Cristina Flores: “Minha festa diz respeito a esse mundo” (Entrevista Parte 2 de 2).
18 de julho de 2014

Na sequência da entrevista com Cristina Flores, atriz e idealizadora do Acontecimento Poético-Urbano Jardins Portáteis, ela conta uma história sobre quando fazia acrobacia e notou que o professor não olhava para as pessoas no momento da execução do salto. Olhava para elas, antes, na fila, indo saltar. Cristina perguntou por quê, e ouviu: “O salto se vê antes de saltar”. Quase uma narrativa zen, talvez uma imagem interessante para tentar dar conta de sua relação entre o trabalho de pesquisa e leitura incansável, e a abertura para o “ao vivo”. Cristina comenta ainda transformações não só de cena, ou do modo de atuar, mas da maneira de estar diante dos outros, de como se têm transformado os nossos modos de nos encontrarmos. Em junho de 2013, durante as manifestações, e agora, sua pesquisa sobre o que chama de ato desemboca num exercício poético do encontro e da escuta que chama, ou busca, novas possibilidades de liberdade.
Junto com a postagem de hoje, apresentamos fragmentos do texto que faz parte desse Acontecimento, e as fotos de Flor Brazil.
A jabuticabeira, na segunda-feira passada, estava carregada de frutos doces – tinha dado da noite para o dia. O Jardim segue vivo.
JARDINS PORTÁTEIS
Direção e dramaturgia: Cristina Flores. Criação e atuação: Cristina Flores, Eduardo Sande, João Marcelo Iglesias. Estética da Gambiarra: Eloy Machado. Luz: Dani Sanchez. Fotos e vídeo-poema: Flor Brazil.
SEDE DAS CIAS
Rua Manuel Carneiro, 12 – Lapa (Escadaria Selarón)
De sábado a segunda, às 20h.
De 05 de julho a 25 de agosto.
***
Fragmentos do texto de Jardins Portáteis (Cristina Flores).
a poesia do silêncio/ nu que eu eu pauso/ depois/ um engenheiro abrindo espaço/ ponte desencaixada prevê calor/ halo da palavra reverberra/ a poesia que só te acontece/ a poesia do seu ouvido/ deixe livre o passeio/ entre com cuidado no amarelo piscante

*
         João começa a cantar de óculos escuros vem do fundo:
         Astigmata chega mais perto
DÚ      Paisagem sonora
         Fumaça ninja
CRIS   medo da cidade
         feito medo da floresta
         floresta daquelas perigosíssimas de todos os contos de fadas
         todas as florestas de todos os contos de fadas são
perigosíssimas
         as florestas precisam ser vencidas
         são inimigas das princesas dos aventureiros
         florestas podem matar você no caminho
DU      Leva livro em caso de cativeiro
         SAI de calcinha nova pro atropelamento
         Não aceita bala perdida de estranho
JÃO    Leva livro em caso de cativeiro
         SAI de calcinha nova pro atropelamento
         Não aceita bala perdida de estranho
CRIS   Levo livro em caso de cativeiro
         Tô calcinha nova pro atropelamento
         Não aceito bala perdida de estranho
         Palminhas
DU e   todas as mães precavidas sabem que as melhores calcinhas se encontram
JÃO    nos hospitais
DU      a boa filha
mostra imagem
 — a outra.
mostra imagem.
ELES   Seja uma filha boa.
DU      A Covinha viva no seu rosto vai esconder um dia uma lesma saciadas dos seus olhos. E nenhuma memória permanece guardada no crânio (armarinho de osso).
JÃO    A Covinha viva no seu rosto vai esconder um dia uma lesma saciadas dos seus olhos. E nenhuma memória permanece guardada no crânio (armarinho de osso).
CRIS   e desse de repente amor por mim, muito amor por mim, de mim,
         como se eu me fosse cara,
         como se eu sempre me tivesse
         quando eu precisasse
         você pode ir pra marte você não pode ir pra 2 minutos atrás
(preciosa, coisinha, causa própria, filha, minha música da cássia eller. como
se eu me importasse comigo).
vida minha pequenininha ou campo de golfe nenhum esporte um bebê
que golfe
na trave
vidinha que foge azedinha daquela boquinha
um adulto é esgar?
um tipo de riso, um ricto com água salgada na ponta da língua que
cata
a gota se cai do nariz
me diz
quem salta daquela ponta
(sozinha)
sou eu! leve! no ar! agora! pra sempre vai ser agora mesmo, eu prometo, você nunca vai estar em outra parte além de aqui, agora. você vai estar pra sempre aqui e agora mesmo até desaparecer você vai sumir sem saber. Pra sempre vai ser agora mesmo, você pode virar essa frase de cabeça pra baixo ela repete pra sempre vai ser agora mesmo.
JÃO    Construir a ilha, as raízes debaixo do mar, uns tubérculos grossos salgados remanchando debaixo daquela barriga marrom, uma terra compacta, um cisne de pelo verde de penugem plântea, muito musgo muito musgo muito muito musgo muita hera muita hera muita hera
DU      (caixinha de música) Poema para pine p. Minha Brinco de Princesa. Você Morreu logo depois de sua primeira apresentação no Sérgio Porto. Acho que você não queria mesmo ser atriz. Também Morta de verão. Você Não resistiu ao verão.
        
*
sozinha na muretinha
urca
dois pescador ali
contando os baldes
conversas de gente
passando
algumas palavras
aumentam
de volume
perto
de mim
porque sim
e não porque escolhe ênfase qualquer nada significa nada nenhum senso estético
os pescador jogam linha de novo
reflexo de segurar a minha
mão na glote sinto fisgadinha que nem peixe
quando adolescente eu tinha
uma fantasia que eu dei pra mim
(eu acho essa frase tão sexy, vocês não acham? uma fantasia que eu dei pra mim?)
de morte
meu medo
de fim era o degolamento de bicicleta por pipa com cerol quando jogam o anzol do meu lado na urca eu POSSO ser fisgada pelo pescoço um rasguinho e adulta
esvaída sangue ar chuá devagarinho
*
Em troca de um pirulito já levaram uns dentes meus, meus cabelos, sangue
Já troquei uma juquinha por uma injeção. Eu via muita graça num programa de tv eu era pequena e uma pessoa ficava com o ouvido tampado e o apresentador falava você troca uma coxinha de galinha por uma carro de fórmula 1 e a pessoa não, o apresentador você prefere a coxinha o surdo sim e o público desesperado e o surdo excitadíssimo sem saber se tava arrasando e tendendo a achar que tava arrasando e a apresentadora e você troca a coxinha por um mês em macapá e a surda sim e a apresentadora e um mês no macapá por um carro de fórmula 1 e a surda não… Deus se existisse seria esse apresentador de televisão. Chegou num ponto de medo de deus existir e ser eu a ter que dar uma surra nele.

***


Cristina Flores no Jardim de Jardins Portáteis. Foto: Flor Brazil.


Entrevista com Cristina Flores (continuação).
Bliss Não Tem Bis: Você falou em algum momento que estava cansada da cena, eu não me lembro agora se você usou a palavra eficaz, ou eficiente, mas falou que estava cansada disso e que estava interessada em outras coisas. Eu queria que você falasse mais sobre isso.
Cristina Flores: Eu vejo que o resultado, a cena, o ato foi muito modificado, enquanto eu estive com relação a ele, ele foi se modificando muito. É claro, eu tenho 38 anos, então eu estou [trabalhando como atriz] desde os 20, lógico que é de se esperar que em 18 anos as coisas sejam modificadas, e isso é muito interessante, isso é muito importante ver. Ninguém acredita mais na causa e consequência de nada, muito menos de um texto. Isso tudo foi explodido, assim, as coisas não são causais, elas estão ganhando uma nova possibilidade de liberdade. Assim, é a realidade do acaso mesmo, é o futuro das coisas, e como isso é bom de olhar, como isso não é despreparo. Por exemplo, [em] Cosmocartas, eu não tenho uma Lygia a apresentar, final. Não é que essas coisas eram chapadas e agora a gente descobriu a pluralidade das coisas, não. As coisas não eram chapadas, mas existiam acordos que foram quebrados, que não existem mais. Isso está em jogo, agora, no ato, no “ao vivo”.
É diferente estar diante dos outros agora em 2014. É diferente, foi muito diferente, eu estava em cartaz durante junho do ano passado. Puta que pariu. E era uma peça que falava sobre ditadura de alguma maneira porque era uma adaptação da Virginia, chamava As horas entre nós, uma adaptação de Mrs. Dalloway situada em 70 no Brasil. Então tinha um lugar que a gente ecoou, discutiu sobre isso. E eu fui, eu ia direto da manifestação, a pé porque não tinha como chegar no Sérgio Porto, e tinha público, e foi bem legal.
Tem um lugar que para mim fez muito sentido, aquilo era um projeto que eu tinha, que eu propus por Joelson Gusson, que abarcou minha proposta, viabilizou junto com a companhia dele, do Dragão Voador. Lógico, eu também quero descansar, brincar e ficar de bobeira, como todo mundo, não é que eu tenha que ficar de aproveitamento artístico full time. Mas poxa eu quero existir no mundo depondo. E naquele momento, eu não me senti arregando. Eu me senti depondo, na minha, mas não encastelada. Minha festa diz respeito a esse mundo.
BNTB: Como é que é a sua observação, como é que você nesse lugar percebe as pessoas, você consegue observar quando você está lá atuando?
C: O público?
BNTB: O público.
C: Ah, eu acho que dentro do que é você observar alguém, porque isso o que está se passando relativo a sua cabeça, e o que está se passando relativo a minha cabeça, são coisas que nem a gente sabe. Então eu procuro sim, cada vez mais em todos os lugares, inclusive na cena, falar ó, olha ali, vamos lá; me perco muito, me perco muito. Os Dezequilibrados tem isso: a gente trabalhou muito em espaço não convencional. E viajando e aqui no Rio, assim sempre um lugar de: e aí, onde é que o público vai ficar? E aí, mas será que eles vão entender que é para vir para cá? Então assim, essas perguntas sempre fizeram muito parte da minha vida, e eu gosto de responder. Eu sempre gostei de receber as pessoas. Pode ser para depois dar um susto nelas, se for o caso, mas eu gosto de gente. Eu faço teatro porque eu gosto de ver gente, e é um lugar em que as pessoas vão mais desarmadas, é mais possível entendeu?
BNTB: Como é que foi o início como atriz, e como é que foi a entrada para a Companhia, dos Dezequilibrados?
C: Ah, eu fazia aula com a Celina Sodré, e o Ivan Sugahara, o Lucas Gôuvea, e a Ângela Câmara também, e nessa época, eu estava estudando Dostoiéviski, obcecada, e resolvi montar o Crime e Castigo. Falei com Celina, e eu namorava o Ivan Sugahara, na época, que dirigiu, e a Celina botou a maior pilha de a gente fazer isso. E foi foda. A gente nunca mais deixou de fazer milhares de coisas juntos, e ficamos em cartaz com essa peça muito tempo, estreamos na casa da Ângela, que, na época, era casada com o Lucas Gôuvea, e a gente ficou em cartaz num quarto dessa casa. A peça se chamava Um quarto de crime e castigo, ficamos em cartaz num quarto na Urca. Ficamos em cartaz dez meses.
BNTB: E como é que surgiu a história de ser num quarto?
C: Surgiu porque a gente não conseguiu teatro. A gente era uma companhia começando, não conseguia teatro. E tinha todo o [Antônio] Abujamra, na minha cabeça, falando faz onde for. E a gente ensaiava lá também, entre outros lugares e lá, e desalugou o quarto, e se chamava Um quarto de crime e castigo, repito, e a Celina foi ver um ensaio lá, e falou: gente, mas vocês não conseguiram teatro, é ótimo, vocês têm que fazer isso aqui. Tem que ser aqui, e aí, a gente fez numa época que não era muito comum. E foi maravilhoso para todos nós, [houve] noites memoráveis, com Ferreira Gullar, com várias outras pessoas interessantíssimas, a gente conversou a noite inteira depois da peça. Cabiam seis pessoas, aí depois a gente conseguiu abarrotar a casa com oito. A gente pendurou um lugar na janela de centro.
Vários lugares do Brasil foi no SESC essa peça, a gente fez em puteiro sei lá onde, em casa sei lá onde, eu não vou mais lembrar. A gente pensava proximidade, pensava encontro com as pessoas. Por ser no presente, o teatro precisa de encontro. Tudo bem, também tem muitas vezes gente com cara feia e a parada fica na sua cabeça também. E eu acho que isso é um lugar de encontro. Eu acho que isso que tem a ver com essa nova identificação com o que é falho. O erro está previsto. O erro não é só trágico, é um lugar comum que é extraordinário. A gente está num momento em que acendeu essa luz.
BNTB: A Laurie Anderson, uma performer norte-americana, tem um texto em que diz que está no próprio corpo como muitas pessoas estão no seu carro. Eu queria perguntar como é que é a sua relação com isso, com estar no próprio corpo, a sua relação com seu corpo, e como você pensa isso na questão da arte, do ato?
C: Eu estou em cena, meu exercício maior é de aterramento e aceitação. Eu fico muito num silêncio. Hoje em dia, eu fico, eu nem sei te explicar. Eu tenho toda uma pré antes, eu acho melhor discutir sobre a pré. Me lembra [que] eu fiz aula de acrobacia com o Claudio Baltar, e aí o Claudio, em vez de olhar a pessoa saltando, ele olhava a pessoa indo saltar, na fila. Sabe? Claudio, por que você não olha pro salto? Salto a gente vê antes de saltar. Não, o salto a gente vê, antes de saltar. A pessoa vai pro salto, é o salto. Você não precisa ver o salto, você sabe. É sobre o início. É sobre o antes, sobre escolha de relações que você tem, o ato é um refém, qual foi a pergunta?
BNTB: A pergunta foi a sobre a sua relação com seu corpo.
C: Então, eu escuto. Muito. E eu me escuto. Eu percebo assim, eu me escuto muito. Por exemplo: angustiada, angustiada não tecendo considerações sobre, mas véspera da estreia, muita coisa na cabeça, vendo muita coisa em casa rapidinho para sair correndo para ver mais coisa na rua, para ver mais coisa; e enquanto isso, namorado, mãe, amigos, sei lá quem ligou, ih tem que responder aquele email, ih estou arrumando várias confusões nessa peça, como é que vai ser aquilo que eu respondo para a iluminadora, e blábláblá. Eu estou andando pela casa e paro diante do pedestal [para microfone] que eu tenho que levar pro ensaio. Na minha lista mental naquele momento, eu não tinha colocado um pedestal. Mas eu pensando e andando a esmo pela casa, eu parei para nada. Eu não estava catando alguma coisa, eu estava andando para gastar energia, enquanto falava no telefone, e parei na frente do pedestal. Então eu conto muito comigo. Eu vou parar na frente do pedestal, eu vou parar.
E isso com o “ao vivo”, eu conto muito com isso, eu não entro em desespero. Eu tenho um reflexo forte no ato. Tenho memórias muito fortes do ato, mas nunca nesse lugar de desespero. Luto muito contra o medo, a cegueira, o nervosismo estéril. Acho que é muito sexual e de aceitação e de se conectar consigo, e se habitar. Sabe? Conto muito comigo, eu sei que eu vou ter o reflexo, que eu vou desviar.
Para mim, é muito recente, e recente mesmo alguma noção mais concreta disso – eu vou morrer. Eu sempre acho que vou desviar da bala a tempo. Acho que até sempre tive isso, por preparo de cena mesmo. Sei lá, eu acho que eu tenho um bom reflexo. Ou quando eu não tenho, não é tão dolorido cair. Já caí de bicicleta, e ralei, ralei. Mas tudo bem demorar duas semanas, as coisas cicatrizaram. Esse lugar de eu estou rodada. No bom sentido. Eu tenho horas de voo. E aquilo ali vai ficar tudo bem.
A coragem da fragilidade, a coragem dessa não é o confortinho. A fragilidade não diz de uma aceitação do medíocre. Não é disso que se trata, mas é do que também? Não sei. E não me sinto obrigada a saber. Que venham, que venha isso, é um penetrável. O que eu tenho pensado são os espaços e os penetráveis e eu chego com o meu brinquedo. E estou transformando o meu brinquedo num brinquedo cruzável.
BNTB: E nesse sentido mais aberto, como é que foi montado o Jardins? Porque em alguma medida, ali tem algumas coisas que são – não é a palavra marcadas, parece que seria o oposto disso, mas tem algumas unidades ou coisas mais ou menos – estabelecidas. E como é que você chegou neles, então, se não foi esse outro tipo de construção mais afixado?
C: Ele pode mudar, mas isso não significa que já não tenha algumas escolhas. Liberdade não é fazer todo dia de um jeito, liberdade é uma liberdade de olhar para aquilo de novo, e escolher de novo um jeito melhor de exprimir aquilo naquela hora. Então, você cria um vocabulário, você pesquisou esse vocabulário.
Existiram escolhas. Olha, eu sou obsessiva, paralelo a toda essa minha tranquilidade diante da novidade, eu adoro revisitar. Eu não vou falar repetir, porque não é. É como ler um livro duas vezes, como ler um livro duas vezes pode se parecer? E é muito fantástico isso, porque as palavras [na página] não têm nem entonação. Você relê uma palavra, ecoa diferente em você. Você está com outro espaço, aquilo cria outro som interno.

Eu fiz escolhas, e agora são essas, já têm mudanças para a segunda semana, e mesmo numa montagem, elas às vezes são maiores e mais radicais. O Jardins tem sido muito esse lugar de parar diante do pedestal, entendeu? As coisas sempre abertas, e é isso, assim esse papo é super rico, mas o Jardins tem patrocínio da Petrobrás, a Companhia também. O fato é que eu vivo disso, o Jardins está patrocinado, ele tem uma organização. Esse estado de vem, vem que tem, e estamos juntos, e eu cobrar 2 reais, vem de uma estrutura. Na realidade, você pode estruturar uma doideira dessas.



Jardins Portáteis. Foto: Flor Brazil.


Cristina Flores, Entrevista