto restritivo à arte?
– Não. Tunga é um artista que tira pedaços dele mesmo e põe no trabalho. Alguns preferem que o trabalho fiquei longe do artista, o que eu acho também muito legal, outros lidam com aspectos íntimos, e projetam seu interior para a obra.    
Quais são seus escritores de cabeceira?
 – Constantin Cavafy. Principalmente. Gosto muito de poesia.
Há uma língua que você prefere?
– Não. Leio em inglês, francês, espanhol. Comprei uma antologia de poesia sobre a paixão, de vários lugares e vários autores. Releio várias vezes o mesmo livro. A Obra em negro, de Marguerite Yourcenar, é um dos meus livros favoritos. Tem o tema da viagem que me fascina. Quando era adolescente, li várias vezes Demian, de Herman Hesse.
–  O que é tão importante em Cavafy para você?
– Eu escrevo na linha dele. A escritura alimentava suas paixões. Ele ia para um café em Alexandria e ficava  contando, descrevendo os caras que via. Neste desenho, escrevi “boa notícia”. Eu tinha marcado um encontro com meu namorado para as cinco da tarde e às dez e meia da noite ele estava ligando para me dizer: “Leo, talvez eu chegue um pouco atrasado”. E, enquanto isso, eu ficava desenhando. Simplificando, é como um trabalho de repórter.
– Seria mais uma crônica.
–  O que é uma crônica?
Na crônica, diferentemente da reportagem, você pode introduzir uma visão pessoal, uma interpretação dos fatos. É a narração em primeira pessoa.
– Então acho que todos os desenhos têm essa marca da crônica.
– Há uma força da narrativa, e um silêncio em volta dos desenhos que gera uma tensão. Você insiste nas cabeças ligadas por uma ponte. Por outro lado, as pessoas estão separadas, porque há uma vazio sob a ponte.
– É. Engraçado, porque a ponte é a ligação, mas as bordas não se encontram nunca.
Só no imaginário. No plano físico, as pessoas estão marcadas pela distância. Você estabelece relações platônicas.
– Acho que me refiro à distância que a gente mesmo estabelece. São as barreiras colocadas propositalmente. É triste, bem triste, mas…


Alguns desenhos parecem projetos de arquitetura. Este, por exemplo, “Os Homens com suas próprias atenções”.
– Seria uma escultura que eu nunca montei. É um objeto alto, feito de madeira, lembrando uma ponte.
– Quando conheceu o Albert  Hein, você chegou a fazer esculturas. Nunca mais depois?
– Só fiz uma instalação com Albert Hein, na galeria de Walter Storms. Já fizemos duas exposições em Amsterdã, cada um com seus trabalhos. O vulcão de neve foi impresso no convite. O que fizemos juntos foi um grande globo de madeira, com ripas vazadas e bandeiras que iam caindo até o chão.
–  Na época, a instalação era uma linguagem muito distante do que você vinha fazendo.
– Não tem longe ou perto. É preciso ir tentando e fazendo. Hoje, por exemplo, eu não ia conseguir cortar madeira, bater prego, transportar peso. Pela minha saúde…
– Você poderia delegar essas tarefas a um marceneiro.
– Não. Ou faço eu mesmo, ou faço outra coisa. Por isso, agora faço objetos de pano.
– Há toda uma linhagem de escultores que só trabalham assim. Por que você não passaria a execução da obra para outra pessoa? O problema é a questão da autoria?
– Simplesmente porque eu gosto de fazer. É meu prazer. A obra é conseguir fazer. A gente trabalha com o que tem. Se não é possível fazer alguma coisa, tem que fazer outra. É preciso respeitar isso. Eu já te disse que a obra não é tão importante quanto o aprendizado. É muito importante ir aprendendo com o que se faz.
– A questão do artesanato, do precário,  é fundamental nos seus objetos. Este desenho, por exemplo, mostra uma situação num equilíbrio difícil, próximo da imperfeição.
– É. Acho que nenhum marceneiro nunca aceitaria fazer esse trabalho. Como tem ideias mais rígidas  que as minhas, ele modificaria para a peça ficar certinha e não ficar bamba. Mas eu quero que a coisa fique bamba. Uma das características do meu trabalho é a ambiguidade. A gente falou de sexualidade na semana passada.  Eu dizia que meus trabalhos eram meio gays assim, mas não é isso.  Acho que eles são ambíguos mesmo. Por exemplo, eu trabalho com a delicadeza, uma costura, um bordado. Leda [Catunda] trabalha com aqueles colchões, aqueles monstros.  Isto é uma  ambiguidade em relação a ela como mulher. Assim como os bordados revelam minha ambiguidade na minha relação como homem. Gosto muito dessa forma de pote. Tem a ideia de uma pessoa que está  sendo esvaziada, outras vezes está cheia. Neste desenho, retirei uma frase de um texto da Maria Rita Kehl e acrescentei: “O desejo é um lago azul”, que já é uma frase minha. Eu gosto deste trabalho com uma pessoa se deitando na mão de outra. Sabe o que é estar completamente dominado por outra pessoa? Mas mesmo quando tiranizado ou dominado, você não perde o que é seu.



– Sim, o amor como forma de “servidão voluntária”.
– Eu bordei num trabalho: “O que você desejar, o que você quiser, eu estou aqui, pronto para servi-lo”. É uma relação servil, mas é você quem escolhe.        

 (Lagnado, Lisete: São tantas as verdades. São Paulo- DBA Artes Gráficas: Companhia Melhoramentos de São Paulo, 1998).
  

José Leonilson