Histórias da Revista Código: a materialidade da palavra ou faiscamento incessante do signans
5 de junho de 2014

Se, por um lado, ao longo das duas últimas semanas nos dedicamos à reflexão sobre práticas editoriais de poesia correntes no mundo em que atuamos, hoje, fazemos o movimento oposto, o de buscar diferentes maneiras de pensar a atividade poética e a edição de poesia na análise de um passado próximo o suficiente para informar a cena contemporânea, mas distante o bastante para apresentar problemáticas contextuais específicas, diferentes das encontradas no mundo de hoje. Nesse sentido, apresentamos o breve perfil da revista Código elaborado por Clarissa Freitas, ao longo de sua pesquisa acerca dos periódicos de poesia surgidos a partir da década de 1970 no Brasil. Além disso, incluímos um PDF, de digitalização própria, do número 08 da revista, possibilitando um cotejo imediato entre exercício crítico e conteúdo artístico.

O que fica claro, num primeiro momento, é que diferentemente das narrativas críticas cujo gesto analítico é sempre o de dividir, separar em tendências apresentadas como antagônicas ou rivais, o que constitui a prática da edição de um periódico marcado pela busca da experimentação poética é a confluência de diferentes tradições formais e o diálogo entre artistas diversos. Talvez, aqui, um outro ponto importante: o de que uma revista não se situa nem se inscreve dentro dos limites desta ou daquela arte, e que talvez esses limites ou fronteiras sejam impensáveis já desde algum tempo, o discurso de um periódico poético pode ser entendido como exercício plural e de câmbio constante entre códigos e transcodificações múltiplas.

Esperamos com a postagem contribuir, minimamente, para a divulgação de periódicos e para uma reflexão, necessária e talvez urgente tanto no âmbito da pesquisa quanto na prática contemporânea, sobre o gesto de editar poesia [no Brasil].

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CÓDIGO

por Clarissa Freitas 

A revista Código foi editada na Bahia, deslocando tanto o centro de produção cultural e poética de um suposto eixo de capitais do Sudeste do país, quanto incluindo novas referências para a experimentação concreta e visual no âmbito da poesia. Essa não só é uma das mais importantes, como também é uma das mais influentes dentre as revistas independentes de filiação concreta marcando fortemente toda uma geração de jovens poetas nordestinos e mesmo paulistanos e de outras cidades (não necessariamente capitais).   
O que chama muita atenção em relação a essa revista é a sua longevidade: o fato de terem sido publicadas  edições da nº1 até a de nº12,  atravessando a década de 70 e chegando até  1989, quando foi publicada a última. Convém lembrar que a maior parte das publicações de 70 não passava do primeiro número. Esse ato de resistência tem que ser atribuído a Ethos Albino de Souza,  poeta e financiador da revista.
A revista de nº 1 apresenta formato pequeno e traz,  na capa e quarta capa,  o poema Códigode Augusto de Campos. O poema acaba por virar a logo da revista e aparece em todas as edições. Certamente apresenta um projeto gráfico que dialoga com a metalinguagem de outros periódicos do período, como Navilouca e Polem. A revista sai sem título destacado como elemento à parte da imagem do ponto de vista do seu planejamento gráfico, constando apenas com o poema de Augusto de Campos na capa. 
Conta-se que o seu lançamento se deu em um show de Gal Costa em Salvador, e a partir daí, as pessoas que tiveram seu primeiro número nas mãos passaram a chamá-la por Código e o nome ficou. Assim, o poema passou a figurar em todas as 12 capas posteriores como um logotipo a identificar a publicação, o que se pode observar  na capa da nº 8:
                                 
  
   capa, Código



Os dois primeiros números da revista foram editados por Antonio Risério. Erthos, entretanto, estaria completamente à frente a partir da número 4, muito porque Risério viria para São Paulo estudar Ciências Sociais na USP.
Como muitas revistas de poesia da época, a publicação não gerava lucro. De todas as revistas Pós-Noigrandes, ela sempre foi a mais cara e sofisticada do ponto de vista do planejamento visual e da concepção gráfica, feita dentro de um circuito produtivo profissional. A revista era deixada sob consignação em algumas livrarias simpatizantes de Salvador, São Paulo, Curitiba e Rio de Janeiro. Constata-se, todavia, que seu alcance era ainda muito restrito ao pequeno universo de poetas, músicos e artistas plásticos.
Entre os autores que colaboraram nos cinco primeiro números, destacam-se: Paulo Leminski, José Lino Grünewald, Antonio Risério, Régis Bonvicino, Duda Machado, Aldo Fortes, Nelson Ascher, Leonora de Barros, entre outros, que paralelamente, também possuíam trabalhos em publicações como Poesia em G e Através(que apresentam como editores Leonora de Barros e Décio Pignatari, respectivamente).
Código apresenta flexibilidade em sua proposta editorial, que englobava poemas dos principais colaboradores já citados, mas também traduções e transcriações de obras de poetas que inspiravam essa geração como Maiakóvski, Mallarmé, Ezra Pound, Sousândrade, T.S Eliot e Oswald de Andrade (notando-se, assim, uma certa fidelidade ao paideuma estabelecido pelo grupo paulista da arte/poesia concreta), como é possível observar nas páginas a seguir:
                             


página s/n, Código


página s/n, Código


Outros tipos de texto marcam a confluência de reflexões poéticas promovidas pela edição do periódico, como entrevistas, resenhas, ensaios que tratavam de temas comuns ao grupo e que, de alguma forma,  colaboravam para manutenção  das ideias fundamentais do  Plano piloto da Poesia Concreta, mesmo 20 anos após a sua elaboração.  

“Também é perceptível em Código (na verdade, a nível de todo o concreto) a imposição de uma autoridade poético-discursiva, no sentido de estabelecer novas leis de produção literária, de estabelecer cânones e, paralelamente, de estabelecer-se como cânone, fazendo dos irmãos Campos e Décio Pignatari referência no que diz respeito a qualquer assunto literário nacional, no que concerne a definição da contemporaneidade literária” (Eduard Marquat).


Chama atenção no mesmo texto sobre a revista Código a exclusão de uma dimensão de diálogo com outras formas poéticas como a poesia marginal. No mesmo estudo, o autor (Marquat) anuncia sua dificuldade em obter os exemplares ficando o seu estudo restrito aos números publicados entre 1975-1981.  Infelizmente, não foi possível contato com todos os exemplares da revista Código  para a redação do pequeno perfil que ora apresentamos, mas é nítido que um posicionamento mais “radical” em relação aos textos concretistas entra em questão, por exemplo, com a publicação da História em Quadrinho de Angeli e Glauco Matoso intitulada O Marginal, ou no poema visual-marginal de Paulo Braun, ou nos poemas Nosso amor ridículo se enquadra na moldura dos séculos e Fêmeo-fêmea de Waly Salomão.


página s/n, Código


O estudo de Felipe Martins Paros intitulado Decifrando códigos: entendendo o papel e o lugar da revista Código no Cenário da poesia visual brasileira das décadas de 70, 80 e 90 do século XX traz uma visão bastante interessante sobre a participação dos novos poetas na revista que extrapola a questão de divisões entre grupos ou fronteiras geracionais estéticas. Na verdade, a participação dos poetas estava ligada ao desenvolvimento de um tipo de poesia que flerta declaradamente com as artes visuais, além de se relacionar com o mundo de comunicação de massa e do consumo, com as iniciativas de cultura urbana (como o grafitti) e com as novas tecnologias (como o computador). Nesse sentido, nota-se uma abertura do poema visual, que passa a não ser pensado somente nos termos da relação entre tipos e cores e sua distribuição mais ou menos geométrica na espacialização da página. São incorporados elementos que, antes, poderiam ser entendidos como ruído, sujeira, ou incapazes de produzir informação estética relevante, desde a menção explícita a objetos do mundo do consumo (sem que isso correspondesse a uma posição de negação desses objetos, num processo de deslocamento que busca tomar como problema o quanto tais materiais podem ser poéticos sem com isso deixar o texto cair em estratégias de publicidade) até a intervenção inovadora na ortografia das palavras. 
Seu papel então, no que diz respeito à poesia de cunho visual e intersemiótico, foi fundamental, ao possibilitar que as ideias concretas pudessem fluir entre uma juventude interessada suficientemente nelas para transgredi-las e, em grande medida, ultrapassá-las. Trata-se de uma dobra operada na prática do poema visual que busca atualizá-la a partir da referência às discussões políticas e estéticas empreendidas de 68 em diante, como as realizadas pela Tropicália, pela Poesia Marginal, pelo cinema de Bressane e Sganzerla, etc. No número aqui disponibilizado para visualização e download, nota-se tal gesto pela diversidade de nomes chamados para contribuir, integrando artistas de diferentes áreas e orientações: Caetano Veloso aparece como tradutor de trechos de “Melantcha” de Gertrude Stein – com uma imagem que busca interpretar visualmente o gesto tradutório, apresentando lado a lado uma reprodução do famoso retrato da poeta feito por Picasso, e um desenho que reproduz, em traços brutos, o retrato com o rosto do tropicalista no lugar; Bressane apresenta um ensaio de língua e imagem sobre filmepoema(s), etc. 
Dentro de tal perspectiva, a página de quadrinhos de Glauco e Angeli é bastante representativa do gesto de abarcar, a partir de uma referência estabelecida, todas as diferentes práticas poéticas que surgiram em sua contemporaneidade, com algum distanciamento (humorístico e crítico) de todas elas. O título do poema-charge “O marginal” já joga com a ambiguidade da palavra que, desde o lema “Seja Marginal, Seja Herói” da bandeira de Cara de Cavalo feita por Hélio Oiticica, marca uma certa posição na produção artística brasileira, além de fazer menção clara à figura do poeta marginal – que é tanto a posição do poeta e da poesia na sociedade moderna, como ironicamente o próprio Glauco, e os poetas que compõem ou integram o que se denomina comumente como Poesia Marginal. No primeiro quadro, num ambiente urbano de grande metrópole, contra um muro pichado, aparecem dois personagens em trânsito em direções opostas: o primeiro, um executivo, alguém de dentro da ordem do capital (caracterizado por ser rotundo, trajar-se formalmente, carregar uma valise, usar um bigode “limpo” e óculos de grau, numa espécie de código visual da seriedade, ou de uma gravidade normativa); contra ele, o personagem-título, sua antítese completa (magricela, roupas informais, cabelo e barba em uma composição marcada por uma espécie de excesso desregrado, e óculos escuros (cego?)). O último está segurando um “T” deitado em posição que o faz assemelhar-se a uma arma, e a boca aberta com dentes destacado mostra certa postura agressiva. A frase dita pelo marginal/poeta, “Mãos ao alto! Isso é um poema”, tanto chama atenção para o dado surpreendente de deslocar uma cena de violência urbana para uma manifestação artística, ao substituir o esperado ‘assalto’ por poema, quanto aponta, por negativo, para o fato da frase original conter uma rima e uma certa estruturação típica de técnicas poéticas tradicionais. O procedimento de surpreender, contrariando as expectativas de leitura, também se encontra na outra frase presente no quadro, a pichada: “Abaixo o sexo. Acima o umbigo. D.P.”. Se a primeira declaração parece apresentar um protesto, numa clara menção às pichações de “Abaixo a ditadura”, insinuando ir contra ou fazer guerra ao sexo, a segunda reinterpreta o significado de “Abaixo” como simples descrição espacial. Assim, o par nos coloca no registro dos quadris e do baixo ventre. A assinatura (D.P.), identificada por asterisco didático-irônico à expressão Domínio Público, ao invés do poeta concreto Décio Pignatari, aponta para um questionamento do jogo da autoria (no poema, na arte, e na intervenção no cenário urbano). A partir daí, a cena se desenrola sempre operando num registro duplo da imagem da violência urbana e do discurso que se apropria de diferentes embates estéticos a partir de trocadilhos e de deslocamentos em que diferentes perspectivas teóricas ou ideológicas sobre a arte e sua relação com a sociedade são abordados na linguagem coloquial da cena  da vida cotidiana e da piada. Ao final, o que se encontra não é tanto uma filiação a essa ou àquela perspectiva sobre a poesia, mas um distanciamento humorístico que permite o câmbio constante de experimentações de vida e de linguagem diversas.
A divulgação dos “outros concretos”, sempre paralela às produções de Augusto, Haroldo e Décio, apresenta-se como amostragem das influências do movimento.  Código se constitui como uma revista que se predispõe a mostrar os desdobramentos da poesia visual e do pensamento poético do grupo Concreto, colocando-os em um diálogo plural com as práticas artísticas diversas que informam o contexto do final dos anos 70 e da década seguinte.
De brinde, um presente em pdf: a Revista Código n°8 [clicar aqui].

Clarissa Freitas, Edição de poesia - modos de fazer e desfazer, Revista Código