Torquato Neto (parte 2 de 2) – “Brechas. Primeiro passo é tomar conta do espaço”.
20 de junho de 2014

Nesta segunda parte da postagem sobre a obra de Torquato Neto, trazemos uma pequena seleção de Geleia Geral, coluna mantida pelo poeta, entre agosto de 1971 e março de1972, no jornal Última Hora.  A Geleia Geral foi o diário da corte do desbunde brasileiro. Com um texto fortemente experimental (em primeira pessoa, fragmentário, explicitamente intertextual) Torquato diz de música, cinema, cartas de amigos, conversas de botequim, novidades e velharias editoriais entre outras coisas. Como chama atenção Paulo Roberto Pires (organizador dos dois volumes de Torquatália, espécie de “obra reunida”, na qual baseamos esses posts):
No contexto geral da grande imprensa, engessada de diversas formas pela censura, Geleia Geral é, mais do que um oásis de liberdade, uma aberração. Enclave da imprensa alternativa num jornal de grande circulação, fonte de informação preciosa, posto avançado da boa e agressiva polêmica, conclamação a uma mobilização política que, bem ao gosto da época, não está nos partidos ou movimentos, mas na própria existência. 
Publicados nos anos mais duros da ditadura militar brasileira – o governo Garrastazu Médice – os textos se pretendem uma brecha, uma forma de ocupar espaço e apresentar algum tipo de resistência (outra palavra-chave) contra a brutalidade do momento. É nesse sentido que resgatamos alguns deles aqui. Como uma lufada de ar necessária nesses dias de Copa do mundo da FIFA (e seu rastro de destruição) e nacionalismos rasteiros, gentrificação. Além disso, nos textos, vemos Torquato colocar, ou problematizar frequentemente de que modo se pode ser poeta em semelhante contexto. Cabe perguntar: em que consiste o fazer da poesia diante de tão manifestas expressões de autoritarismo e violência por parte das forças do Estado? Cabe perguntar: aonde vai e o que quer uma prosa tão ágil? O que fica – e jamais se fixa – sob seu olho rápido? Qual? Quer?
Como diz o poeta: um dia depois do outro. vamos continuar.       
Este post é dedicado à moçada do Ocupe Estelita(violentamente atacada pelas forças armadas do governador João Lyra) e aos amigos do Ocupa-Ouvidor-63.
Primeiro passo é tomar conta do espaço!
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{ terça-feira, 14 de junho de 1971}
Pessoal intransferível
Escute, meu chapa: um poeta não se faz com versos. É o risco, é estar sempre a perigo sem medo, é inventar o perigo e estar sempre recriando dificuldades pelo menos maiores, é destruir a linguagem e explodir com ela. Nada no bolso e nas mãos. Sabendo: perigoso, divino, maravilhoso.
Poetar é simples, como dois e dois são quatro sei que a vida vale a pena etc. Difícil é não correr com os versos debaixo do braço. Difícil é não cortar o cabelo quando a barra pesa.  Difícil, pra quem não é poeta, é não trair sua poesia, que pensando bem, não é nada, se você está sempre pronto a temer tudo, menos o ridículo de declamar versinhos sorridentes. E sair por aí, ainda por cima sorridente mestre de cerimônias, “herdeiro” da poesia dos que levaram a coisa até o fim e continuaram levando, graças a Deus.
E fique sabendo: quem não se arrisca não pode berrar. Citação: leve um homem e um boi no matadouro. O que berrar mais na hora do perigo é o homem, nem que seja o boi. Adeusão.
{quarta-feira, 15 de setembro de 1971}
almondegário
1. Ponha a boca no mundo: assim não é possível. Ou então feche o riso e aperte os dentes de uma vez. Ponha a boca no mundo: somente assim é possível, louca, qualquer coisa louca de uma vez.
2. Qual?
quer?
3. Atenção para o refrão: tudo é perigoso etc. Atenção para o refrão: tudo é divino, maravilhoso. Atenção para o refrão: atenção para o samba exaltação. Atenção.
4. Meu amigo preferido não me quer ferido pelo chão. Meu amigo mais incrível nunca foi possível em minha mão. Minha amiga mais maluca funde a cuca só pra me dizer que não.  Minha amiga mais bonita é meu irmão.
5. Torno a repetir: ai, ai, ai. Torno a repetir, meu amor: ai,ai,ai. Onde é que você, em que cidade escondida, em que muda, qual Tijuca? Lá também quero morar.
6. Qual
quer?
7. Quero porque quero este baião, baião de dois, feijão com arroz, pão seco de cada dia, negra solidão. Quero porque quero esse baião, corado, fresco o bem machão; coragem, peito, coração.
8. Ponha boca no mundo.
9. Eu não.
10. Todo dia, toda hora: quem samba fica. Quem não samba vai-se embora. E mais: todo dia menos dia mais dia é dia D.                                                                                                                                           
{sexta-feira, 8 de outubro de 1971}
marcha a revisão
1- Colagem
Quando eu recito ou quando eu escrevo, uma palavra – um mundo poluído – explode comigo e logo estilhaços desse corpo arrebentando, retalho em lasca de corte e fogo e morte (como napalm) espalham imprevisíveis significados ao redor de mim: informação. Informação: há palavras que estão nos dicionários e outras que não estão e outras que eu posso inventar, inverter. Todas juntas à minha disposição, aparentemente limpas, estão imundas e transformam-se, tanto tempo, num amontoado de ciladas.
Uma palavra é mais do que uma palavra, além de uma cilada. Elas estão no mundo e portanto explodem, bombardeadas. Agora não se fala nada e tudo é transparente em cada forma: qualquer palavra é um gesto e em sua orla os pássaros de sempre cantam nos hospícios.  No principio era o verbo e o apocalipse, aqui será apenas uma espécie de caos no interior tenebroso da semântica. Salve-se quem puder.   
2- Cogito
eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível
eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora
eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim
eu sou como sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim
{ terça-feira, 2 de novembro de 1971}
mais conversa fiada
1. E agora? Eu não conheço uma resposta melhor do que esta: vamos continuar. E a primeira providência continua sendo a mesma de sempre: conquistar espaço, ocupar espaço. Inventar os filmes, fornecer argumentos para os senhores historiadores que ainda vão pintar, mais tarde, depois que a vida não se extinga. Aqui como em toda parte: agora.
2. Thiago, meu filho, continua crescendo e reparando. E agora? Continuemos, parar é que não é possível. Apocalipse só se for agora, eu só quero saber do que pode dar certo e não é perto nem está no fim. Faz um ano eu me dizia, no hospício: isso aqui não pode ser um refúgio e foi assim que eu saí por aí, foi por isso. Abaixo os meus refúgios, chega.
3. Abaixo a psiquiatria dos salões e dos hospícios. A psiquiatria é repressiva, consultem isso, curtam. Chega: cheguem lá, me chamem pelo meu próprio nome, vamos querer saber: e nós, aonde vamos? Um amigo meu encontrou na Rio-Bahia um caminhão que dizia: não me sigam que eu não sou novela. É cada um por si e Deus por todos nós.
4. Chegue e me diga: eu te amo mesmo assim. Eu devo responder igual, como sempre. Chegue e me aperte na parede, grite comigo: Babilônia. E depois se esqueça de mim e continue. Vamos transar, vamos pintar, vamos gritar.
5. A notícia dos jornais é a seguinte: leiam tudo. O lado de fora é frio. Fogo na boneca. E perdão pela palavra.
6. Eu quero muita alquimia, eu quero muita magia negra, amizade. Eu quero morrer cansado: não quero. Rogério Duarte estava me dizendo que na rua dos alquimistas todo dia explodia uma casa. Pum! Pum! Pum! Isso também é um batuque, tambores, tambores. A palavra subterrânea viu Uvigs? se escreve com i e não com e, manda me dizer, de Nova York, Hélio Oiticica, Waly está por aí, revendo amigos, graças a Deus. Todo mundo se viu direitinho no show de Gal e insisto nesse tema, calma, morena: me envenenou. O que é que eu posso fazer? E agora?    
7. Quem para fica. E quem não se comunica se trumbica. Vamos continuar.
8. Eu preciso de espaço pra sair pintando. Eu me confesso e digo, antes e depois: pelo sinal da Santa Cruz, livrai-nos Deus, nosso senhor, dos nossos inimigos. E vergara me responde: mas é preciso não fazer confusão. Ivan Cardoso me anima com seu filme de vampiro, logo a mim, vidrado em vampiros. Modificação radical do repertório: o que é que é isso?
9. Parece brincadeira e também é: se quiser grilo, tem. Se quiser samba, faça. Se quiser culpa, curta. Mas assim: abaixo a psiquiatria. Leiam as cartas de Artaud na Flor que é lindo. João Gilberto é o melhor guru. Gal a melhor cantora. Poetas do Brasil: poesia! O romantismo é um neo-romantismo. Haroldo de Campos sacando, numa conversa com HO, em NY, revisão crítica do museu brasileiro. Mas o que é isso?
10. Disponham: em primeiro lugar, o espaço.
11. E o fim no começo, como sempre.
    
{quarta-feira, 3 de novembro de 1971}
assunto pessoal
Na geleia geral brasileira que esta revista anuncia: alguma novidade? Porque eu mesmo não sei de nada, estou por fora. O fim de semana eu passei por aí, de boteco em boteco. E agora acabou.
Alguns leitores me escrevem concordando ou discordando do que eu ando escrevendo por aqui.  Já pensei em responder algumas dessas cartas, mas desisto.  José Gil Júnior, de Teresina, acertou em cheio seu palpite: tudo ainda está doendo muito, amizade, mas pelo menos está sangrando por aqui. Deixo sangrar.
Ao poeta Sailormoon estou devendo a fé que eu já havia esquecido. Mas eu nunca disse pra ninguém e digo logo desta vez: era um grilo zumbindo e eu não acreditava mais que as palavras pudessem servir de nada. FATAL e VIOLETO, palavras-destaque no show de Gal, by Waly, desfizeram meu absurdo encantamento pelo grilo. Não é nada daquilo e é o mesmo de sempre: tudo é perigoso, divino, maravilhoso. E as palavras, eu aprendi novamente, não são armas inúteis.
Mas o importante, eu continuo, o importante mesmo é não desistir nunca. La noche en que me quieras será de plenilúnio: não digo: adeus batucada: não digo: pra dizer adeus: não digo: nunca. Na União Soviética, eu soube, na URSS a psiquiatria já se desmascarou e o hospício do Estado são as prisões do Estado. Isso me diz algum respeito? Não me diz nenhum respeito, graças a Deus.
E chega. Amanhã, em São Paulo, eu penso nisso tudo.
{terça-feira, 16 de novembro de 1971}
Literato cantabile
Pílulas do tipo deixa-o-pau-rolar. Na mesma base: deixa.
* Primeiro passo é tomar conta do espaço. Tem espaço à beça e só você sabe o que pode fazer com o seu. Antes, ocupe. Depois se vire.
* Não se esqueça de que você está cercado, olhe em volta e dê um role. Cuidado com as imitações.
* Imagine o verão em chamas e fique sabendo que é por isso mesmo. A hora do crime precede a hora da vingança, e o espetáculo continua. Cada um na sua, silêncio.
* Acredite na realidade e procure brechas que ela sempre deixa. Leia o jornal, não tenha medo de mim, fique sabendo: drenagem, dragas e tratores pelo pântano. Acredite.
* A barra pesou? Arranje uma transa e segure, mas não se dependure. Use o ponto de apoio e bote os pés no chão. Da macrobiótica à noite do meu bem, tudo segura, não cala, não caia.
* Não acredite em nada que eu digo. Eu ainda preciso me olhar no espelho, igual a Duda na cantiga de Macau. E não sei quem está do meu lado. Pode desconfiar e não embarque nessa.
* Esqueça tudo que eu não consigo mais deixar de lado. Apareça com a luz do sol e não desapareça mais sutil, mas é o próprio. Se for por mim não duvide do bem nem mal e fique sempre na escuta, plantão permanente, negra solidão: Deus nos livre de ter medo agora, logo agora que chegou na frente o fundo da questão: Deus não está de qualquer lado e embora esteja em todos continua nos mandando palavras. Acredite.
* Poesia. Acredite na poesia e viva. E viva ela. Morra por ela se você se liga, mas, por favor, não traia. O poeta que traiu sua poesia é um infeliz completo e morto. Resista, criatura.
* Quando eu nasci, um anjo louco, morto, curto, torto veio ler a minha mão. Não era um anjo barroco: era um anjo muito pouco, louco, solto em suas asas de avião. E eis que o anjo me disse, apertando a minha mão entre um sorriso de dentes: vai, bicho, desafinar o coro dos contestes. Macalé botou música clássica e a transa ficou condenada: Let’s play that?
* Passo e me esqueço: como um caminhão que um amigo meu (eu já contei) encontrou na Rio- Bahia: Não me acompanhe que eu não sou novela. Tá sabendo? Esqueça que eu existo.     
* Psiquiatria, por exemplo, está nessa e só está esperando. Mantenha os olhos bem abertos, transe e ande por aí, brinque em serviço, não brinque, deixe escorrer mas preste atenção: sem grilos, afaste os grilos, não tenha medo, guarde a sanidade como quem guarda a coroa do mundo, use. E nem disso tenha medo. Transe e não se tranque.
* Principalmente, amor, não se descuide. Bater papo com paredes é o fim da picada. Principalmente, amor, não se descuide.
* Fale de você.  Conte o que você passou. Vamos falar da gente e nem precisa falar de ninguém. Deixe os otários curtirem passadismo, literário ou não; não se descuide, fale de você, conte, se vire. A nossa vida, à parte a gente, explica tudo. Autobiografias- precoces. Poesia, vida e morte, o coração vagabundo querendo guardar o mundo, serestas.
* Sínteses. Painéis. Afrescos. Reportagens. Sínteses. Poesia. Posição. Planos gerais.  “o close up é uma questão de amor”. Amor.
* Pílulas do tipo deixa-o-pau-rolar. Na mesma base: deixa. Primeiro passo é tomar conta do espaço. Faça do seu o que você puder, depois se vire. E tome.
* Eu, pessoalmente, acredito em vampiros. O beijo frio, os dentes quentes, um gosto de mel.        
{quarta-feira, 17 de novembro de 1971}
por hoje, acabou
* O dia seguinte de repente antes do sim. Não faço a menor questão de fazer sentido. Basta meu amor redivivo.
* Número dois desta seleta: agora, aqui e agora. Citação: leve um boi ao matadouro e um homem ao tal matadouro. O que berrar menos merece morrer. É o boi.
* Escutem antes que todos se calem. Não prestem a mínima atenção ao que eu diga. Mas, por favor, não me esqueça. Não se esqueça de mim, não desapareça. Deixa que eu conto: três, dois, um, zero.
* Tem um verão que vai pintar por aí, breve, conforme as oscilações. Vamos à Bahia, as coisas começam a acontecer. Conceição da Praia começa com dezembro e depois o pau curte até o carnaval. Tem todas as festas e tem muito espaço. Bahia!
* Vamos viajar. Vamos sair do lado de fora, mesmo aqui do lado de dentro. Vamos acreditar nisso. Vai e volta, firme. Bahia!
* Por hoje é tudo isso mesmo. Você sabe que isso aqui não tem mais sentido.  A geleia geral não deixa de liquidificar, mas pelo menos vamos encerrar em paz.
* Me deixe de lado. Você, meu amor, não quer saber de compreender. Você quer é julgar. Que juiz é esse?
* Levando a sério: chega. Levando a sério: acabou. Levando a sério: recomecemos. Um dia depois do outro.
* Notícia: Ivan Cardoso filma em paz, graças a Deus. E todo mundo com muito sacrifício, graças a Deus. Esse não sair disso, graças a Deus, muda de qualquer jeito. Eu, pessoalmente, não suporto mais a vossa companhia, prezado leitor. Pode?
* E nem chega a ser charme, mas podem ficar sabendo: tem gente viva pelas redondezas. Ontem, hoje, sempre: brasas, fogo, purgatório, inferno tropical.
* Deus me fez e me juntou a mim minha medula. É osso.
* Quando estiver assim, não me apareça. Cresça e desapareça da minha frente, Thiago, meu filho. Me evite, de preferência: eu tenho a minha culpa. Adeus. Apareça. Viva.
* É possível esse tipo de festa?
* Fale por mim e diga, meu amor, o que eu não preciso mais dizer.
* Assim não é possível. Assim, desta maneira, meu amor, me acabas.
* Tente sacar a minha, cresça, apareça. Se vire.
* O poeta que não me visita nem me telefona nem me diz adeus; nunc et semper; meu pandeiro bamba, meu tamborim de samba, já é de madrugada; meu repertorio faliu.
* Pode ser mais enrolado? Não? Não? Não?
* Averiguando as ocorrências: na geleia geral brasileira é a mesma dança na sala, no Canecão, na TV – e quem não dança se cala, não vê no meio da sala as relíquias, as relíquias, as relíquias do Brasil.
* Me olho no espalho. Nada.
* Meu olho, meus pelos. Cada manhã a mesma transa, cada jornada a mesma casa, pode? Abaixo a minha reticência. Help.
* Escutem, antes que a gente pense em calar: cavalares ondas do riopânico atravessam o oceano e sopram, sopram, sopram. Deixa sangrar.
* Espero ter acabado por hoje. É melhor conversarmos calados, em voz alta, eu, amizade? Abaixo a Geleia Geral. Abaixo a Geleia Geral. Mal, mal, mal, mal, mal, mal. Findou.

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Torquato Neto