Victória Guimarães, Angélica Freitas: Pensando a Voz no feminino. 2º Lançamento Revista-Disco “Bliss Não Tem Bis”. Pelotas – RS. 19/12/2013.
17 de dezembro de 2013

Alô, Rio Grande do Sul!
Alô, Pelotas!
Lucas Matos & Thiago Gallego desembarcam hoje em Pelotas para:
Quinta-feira! Dia 19/12/2013!
O segundo lançamento da Revista-Disco de poesia Bliss Não Tem Bis.
Será na cidade de Pelotas – RS. O lançamento ocorrerá às 19h no casarão 6 – praça Cel. Osório, número 06. Para mais detalhes, ver aqui.
Contamos, na Revista-Disco com a colaboração de duas grandes artistas de Pelotas, Angélica Freitas(gravando a vocalização de sua série Uma mulher limpa) e Fabiana Faleiros (com uma nova versão de Polícia, artista, etc.).
Para quem ainda não sabe do que se trata a Revista-Disco e de seu percurso, indicamos as nossas postagens do dia 26/11, 03/12 e 10/12 (as três últimas semanas). O primeiro lançamento aconteceu no Rio de Janeiro no dia 29/11. Estamos programando lançamentos em 2014 em outras cidades, como Feira de Santana (BA), São Paulo (SP). Informaremos em breve.
A Revista-Disco pode ser encontrada à venda na Berinjela (Av. Rio Branco, 185, loja 10, Centro, Rio de Janeiro – RJ. (prédio em frente à estação de Metrô Carioca)), ou para encomenda entrar em contato pelo e-mail: blissnaotembis@gmail.com (sujeito à cobrança de frete).
Na postagem desta semana, decidimos trazer duas vozes femininas que constam na Revista-Disco: a estreante Victória Guimarães, de apenas 17 anos, e a nossa anfitriã em Pelotas, com dois livros de poemas e uma grapphic novel publicados, Angélica Freitas.
O contraste pode interessar: tudo em Victória parece se afigurar como tempestade, e seus versos, desde o primeiro poema, que retoma o tema de um enforcamento, quase como na balada de Villon, se entrechocam numa fricção difícil ao mesmo tempo que parecem surpreender a cada passo. O poema “Falt’ar” consta na Revista-Disco, trabalhado com Lucas Matos, a partir de respirações entrecortadas, gritos pela metade.
Trazemos aqui também as duas séries que Angélica Freitas leu no encontro “Bliss Não Tem Bis” naquele quase distante 18/06/2013. Logo antes de gravar sua série “Uma mulher limpa” para a Revista-Disco. Nota-se a procura por um verso que apresenta uma espécie de clareza, noturna, que não perde o aço da inquietude, o gume do problema.
Em ambas, o convite é sempre ao leitor dar acolhida a um conjunto de questões que aparecem como bichos vivos, agitando seu corpo por dentro da cabeça de quem lê, vida intempestiva afora.
Com muito orgulho, proporcionamos no dia 29/11, no lançamento da Revista-Disco, a oportunidade de Victória Guimarães se apresentar ao vivo pela primeira vez. E com muito orgulho levamos Angélica ao Rio em junho e agora vamos ao encontro dela. A pergunta sobre as vozes das poetas retorna e insiste e pensamos em como se coloca a diferença entre as vozes de mulheres poetas e de homens poetas no gesto de dizer o poema, e como a diferença entre a voz de uma jovem de 17 anos que começa seu percurso, e uma poeta de 41 anos, que se afirma de maneira cada vez mais consolidada como uma das figuras mais importantes da atualidade poética.
Como elas, por exemplo, mais vozes da voz.
Até Pelotas – RS!
***
Victória Guimarães
Falt’ar
Todo o mundo a seis pés dos meus pés e
Quero o meu colo, e-eu não Te
Vejo; e-eu não o desejo,
eu desacelero até
a ponta, até
a porta, e–
Mas é que
Ontem você disse
“amanhã”, um hoje per
doado desde que cá dentro
você se aloje, para que a gente–
Se o conforto viesse só
Contigo, Mas daí também
Vem ar
Dor
“Fecha os olhos e a-corda, nós se-
Remos os mais serenos amigos”.
Mas podes dour–
Ar os meus dias, essa é só
Mais uma ferida,
“Toma as rédeas e a-corda, nós se-
Remos os mais serenos amigos”, sob qual
Olhar rígido esse seu
Coração escoteiro viaja
Só e com pouco peso, traz e descar
Rega só ar
Dor
Perene gemido no
Final dês
S’en
gas
go
*
Nunca foi sobre nenhum de nós
Eu sou todas as fotografias que você tirou quando a câmera estava com a lente tampada.
Eu sou todos os capítulos que você não leu por já estar muito cansada.
Eu sou todos os dias longos que só serviram pra te fazer mais velha.
Eu estou no canto da sua sala,
Sonolenta e febril.
Vê como eu luto. Vê como eu perco.
Eu sou o diabinho rouco que te aquece os ouvidos.
Eu sou todos os teus suspiros contidos.
Eu sou os momentos nos quais você torceu os lábios sem perceber.
Eu estou no canto da sua cama,
Sonolenta e febril,
Numa preguiça urgente
Desprezando o vento que vem daí.
Eu sou todos os sonhos nos quais você largou tudo e foi embora.
Eu sou a sua vida derretendo lá fora.
Eu sou todos os calibres de tristeza que você já quis sentir.
Eu estou no canto da sua cozinha
Com pés tortos e andando em círculos,
Uma sentinela hostil da fúria calma.
Mas eu durmo enquanto eles falam,
Eu durmo enquanto ela chora,
Eu durmo enquanto todo mundo se azara,
E acordo assim que a ponta do lápis quebra.
*
Não havia ninguém em casa
Há tanto, tanto!
E me dilatava intocada em tamanho igual estado
Como um escorpião branco que não sabe torcer para dentro ainda.
Eu vi um homem de olhos límpidos morrer de fome no Kalahari,
Congelou com as mãos trançadas em forma de pistola
E desejei que pudesse atirar em quem menos merecesse.
Eu te digo olhos e sonhos
Da precisa magnitude de almôndegas bem pequenas.
Um coração fino e mínimo,
Um ataque cardíaco por minuto,
Porque ele sobrevoava todos como um míssil noturno
Muito inquieto
E infeliz.
Desculpe, mas está na constituição
Este estabelecimento está fechado para carícias aos domingos.
Aos domingos, a gente condensa, escreve e vê problemas.
Aos domingos, de repente, tudo é igualmente ligeiro
E rouco
E pouco
Como uma branda casa vazia.
*
Trial version of almost everything else
Eu falo da conduta,
Das bebedeiras fabulosas na Filadélfia,
Do teu olhar de passarinho cozido
Do planeta que a Rubi veio,
A cinquenta anos-luz daqui.
Lá, garotas não tem caixa torácica,
Os caras tem pintos maiores,
Existe xarope pra confissão engasgada
E dá pra fazer poema bom no smartphone
Como se faz pipoca de micro-ondas.
A Rubi faz de conta que viveu muitíssimo,
Que é caríssima
Ajoelha-se com as mãos à frente
Frente à montanha branca
E chora como animal desnutrido
Eu assisto, eu presto atenção, e
Me dá… náuseas, Neide.
Me dá… náuseas, Neide.
“Essa vai ser a última solidão da sua vida.
Essa vai ser a penúltima solidão da sua vida.”
Eu tenho sempre sentimentos mistos
Sobre vistos no seu passaporte
Para o meu país.
*
PEGUEI SEU CONTO E
Sol na cara para disfarçar a sensação
De criança humana e desumana desaguando letal
De frango atingido pela magreza vagabunda
De adolescente escuro esquecido na areia
Símbolos fálicos comem cachorros-quentes
Carregados de odisseias quentes
Pedem socorro,
Desenham a extinção dos salva-vidas descontextualizados
Enterram casais dilatados
Rumo à água fria
Dão mortal para trás frente às expectativas
Há certos rumores de que
Cada obra-prima de Kubrick é uma forma de mate a um real:
Verdadeira crítica neutra aos humanos tripulantes
De biquínis e maiôs engalfinhados
Como o próprio escritor descongelado do mundo,
Intensa ficção científica, café entornado,
Somos
Uma nave espacial que arrepiantemente revoltou-se
*
COISAS DOÍDAS DE DIA QUE DE REPENTE SÓ DE NOITE
Jurei que era tua a horda de dedos caminhando aqui
Tateando-me a espinha como um andarilho paraplégico
Eu desmaiei levemente
Por um filme inteiro do Almodóvar
Aquele carinho
Foi a moça robusta na pintura velha se apaixonando
Pelas nossas costas lisas de areia vulcânica
Praias de baleias zonzas saltando para nos ver
Nesse contato furioso de existências
*
Viki’s delivery service
Diz “absurdo”.
Diz “porcaria”.
Diz “Manhattan.”
Só você vota no meu país.
Não se encuba assim, só
Porque eu esqueci o nosso poema
no meu sonho ontem à noite
e agora ele foge no mundo
imundo desistido e delinquente
Ninguém tem culpa
quando o poema já nasce marginal
Diz “absurdo”.
Diz “porcaria”.
Diz “Manhattan.”
Só você vota no meu país.
Não se chateia
Porque tem um japonês cortando ele todo em haikus bem agora
Quando a gente sabe que você é um romance russo
Cinco páginas só sobre o seu jeito de roer unhas
Diz “absurdo”.
Diz “porcaria”.
Diz “Manhattan.”
Só você vota no meu país.
Na França cantam ele de madrugada
Fica bem no som dos baixos acústicos
Os países baixos
Se inebriam na nossa baixaria
Árabes dizem que a tua barriga é a nova terra prometida
Diz “absurdo”.
Diz “porcaria”.
Diz “Manhattan.”
Só você vota no meu país.
E até Atlântida,
Terra Média,
Shangri-La
Ohio
De repente todas as dimensões
Sabem daquela pinta estranha na tua virilha
E querem conhecer os teus olhos continentais.
Diz “absurdo”.
Diz “porcaria”.
Diz “Manhattan.”
Só você vota no meu país.
Victória Guimarães se apresenta no lançamento da Revista-Disco “Bliss Não Tem Bis”. 29/11/2013. Na Coart/UERJ. Foto por Alessandra Migueis.
***
Angélica Freitas
mijo
(um poema urgente)
1.
uma mulher não deve mijar
deve fazer xixi
2.
uma mulher faz xixi
não mija
mas em banheiros públicos
a mulher acaba que mija
3.
uma mulher faz xixi
porque é mais sexy
mas quando é incontinente
a questão se torna irrelevante
4.
conheço uma mulher
que mijava
mas dizia por aí
que fazia xixi
5.
mijei no balde
foi libertador
mijei no balde
dentro do elevador
mijei com vontade
sim senhor
hoje
sou outra mulher
6.
xixi, mijo, urina: como queira chamar
se tiver nojo e a água acabar
se quiser viver vai ter que tomar
mijo. se quiser pode dizer
xixi ou guaraná
mas continua sendo mijo
7.
nisso tudo eu pensava
a caminho do banheiro
após ter lido uma frase
do marcelo rubens paiva
será que ele mija, o marcelo?
com certeza deve mijar
mirando as estrelas, será?
fazendo desenhos no ar?
(quem se importa?
eu não me importo)
8.
outra questão a se especular
quando acontece dormindo
é xixi ou mijo?
dependerá do fluxo?
da quantidade?
qual o critério?
outra coisa que direi
como aviso ou comentário:
mija-se desperto ou dormindo
peidar só se pode acordado
março de 2011
provavelmente
*
a poetisa é legal
o que ela escreve não faz mal
a poetisa tem um blog
onde ela posta canções de rock
a poetisa lançou um livro
“o escaravelho do descalabro”
ela escreveu ajoelhada no milho
a poetisa é boa pra caralho
*
i
a poetisa gosta de pizza
acha a pizza democrática
a poetisa nunca foi à itália
mas tem souvenir da torre de pisa
é aquele preciso tijolo
cuja ausência a deixa inclinada
quem, a torre de pisa ou a poetisa?
ii
“cara, cês não entendem nada”
disse a poetisa irada
“o melhor leitor que existe
é o leitor de códigos de barras”
“vão ler uns códigos de barras!”
a poetisa lê pattismith e os beats
a poetisa fica puta da cara
*
uma poetisa by any other name?
é poetisa o que você quer
substantivo feminino
não se engane: é mulher
que é um s. f.
que rima com outro s. f.: colher
e forçando um pouco a barra
com um v.t.d.: colher
vai dizer que colher s.f.
podia ser outra coisa que s. f.?
e forçando um pouco a barra
quem ficava pra colher?
“boa tarde, o poeta está?”
“não, saiu pra caçar.
se não for comido por um tigre
em breve voltará.”
uma poetisa by any other name?
*
a poetisa está numa boa
em casa ouvindo leonard cohen
ela pega o caderno e decide
escrever como se fosse o leonard cohen
para, fuma, pensa um pouco
mas em português eles não saem
os poemas do leonard cohen
“por que será?”, ela indaga
“a dúvida é uma adaga que punciona
o olho cego do pássaro louco”
“mas isso aí funciona?
não será neobarroco?
socorro.”
*
homenagem à poetisa*
poeta, não:
poetisa
que bonita a poetisa
é uma sacerdotisa

a ela, os sabonetes
os perfumes, as loções
a ela, todas as flores
todas as menções

que bonita a poetisa
ela sabe onde pisa

nenhuma banquisa
por mais fina que seja
se rompe sob seus pés

* a poetisa não gostou.
***
percalços da poetisa
a poetisa chega à alfândega e o funcionário da polícia federal logo desconfia. pede-lhe que abra as palavras. “isso pode demorar”, pensa a poetisa. as palavras estão carregadas de significado até o máximo grau possível. o funcionário pergunta-lhe se ela sabe quanto significado pode trazer nas palavras. a poetisa diz que sim. o funcionário da polícia federal balança a cabeça e diz que infelizmente vai ter de registrar a infração.
*
um poema de “o escaravelho do descalabro”,
gentilmente cedido pela poetisa
os poetas não me leem não quem me lê
são os passarinhos e as florzinhas nos campos
que me leem sim e os peixinhos no riacho
ai sim e os peixinhos no riacho que contam
para os caramujos que boa poetisa eu sou
ai sim e os caramujos que entram
na tubulação e anunciam minha glória
na cloaca municipal
ai sim quem me lê são os bichinhos
são os paramécios são os e.coli
e os seus semelhantes
*

a poetisa & sua relação com os leitores
perguntada sobre a relação com os leitores, a poetisa
disse: “volto pra casa sozinha, mais que o cesariny,
mas volto sempre pra casa, porque sei onde fica.
eu tenho uma casa, minha e não minha.
e nem de casa se trata. é apartamento. a chave extra
penduro no pescoço do meu gato mais arisco”.
perguntada sobre a revista que editou com amigos
e que afundou porque não flutuava, a poetisa
falou: “mas é a história mais velha do rock’n’roll.
junte três ou quatro deles. não precisa saber cantar.
jante com dois no máximo. não precisa contar
pros outros. funda-se e afunda-se no mesmo outono.
a próxima pergunta eu mesma faço: sabe nadar?
porque na outra pergunta eu desço”.
*
3 x 2 x 1
a poetisa gostava muito da história
do velho, do menino e do burro
ou seria mais certo dizer a história
do menino, do burro e do velho
ou ainda aquela antiga história
do burro, do velho e do menino
mas parecia que era realmente
do burro, do menino e do velho
poderia ser também, quem sabe
do menino, do velho e do burro
e para não ferir sensibilidades
do velho, do burro e do menino
gostava, não gosta mais
porque lembra dos rapapés
e com-licenças de seu país
“o leitor será carregado no alto
onde pensa que habita
e depois atirado na lama
para pensar como um poeta”
ou uma poetisa, no caso
*
três poetisas em forma de pera
daqui pra minha cama é um pulo
da minha cama pra tua é um pulo
da tua cama pra dela é um pulo
um pulo um pulo e meio um grande pulo
podiamos viver assim, a saltar
da rua pra cama e saber
tomar impulso e cair
sobre os dois pés e viver
pulando pulando pulando
ignorando avisos de apertar os cintos
indo ao centro de saúde

uma vez por mês

***

Angélica Freitas, Bliss não tem bis, Poesia contemporânea, Revista-Disco, Victória Guimarães