Da Bahia
16 de abril de 2014

cartaz: Ana Luisa Figueiredo

cinco relatos + alguns registros
 sobre a passagem do blog 
(que também é um disco)
 (e que também é encontro poético)
 pela Bahia



# # #
 Rwolf Kindle

SINOPSE
Acontecimento: dois mil e quatorze e os rituais que acometeram a esse universo, uma nova corrente devocional. Processos artísticos integrados em infinitas explorações, desconstrução, corpo e senso crítico. Verão Bliss, o agenciamento do século. O que restou: fragmentos de memórias, fantasias, multi-lirismo. 
  
SEQUÊNCIA 1 – PRELÚDIO
CENA 1 – INT – COZINHA AMPLA E MAL PROJETADA – DIA
Sentado em um banco de madeira, cotovelos cruzados e apoiados sobre o balcão, Rwolf observa as manchas de infiltração na parede. Comenta com Gabe, que lava a louça. Rwolf se levanta, e com um hidrocor preto, contorna as manchas demarcando territórios. Traça uma linha sinuosa e pontilhada, ligando o grande arquipélago a uma pequena ilha mais para perto do chão. A embarcação, de uma vela apenas, segue o percurso entre ilustrações fantasiosas e fortes correntes marítimas. Rwolf se afasta, e passa um tempo mirando a parede. Gabe observa Rwolf. Ambos não compreendem o acontecido.
FADE OUT.
SEQUÊNCIA 2 – PRIMEIROS CONTATOS – CACHOEIRA

CENA 1 – INT – SALA DE ESTAR/CASA DE RWOLF – NOITE 

Sala de estar (por vezes quarto de Rwolf). O local é ambientado com um velho sofá amarelo encardido, algumas revistas em desuso sobre um banco de madeira, uma cama abandonada, recortes de papel pela parede, três vinis pendurados num canto do teto, e no extremo oposto da sala, algumas malas e mochilas empilhadas. Lucas e Márcio dividem o sofá, Dimi lê um gibi deitado na cama, Rwolf arrisca alguns desenhos, e Flávia está próxima a parede plantando bananeira.
DIMI
(em voz off)
Somos cinco criaturas distintas. 
Todos com fome. 
O caçula do grupo
está perdido há 49 milhas
náuticas de distância ao norte, e
 não mantivemos mais nenhum contato.
02:57min. Estamos atentos, lendo, e
fantasiando algo a comer.

Ouve-se uma movimentação do lado de fora da casa. Tropeço-seguido-de-queda-e-exclamação-de-dor. Lucas salta do sofá, permanece em pé, e olhando fixamente para porta exclama:
LUCAS
Quem é você? E o que mais deseja?
(era um código, ele viu isso num filme do kieslowski)
Pausa dramática, todos se entreolham. Flávia se mantém equilibrada. Atrás da grande porta de madeira, uma voz responde. 
VOZ ABAFADA
Bem, eu não tenho muita certeza de
quem eu sou, mas eu adoro ler
livros. e…
LUCAS
E o que mais deseja?
VOZ ABAFADA
Ah! O que eu mais desejo é uma
pizza tamanho família!

Todos a salvo.

CENA 2 – INT – COZINHA/CASA DE RWOLF – DIA

A cozinha é ampla e mal projetada. O grupo está sonolento e sente uma leve ressaca causada pelo exagero de pizza na noite anterior. Rwolf divide-se com Flávia entre o fogão, e o balcão, preparando o desjejum matinal (água morna com suco de meio limão + salada de frutas). Márcio está sentado à mesa fumando um cigarro e conferindo e-mails. Dimi prepara o café, e Lucas retorna do banho. Gallego ainda não acordou. Lucas está indignado por estarem atrasados. É dia do lançamento da revista, e o fato de não haver uma garrafa térmica na casa o deixa preocupado.  
LUCAS
Gente, preparo de café
em doses homeopáticas
soa como tortura! 
Rwolf, como consegue?
MÁRCIO
Tortura é beber café!
RWOLF
Bem…
Gallego surge interrompendo.
GALLEGO
A falta de açúcar 
é que é uma tortura…
FLÁVIA
Café com açúcar? Menino,
isso é uma bomba!
DIMI
Thiago, eu acho que deveria
levar em consideração
os conselhos de sua sábia mãe.
(sabedoria materna: beber bastante água e alimentar-se com critério)
Suas particularidades são expostas, mas a urgência é clara: comer e sair.

CENA 3 – EXT – CAHL/UFRB – DIA
Local: uma antiga fábrica de charutos restaurada e adaptada à academia. Rwolf acredita que o pátio aberto no centro do terreno, fantasia comparações com um cortiço, e explica o clima familiar vivido ali. Lucas, Dimi e Gallego ouvem atentos, enquanto Flávia refresca-se com um geladinho de tamarindo. Márcio surge, sorriso aberto, e tem em mãos (após esbanjar muita simpatia) a chave do melhor espaço para se apresentarem. Todos comemoram. Márcio com ajuda de Flávia aciona uma lista de contatos com possíveis agitadores culturais cachoeiranos. Acredita-se que boa parte deles pode ser encontrada naquele mesmo pátio.

CENA 4 – EXT – RUA 25/CACHOEIRA – NOITE

A primeira apresentação do grupo havia sido concluída com muito esforço e dedicação. Satisfeitos e resistentes, partem para as comemorações: 10 garrafas do tradicional licor cachoeirano são ofertadas. Evoé e Axé. Jump cuts intercalam os copos virados. Todos conversam felizes e exaltados. Elipse. Dimi materializa-se em um palco improvisado e causa grande frenesi no restante do grupo. Todos de pé dançando. A rua manda um beijo.
(no dia seguinte, rumores de um terremoto na  casa de rwolf. apenas camus, o gato, como testemunha)
FADE OUT.

SEQUÊNCIA 3 – UMA BANDA NA CIDADE DA BAHIA

(flávia participava de um trabalho social numa comunidade quilombola de cachoeira, e não conseguiu transporte a tempo de chegar em salvador. os meninos lamentam a sua ausência. recebem o título de boy band.)
(TRILHA SONORA: CÉU NO REPEAT)

CENA 1 – INT – APARTAMENTO DA IRMÃ DE MÁRCIO / QG – TARDE
Calor soteropolitano oprime em um super plongée. Últimos preparos para a apresentação da noite: Lucas aquece os vocais cantando Adriana Calcanhotto no chuveiro, Gallego ajuda Márcio na adaptação de X + Y de Domeneck enquanto folheia o mítico ”livro para tomar atitudes”, Dimi medita e psicografa novas e hipnotizantes canções, e Rwolf fuça a mochila em busca de uma peça de roupa limpa, enquanto reclama de fome. As 64 famílias naquele condomínio não sabem, mas naquele exato momento, têm como vizinhos os rockstars mais badalados da atualidade.
CENA 2 – INT – QG/ÚNICO QUARTO COM AR-CONDICIONADO – TARDE
Em plano próximo, Gallego, Márcio e Rwolf estão debruçados sobre a cama, adaptando citações. Mapplethorpe é uma cilada. Corta. Lucas invade o quarto ao som de Parangolé Pamplona. Todos dançam. Dimi aparece e cogita a possibilidade de estarem fazendo muito barulho. Era preciso poupar energias para a noite.
LUCAS
(em tom de confissão)
Gente, estive pensando seriamente,
e acho que precisamos de uma
identidade visual pra banda. Algo
confesso mas idiossincrático, 
não sei, que seja…
MÁRCIO
(interrompendo)
Crocante!
LUCAS
(vibrante)
Gênio! Exatamente Márcio Junqueira: crocante.

Todos riem. É estabelecido um novo estado de espírito.

CENA 3 – INT – QG/SALA DE ESTAR – TARDE


Dividindo o único ventilador do apartamento, todos estão sentados com sacolas plásticas na cabeça. Testam o novo kit para hidratação capilar que Lucas comprara há algumas semanas. Promessa de cabelos independentes e multifacetados. Concluem e reivindicam uma nova edição do ”livro para tomar atitudes”. Todos ansiosos para o show.
> lista de necessidades para o segundo show da turnê:
bliss 
um disco de roberto 
gabriel (midiólogo atômico e dj) 
batom vermelho 
uma réplica em tamanho real de padre Cícero

CENA 4 – EXT – BAIRRO S. ANTÔNIO – NOITE
Plano geral: boêmios figuram uma rua movimentada. Uma sprinter com vidros fumê estaciona. Cabelos ao vento, todos aportam na calçada. Do outro lado da rua, sentada numa cadeira de praia, chapéu de sol cobrindo o rosto, cabelo platinado até a cintura, e com uma garrafa de cerveja na mão, Michelle Mattiuzzi tenta salvar o cinema nacional acompanhada de um manequim vestindo moletom e capuz. O grupo entende como um símbolo de boaventurança. Axé. Entre jump-cuts, elipses temporais e mini flash-backs, apresentam-se em Salvador felizes e apocalípticos. Dimi os eterniza em música. Sentem-se insuportáveis. (porque há desejo em nós, é tudo cintilância)
(uma flor desenhada no antebraço do interlocutor, é um convite a passear por um jardim – alguns acontecimentos durante a madrugada soariam como confissões de reinaldo arenas)
SEQUÊNCIA 4 – RÁPIDO CONTO PARA IEMANJÁ
(SOM DE CHUVEIRO LIGADO ACOMPANHA A SEQUÊNCIA)
CENA 1 – INT – ESCRITÓRIO – MANHÃ

Estante embutida com livros e cd’s completa o dormitório improvisado. Homem1, nú, atravessa o plano.

CENA 2 – INT – VARANDA – MANHÃ

O chão da varanda está salpicado de areia. Homem1 está de costas, a dois passos do batente de vidro. Ele observa o horizonte: mancha alaranjada no canto inferior esquerdo contra fundo azul. Um cacto compartilha o mormaço.

CENA 3 – INT – COZINHA – MANHÃ

Da cozinha americana vê-se o dia emoldurado. Homem1 abre a geladeira, e sobre o balcão, serve dois copos d’água. O relógio na parede aponta 11:36min: não se move.

CENA 4 – INT – SALA DE ESTAR/VARANDA – MANHÃ
Uma brisa movimenta o interior da sala. Homem1 invade o plano (câmera acompanha o movimento) e caminha até a lateral esquerda da varanda. Para ao lado do grande cacto e vira-se de costas para o batente. Não há quarta parede.
HOMEM1
Te prometi uma poesia em segredo.
(não poderia cumprir)
Homem1 inclina-se, projetando o peito ao sol.
FADE OUT.

SEQUÊNCIA 5 – A TURNÊ CHEGA AO FIM

CENA 1 – INT – VAN A CAMINHO DE FEIRA DE SANTANA – NOITE
A noite começa na estrada. Dentro da van lotada, Rwolf e Flávia comentam as atrações da festa de Iemanjá de Cachoeira. O último dois de fevereiro havia deixado fortes sequelas e algumas lacunas para o grupo. Rwolf está preocupado. Com seu mini HP sobre o colo, e inspirado por Dimi, escreve um relato sobre os últimos dias com bliss, e tem pretensões de apresenta-lo no show dessa noite. Rwolf está emocionado. Dá-se conta de que não sabe fazer surpresas, e calcula ao menos 3hrs de tensão. Tudo é incerto, e a impermanência é a melhor fuga. A partir dali, qualquer acontecimento soaria como cenas de um filme em monólogo.
dentro da van:
a aparência das pessoas chama a atenção
a música gospel e o teto baixo incomodam
sente fome
em feira:
o moto-táxi é caro
fandangos orgânicos para a larica
está frio e a garganta dói
no mac:
chegamos, não há ninguém
o local de apresentação está impecável
rouba um pedaço de papel no escritório e escreve seu Diário de Bordo
Flávia fica linda com aquele vestido preto
rabisca uma frase na parede do banheiro
os meninos chegam com Gabe
muita gente veio nos ver
somos backing vocals de dimi 
estamos saudosos e pós-apocalípticos
CENA 2 – INT – BAR NOVO ARTE/FEIRA DE SANTANA – NOITE
Todos em êxtase. A proposta de comemoração era um bar com afrobeat ao vivo. Todos querem dançar. No bar, sentam em círculo e sentido horário: Dimi, Gallego, Gabriel, Lucas, Márcio, Gabe, Flávia e Rwolf. Ritualizando o encontro, Dimi toca grandes sucessos de uma playlist que Rwolf e Gabe compartilham, deixando-os exaltados. ”Dancing Queen” é coreografada numa mesa de bar em Feira de Santana. Todos compartilham batata frita. A cada 6min, todos no bar brindam à Angélica Freitas. Com os pulsos estendidos, evitam olhar o relógio.
FADE OUT.
SEQUÊNCIA 6 – QUE O VERÃO NÃO SE ACABE
CENA 1 – INT – QUARTO DE RWOLF – NOITE
Rwolf lê deitado na cama uma edição conjunta de ”Dentro da noite veloz” e ”Poema Sujo”, capa dura, amarelo manga, comprado em um sebo de Friburgo. Rwolf sublinha o título de ”No Corpo”, fecha o livro e deita-se mirando o teto. A poesia é o presente. Rwolf cogita a possibilidade de acrescentar ao seu relato para o blog da Bliss um texto que escrevera pós-carnaval. Desiste. Rwolf ainda é fevereiro.

FADE OUT.

*

                            (fotos/ssa : Patricia Martins) 

*

Thiago Gallego

Eu lembro desse dia porque a parede do barco dava choque e eu disse olha Rwolf a parede dá choque. Então mesmo à noite, em casa, eu me tocava e ainda sentia a eletricidade. Mas as imagens são perigosas. Um barco que dá choque é concreto demais pr’eu dizer que é qualquer outra coisa – como uma viagem. Como quando no primeiro dia da volta, a Clara perguntou que sorriso é esse no seu rosto. Ou ainda mais complexo o dia seguinte comprei duas flores. Duas flores feias, mais baratas porque feias. Ofereci uma à água outra ao vento. Uma o mar levou outra ficou n’areia. Não sei qual. Embora todas as histórias tratem de algo que não era e começa a ser, não gosto de avançar muito nisso. Gosto de pensar que trouxe da Bahia algo do pensamento selvagem. Como na festa de Iemanjá quando alguém disse aqui tem mais câmera que gente. Não tirei nenhuma foto naquele dia. As imagens-história da Bahia são coisas muito concretas. Abstrata é essa cidade que eu visto todo dia quando acordo.


*

Marcio Junqueira


                                                                      (fragmentos de um diário de viagem)



*

Flávia Pedroso





*
Lucas Matos


noite de hotel (cachoeira, salvador, feira de santana).
eu queria que a nossa amizade fosse um bicho. para que eu pudesse dizer pega, enquanto você se finge de morto. e ficaria de bando, à espreita, observando – ele abocanha com destreza o objeto lançado. eu queria que a nossa amizade fosse o osso.
o bicho volta com a coisa entre os dentes como quem diz: não me deixa. não me deixa roê-lo todo – o tutano dos dias. e eu penso: a nossa amizade, se bicho fosse, seria um desses, adestrados, que aceitam o carinho da mão de qualquer visita com água de colônia em excesso, ou seria inadmissível, urina em todos os cômodos da casa, urina pela excitação em demasia. ou seria pior. você me olha sério. não tem outro jeito. precisamos botá-lo para dormir.
quando eu era criança dormir era o que mais me assustava. ninguém, nada me dava garantias de que quando acordasse eu estaria ali na mesma cama. de que quando acordasse eu estaria no mesmo corpo. enquanto a gente dorme, o mundo muda de lugar. e eu poderia muito bem despertar de fora. despertar disperso no espaço. então eu era sempre o último da casa a dormir. alta noite, eu tentando ouvir os ladrões entrando na casa e sozinho como um cão sem dono.
mais tarde eu usava isso como testes. perguntava na escola para todo recém-conhecido: você já teve medo de dormir? quando respondiam sim, eu dizia bom garoto e oferecia um biscoito em troca. mais tarde, na hora do chá, tudo que eu queria era saber acordar. acordar no momento certo. para não perder nada de importante. você recosta a cabeça e pode até saber do sol de amanhã, mas não tem a menor ideia do que tem do outro lado do sono.
você adormece num quarto em feira de santana. decora a forma dos objetos, as pessoas ao redor. quando acorda, as coisas deslizaram suavemente para a esquerda. você se mexe muito quando dorme. você fala durante o sono. você ronca como um cão chupando manga.
e quem está diante de você é um amigo com quem não conversa há quinze anos. alguém com quem você rompeu relações depois de uma briga no meio do carnaval. sou eu mesmo. mas pousado sobre mim, está o papagaio da infância. uma amiga com quem você perdeu contato no fim da quarta série. os peixes todos – dezenas – que morreram nas duas semanas em que você tentou manter um aquário.
enquanto você dorme, o mundo muda de lugar. a alemanha acorda em paris, e o rio se encontra num mar, num mar de turistas apressados. eu levantei num susto. por um segundo, eu não lembrei que não estava em casa. por um segundo, eu me esqueci como se fica de pé. por um segundo, o vermelho do sol me fez pensar na guerra mundial. está vendo esse par de olhos? fechados, são o medo da música. abertos, são o medo do sono. está vendo esse par de olhos sem pálpebras? se você encostar a ponta dos dedos, eles se fecham para acordar segunda-feira. em outra cidade. amanhã é sempre outra cidade.



*

Dimitri BR
CACHOEIRA

1. nosso erro é o sucesso
> inédita, composta no dia mesmo, já antevendo o que seria nossa excursão baiana: quase tudo saiu diferente do esperado – e foi bem melhor!
2. de quem é a voz?
> a canção que me levou à Bahia. fruto da entrevista feita pela Bliss. a pergunta fez ainda mais sentido na estrada.
http://diahum.com/albumdefigurinhas/portfolio/de-quem-e-a-voz/
3. omnibus (a rua mandou um beijo)
> o /atravessamento/ do popular Chuim me levou a tocar essa – feita no calor das manifestações de junho/2013, a partir de poema publicado na antologia “Vinagre”.
4. eu não consigo me vender direito
> o contexto fez esse /clássico/ diaúnico ainda mais apropriado: nós, artistas, bufões, mascates – e banquinha de Cachoeira foi a que menos vendeu. a interpretação incluiu breve citação a “mim quer tocar”, do ultraje a rigor.
http://diahum.com/albumdefigurinhas/portfolio/eu-nao-consigo-me-vender-direito-2/
5. pra que dinheiro? (vinheta)
> mais uma vez o inefável Chuim resolveu intervir; diante das lamúrias de “não consigo me vender…”, ele mandou “pra que dinheiro?”. julgando o comentário deveras apropriado, saquei do tamborim e mandei essa vinhetinha do Martinho da Vila.
6. por que você faz cinema?
> se “de quem é a voz?” me levou à Bahia, “por que você faz cinema?” – feita por Adriana Calcanhotto a partir de uma entrevista do (cineasta) Joaquim Pedro de Andrade é a música que levou Lucas Matos a pensar em fazer uma entrevista musicada – e me chamar. ademais, boa parte do público (e da galera que deu uma força na produção) em Cachoeira era de estudantes de Cinema da UFRB.
7. você e a brisa
> parceria minha com Bruna Beber, essa singela canção é um acalanto baiano, nosso “acabou chorare”. não por acaso acabou sendo a música que toquei em todos os eventos na Bahia.
http://diahum.com/albumdefigurinhas/portfolio/voce-e-a-brisa/
esse dia não teve bis (mas teve bliss!) porque já dava a hora do fechamento do espaço.
(ou melhor: o bis foi outro show inteiro,a na rua 25, dando canja e tocando axé e suinge com os músicos locais. mas isso já é matéria de lendas ; )

SALVADOR
1. mir
> “no carnaval do Rio, no carnaval da Bahia…” – os versos do samba-paradoxo, tocado pela primeira vez em solo baiano, abriram os trabalhos estabelecendo a ponte Rio-Salvador.
http://diahum.com/albumdefigurinhas/portfolio/mir-2/
2. apocalipse na Bahia
> mais uma vez uma inédita composta in loco – dessa vez homenageando meus companheiros de viagem, fazendo já a crônica de nossa aventura.
3. mesmice
> inédita, meio reggae meio suingue (samba-reggae baiano?), feita a partir da polifonia do facebook sobre questões sociais, de gênero, de religião. é uma das inéditas de que tenho gostado mais, toquei pela primeira vez em Salvador.
4. eu não consigo me vender direito
> o público de Salvador tentou contradizer a letra, adquirindo mais produtos de nossa barraquinha (mas não tanto quanto a gente boa de Feira de Santa ; ) . o Oliveira’s fica no Santo Antônio, reduto de artistas & descolados de Salvador, então o pessoal pôde se identificar com a letra…
http://diahum.com/albumdefigurinhas/portfolio/eu-nao-consigo-me-vender-direito-2/
5. abra o olho
> não tenho o hábito de tocar músicas de outros autores, mas nesse dia toquei até duas (ou três, sendo uma versão); a primeira foi essa do Gil – uma das que mais gosto de cantar (ainda mais na Bahia, que me dava vontade de tocar Gil toda hora : ) .
6. ó Jericó
> outra parceria com Bruna Beber, este axé marcou a estreia dos sensacionais dançarinos/backing vocals da Bliss (incluindo Rwolf Kindle, é claro). beijinho no ombro, valesca: sou mais meus dançarinos!
http://diahum.com/albumdefigurinhas/portfolio/o-jerico/
7. você e a brisa
> depois do axé, a calmaria da brisa – continuando, no entanto, na baianidade (e nas letras de BB).
http://diahum.com/albumdefigurinhas/portfolio/voce-e-a-brisa/
8. [BIS] Zumbi
> o clássico de Jorge Bem já rondava minha cabeça depois de conversas sobre racismo na Bahia, durante a festa de Iemanjá, em Salvador; mas entrou de vez depois que ouvimos o Tábua de Esmeraldas em vinil em casa de amigos de Márcio Junqueira em Feira, sua cidade natal. Troquei de memória e terminei com citação de “Zumbi (a felicidade guerreira)”, de Gil (olha ele aí de novo!) e Waly Salomão.
9. [2º BIS] esta noite (viver e morrer no Pelô)
> bem, essa música é uma versão bastante fiel de “there is a light that never goes out”, dos Smiths. só que em Português, com eu-lírico feminino. e em axé. dedicada aos 30 anos de lançamento do primeiro disco dos Smiths, a maior banda de axé de todos os tempos.
Pois é, depois dessa só passando a bola pros DJs Gallego&Gabriel.
 
FEIRA DE SANTANA



1. o tamanho do caminho

> inicialmente essa seria o bis; mas o clima de comunhão e buena onda no Museu de Arte Contemporânea de Feira de Santana me levou a querer cantar junto desde o começo. só alegria!
http://diahum.com/albumdefigurinhas/portfolio/o-tamanho-do-caminho/

2. vida de viagem
> Feira de Santana, aliás, faz um papel de elo entre as partes do (grande) estado da Bahia; tem, portanto, a viagem entranhada. e nós já estávamos na estrada havia 10 dias, e eu iria embora logo após o show… vai daí que todo o setlist de Feira teve a viagem (ou a saudade) como mote.
http://diahum.com/albumdefigurinhas/portfolio/vida-de-viagem/

3. quando cai a noite
> pra mim um dos momentos mais bonitos das apresentações na Bahia: o mantra da espera amorosa, cantado na cidade-viagem, às vésperas da volta, com a projeção das imagens da videocanção por cima. e mais uma vez todos nós lá cantando juntos.
http://diahum.com/albumdefigurinhas/portfolio/quando-cai-a-noite-2/

4. no norte da saudade
> uma favorita de um disco favorito, de Gilberto Gil. o artista se despede da moça que encontrou numa cidade antes de seguir, “na carreira”, pra tocar na próxima. no norte da saudade.

5. história verídica
> seguindo as comemorações dos 30 anos da maior banda de axé de todos os tempos – os Smiths -, perpetrei esta canção-anedota que conta daquela vez em que eu tocava “heaven knows i’m miserable now” no metrô de Londres e um rapaz inglês caiu nos trilhos e morreu tentando me fotografar. tudo verdade.

6. você e a brisa
> com o som bom (ah, que diferença que faz!) e o supracitado clima de buena onda e todo-mundo-canta-junto que imperava, essa foi talvez a brisa mais brisa de todas. com a suavidade devida, e um corinho espontâneo no sussurro marítimo do final. ê, que delícia a Bahia.

7. [BIS] ó Jericó
> invertendo (percebo agora) o final de Salvador, o bis de Feira trouxe ao palco os intrépidos Bliss, para encerrar a noite com axé e fanfarronice. “sei não / se esse nosso amor é sério / MAZUQUIÉ?” – já escreveu minha parceira Bruna Beber. disse tudo. ou não.

o pós de Feira durou até – eu ia dizer o dia seguinte, mas acho que durou até hoje – e incluiu um pós-show petit-comité com “apocalipse na Bahia”, “nosso erro é o sucesso”, “1, 2, 3” e “de quem é a voz?”, espécie de recapitulação da aventura baiana (massa!).



Bliss não tem bis, Dimitri BR, Flávia Pedroso, Lucas Matos, Marcio Junqueira, Poesia contemporânea, Revista-Disco, Rwolf Kindle, Thiago Gallego