Mariano Marovatto: “A barafunda do ventilador era um barco zarpando no meio do sonho”.
5 de novembro de 2013

Certa vez, Mariano Marovatto, diante da cobrança de uma resposta de mais de quinze linhas (em uma dessas seções de formspring do mundo), comentou, não se sabe se ironicamente ou não, que desde cedo encontrou dificuldades em expor suas ideias por inteiro, ou desdobrá-las passo a passo. Na maioria das vezes, tende a simplesmente apresentar a réplica da conclusão a que chegou, tendendo a uma escrita caracterizada pela síntese. Lá, seguia, numa espécie de esforço analítico único, comparando esse modo de dizer, ou pensar, a uma prática poética, em que as coisas valem (no verso) justamente por estarem em suspenso – o esforço do leitor é o de buscar as guias ou linhas de força que amarram a força humorística, irônica, ou estranha do que se diz. Talvez pudéssemos escutar também algo desse modo de funcionar no seu fazer de músico – como se as diferentes conversas e temas musicais por que ele perpassa, em pesquisas, em trocas cotidianas, etc. estivessem condensadas em seus discos. E o ouvinte tivesse o trabalho de deixar a matéria sonora ir decantando aos poucos, e entre um vislumbre e outro alcançar as diferentes camadas de leitura oferecidas em seus dois discos.
         Aqui, apresentamos, na íntegra, o seu disco mais recente, lançado há uma semana através da Internet, seguido de um texto de pequenas anotações, ou concentrações de impressões sobre o mesmo, assinado por Lucas Matos. Mariano também nos deu alegria de publicar dois poemas inéditos, junto com uma pequena coletânea de poemas de dois de seus livros Mulheres Feias Sobre Patins (2012) e Amoramérica(2008), feito em conjunto com os outros poetas (Augusto Guimaraens Cavalcanti e Domingos de Guimaraens) que compõem Os sete novos. Por fim, selecionamos três canções do primeiro disco, Aquele amor nem me fale (2010), apresentado junto com um texto de Leonardo Davino sobre a (re)interpretação de Não tem lua.

***
        
Dois poemas inéditos
um almoço mal realizado
na metade do dia
pernas ordinárias
de homens e mulheres
vão e vêm num exercício
de piscina a rua turva 
arrastando o estômago
enrugado no final dos
paralelepípedos a anoréxica
avistou um navio cortando
as cabeças pode ser que
o acontecimento atravessando
o dia facilite a digestão os olhos
pro céu que se aproxima escuro
vermelhíssimo e cartilaginoso
feito a morte de um tubarão
*
Constelação é só uma palavra-chave. 
Não me force o dicionário tijolo
de um grande muro.
Um homem sem lua, luneta.
Palavra sob a sombra de todos os tijolos.
Pratos limpos e brancos garfos, taças e bancos. 
Um homem golpeia seu próprio estômago,
tapeia a fome dos olhos concêntricos,
espiralados, castanhos enojados.
Todos de pé esvaziando a nave.
Outra palavra-chave lá fora.

***

Praia (2013) 





*
Ouvindo Praia: três anotações/impressões sobre o disco de Mariano Marovatto.
Por Lucas Matos
I.
A Lagoa de Araruama, na época, era própria para banho – ainda que tivesse lodo suficiente para tornar a coisa toda um pouco intragável, no fundo era o que seus pés tocavam ao invés da areia, e por vezes viam-se algumas estranhas composições boiando – e um dos meus pais havia perdido a aliança entre as marolas da Praia Linda. Os meus avós por parte de mãe tinham uma pequena casa alguns minutos distante do centro dessa cidade da Região dos Lagos, e nós invariavelmente passávamos parte do verão lá, andando de bicicleta e nos revezando entre a Praia do Abel e essa, onde o caso se deu. Aparentemente, os nomes de praias em Araruama depõem a ingenuidade profunda ou absurda – quase que uma inocência – que surge nos homens quando diante do mar. As crianças que éramos na época nos revezávamos entre tentar em vão procurar o objeto perdido naquelas águas de tom mais escuro, e cantar inutilmente: “Perdi meu anel no mar, não pude mais encontrar”. Mais tarde, nós cataríamos conchas na areia da praia, e isso seria bem pouco consolador embora cumprisse de algum modo com a promessa da canção.
         Não sei exatamente por que começo com essa história para tentar dar conta de falar do que, ou em que ponto a nova incursão de Mariano Marovatto pelo universo musical me alcança. Talvez haja um modo misterioso através do qual essa lembrança de algo que eu poderia descrever como um inverno ao avesso encosta ou esbarra em versos como os de Alice Sant’anna: “te ver no inverno/ é como verter pela metade/ meus pés afundados/ na areia, às cinco a luz/ é pouca: hoje é terça de tarde/ e não me sinto de férias/ nesse verão ao avesso/ te dobro um barquinho/ pra navegar”. Quando sua voz surge, sozinha, dando corpo à faixa que dá título ao disco Praia, a sensação é a de reencontrar um tema de cantiga infantil – a voz traçando saltos e subidas melódicas contra o silêncio deixa a nu uma certa delicadeza todavia áspera, difícil de ser apreendida por nossos ouvidos senão numa certa profundidade. O tema do encontro – que traz uma promessa de calor, ou um consolo a meio passo – contrasta com a luminosidade da estação e uma dificuldade de descanso combinada a uma posição de imobilidade que ganha peso na frase final: “te dobro um barquinho pra navegar”. Contração e expansão, ou contração para a expansão parece ser a forma pela qual encontro se torna possível, trazendo luz e movimento ao que era sombra e fixidez. Contudo, se o tema do que se dá, ou o que se deseja, num encontro com o outro perpassa o disco (“If you wanna know me, you have to find me”, “Bemol pra lá de mim/ sonhei com você”, “Me conta agora/ o teu segredo”) é somente como contraponto de um certo ilhar-se da voz, ou na voz (a voz enquanto ilha em meio a distintas camadas sonoras) ou num pensamento isolado, como bem assinala Ismar Tirelli Neto em sua apresentação da obra (que pode-se ler aqui aqui). Outra forma desses dois polos se redistribuírem ao longo das faixas, dando movimento à figura que as organiza, é a de uma divisão entre o mais estranhado – e exacerbado – de recursos sonoros eletrônicos e desafiadores e o mais simples, como uma canção de ninar.
II.
         Não tenho certeza se há comentário suficiente acerca da relação entre a canção e os espaços geográficos em que ela surge, ou que ela indaga (seria possível uma antropologia da música do litoral diferenciada das sonoridades da música de diferentes relevos do interior do continente?). Mas talvez estejamos diante do material que nos suscite a questão de como a praia pode funcionar como a forma através da qual a canção se pergunta pelos seus limites: o som do mar (quando puxa diferente de quando arrebenta) insistindo sobre os modos que os homens têm tanto de cantar quanto de compor, e arranjar. Digo isso, apenas como estratégia para melhor situar a ponte algo despropositada que pretendo sugerir: a de que o diálogo que o disco propõe, aquilo para onde ele se dirige e pergunta não é o conjunto de explorações do rock e seus diferentes caminhos hodiernos que parecem influenciá-lo de modo mais imediato, mas Canções Praieiras, de Caymmi, obra de 1954.
A princípio, a não ser pela semelhança de conteúdo sugerida no título, não poderia haver dois objetos mais distintos: enquanto em Caymmi, a voz é profunda e grave, e tudo que sugere o espaço sugere igualmente a agregação entre os homens (apesar da insistência algo ameaçadora, algo trágica da morte) e uma simbiose entre a cultura e a natureza; em Mariano, as vozes são suaves, ou extrapolam agudos, quase sempre como efeitos de superfície (como descolando-se, ou deslocando-se das partes mais densas do cantar), e tudo que sugere o espaço é ou sonho, ou encontro nas raias de um inusitado, vivendo-se o oposto de uma comunidade. Marca-se um avesso ao todo da cultura, e uma impossibilidade de qualquer natureza da praia, que se encontrasse com o violão e com o canto. Igualmente, enquanto Caymmi se dirigia evidentemente ao rádio, e ao seu formato, aqui se perfaz uma recusa do rádio que é simultaneamente uma recusa de uma maneira de existir da canção (“I don’t wanna play on your radio/ I don’t wanna show you what you know”, “derruba o prédio/ desliga o rádio”, “They’re beating the town witch to death/ on the graveyard down by the roadside/ the same happens to the song”).
É como se fosse cavado um desvio no modo solar de Caymmi, no que há nele de erguer a canção do fundo do mar, e fôssemos lançados de volta a uma ambiência propriamente marinha, como quem diz: “cantemos, pois, debaixo d’água”.
III.
         Para onde vou, meu pensar – é em Botões que o que vinha se insinuando de modo ainda muito fino atinge o seu centro, ou encontra o seu prumo. Logo, nos dois primeiros versos, uma espécie de abandono se dá. Mas abandono de quê? De tudo, de qualquer acontecimento, qualquer evento, o sujeito se subtrai da equação, do esquema (do sistema?). A força se anuncia logo de cara: “Pois que apertem seus botões/ para tudo acontecer/ mas que façam bem longe daqui”. Tudo que acontece, qualquer fenômeno, não é senão produção de botões que se apertam, de programações que se perfazem. O problema é: onde pode ser aqui? A praia, como promessa de real que se contraporia ao que acontece por meio de botões, seria uma resposta muito duvidosa (pelo desenrolar da canção, e por toda fluência do disco).
         Na segunda estrofe, a imagem dos botões volta pela menção à guerra, parecendo sugerir que todo pressionar de botões é uma detonação de alguma espécie. Quem canta se reconhece entre a precariedade e insatisfação do isolamento e a necessidade de tomar o pé de seus caminhos, legar a si suas escolhas. Na terceira, ele já se foi, e qualquer estratégia para atingi-lo, seja pelo mais vital ou sentimental órgão, será ineficaz. (Talvez seja curioso apontar como essa última letra se contrapõe à primeira: se no início, se demandava de alguém a quem se dirige e que escuta, a necessidade da experiência do encontro como forma de acesso/conhecimento do sujeito que canta; ao fim, é negada a uma terceira pessoa indeterminada (“eles”) a possibilidade desse mesmo encontro). Não há, então, acesso (túnel, ou ponte) ente as diferentes narrativas (jornais, TVs) desse mundo e para onde o sujeito se desloca.
         E aqui, talvez, um retorno, a insistência da pergunta: se o “meu pensar” aparece como um destino, um aonde chegar, a partir de onde se está falando? Que aqui é este aqui? A resposta que talvez possamos sugerir é: “o canto”. O canto como porto de onde parto para encontrar o meu pensar.
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De Mulheres Feias Sobre Patins (7letras, 2012).
Todos os percursos impossíveis
Estou na praia, mas penso na Transiberiana
que está longe de ser
uma garota russa, estilo Tsvetáeiva
psicótica e ninfomaníaca
presa numa ilha das Cagarras
esperando um príncipe de caiaque.
*
O domingo mais triste dos últimos anos
Moro num quarto e sala cuja metade
está ocupada por Benito di Paula e seu
piano de cauda.
*
Primeira vontade
Ano: 1986
Local: dead end world
Personagens: east end boy & west end girl
Como foi: sentada ela me dava a mão na altura do seu nariz pequeno e descascando no contraluz, sorria bem loira. Eu tinha uma galera e era o líder, ela a namorada era a mais velha a mais alta a mais bonita. Chuva fina nos becos, fumacinha saía da boca, coragem saltava dos músculos, amor nos tempor de super-heróis. O beijo era complicado e diferente.
*
Poética
Tenho o brinquedo mais bobo do mundo.
Às vezes acham que eu mesmo inventei.
*
Tenho 13 amigas gordas
Tenho 13 amigas gordas que frequentam
sites de astrologia.
Algumas estão encalhadas desde o primeiro semestre
da faculdade,
outras frequentam o grupo do terço
ou já foram batizadas no Johrei.
Mas elas nem são tão gordas assim.
*
Na casa do Gilberto
Nunca dormi na casa do Gilberto.
Houve uma única vez que o lençol estava macio
e a barafunda do ventilador era um barco
zarpando no meio do sonho.
Mas o Marcelo cismou com o espírito do tio na janela,
levantou-se e quis ir embora. Desembalei-me do barco
desci quatro andares de elevador e nunca mais
estive numa boa com espíritos.
*
Fui a Goiana
Vó, fui a Goiana.
Vi a igreja, o pelourinho
e a rua desmoronando.
Nem chuva, nem jardim, nem memória.
Quis que alguém me dissesse
que eu era ilustre visitante
que o Zé Lins do Rego era meu parente
O primo
que casou com ciclana mas amava a cunhada
não importa mais.
Entrei no mercado
pra comprar um treloso
lá fora passou uma boiada ou a Curica. Não sei,
não vi. Fui-me embora,
voltei pro Recife mas não gosto de lá
prefiro João Pessoa e Jacarepaguá.
*
Mulheres feias sobre patins
As delícias podem ser:
coxinhas
pães de queijo
empanadas de camarão
rissoles de queijo e presunto
pastéis de carne
pastéis de festa
brigadeiros
bem casados e olhos de sogra
Empadas: com 30 minutos
Você também pode solicitar descartáveis

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Três canções de Aquele amor nem me fale (2010).



*
Sobre Não tem lua.
Por Leonardo Davino
Certa vez, quando perguntado porque exerce tão pouco sua verve de compositor, João Gilberto respondeu que já existia muitas canções precisando de “conserto”. E assim ele segue eliminando tudo aquilo que considera excesso (gordura), para de chegar ao núcleo duro da canção: ao (quase) silêncio.
Por princípio estético, quando alguém se propõe a regravar uma canção, é preciso um investimento amoroso e erótico para torná-la nova, de novo; é preciso iluminar cantos que as gravações anteriores não tocaram: explorar outros significantes. Só assim se consegue causar no ouvinte a experiência da novidade: da primeira vez.
É o que acontece com a gravação de “Não tem lua”, de Durval Lélys, dada ao público por Mariano Marovatto no disco Aquele amor nem me fale (2010). Aliás, um disco feito para ninar amores; embalar desejos; e dar bandeiras líricas.
A referência a João Gilberto aqui não é gratuita, basta observar o banquinho e o violão – imagem icônica joãogilbertiana – na capa do disco de Mariano. Muito embora Mariano, poeta, ao contrário de João, exerça o ofício de compositor: das nove canções do disco apenas duas não é de sua autoria.
Em “Não tem lua” temos um sujeito que canta uma certa “menina do mar”. Ora, ela não é outra senão a sereia que brincando na areia arrebatou nosso sujeito. Ele mesmo, em momento de entrega, se diz “filho da terra” e pede para que ela o leve com ele. Em quem mais a gravidade da lua interfere tanto além do poeta e do mar – habitat da sereia: ela que gosta de ser presenteada com flores e perfumes?
Se na versão do próprio Durval Lélis, que tantos corpos suados de desejo e de folia embala nos carnavais, o sujeito dança sua dor e delícia, Mariano ilumina o interdito e o dengo: plasma um sujeito platônico: ela do mar, ele da terra. Mariano encontra outro tipo de musicalidade e embalo: modulados pelo refinamento do lirismo.
Não tem lua
(Durval Lélys)
Não tem lua que faça você me amar
Não tem lua que faça você passar por mim
Não tem cheiro, nem flor
Nem perfume de amor
Não tem lua não, não tem lua
Menina do mar
Menina do mar, ê
Menina do mar
Menina do mar, ê
Tô louco de dengo pra te ver
Eu só quero um pouquinho te amar
Mas se a vida me leva no calor
Faço tudo se você me der amor
Menina do mar
Menina do mar
Menina me leva
Menina do mar
Menina do mar
Sou filho da terra
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De Amoramérica (Por Os sete novos, 7letras, 2008).
Opening Night
Em Recife
Myrte Gordon
não obteve o mesmo êxito.
Ao atravessar bêbada a ponte de Maurício de Nassau
o miasma
torceu sua alça intestinal
e o volvo se transformou em merda
seu último pedido de socorro.
*
Oceanside
Se alguém pudesse
verificar a existência
desses seis mega
pixels de nascer
do sol de uma praia
desimportante de Oceanside
Se alguém pudesse acreditar que tomo
água de coco numa praia desimportante
de Oceanside, sorvendo o doce salgado
da vida sentado na areia branca
desimportante de Oceanside
Se alguém pudesse me encontrar sentado
às seis horas da manhã numa areia branca
impossível de Oceanside, erguendo um coco
verde na mão com seus tantos – dois
dissabores de uma humanidade inteira
esquecidos ali, numa praia qualquer
de Oceanside se alguém pudesse
verificar às seis horas da manhã
a areia branca de Oceanside
Se alguém pudesse
às seis horas da manhã
sentar numa praia branca
desimportante de Oceanside,
Oregon, e não tirar uma fotografia
*
Dakota do Norte
Meu bem,
é primavera em Bismarck,
o gramado é de um verde tão intenso
o céu de um azul tão azul
do tamanho exato
da solidão desse teto branco
do Leblon
*
Vinícius about dating
A vida é a arte do encontro
embora haja 89 por cento
de desencontro pela vida
*
Bismarck de novo, a passeio
E no meio do retorno
resolvo traçar uma linha reta
até o capitólio pálido do poder.
O carro está em ponto morto,
esta foto já existe e Frank O’Hara
estava certo quando disse
“Don’t complaint, my dear,
You do what I can only name”
***


Canção, Mariano Marovatto, Poesia contemporânea