Eudoro Augusto, Charles Peixoto, Aristides Klafke: 3 marginais à margem.
16 de agosto de 2014


A produção da poesia marginal encontra-se, no presente contexto, num momento de revisão: no último ano e meio, pelo menos, vimos exposições, relançamentos, edições temáticas de revistas de crítica especializada, etc. Nesse sentido, um dos motivos para a reencenação de seus temas e questões, não o único e talvez nem mesmo o mais importante, foi o recente investimento – muito bem-sucedido, diga-se de passagem – de uma grande editora no filão de poetas mortos que começaram a publicar entre finais de 1960 e inícios de 1970 e passaram a ser reconhecidos principalmente após a edição da história antologia de Heloísa Buarque de Hollanda [26 poetas hoje]. A classificação, entretanto, de poesia marginal continua a ser ridicularizada, ou observada com desdém, descrédito e desinteresse. Seja através do apontamento da diversidade inconciliável das produções individuais, seja pela reiteração do juízo negativo que primeiro a acolheu [a formulação pode parecer estranha, mas é essa mesmo, no sentido de que, mesmo quando apreciada, tal produção poética foi considerada principalmente a partir do que ela não apresentava, do que não era, seus famosos anti-: antiliterária, anticabralina, etc.], nota-se de lá e de cá uma certa necessidade de ressalvas ao se falar de poesia marginal.

Apresentamos, nessa postagem, 3 poetas que começaram a publicar no período e participam de um modo ou de outro do que se entende como poesia marginal, mas que, dentro da economia da consideração crítica, permanecem de algum modo à margem. Uma das marcas de nossas considerações sobre tal produção é o desejo de considerá-la a partir de seus elementos positivos, indagando acerca do que ela é, e do que pode vir a ser para nós que escrevemos hoje – ao invés de se manter uma perspectiva que avalia o que nela falta, ou que ela não apresenta, de onde ela deriva, qual tradição literária repete, etc.

Em um texto intitulado Consciência marginal, publicado na revista de Artes Malasartes, Bernardo Vilhena e Eudoro Augusto lembram Cacaso para tentar dar a ver o que significa a via da poesia marginal: “Latente em quase todos nós, desperta aos poucos uma atitude que o Cacaso define numa frase convicta: ‘a vida não está aí para ser escrita mas a poesia sim está aí para ser vivida…’”. Tal perspectiva é infensa tanto à leitura da poesia marginal como armazenamento de impressões e experiências privadas, quanto ao clichê da junção arte/vida. Fundamentalmente, o que ela anuncia é o abandono de uma compreensão da arte enquanto recolhimento em uma forma acabada, estrutura fixa do que é a vida (essa forma/estrutura entendida como cópia, criação, invenção, etc.) em favor de uma arte que é tensão geradora de movimento. Daí, sua proximidade com os temas do provisório, do transitório, da deformidade, do grotesco parodístico, etc.

Evidentemente, há muitas figuras diversas que buscam entender, ou dar a ver essa tensãofundamental (lembremos de “caprichos e relaxos”, “polinização cruzada”, etc.) – em entrevista recente a uma rádio de Brasília, Eudoro Augusto parece nos fornecer uma delas, ao afirmar que entre uma e três da manhã escreve hemorragicamente, para depois, quando acordar no dia seguinte, pentear os poemas. Tensão, portanto, entre o que está no interior do próprio corpo e numa explosão violenta vaza, ameaçando a integridade do corpo, e o gesto de desembaraçar, alinhavar distraidamente o que está na parte mais extrema de um corpo, constituindo quase uma zona estrangeira (uma vez que apresenta diferenças de ritmo de crescimento, renovação e decomposição).

A escolha por marginais à margem interessa, para além do processo de reconsideração e caracterização dos procedimentos colocados em ação por tal poesia, como forma de demarcar a dificuldade, do ponto de vista da manutenção do projeto poético, a partir de meados da década de 1980, levando a anos de silêncio. Em declarações recentes, Charles, por exemplo, conta da decisão de parar de publicar após ver a edição de seu livro de 1985 não ir para as prateleiras das livrarias. Contudo, talvez a inserção de um mercado editorial com novas estratégias e novas formas de valoração e organização do literário parece ser apenas um dos fatores de uma cena complexa.

Eudoro Augusto nasceu em Lisboa, em 1943, mudando-se para o Brasil aos dez anos de idade, residindo primeiro em São Paulo em seguida em Florianópolis. Na UnB, formou-se em Letras, e fez Mestrado em Literatura Brasileira. Entre 1969 e 1973, publica poemas e contos no Suplemento Literário de O Estado de Minas. No início da década de 1970, muda-se para o Rio de Janeiro, aproximando-se de poetas na cena do que viria a ser conhecido como poesia marginal. Seu primeiro livro é publicado em parceria com Afonso Henriques Neto, O misterioso ladrão de Tenerife, publicado em 1972. Publicou ainda A vida alheia (1975), Dia sim, dia não em parceria com Chico Alvim (1978), Carnaval (1981), Cabeças (1981), O desejo e o deserto (1989). Não publicou ao longo da década de 1990. Nessa época, muda-se para Brasília, dedicando-se a uma série de outras atividades. Em 2001, lança Olhos de bandido. Ao qual, segue-se a Trilogia do Suodeste: Um estrago no paraíso (2008), A natureza humana (2009) e Noite em Claro (2011). Ainda não se editou um volume com suas obras do século passado e as do presente momento reunidas.

Charles Peixoto nasceu no Rio de Janeiro em 1948. Seu Travessa Bertalha 11 (1971) foi uma das primeiras edições mimeografadas de que se tem notícia no país. Nos anos 1970 participou do grupo Nuvem Cigana, publicando Creme de Lua (1975), Perpétuo Socorro (1976) e Coração de Cavalo (1979). Em 1985, publica pela Taurus, Marmota Platônica, ao qual segue-se um hiato poético. Trabalha com atividades ligadas a sua formação em Comunicação, como rádio, publicidade, cinema e TV. Volta a publicar em 2011, com o volume Sessentopéia. Este ano, teve sua obra reunida em Supertrampo, lançado pela 7letras.

Aristides Klafke nasceu no Matogrosso em 1953, tendo mudado para São Paulo quando tinha quinze anos. Lá publicou, junto com Arnaldo Xavier, Pablo (1974), seu primeiro livro de poemas. Funda o grupo das edições Pindaíba, que forma uma espécie de núcleo da poesia marginal de São Paulo. Participa das edições coletivas Cara a Cara e Contramão (ambas de 1977). E publica individualmente os livros Osso Geral(1977), Esquina Dorsal (1978), Oportunidade dada (1980), e O mistério que tem no coração todo bandido (1982). Participa da edição de Poesia viva II (4 poetas), lançada pela Braziliense em 1983. A legião dos troncos com rostos, de 1989, é o último livro de poemas seu de quem se tem notícia. Desde 1986, moram em Nova York, dedicando-se ao trabalho com Artes Plásticas e ao ensino delas.

Ilustra a postagem uma foto com totens feitos com poemas de Eudoro Augusto na intervenção urbana do coletivo de Brasília Loucos de pedra.

***

Eudoro Augusto

De Cabeças (1981)

3

a mancha do meu nome em vão

sobre a lisura do campo

a irritada grafia marca sem muita firmeza

uma revoltar abortada: o motim de apenas um

esta revolução nunca vai sair do papel

*

7

juntei minhas coisas

meus cacos meus livros

dei murros na parede oca

(com pouca força que eu não sou louco)

abri os vidros e gritei pra lua

meu poema fugiu com outro

*

28

aula de história interrompida

o professor preso

o império do Grande Khan é apenas vestígio

marcas de giz e meias palavras

(os dedos que traçaram o mapa no quadro negro

não são os mesmos que conduzem agora o apagador

reduzindo datas e batalhas à metade)

pela janela os olhos percorrem a relva comum

que em nada lembra os desertos e a neve

coberta de cadáveres

um cavalo de pedra lambendo as feridas

a Transoxânia invadida

Bokhara subjugada

vencida Samarcanda

e Khorasan devastada pelos mongóis

*

31

– tá com fome?

– não. tou com febre.

*

37

deixa comigo que eu apresento

guarda o finzinho pra depois

tudo gente fina

de repente é um lance maneiro

combinado, não tem erro

quê que é isso, xará

aqui não pinta esse vacilo

é tipo escancaro

tudo em cima, sabe como?

numa naice

*

44

gelo quebrado

copo na mão

mexendo e moendo as coisas que não

*

47

uma cabeça que dança

que cansa de ser cabeça

*

64

a União ama a Força

*

78

a uva da luxúria depois de seca

dá uma passa deliciosa

dizem

*

De Olhos de bandido (2001)

Detective Story

A chave perdida

e penosamente recuperada

não abre a porta que deveria abrir.

Os vampiros não existem.

Você precisa procurar um analista

perseguir fascinantes pistas falsas.

Falsas louras

         famintos amores

                   fictícios tesouros.

Um corpo no elevador

completamente apunhalado.

O herói da segunda parte é fraco

não acredita em nada

e cheira cocaína no final da tarde.

As personagens que ela encarna

são sempre do tipo que eu não gostaria de conhecer

na vida real.

Acabou a manteiga.

Só a alma não chega.

Você está horrível.

Eu não quero te perder.

*

Canalha

De tardinha eu passo aí

e dou um trato nessa bucetinha.

Sem ela

sou capaz de morrer.

*

Burocrata

Por um momento levanta a cabeça

abandona a papelada e os carimbos

e olha vagamente

com um meio sorriso médio

para um ponto que seria o infinito.

Mas logo recompõe o rosto

pálido impávido

e ajeita a barata sobre a gravata.

*

Placa

Proibido fumar o cachorro sobre a grama

*

Aquiles

O calcanhar é uma ideia sólida.

Pra chegar até Helena

armarei um temível cavalo de pau.

Depois

é só deslizar pelo monte de Vênus,

digo, Afrodite.

Aquiles só pensa naquilo.

*

Diálogo na rua 15

– E o Otávio, como vai?

Foi grave?

– Tropeçou no brinquedo da criança.

Mas está fora de perigo

Maxilar fraturado, antebraço, ego,

clavícula, quatro costelas.

Mas está fora de perigo.

– E o brinquedo?

*

Malibeck com estranho Hegel

Primeiro tu aperta um.

Queima bem devagarinho.

Lava o rosto

escova os dentes

repassa dois textos.

Liga pra ela

mas não marca nada.

Volta ao texto.

Fala com a cunhada.

Pausa para almoço

com jogo do Brasil.

Antes

mistura um pouco de Malibu

congeladinho

com Domecq natural.

Isso é Malibeck.

No restaurante

com chope preto

que ninguém é de ferro.

Em tributo ao amigo Charles

um estranho Hegel.

O jogo tá morno.

O argentino dá porrada.

Aí tu pede um prato

de língua defumada.

O juiz tá roubando.

Pensa outra vez na mulher.

Seja o que Deus quiser.

*

Deixa Dilson

A primeira luz da manhã

trava o sorriso da noite de ontem.

Tensão nos maxilares.

Ruído crescente dos primeiros bares.

Seca, seca, a tua alma navega

entre recifes e escombros

pelos mais estranhos canais

até ancorar no canto, junto ao balcão.

Solidão poderia ser apenas

mais outra marca de vodka.

*

Para com Wilson

Doutor Carlos!

E o meu exame, Doutor Carlos!

Por favor, Doutor Carlos…

Não vá embora sem me falar nada.

Tou aqui na maior agonia,

tou arrepiado.

Mas o senhor pode falar comigo

com toda a franqueza, sem receio,

sou homem bastante pra enfrentar os fatos.

Pelo amor de Deus, Doutor Carlos!

Tou preparado pra verdade

mesmo que ela seja dolorosa.

Não suporto mais ficar aqui

mofando

sem saber de nada.

Porra, Doutor Carlos!

O que é que deu afinal

no meu exame de sangue?

*

Não entra Nelson

Gostaria muito de lhe passar

uma nova versão

desta vida morna.

Entretanto eu mesmo acho difícil

reverter a situação.

Poderíamos tentar uma conversa

quem sabe

uma viagem, um cinema, um parque,

uma sessão de sexo oral.

Talvez seja bom dar um tempo

deixar que o tempo se encarregue

de traçar seu sórdido destino.

Você poderia tentar com mais persistência

sair desse isolamento, dessa torre de arrogância

e respirar o ar livre e ser talvez feliz.

Acho difícil

mas pode ser que aconteça.

*

De Um estrago no paraíso (2008)

Correios & Telégrafos

Chegou alguma coisa pra mim?

Alguma carta? Um convite? Uma

Encomenda?

Nada. E as contas?

As contas chegaram.

*

Frescor

Cada vez que você sai do banho

está recriando a primavera.

***

Charles Peixoto

De Travessa Bertalha 11 (1971)

as pessoas se encolhem num canto da cabeça

e podem pensar em absolutamente nada

por muitas vezes

passam pela gente autoritárias e nervosas

outras têm o universo e voam

*

De Creme de lua (1975)

marcatempo

– olha a passarinhada

– onde?

– passou

*

o poeta é um atravessador de paredes

fantasma de si mesmo

entre lençóis de linho

não tem mulher que quer

tá mijadinho

bichado

bicudo

*

pre$o por

penetrar na festa

jogar pedra no monumento

arrotar no juramento

mijar em praça pública

cuspir no reitor

jogar dinheiro fora

trepar com a filhinha do papai

brincar demais

dar bandeira

se olhar no espelho

tirar calça na rua

matar o industrial

fumar maconha

roubar um queijo

ganhar um beijo

sacar o lance

*

quando me dou por vencido

não me dou por perdido

*

De Perpétuo socorro (1976)

sou o que amo + o que minto

*

De Coração de cavalo (1979)

era muito melhor dançar que ficar aqui falando bobagem

eu bem que te disse doralice que assim não dá

ali vai ficando rosa

ali é bem na cara

aquele prédio é um urubu na paisagem

urubu não

         que é meu time

*

De Marmota platônica (1985)

agarrado a você feito um paruara

feito um caranguejo

lambendo os beiços

feito um patriarca na fuzarca

feito um queijo

um copo d’água no deserto

perto de quem acredita que tá feio

acabado

plenamente satisfeito

*

qualquer silêncio massacra meu piano de cauda de perdiz

certas tranças teiam um certo barato que não me deixa dormir

tenho muita saudade desse retrato que o pintor pintou

sem olho e sem nariz

vermelha a toalha – a malha que tece o famigerado coração

ceiam na mesa as ilusões veteranas e os ovos frescos

                                                                           das galáxias

*

sentado no parapeito do 22º andar

ouvindo o uivo de um cachorro

long life lá por baixo

alguma coisa vai virar

camarelentamente recordo o definitivo sorteio

deu zebra no mercado

as ilusões saíram de férias

o destino assume o papel de bagre

*

De Sessentopéia (2011)

como um tomate que rola capenga sem uma parte

a arte vai ao cinema

ver a parte do tomate que não se emenda

*

cão que ladra não late

se for leite de cabra

eu prefiro mate

*

tales que talhava bem um terno

tanto talhou que cortou o dedo

tales continuou talhando

e pôs termo ao braço tísico

tales não traiu o corte

seguiu cortante

cortou parte da cabeça que só pensava em tese

aliás

tales não pensava em tese

exercia exatamente o confrontante

era dispare

palhares

quase surdo

nem treinável nem tonitruante

apenas tímido

covarde

idiota

enfim

um palerma

*

sabor azinhavre que cobra a cópula com a vida sóbria

sobras de sepulcro que se avizinham à solenidade

ao sarcasmo que dá tonalidade ao branco baço

à beira do abismo nas comemorações recentes

lá se vão as bestas a preencher o vazio acumulado

as iluminuras tão brilhantes que ao presente escapa

lágrimas que esguicham dos bebês bastardos

ao conhecer o mundo que não lhes pertence

assim assinam a ficha que os inscreve para o cadafalso

enquanto os ignorantes solfejam partituras patéticas

a despachar exércitos de répteis aos sábios céticos

que ao sangrar as veias em ato heróico

sabem que o destino empurra os covardes ao abismo tácito

*

De Supertrampo (2014)

como se mente

em Mendes ou na Macedônia

no Planalto ou na Lituânia

como se mente

no consciente ou no inconsciente

é constante o elemento transgressor

não existe espaço para o estrangulamento

se não existe opressor

quem oprime é a tristeza

esse camaleão incolor

dançarina sedutora

e seus venenos definitivos

***

Aristides Klafke

De Contramão (1978) – Com Arnaldo Xavier, Celso L. Marangoni, Lucia Villares, Maurício Merlini, Tadeu Gonçalves, Ulisses Tavares.

PREFÁCIO (trechos)

Verdadeiramente está comprovado: no Brasil fazer um livro de poemas é mais fácil que votar. […] Ferreira Gullar seria ídolo nacional se jogasse futebol. Carlos Drummond de Andrade seria canonizado se fizesse milagres. João Cabral de Melo Neto seria subversivo se morasse na Vila Esperança. E nós seríamos bons poetas se a paranoia e o medo não avassalassem nossas cabeças. […] Estamos na CONTRAMÃO porque todo brasileiro está cometendo infração. Todo mundo insistindo em sobreviver. […] A contradição de um homem hoje é a mais legítima de suas armas. […] Mesmo armadilhados podemos lucidamente afirmar que não temos a consciência tranquila. Tampouco temos consciência do que seja tranquilidade. Os tempos são de cravos enferrujados sobre a tumba de um herói qualquer. […] Os tempos são de calabouço. […].

*

De Esquina Dorsal (1978)

Idade

nasci num dia manso também noite

         envolvido pela abundância de ossos

e de corpos em silêncio.

         sob o áspero olhar de um pai

                   desnecessário.

uma mãe pronta, sem vestidura.

num deserto breve, claro

num tempo carregado de piolhos

*

De Oportunidade dada (1980)

quando ponho

os óculos escuros

claro

que o mundo muda

de cor

*

pindaíba é ramo de bico

é fruto de guerra

é pomba, é pica

pindaíba é gente que vira

é guernica ao contrário

*

no vulto dos teus olhos

sou eu quem passa

– o retirador de retinas

*

dobro a aposta

jogo a poesia

no vermelho

*

De O mistério que tem no coração de todo bandido (1982)

Janelas

na janela um sino

na outra janela outro sino

(dois sinos portanto temos

no par de janelas)

aqui em frente

no outro lado da janela

do primeiro sino, vejam, um mundo

enjoado de ser mundo

no outro lado da janela

do segundo sino, esta emperrada, outro mundo

triste demais para caber no poema

nas mãos um livro roubado

manuel bandeira respirando fundo

***

Aristides Klafke, Charles Peixoto, Eudoro Augusto