Poetry will be made by all – minhas câimbras suas câimbras
5 de julho de 2014

por Thiago Gallego
Em 30 de janeiro de 2014, a exposição Poetry will be made by all foi aberta em Zurique, Suiça. Uma parceria da LUMA Foundation com o projeto 89plus – em associação à UBU Web, além de exibições de filmes, leituras e performances de poetas, artistas e escritores, a exposição se dedicou a compilar livros de poesia de autores de diferentes países nascidos a partir do ano 1989. Tem curadoria de Hans-Ulrich Obrist, Simon Castets e Kenneth Goldsmith, além de ter Danny Snelson como consultor e coordenador.
A mim, Poetry will be made by all chegou como um convite. Depois de me inscrever no site do 89plus, fui informado de que realizariam numa exposição a publicação de 1000 novos livros de 1000 jovens autores. Me apressei em selecionar poemas e arranjá-los num manuscrito. Assim que o pdf ficou pronto e foi publicado me deparei com um erro: o livro que levava meu nome tinha 27 poemas escritos em espanhol e encerrava com a biografia de um rapaz de nome Francisco.
Um tanto oportuno – e já corrigido – o engano como que concretizava um dos propósitos da exposição: mais que publicar, colocar num só lugar esses textos (no total 77 livros de 24 países) em contato e acessíveis.
Essa semana, além do livro de Francisco (Poemas para Michael Jordan), lemos e selecionamos alguns poemas de outros quatro autores. As traduções são assinadas por Lucas Matos (Dish e It’s not a big deal, I don’t mind) e Thiago Gallego (Escaleras abajo e Poemas para Michael Jordan).
***
Rubens Akira Kuana (de digestão)
Rubens Akira Kuana nasceu em Videira, Santa Catarina em 1992. Ele traduziu poetas contemporâneos como Sophie Robinson, Lonely Cristopher, Ariana Reines, Alex Dimitrov, entre outros.
Foi publicado nas revistas literárias Modo de Usar & Co., Suplemento Pernambuco, Babelsprech (Alemanha), Samplecanon (Holanda), e Hilda Magazine.
Rubens Akira Kuana vive e trabalha em Curitiba, onde estuda Arquitetura e Urbanismo.
estes braços estas pernas
estes braços estas pernas
seus meios de locomoção cativa
meus investimentos reservas
passam através de mim
como um mico leão dourado
fugindo fugindo
estes braços estas pernas
estes dentes estes rabos
não valem seu peso em palha
alumínio ou conformação
estas armas estas armas
um pelicano à espera do peixe
um tucano à espera da prole
o troco o foco o excedente
minhas câimbras suas câimbras
sobre um solo criado
sobre uma mesa abandonada
peras bônus promoções
estes lapsos estes lapsos
estes lapsos
*
você aceita a impermanência como
parte do seu corpo
o universo pouco ou nada
se importa com seu joelho
fernando henrique cardoso
não importa
com a sua partida
para a Tasmânia ou Haiti
você quer fazer trabalho voluntário
eu quero fazer trabalho voluntário
mas nós não faremos
juntos juntinhos onde
está aquele árvore centenária
que eu salvei? você já
a viu? ela está bem?
como foi o seu dia?
eu tomei as minhas vacinas
arrumei as malas
escovei os dentes embora
a ONU só nos aceite após os 25
quando nossas almas encontrarem paz
as ciclovias e florestas
com certeza serão mais comuns
e largas
até breve
você resolve ser virgem
até breve até breve
eu quero que você olhe para a lua
eu quero que você olhe para a lua
eu quero que você olhe para a lua
e perceba como a sua beleza não
depende
da forma com que eu me expresso
*
a voz enquanto posse
sua boca tem fome sua boca
tem sede sua boca é bonita
porque sua boca é aberta
em minha boca esta boca
cabe uma sala uma outra
em sua boca esta sala
a sua boca exala a sua boca
inala a sua boca agonia em sua
boca eu me deito em sua boca
eu me estendo esta boca outra
boca outra boca duas bocas
sua boca tem fome minha boca
tem sede porque sua boca é
bonita sua boca é a minha
*
spring break
se eu conseguir completar esta ligação
eu juro que irei colar um adesivo na
minha carteira
seu mais novo doador de órgãos está
aqui, docinho
você quer um fígado você quer um rim
pequenos pulmões porque eu tenho
dois
meu sangue é O negativo
mas eu sou otimista como um urso
atrás de mel e piqueniques
então deite-se na maca e prepare
umas margueritas nós vamos
comemorar
antes do bisturi arranhar os seus
ossinhos
antes do médico arruinar sua pele
sugiro um passeio pelo bosque
olhe aquele pequeno gambá
agarrado com todas as forças
no galho da aroeira.
***
Jacob Steinberg (de Escaleras abajo (Escadas abaixo))
Jacob Steinberg (@posnoventista) nasceu em Stony Brook, Nova Iorque, em 1989. Em 2011, se formou como Licenciado em Literaturas e Culturas Espanholas e Latinoamericanas na Universidade de Nova Yorque. Escritor, tradutor e crítico, morou em Buenos Aires no ano de 2012, enquanto cursava mestrado na Universidade de Buenos Aires. Atualmente mora em Nova Iorque.
Escreveu Magulladón (Triana, 2012) e Ante ti se arrodilla mi silencio (Kodama Cartonera, 2013).
Administra o blog: http://magulladon.tumblr.com
*
HAICAI ISRAELITA
Pregado em um bar em Tel Aviv
Mando uma mensagem que você não vai ler
Que estou fazendo com a minha vida?
*
“NOTAS DE UMA AULA SOBRE O GÊNERO POLICIAL”
O espaço urbano está construído como
um labirinto,
O espaço urbano é caótico
Todos os procedimentos da vida
urbana servem para deter o progresso do
herói
O
mundo
está
cheio
de
signos
o trabalho do protagonista é decifrá-los
[…certa dimensão antirrealista e realista
do drama…]
a realidade tem a forma de um sonho… é
um texto pregado
sobre
si
mesmo ]]]]
*
NOTAS DE UMA AULA SOBRE OS DIÁRIOS DE VIAGEM
O diário de viagem comprova a existência
do viajante
seu haver estado
e seu papel
como observador
               com/frente a
                    
                        tudo que o rodeia.
         «As línguas são filtros»
***
Emma Ramadan (de Dish (Prato))
Emma Ramadan estudou Literatura Comparada na Universidade Brown e agora faz um Mestrado em Tradução Cultural na American University of Paris. Sua tradução de Monospace, de Anne Parian, sairá por La Presse, e sua tradução de Sphynx, de Anne F. Garréta, sairá pela Deep Vellum. Sua escrita apareceu em periódicos como Recess, Bluestem e Gigantiq Sequins.
*
amarelo:
cheiro de joaninha esmagada
entre as minhas unhas
*
Aqui está a verdade sobre esse verão. Três meses atrás eu estava com 20 anos, e agora estou velha, para não dizer arruinada. Em junho, eu tive meu primeiro bronzeado e meus primeiros pesadelos de calor e minhas primeiras mordidas de aranha, e agora em agosto, meus joelhos estão descascando, parei de comer tanto sorvete, jogo paciência no banheiro. Em junho, eu não te conhecia e era barulhenta e jovem. Agora, no final de agosto, os meus ossos fedem a você, e todo mundo que chega perto de mim se pergunta por que meus ossos cheiram assim. Está tudo acabado, e estou cansada, eu amei no duro e estou quebrada e sangrando de me despedaçar contra o seu medo de mim.
Aqui está verdade sobre como é para mim estar viva. Eu passo todo o meu tempo tentando fazer alguma coisa se apaixonar por mim. Ontem foi com meu protetor solar. Esfreguei no meu peito, logo acima da parte de cima do biquíni, e no meu nariz porque essas são as únicas partes em que eu me queimo, e então na parte de trás dos meus calcanhares porque um amigo disse que é onde as pessoas têm câncer de pele. Esfreguei pensando Não sou nada. Hoje foi com meu para-brisa, enquanto cantava no carro canções que fazem minha voz soar bem e canções que fazem minha voz soar mal e não me impedi de dançar nos sinais vermelhos. E todo dia é com a neve. Lambo, danço nela, me arrasto através dela, me queimo com ela e digo a mim mesmo Eu sou tudo, mas é só neve cinza e suja: não ri das minhas piadas.
Ainda tem uma linha espessa de alcaçuz negro do seu interior até o meu. Eu tentei comer, para que desaparecesse, mas isso só me deixou mais perto de você. Amanhã é meu aniversário, e vou estar com 100, para não dizer arruinada.
*
querido
decidi te devorar hoje de
noite não
*
querido
eu decidi
mas talvez eu deva perguntar
com que molho você gostaria
                            de ser servido?
*
querido
por que não me olha nos olhos?
ainda não
*
querido
esse vinho tinto
seu suave pinto
*
querido
unha cava
preso na garganta
um dente seu
*
como quando
um tubarão
vê uma joaninha
no fundo do mar
braceletes em torno
como quando
um veado te olha
com olhos marejados e encharcados
que saltam pra fora do rosto
e te dá um coice cego com seus cascos
da cor da noite
como quando
um tigre
lambe o seu rosto
até que tudo avermelha
como quando
um javali
adora você
eu sirvo você
picadinho de vitela
***
Rhys Nixon (de It’s not a big deal, I don’t mind (Não tem importância, não ligo))
Rhys Nixon é um escritor que mora na Austrália. Foi publicado em eletric cereal, Gesture magazinee ocasionalmente posta em seu blog, rhysrhys.tumblr.com
*
Haicai #4
Eu peço um café
Abro com pressa o jornal
Derramo o café
Haicai #5
Eu me vesti
Fui comprar chá de hortelã
Estava em falta
Haicai #6
Aí abri a porta
Esqueci de pôr os óculos
Voltei para dentro
Haicai #10
Saí pra correr
Achei dez pilas na rua
Mas então perdi
Haicai #12
Velho mora ao lado
Fuma e tosse toda noite
Qual seu nome mesmo?
*
Poema sobre Alguma Coisa
li as notícias sobre alguma coisa
em algum lugar
e alguém fez alguma coisa em
algum lugar
e algum cara falou alguma coisa sobre
alguém
e algumas pessoas fizeram alguma coisa
por causa de algo
e alguém chorou por causa de
alguma coisa
e alguém morreu em nome de
alguma coisa
então riram algo de
alguma coisa
porque alguém era alguma coisa e
alguma coisa.
*
Tudo bem?
Olá
Eu abro minha janela e digo
Olá
Através dela vejo um pássaro esmigalhando
a terra com o bico
Olá
Os vizinhos estão sentados na varanda
Estou sentado na cadeira perto da janela
Olá
A janela que abri
Olá
Estava tomando café mas já acabou
Olá
Tem uma brisa leve mas não faz frio
Olá
Fecho a janela
***
Francisco Ide Wolleter (de Poemas para Michael Jordan)
Francisco Ide Wolleter (Santiago, 1989). Foi bolsista da Fundación Pablo Neruda, durante o ano de 2010. Em 2011 publicou a plaquete “Observatorio” (Ediciones Corriente Alterna). Tem textos inclusos em “Tea party, Antología trinacional d epoesía: Perú, Bolivia, Chile” (Cinosargo y La liga de la Justicia ediciones, 2012) e em “Nuevos poetas de América, poesia joven Chile – Nicaragua” (Fundación Neruda, 2013). Trabalha como editor em Livros del Pez Espiral.
*
1
a suavidade porosa da bola
me faz pensar na pele humana
nostalgia pelo contato
ainda que o contato seja sempre ilusório:
o certo é que estamos formados por átomos
feitos de vazio
e que os átomos se repelem entre si
por isso não nos misturamos com as coisas,
por isso quando tocamos
realmente não tocamos nada
*
14
nos meus passeios noturnos
às vezes esbarro com Bob Dylan ou Snoop Dog,
vizinhos que também correm de noite
por esses bairros periféricos e afastados
em que vivemos nós que ganhamos dinheiro
desproporcionalmente
nos olhamos de soslaio como um tigre que mira
outro tigre
na escuridão do zoológico vazio
e o ilumina
*
16
posso aconselhar:
pegue a bola como se fosse uma mulher
fale com a bola como se fosse Tom Hanks
no filme do náufrago
*
18
este copo de leite que bebo com meus filhos
todas as manhãs
trazem quem sabe como
do “Chile”, um país suponho
do terceiro ou quarto mundo
ou quem sabe de que galáxia
terá alguém nesse lugar
que beba nestes momentos o mesmo leite
pensando ou revendo os vídeos das minhas
famosas enterradas
que desafiam a física?
*
20
quando era um jovem esportista
só concebia minha morte executando
uma clavada perfeita diante dos olhos maravilhados
dos fanáticos
ou sobre uma prancha de surf
tragado pelo túnel de uma onda
(o último que se vê é um sol que encandeia
refletido nas paredes de cristal
do túnel da onda)
uma morte épica
mas a gente envelhece, se adapta, se torna
empresário
*
26
como enfiar a mão no bolso
e tocar outra mão, absurda, sem braço
assim foi minha caminhada pelo beisebol
como sair suado na rua
depois do sexo ou do treinamento
e absorver pelos poros o brilho da lua
nas gotas de suor

assim foi minha caminhada pela NBA

Emma Ramadan, Francisco Ide Wolleter, Jacob Steinberg, Poetry will be made by all, Rhys Nixon, Rubens Akira Kuana, Tradução