Uma resposta apropriada para uma nova condição da escrita
30 de abril de 2014

Se abril foi o mês de retorno do blog à agenda de postagens semanais, maio será em definitivo o momento em que o coletivo Bliss não tem bis retoma, após os lançamentos na Bahia, os eventos de leitura e reflexão do fazer poético. São quatro os eventos programados para o Rio de Janeiro, dois deles com a presença dos poetas Marília Garcia e Aníbal Cristobo:
06/05 (terça), 20h – CEP 20.000/ CEP VINTEMÉIER
Retorno do CEP 20.000, agora em novo espaço. Dentre os apresentados, estará Lucas Matos. Estarão disponíveis para compra também as revistas-disco de poesia Bliss não tem bis.
Local: Imperator, na Rua Dias da Cruz, 170 – Méier.
08/05 (quinta), 18h – CORPO, POLÍTICA E CANÇÃO
Performance seguida de comunicação sobre voz, som e poesia – por Lucas Matos.
Oferecido pela Escola de Letras da UNIRIO – grupo de pesquisas CNPq Literatura e Linguagens: fronteira, espaço, performance, memória.
Local: Av. Pasteur 436 – fundos – CLA – sala 504 – Urca.
13/05 (terça), 19h30 – EDIÇÃO DE POESIA HOJE: MODOS DE FAZER E DESFAZER
Mesa de debate com a presença de Aníbal Cristobo (Kriller71 Ediciones), Italo Moriconi (Ciranda da Poesia/EdUERJ) e Marília Garcia (Revista Modo de Usar & Co)
Mediadores: Lucas Matos e Marcio Junqueira (ambos editores da Revista-Disco e blog Bliss Não Tem Bis).
Local: Casa de Leitura Dirce Côrtes Riedel. Rua das Palmeiras, 82 – Botafogo.
15/05 (quinta), 19h30 – LEITURAS DE POESIA/PERFORMANCES POÉTICAS
Apresentações dos poetas: Aníbal Cristobo, Clarissa Freitas, Lucas Matos, Marcio Junqueira, Marília Garcia e Thiago Gallego.
Local: Casa de Leitura Dirce Côrtes Riedel. Rua das Palmeiras, 82 – Botafogo.
*
Propomos esta semana, um olhar sobre formas de escrita cuja (não-)criação passa pela reapropriação do material já presente no mundo deslocado de sua posição inicial.
Referindo-se à sua técnica de criação por justaposição de fragmentos de materiais diversos, que vão da própria memória a textos e imagens de revistas, William  Burroughs declarou em entrevista à Paris Review, em 1965, “O que é qualquer texto senão um cutup?”. De forma similar, Fabiana Faleiros monta sua segunda autobiografia (com trechos publicados neste blog) num misto de improviso – o livro é pensado para um lançamento ao vivo em Microsoft Word – com textos previamente arranjados “de sites colaborativos como Wikipédia, yahoo respostas, facebook”. Faz parte da obra também, o próprio histórico de pesquisa da internet.
Já em trabalhos como os de Pablo Katchdjian,  “eu” embora ator na interpretação e rearranjo do material selecionado, não é o foco. Em seu El Aleph Engordado, o argentino, sem modificar a ordem e pontuação das quatro mil palavras de O Aleph, de Borges, insere entre elas cinco mil e seissentas outras, de modo a gerar um outro texto, onde, nas palavras do próprio autor, “se alguém quiser, pode voltar ao texto de Borges a partir deste”.
Seu El Martín Fierro Ordenado Alfabéticamente, reordena os versos do épico argentino de José Hernández, em um processo que Marília Garcia repetiria com A teus pés, de Ana Cristina Cesar. O que se tem difundido enquanto prática artística contemporânea, levando a crítica norte-americana Marjorie Perloff a formular a ideia de “unoriginal genius”, é um questionamento da atividade artística, em que o processo de criação é revisto, sendo compreendido não a partir da produção de algo inédito, mas a partir da reordenação ou recolocação de objetos/textos/informação previamente existentes, de modo a se permitir observar o quanto do contexto atua na produção de significados. O que marca os procedimentos atuais, no sentido de uma diferenciação com relação a práticas bastante antigas de escrita (como o pastiche, a paródia, e mesmo a colagem, o ready made, e o cut up) é a ênfase na utilização de novos aparelhos de organização e de escrita (seja pela marca das ferramentas de pesquisa, seja por fazer algo que se destaca que poderia ser feito por um robô) bem como certa tendência ao repetitivo, à acumulação informativa, por meio de critérios que não revelam, de imediato, uma interpretação subjetiva (reduzindo as marcas de pessoalidade de um texto a um mínimo inextinguível). Os gestos básicos desse modo de escrita seriam: selecionar (escolher), (re)ordenar e deslocar. Nota-se uma contração, por meio de um pensamento espacializado, da diferença que Borges notava nos textos com as mesmas palavras – um do Quixote de Cervantes, outro do Quixote de Pierre Mènard – mas cuja diferença contextual era produzida pela temporalidade, ou pelo espírito do tempo.
O que interessa aqui, porém, é sobretudo como esses deslocamentos podem atuar em diferentes obras e propostas poéticas. Reunimos, então, trabalhos de Angélica Freitas e Marília Garcia a um ensaio-tradução-colagem de Lucas Matos acerca da escrita não criativa, que lida com a questão “quanta criação cabe num texto sobre as técnicas de não criatividade?”. Junto às googlagens de Angélica Freitas, também a vídeo performance de Rwolf Kindle para os poemas, dirigida por Marcio Junqueira e apresentada em alguns dos eventos de lançamento da revista-disco Bliss não tem bis na Bahia.
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Angélica Freitas
POEMAS COM O AUXÍLIO DO GOOGLE
a mulher vai

a mulher vai ao cinema
a mulher vai aprontar
a mulher vai ovular
a mulher vai sentir prazer
a mulher vai implorar por mais
a mulher vai ficar louca por você
a mulher vai dormir
a mulher vai ao médico e se queixa
a mulher vai notando o crescimento do seu ventre
a mulher vai passar nove meses com uma criança na barriga
a mulher vai realizar o primeiro ultrassom
a mulher vai para a sala de cirurgia e recebe a anestesia
a mulher vai se casar, ter filhos, cuidar do marido e das crianças
a mulher vai a um curandeiro, com um grave problema de hemorroidas
a mulher vai sentindo-se abandonada
a mulher vai gastando seus folículos primários
a mulher vai se arrepender até a última lágrima
a mulher vai ao canil disposta a comprar um cachorro
a mulher vai para o fundo da camioneta e senta-se, choramingando
a mulher vai colocar ordem na casa
a mulher vai ao supermercado comprar o que é necessário
a mulher vai para dentro de casa para preparar a mesa
a mulher vai desistir de tentar mudar um homem
a mulher vai mais cedo para a agência
a mulher vai pro trabalho e deixa o homem na cozinha
a mulher vai embora e deixa uma penca de filhos
a mulher vai no fim sair com outro
a mulher vai ganhar um lugar ao sol
a mulher vai poder dirigir no afeganistão
*
a mulher pensa
a mulher pensa com o coração
a mulher pensa de outra maneira
a mulher pensa em nada ou em algo muito semelhante
a mulher pensa será em compras talvez
a mulher pensa por metáforas
a mulher pensa sobre sexo
a mulher pensa mais em sexo
a mulher pensa: se fizer isso com ele, vai achar que faço com todos
a mulher pensa muito antes de fazer besteira
a mulher pensa em engravidar
a mulher pensa que pode se dedicar integralmente à carreira
a mulher pensa nisto, antes de engravidar
a mulher pensa imediatamente que pode estar grávida
a mulher pensa mais rápido, porém o homem não acredita
a mulher pensa que sabe sobre homens
a mulher pensa que deve ser uma “supermãe” perfeita
a mulher pensa primeiro nos outros
a mulher pensa em roupas, crianças, viagens, passeios
a mulher pensa não só na roupa, mas no cabelo, na maquiagem
a mulher pensa no que poderia ter acontecido
a mulher pensa que a culpa foi dela
a mulher pensa em tudo isso
a mulher pensa emocionalmente
*
a mulher quer
a mulher quer ser amada
a mulher quer um cara rico
a mulher quer conquistar um homem
a mulher quer um homem
a mulher quer sexo
a mulher quer tanto sexo quanto o homem
a mulher quer que a preparação para o sexo aconteça lentamente
a mulher quer ser possuída
a mulher quer um macho que a lidere
a mulher quer casar
a mulher quer que o marido seja seu companheiro
a mulher quer um cavalheiro que cuide dela
a mulher quer amar os filhos, o homem e o lar
a mulher quer conversar pra discutir a relação
a mulher quer conversa e o botafogo quer ganhar do flamengo
a mulher quer apenas que você escute
a mulher quer algo mais do que isso, quer amor, carinho
a mulher quer segurança
a mulher quer mexer no seu e-mail
a mulher quer ter estabilidade
a mulher quer nextel
a mulher quer ter um cartão de crédito
a mulher quer tudo
a mulher quer ser valorizada e respeitada
a mulher quer se separar
a mulher quer ganhar, decidir e consumir mais
a mulher quer se suicidar
*





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De: Angélica Freitas
Enviada: Segunda-feira, 28 de Outubro de 2013 15:31
Para: Marcio Junqueira [para seus alunos da graduação em Letras na UNEB]
Assunto: poemas com o google
oi, márcio, tudo bem? espero que sim. você me pediu algumas linhas sobre os poemas escritos com o google. pois bem: comecei a fazer algumas experiências com o google lá por 2004, 2005, por curiosidade, mesmo. não tinha notícia de ninguém fazendo poemas com o google. e bem, minha preocupação nunca é “fazer poemas”, mas ver no que a coisa vai dar, sempre tentando me divertir bastante no caminho. a primeira experiência de que gostei deveras foi a partir de textos encontrados na internet sobre o episódio do tiro que o verlaine deu na mão do rimbaud depois de uma briga. coloquei as palavras “rimbaud shot verlaine” no google e li os resultados. eram vários textos contando a história de maneiras levemente diferentes, com algumas disparidades nas datas do ocorrido, por exemplo. recortei frases dos textos e fui montando um outro texto intuitivamente. ficou assim:
 LOVE (collage)
During a drunken argument in Brussels, Verlaine
shot atRimbaud, hitting him once in the wrist On 10
July 1875, in a drunken quarrel in Brussels,
Verlaine shot Rimbaud in the wrist, and was
imprisoned for two years at Mons. Together again in
Brussels in the summer of that year, Verlaine shot
Rimbaud in the wrist following a drunken argument.
Verlaine, drunk and desolate, shot Rimbaud in the
wristwith a 7mm pistol after a quarrel. At one
point, the tension between them became so great
thatVerlaine shot Rimbaud in the wrist. about 2
o’clock,when M. Paul Verlaine, in his mother’s
bedroom, fired a shot of revolver. the subject of
various books, films, and curiosities, ended July
12, 1873 when a drunken Verlaine shot at Rimbaud and
injured him in the wrist. Verlaine shot Rimbaud in a
fit of drunken jealousy.
resolvi chamar o texto de “LOVE” porque me pareceu um caso de amor mesmo. :-)
depois continuei fazendo algumas tentativas com o google, mas nada que me empolgasse muito. e eu só costumo mostrar os poemas que me empolgam, de outra forma não vejo muita razão pra publicar.
corta pra 2011, quando estava escrevendo os poemas de “um útero é do tamanho de um punho”. decidi procurar na web textos sobre o corpo da mulher, pra ver como eram escritos, como era a linguagem, que palavras eram usadas, se havia alguma estrutura ou pensamento recorrente. e como o google também é um termômetro da internet, resolvi procurar as frases “a mulher vai”, “a mulher quer” e “a mulher pensa” pra tomar um pouco a temperatura. me surpreendi, encontrei muitas piadas, textos machistas, preconceituosos… fiz uma seleção das frases, recortei-as e colei para tentar buscar um sentido. acho que ficaram poemas absurdos e também engraçados. mas o engraçado aqui funciona pra jogar uma luz sobre o absurdo dessas frases, de um tipo de pensamento que ainda existe, enfim.
um abraço,
angelica
***
Marília Garcia
a garota de belfast ordena a teus pés alfabeticamente

98 voltas pelo parque antes de cair em
círculos sobre o próprio peso
               98 vezes dizia o mesmo:
você pode ou não pensar em algo
definitivo. parecia a garota de belfast com
sua memória dobrada como um pára-quedas
dentro do tecido eletrizado.
                                      enquanto falava descia a
escada lateral recortando os ruídos
da orquestra. a roda da bicicleta
girando em loop esfarelando os
reflexos no ar e seis horas parada diante
do ralo, pode ou não pensar em algo, sentada na beira do
quarto. olha de longe quando o carro
passa, desce à noite pelos trilhos
quando tudo é uma vingança
[passagem é a ligação externa
entre dois prédios]
fala de pontes atravessando os túneis
da cidade e ordena a teus pés
alfabeticamente
          A anoitecer sobre a cidade
          A câmera em rasante
          A correspondência
          A curriola consolava
          A dor
          A espera
          A intimidade era teatro
e depois de algumas linhas
          A tomar chá, quase na borda
          A voz em off nas montanhas
          Abre a boca, deusa
          Abria a cortina
          Acho que é mentira
pode ou não pensar que era sua voz em mountain hill
a uma velocidade de 1 km/h ou mil. antes
de voltar para a irlanda já começara a perder. entende
que só depois de o blindex esfarinhado contra a
cabeça, só em poucos segundos até que a cabeça
contra o blindex, mas era apenas parte
do trajeto, não tinha como calcular as noites ou linhas
em que passaria.
                        “como extrair o áudio de uma imagem
congelada” era a etiqueta que colava nas paredes
para tentar descobrir como chegar com precisão
e ao fundo a voz pela fresta
a ordenar este livro:
          Agora nessa contramão
          Agora chega
          Agora é a sua vez
          Agora estamos em movimento
          Agora pouco sentimental
          Agora sou profissional
          Água
          Água na boca
          Agulhadas
ou vertigem das alturas. você pode acordar trinta anos
depois com a imagem ainda mais viva
quando o quarto está às cegas
          As cartas
          As cartas, quando chegavam
          As lupas desistem
          As mulheres e as crianças
          Asas batendo
          Atravessa a ponte
          Atravessando a grande ponte
          Atravessa vários túneis da cidade
          Autobiografia. Não, biografia
          Aviso que vou virando um avião
          Azul deixo as chaves do 1114 soltas no balcão
          Azul que não me espanta
*
conheci a poesia de ana c. lá no parque lage, em 1998, em um curso de
pintura. conheci a poesia de ana c. em um fim de tarde de
sexta-feira quando alguém citou o poema dos dois quartos vazios
como epígrafe para uma tela, preciso voltar e olhar de novo.
aqueles dois quartos vazios da pintura
são hoje para mim um eco do poema de ana c.
conheci a poesia de ana c. várias outras vezes
parece que a gente está sempre buscando conhecer de novo,
refazer o caminho até as coisas.
dez anos depois, fiz o poema “a garota de belfast
ordena a teus pés alfabeticamente” para participar da antologia
a nossos pés, publicada nos 25 anos de sua morte, pelas editoras dantes e da casa.
o poema partiu de uma experiência bem material:
peguei todos os versos de a teus pés e os coloquei em ordem alfabética.
foi uma maneira de conhecer ana c. outra vez, de deslocar o
contexto de onde tinham saído esses versos e poder perceber
outras relações a partir dos próprios versos. ou de
confirmar certas relações a partir da repetição. ou de se
surpreender ao ver, por exemplo, que “atravessar”
se repete muitas vezes ou então que “agora” é o marcador temporal
mais frequente ocupando o início dos versos. surpresa que se junta com a
curiosidade crescente ao pensar que é possível conhecer
os caminhos tomados pelo
pronome “eu” nos poemas de ana c.
ou pelo “você”.
a teus pés em ordem alfabética foi apenas uma brincadeira
para conhecer ana c. outra vez. a partir dele, cheguei
ao poema da antologia que ganha
agora, para esta homenagem, movimento, corpo, voz, quase uma carta
atravessando essas linhas invisíveis e os túneis da cidade.

[retirado de: http://www.blogdacompanhia.com.br/2013/12/homenagem-a-ana-c-por-marilia-garcia/]
***
Lucas Matos
Escrita Não Criativa
Cena 1.
É a cena final da peça – mas não há cena final. Molière – o ator que interpreta Molière – disse na primeira cena que não houve tempo de escrever. Talvez ninguém lembre, mas ele disse ao fim da primeira cena: “Quanto ao final? Já sei: vou à frente e peço desculpas ao rei”. O ator agora está no alto da escada. Ele não vem à frente, não estamos no século XVII, estamos em 2001. O ator olha para o público e diz: “Majestade, nada mais sublime que o nome de sua alteza, sereníssima, o rei Luiz XIV, e nada mais insignificante que a comédia que ora encenamos”. Olha para o público e diz: “Mas de onde vêm as imagens que editei, remontei e sobre as quais rabisquei? Do grande arquivo da história miúda, das gentes menores que viveram e eu não conheci, mas não quero esquecer. Histórias de domínio público, mas às quais o público não presta atenção. É preciso ressignificá-las, para que não morram sem alguém que lhes renda tributo. O amor não é isto também?”. Olha para o público e diz: “As flores do mal foi um dos primeiros, mas não o primeiro. Creio que estive experimentando coisas durante todo o ano de 2006: ordenei poemas meus, grandes e curtos, e poemas de outros. Talvez As flores do mal tenha sido o primeiro que ordenei inteiro, como livro. Mas a cada vez que ordenava, eu ria e guardava porque nada acontecia, quer dizer, não se ordenava realmente nada porque o que aparecia não era uma ordem. Se bem que eu não estava pensando o tempo todo em ordenar textos, se vinha pensando nisso era algo que estava em segundo plano. E um dia apareceu a ideia de ordenar o Martin Fierro, e quando fui fazer, tive a impressão de que aconteceu algo. O que eu queria ver era se um sistema de organização conteúdos poderia se relacionar aos conteúdos; minha ideia era que o racional é o sistema de organização dos conteúdos e não os conteúdos. E a ordem alfabética me atraía porque tem algo puro e autônomo, né? Como que além das decisões do autor. A cabeça do autor estava no que se unia. De qualquer forma, creio que cada vez que trato de explicar ou de me explicar este livro, penso e digo coisas diferentes”. É Molière – o ator quem o interpreta – que olha para o público e diz: “Tudo que fiz na minha vida foi plagiar. Plagiei Plauto, Terêncio, os gregos. Plagiei a mim mesmo”.
Cena 2.
Hoje é dia 18 de dezembro de 2013 e estamos, como todos os anos, imersos em listas e mais listas que seguem enumerando os feitos e acontecimentos do ano. Acho que estou mais para este outro tipo de lista, ordem alfabética. Escolha um livro que você goste muito e ordene alfabeticamente.

Cena 3.
Uma resposta apropriada para uma nova condição da escrita. Uma resposta apropriada para uma nova condição da escrita. Uma resposta apropriada para uma nova condição da escrita. Uma resposta apropriada para uma nova condição da escrita. Uma resposta apropriada para uma nova condição da escrita. Uma resposta apropriada para uma nova condição da escrita. Uma resposta apropriada para uma nova condição da escrita. Uma resposta apropriada para uma nova condição da escrita. Uma resposta apropriada para uma nova condição da escrita. (Obs: quando se coloca no Google “Uma resposta apropriada para uma nova condição da escrita”, alguém pode encontrar a frase: “A forma correta de escrita da palavra é mau-caráter”).
Cena 4.
Houve uma explosão de escritores – Houve uma explosão de escritores empregando estratégias de cópia e apropriação nos últimos anos – Houve uma explosão com o computador encorajando escritores a mimetizar seus processos. Nada mais sublime do que o nome de sua alteza, nada mais insignificante que a comédia que ora encenamos. Com o montante sem precedente de textos disponíveis, estamos, como todos os anos, imersos em listas e mais listas que seguem enumerando os feitos e acontecimentos do ano. Nosso problema não é produzir mais textos; ao invés disso, precisamos aprender a negociar a vasta quantidade existente. Histórias de domínio público, mas às quais o público não presta atenção. É preciso ressignificá-las, para que não morram sem alguém que lhes renda tributo. Como eu faço meu caminho através da densidade das informações – como administro, como analiso, organizo e distribuo – é o que distingue a minha escrita da sua. Nos últimos anos, dei um curso na Universidade da Pennsylvania chamado “Escrita não criativa”. Nele, os alunos são penalizados por mostrar qualquer traço de criatividade e originalidade. O que eu queria ver era se um sistema de organização de conteúdos poderia se relacionar aos conteúdos; minha ideia era que o racional é o sistema de organização dos conteúdos e não os conteúdos. Os alunos são penalizados por mostrar qualquer traço de criatividade e originalidade. Ao contrário, são congratulados por plágio, falsificação de identidade, reapresentação de artigos, pastiches, misturas, saques e roubos. O ato de selecionar e recontextualizar diz tanto sobre nós mesmos quanto a operação de câncer da nossa mãe.
Cena 5.
Marília Garcia faz filmes recortando trechos de outros filmes, editando. Muda a velocidade da cena, repete imagens, acrescenta versos sobrepostos. Lê a garota de belfast ordena a teus pés alfabeticamente. Ordena a teus pés ou ordena a teus pés? Marília ordena um poema próprio alfabeticamente. Adriana Calcanhotto canta a resposta de Joaquim Pedro de Andrade em uma entrevista. Caetano Veloso canta trechos de email que escreve. Verônica Stigger recolhe frases ouvidas na rua. A Companhia Teatral Nosconosco monta a comédia As Artimanhas de Molière – ou Molière Em cena – um texto composto de cenas de peças diversas coladas juntas por Célia Bispo e Roberto Dória. Victor Heringer rouba vídeos de família do youtube para fazer o clipe de A mutante, canção de Jonas Sá, gravada por Mariano Marovatto em Praia. Tom Zé canta os comentários feitos no facebbok sobre a campanha que gravou para uma marca/empresa de refrigerantes estadunidense. Victor Heringer intercala com seus poemas trechos de textos diversos escritos em acordos ortográficos há muito em desuso. Trechos que falam sobre o diabo, por exemplo. Nos 3 poemas com o auxílio do google, não é Angélica Freitas quem fala da mulher. Flora Sussekind escreve um artigo para o jornal falando sobre vozes ou versos corais na poesia brasileira contemporânea. Pablo Katchdjian achou que O Aleph estava magro, tratou de engordá-lo. Penou processo por isso. Se O Martin Fierro ordenado alfabeticamente pode ser feito por um robô em um minuto, O Aleph engordado é feito por um artesão durante várias semanas. Todo um movimento de escrita, chamado Flarf, é baseado em reunir o resultado de pesquisas do Google: o quão mais ofensivo, mais ridículo, mais revoltante, melhor. Thiago Ponce, em sua dissertação de Mestrado, escreveu um capítulo, em que tudo que há são trechos da tradução de Donald Schüler para o Finnegans Wake, de James Joyce, reconfigurados, remontados e recolecionados para que funcionem como comentários de leitura de poemas de Paul Celan e Ricardo Reis. A coisa que os alunos de aulas tradicionais de língua mais falam quando não querem escrever a redação que estão sendo forçados a escrever: “hoje, eu estou sem criatividade”.

Cena 6.
A estratégia é recolocar textos que já existem em novos contextos para lhes dar novos significados. A colagem apresenta materiais integrados num conjunto, pela habilidade do artista, produzindo uma expressão singular inventada pelo artista. O plagiário pega uma fonte e a realoca, para chamar atenção para o seu novo contexto, de modo a recolher os sentidos dessa mudança. Mais, o plagiário explora e restaura a instabilidade da linguagem, conforme ela tropeça dentro desses novos contextos. Essas novas situações instigam incerteza, que, por sua vez, instigam experiências culturais e investigação. As escolhas de como alguém compõem com os textos encontrados, como alguém conceitua tais escolhas, determinam o sucesso da poesia. Para poetas, esta é uma nova prosódia, um novo modo de pensar como ler e escrever.
Cena 7.
“Quanto ao final? Já sei:
Vai ter brigadeiro de vagina
beijinho de pênis
e muita champanhe”.
Cena final.
É a cena final da peça – mas não há cena final. Molière – o ator que interpreta Molière – disse na primeira cena que não houve tempo de escrever. Talvez ninguém lembre, mas ele disse ao fim da primeira cena: “Quanto ao final? Já sei: vou à frente e peço desculpas”. O ator agora está no alto da escada. Ele não vem à frente, não estamos no século XVII, estamos em 2001. O ator olha para o público e diz: “Nada mais sublime que o nome, e nada mais insignificante que a comédia”. Olha para o público e diz: “Mas de onde vêm as imagens que editei, remontei e sobre as quais rabisquei? Do grande arquivo da história miúda, das gentes menores que viveram e eu não conheci, mas não quero esquecer. Histórias de domínio público, mas às quais o público não presta atenção. É preciso ressignificá-las, para que não morram sem alguém que lhes renda tributo. O amor não é isto também?”. Olha para o público e diz: “O que eu queria ver era se um sistema de organização conteúdos poderia se relacionar aos conteúdos; minha ideia era que o racional é o sistema de organização dos conteúdos e não os conteúdos. E a ordem alfabética me atraía porque tem algo puro e autônomo, né? Como que além das decisões do autor. A cabeça do autor estava no que se unia. De qualquer forma, creio que cada vez que trato de explicar ou de me explicar este livro, penso e digo coisas diferentes”. É Molière – o ator quem o interpreta – que olha para o público e diz: “Tudo que fiz na minha vida foi plagiar. Plagiei. Plagiei a mim mesmo”.
Fontes:
http://lepaysnestpaslacarte.blogspot.com.br/2013/07/antes-do-encontro.html
http://lepaysnestpaslacarte.blogspot.com.br/2013/12/a-garota-de-belfast-ordena-teus-pes.html
http://www.marovatto.org/a-mutante/
https://sites.google.com/site/la3eraopinion/la-tercera-numero-4/entrevista-a-pablo-katchadjian
https://files.nyu.edu/rmf1/public/works/identity_theft_final.pdf
Freitas, Angélica. Um útero é do tamanho de um punho. São Paulo: Cosac Naify, 2012.
Stigger, Verônica. Delírios de damasco. Florianópolis: Cultura e barbárie, 2012.
Motta, Marcus Alexandre; Moraes, Thiago Ponce de. Remos e Versões. Rio de Janeiro: Multifoco, 2012.

Obs: o texto de As artimanhas de Molière cito de memória.

Angélica Freitas, Escrita não criativa, Lucas Matos, Marcio Junqueira, Marília Garcia, Poesia contemporânea, Rwolf Kindle