Dimitri BR: “Quando canto também ouço, e então não estou só”.
19 de novembro de 2013

Bliss Não Tem Bis entrevista Dimitri BR
por Lucas Matos.
A história desta entrevista começou com outra entrevista, que eu nunca li. Foi, segundo contam, em maio de 1987, que o jornal francês Liberátion perguntou ao cineasta Joaquim Pedro de Andrade por que ele fazia cinema (ou simplesmente porquoi filmez-vous?). A resposta dada foi posteriormente apropriada por Adriana Calcanhotto, e transformada na canção que inicia A Fábrica do Poema, de 1994.
Quando decidimos – eu, Clarissa Freitas, Marcio Junqueira e Thiago Gallego –, no final do ano passado que embarcaríamos ao longo de 2013 na aventura de inventar uma Revista-Disco de poesia, a princípio, pensei que seria preciso limar gêneros presentes em revistas impressas mas aparentemente incompatíveis com o formato de CD de áudio que queríamos. Pela minha lógica, ninguém procuraria um CD para colocar uma entrevista para tocar. Alguns meses depois, Marília Garcia me diria que já fez isso algumas vezes, demonstrando que não é que ninguém fizesse ou faria o gesto, simplesmente minha imaginação que estava curta. De qualquer forma, então eu já tinha lembrado que há outra maneira pela qual uma entrevista pode aparecer num CD de áudio.

Ao lembrar do disco de Adriana, eu pensei que, adaptando o procedimento, poderíamos pensar que toda entrevista tem uma gama de opções inexploradas – que, sim, as respostas podem ser dadas como textos em prosa, como acontece na maioria dos casos, mas também como canções, poemas sonoros, etc. Onde foi que ficou escrito que perguntas feitas em prosa demandam respostas em prosa? Onde foi que ficou escrito que a finalidade de uma resposta se esgota ao alcançar metas dadas pela pergunta (e vice-versa)? Evidentemente que em lugar nenhum.
Salvo engano, quando cheguei à ideia do formato, Dimitri BR tinha acabado de lançar, pelo diahum, seu EP AMORRR. Eu escutava, por exemplo, Song for Stella, e comentava com ele, fazendo perguntas sobre detalhes da canção, além de trocar figurinhas sobre histórias de como algumas músicas do cancioneiro brasileiro foram compostas. Foi natural pensar que ele podia ser nosso entrevistado para a Revista-Disco.
Na hora de fazer a proposta, achei melhor bolar uma estratégia que pudesse dar alguma mobilidade, deixando que ele escolhesse qual pergunta tinha cara de querer ser respondida com canção, e qual com texto em prosa, etc. Então, junto com minha irmã mais nova, a Nádia Mello – nós dois, curiosamente, também filhos de um paraense – escrevi um conjunto de 10 perguntas que tanto queria se debruçar sobre a obra de Dimitri, quanto especular antropologicamente sobre os hábitos de composição, compartilhamento e experiências diversas com a canção e a música neste Rio de Janeiro desta primeira década de século XXI.
A parte escrita da entrevista está toda aqui. Para ouvir duas das respostas em áudio, basta no dia 29/11 – daqui a 10 dias exatos – você comparecer ao Salão 2 da COART/UERJ (em cima do restaurante universitário) a partir das 18h30min, quando a Revista-Disco BLISS NÃO TEM BIS será lançada. A UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) fica no Maracanã, Rua São Francisco Xavier, número 524. Estejam todos convidados.
Acrescentamos ao longo da entrevista alguns links para vídeocanções comentadas, e juntamos vídeos e músicas de Dimitri BR que, de um modo ou de outro, pareciam dialogar com o que estava sendo dito.
Um dos textos mais instigantes, e que parece marcar decisivamente mudanças ocorridas na forma de se relacionar com o som e a música nos últimos anos, é justamente quando o cantor declara que o ruído é seu amigo. Nosso, também.
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BNTB: Qual a primeira canção que você fez? Como foi o processo de criá-la?
Dimitri BR:A verdade é que eu sempre fiz música. Nasci numa casa, numa família em que música era coisa de todo dia: meu pai tocando piano, minha mãe ouvindo rádio e LPs de samba e MPB e contando causos de compositores e cantores, nossa babá cantando sucessos populares e vendo “Qual é a Música?” na TV. Além de poder brincar à vontade com o piano – aquela incrível, enorme máquina de fazer sons, de onde todo dia meu pai fazia surgir música viva, “feita na hora” – eu e minha irmã tínhamos diversos pequenos instrumentos musicais, que guardávamos junto com os brinquedos, em pé de igualdade. Música era uma coisa sempre presente, importantíssima, mas ao mesmo tempo não era solene, não havia cerimônia pra lidar com ela. E assim, desde cedo brinquei de inventar canções.
Mas existe sim uma canção que ficou marcada como “a primeira”, pelas circunstâncias em que foi feita, e porque acabou levando também à primeira vez em que subi num palco para cantar. Foi assim: minha família é 100% paraense e todos os anos, nas férias, íamos a Belém visitar meus avós e tias. Numa dessas viagens, quando eu tinha 10 anos, meus pais decidiram voltar para o Rio “descendo” por algumas capitais do Nordeste. Numa dessas escalas, acho que em Fortaleza, fomos a uma apresentação de repentistas, e eu fiquei fascinado por aquele duelo de improvisos. Alguns dias depois, já em Maceió, numa praia chamada Sonho Verde, virei pro meu pai e disse: “pai, tem uma caneta e um papel? é que fiz uma música e queria anotá-la.” Meus pais não tinham caneta nem papel e a coisa podia ter morrido ali. Mas meu pai revirou a praia – lembro que foi difícil! – até conseguir, com um sorveteiro, uma caneta emprestada e uns papéis de embalagem. Assim pude anotar os versinhos de “Ganhei na loteria”: uma embolada nordestina, uma anedota cantada sobre um gaiato que supostamente ganha um prêmio e outros personagens que aparecem pra disputar o dinheiro. Anotei a letra na praia e passei o resto da viagem repetindo a melodia obsessivamente, com receio de esquecê-la.
De volta ao Rio, voltaram também as aulas. E acontece que no colégio em que eu estudava, o Instituto Santo André, o professor de música, Luís Duarte, resolveu promover pela segunda vez um Festival de Música, nos moldes dos antigos Festivais da Canção. Entre a timidez e a vontade de mostrar minha música, acabei gravando-a numa fitinha e entregando pro Luís – com a condição de que eu pudesse mudar de ideia e não participar do Festival. Tentando ainda um derradeiro golpe de autossabotagem, disse que só participaria se meu amigo Erik Kohler, ainda mais tímido que eu, pudesse cantar comigo. A estratégia não deu certo: Erik topou, e foi assim que, aos 10 anos, subi pela primeira vez num palco para cantar uma composição minha. Aliás, o Santo André só ia até a 4a série da época; então todos os participantes éramos crianças de 8, 10 anos de idade – todos cantando composições próprias, acompanhados de músicos “de verdade”, adultos. O Festival foi divertidíssimo, com torcida (espontânea e organizada pela família), plateia participativa e tudo o mais. No final, “Ganhei na loteria” foi escolhida pelo júri como “melhor composição” do concurso – honraria comemorada pelos intérpretes e suas famílias com brindes de milkshake na Confeitaria Colombo de Copacabana.
BNTB: Tanto a poesia quanto a canção têm sido abordadas em discursos que proclamam seu fim (presente ou iminente). Como você vê a questão? De que modo pensa que versos no poema e na canção podem (e se podem) colocar questões no/para o mundo de hoje?
Dimitri BR:Meu contato com a poesia se intensificou pelo convívio com jovens poetas brasileiros atuantes – inicialmente com Marília Garcia e Ricardo Domeneck (aliás tive o prazer de apresentar um ao outro), e mais recentemente com Victor Heringer e Ismar Tirelli Neto, entre muitos outros amigos e conhecidos. Acho que qualquer um deles estaria mais apto a responder essa questão no que diz respeito à poesia; mas eu diria que o fato de haver tantos jovens dedicados a fazer e pensar poesia já é um indício da vitalidade desta. De minha parte me parece que a poesia e os quadrinhos são linguagens muito propícias aos meios de difusão e leitura atuais, por sua concisão e grande poder imagético, e que ambas vêm se tornando mais presentes por conta disso.
Já quanto à música, a recomendação mais prática que eu poderia dar pra quem queira saber o que penso sobre os rumos da canção é: ouça “música sólida”. “Música sólida” (2011), o primeiro álbum do diahum [projeto de parceria de canções, vídeocanções, etc. levado adiante por Dimitri e Alexandre Hofty, para mais informações, clicar aqui], é todo ele ao mesmo tempo processo e resultado de anos das minhas investigações sobre o “fim da canção”, bem como sobre os possíveis novos formatos/mutações que poderiam sucedê-la. Não é à toa que o álbum começa com “um minuto de canção”, que afirma “a canção está morta”, e termina com a faixa-título, que clama “música / preciso tanto do teu corpo de som” e profetiza “o futuro é a música sólida”.
E a experimentação do álbum vai – tem que ir – muito além do plano da letra: enquanto “um minuto de canção” é deliberadamente simples, “música sólida” foi construída a partir de pequenos trechos de voz e violão, gravados inicialmente em vídeo, depois recortados e manipulados digitalmente para dar forma à música, como um quebra-çabecas, numa desconstrução do formato icônico voz-e-violão. Assim é em todo o álbum: da primeira à última faixa, todas as composições e arranjos investigam na prática diversos aspectos do formato de canção, seus usos e abordagens na rica tradição brasileira e da música pop(ular) em geral. Ouvir o “música sólida” permite a quem quiser acompanhar e refazer, na prática, seu percurso em busca do “fim da canção”.
Mas posso adiantar: não penso que a canção tenha encontrado seu “fim”. Este chega, talvez, para uma canção muito identificada com o século XX, durante o qual sua forma foi lapidada e popularizada ao extremo. O que se opera na canção de hoje é uma mudança de foco, de hierarquia entre os elementos constituintes – letra, música, arranjo, gravação –, num processo intimamente ligado à evolução tecnológica das últimas décadas, com todas as suas implicações sobre a música e a vida em geral.
Nessa nova “encarnação” da canção, as letras tendem a ser mais evocativas e menos descritivas, com a narratividade/discursividade dando lugar às imagens/símbolos; a linearidade da estrutura princípio-meio-e-fim é substituída pela recorrência, pela justaposição de ciclos, loops – característica comum tanto à música eletrônica pop quanto às formas musicais mais primitivas; o som se torna central – o som das palavras, os timbres dos instrumentos, seu registro e manipulação; a produção em estúdio assume papel quase autoral. Mas a canção, portanto, não acaba: com a adaptabilidade própria da música, ela se reinventa e mantém sua relevância, apoiada em seu incomparável poder de despertar afetos.
BNTB: Como surgiu a ideia de levar adiante um projeto online? Qual a importância que a internet adquiriu e como ela interfere/influencia no seu trabalho?
Dimitri BR: A ideia inicial do diahum era apenas a de gravar e publicar um grande número de composições que não cabiam no repertório da banda que eu tinha na época (a 3a1), além de experimentar a produção com periodicidade. Fazer isso online não foi uma escolha: foi uma constatação do óbvio. Como quando Chacal e seus pares da poesia se aperceberam do potencial do mimeógrafo. O computador pessoal ligado à internet é o maior mimeógrafo que um artista já teve a seu dispor – e o mais completo: possibilita editar, publicar e divulgar instantaneamente, em escala mundial, textos, imagens, sons.
Pode-se dizer, portanto, que foi a existência da internet que me permitiu não só realizar, mas mesmo imaginar o formato do diahum. Aliás, vejo cada vez menos sentido na distinção clássica entre online e offline. A importância que a internet adquiriu no meu trabalho corresponde à que ela vem adquirindo na vida cotidiana de grande parte das pessoas; ao impacto que tem sobre o mundo, as relações, o fluxo de informações. Alguns efeitos desse processo: tudo parece mais imediato; a possibilidade de difusão cresce na mesma proporção que o ruído; conteúdos e linguagens tornam-se cada vez mais permeáveis e imbricados; a virtualidade se torna corriqueira. Esse ambiente é muito propício para a proliferação da música – um construto dinâmico, sem corpo físico, feito de ideia, som e tempo.
BNTB: Qual a diferença entre tocar e cantar? E entre tocar e compor?
Dimitri BR: Cantar está muito próximo do falar; seu canto é sua voz, algo que lhe acompanha a vida inteira, onde estiver. Tocar um instrumento, embora também seja um ato físico, é menos orgânico. No tocar há o intermédio de um instrumento – ou seja, se percebe, se evidencia uma técnica; no cantar a produção do som é direta, há uma maior naturalidade, ou impressão dela.
Gosto de observar também as diferenças e semelhanças entre cantar e tocar diversos instrumentos: numa música, enquanto o cantor emite duas ou três frases, o guitarrista toca dez acordes diferentes, o baixista repete um ostinato trinta vezes, o baterista marca cem, duzentas batidas; então o lugar onde cada um deles está na música, sua percepção do tempo e do conjunto do resultado são muito diferentes. O instrumento que você toca afeta sua própria percepção do mundo. 
Já compor, pra mim, é um exercício de linguagem total: reflexão e livre associação, experiência e experimentação interagem em grande densidade, e em tal velocidade que muitos enxergam aí uma manifestação esotérica, a dita “inspiração”. Pra mim, inspiração é o pensamento pleno; é permitir que seu conhecimento e sensibilidade atuem não linearmente, como é da natureza das conexões no cérebro. É seu pensamento operando rápido demais pra que você possa atrapalhar. Acredito que a sabedoria da criatividade está em saber fomentar, reconhecer e potencializar esse estado.
Compor é formular, condensar ideias e sensações numa forma reprodutível e transmissível; e cantar/tocar é presentificar, dar um corpo de som a essas ideias e sensações – de preferência compartilhando-as com outras pessoas, num ato que completa e justifica o da composição.

BNTB: A sigla MPB ainda faz algum sentido para você? Para designar o quê? Que usos possíveis vê para ela? Você diria que faz MPB? Ou que faz parte da MPB?
Dimitri BR: Nunca pretendi fazer MPB. Quando comecei a compor com mais regularidade, ainda adolescente, em 1994, percebia a MPB como coisa finda, “do passado”. A questão que eu – como tantos outros – me colocava então não era “como fazer MPB”, mas sim: como fazer música (brasileira) sincronizada com o tempo presente, com nossa bagagem estética diversa e com nossa experiência de vida? Ainda assim, “faço parte” da MPB na medida em que minha produção for percebida como tal. E na medida em que se usa, hoje em dia, o termo MPB para designar toda e qualquer música feita no Brasil. Aliás, toda, não: toda aquela que atenda a determinados critérios de “bom gosto” e esmero técnico.
A sigla MPB é, antes de mais nada, um rótulo de mercado, uma embalagem, usada para conferir (supostos) refinamento e modernidade para a música popular. Não existe um “ritmo MPB”; dentro dessa embalagem já couberam: a canção configurada nos festivais dos anos 1960-70; o pop feito pelos mesmos artistas nos anos 1970-80; a música (percebida como) tradicional ou folclórica; e ainda o samba, os ritmos nordestinos e até o rock nacional, inicialmente visto como “inimigo”. Todos esses diferentes gêneros já serviram de “recheio” à embalagem da MPB – e se beneficiaram da exposição e legitimação artística e comercial –, num processo que levou à consolidação do setor musical e de uma linguagem musical pop legitimamente brasileira.
Querer simplesmente “fazer MPB”, portanto, é mirar na embalagem. É reproduzir determinadas convenções de composição e produção, num processo autofágico e estéril. Não por acaso, a revitalização da produção musical brasileira sempre foi (e continua sendo) feita por quem esteve à margem da corrente principal, e/ou foi buscar fora dela elementos para renová-la. Do Pato Fu a Chico Science & Nação Zumbi, dos Mulheres Q Dizem Sim aos Los Hermanos e à recente cena paulista, dos funkeiros cariocas e rappers paulistanos às equipes paraenses de tecnobrega, os principais atores dessa revitalização têm em comum o uso de referências estranhas à MPB canônica e a total falta de cerimônia em misturá-las e reprocessá-las. E a possibilidade que temos de, com a mesma liberdade, lançar mão do rico vocabulário pop brasileiro estabelecido pela MPB – que vai se expandindo e recriando nesse processo. 
Dimitri BR & Ismar Tirelli Neto no show do diahum no “The Maze” em 11/10/2013.

BNTB: Como é o trabalho em parceria? Quais as suas dificuldades, quais facilidades?
Dimitri BR: Sou parceiro dos meus amigos. Faço música com eles como se faz carinho ou sexo – como uma materialização da afinidade; antes de mais nada, pelo prazer de fazermos algo juntos. Até por isso alguns de meus primeiros parceiros de composição foram amigos e namoradas que nunca tinham composto uma música antes. À medida em que adquiri maior prática e desenvolvi minha própria maneira de compor, fui me tornando parceiro de outros autores – sobretudo dos indefectíveis amigos poetas. Faço letra, música, as duas coisas, o que for, conforme o método (ou a falta dele) de cada parceiro.
A primeira foi Silvia; como irmão mais velho, cheguei em casa e anunciei: “Somos uma banda. Vamos tocar dia tal no Festival do CAp. Ah, e pegue seu violão, que temos que compor uma música pra participar!”. Achilles Chirol me dava fitas K7 com bases de violão. Fred Coelho me mandava letras por email – e mandava as mesmas pra outros parceiros. Rodrigo Caiuby me entregava folhas de caderno; mas nossas melhores músicas vieram de poemas publicados em seu blog. De blog também saiu a primeira com Ana Kemper: de um post com fotos e legendas de sua viagem de férias. Wilson Reis me mostrou um poema apaixonado, com seus rascunhos. Bruna Beber me enviou um email: “dimitro / mes passado teve um dia / o mais filis de minha vida: / eu escrevi um axé / MUSICAE vamos brincar”.
Sonhei com uma canção inexistente do Pato Fu, acordei lembrando a melodia, mas não a letra; mandei pra Zélia Duncan, amiga dos Patofus; a canção ganhou novas palavras e acabou sendo gravada por Zélia com o John – que no sonho era seu autor. Já o sonho de Victor Heringer foi com delírios geométricos, que ele anotou e me enviou; virou canção. Eu pra Victor dei um cd com centenas de meus esboços gravados no microfone tosco do celular – e acabamos fazendo colagens sonoras na Bienal de São Paulo. Roubei um poema do primeiro livro de Marília Garcia e um do último de Chacal; em comum, a reação dos autores ao ouvir a canção resultante: “caramba: fui eu quem escreveu essas palavras?”
Porque tem isso: além do prazer fundamental de “consumar a relação”, a parceria possibilita aos parceiros fazer algo diferente do que fariam sozinhos. Feito uma mistura de códigos genéticos, mesmo. E isso vale para fazer música, de um modo mais amplo; alguns dos meus principais parceiros musicais são pessoas com quem nunca compus uma canção. Como Fernando Paiva, com quem acabo de gravar o álbum “A Última Peça” – só com composições dele –, e Alexandre Hofty, meu cúmplice no diahum – certamente o parceiro com quem mais fiz música efetivamente juntos.
BNTB: Por que música sólida? Por que pensar a música a partir de seu corpo?
Dimitri BR: No que diz respeito à música, “música sólida” se refere ao aumento da importância do som – do corpo de som – na definição da composição (vide a questão sobre o “fim da canção”). Mas o conceito de música sólida não é um pensamento apenas sobre música, e sim uma confluência de reflexões sobre música e corpo, hoje e no futuro.
“Planeta: Terra. Século: XXI. Imerso em uma existência virtual, o ser humano se distancia cada vez mais de seu corpo físico.” Com essa introdução iniciei a performance de “música sólida” no “Textualidade: Modos de Usar” no MAM-RJ, em 2011. A conexão com ficção científica – o texto emula a apresentação do antigo seriado japonês “Spectreman” – não foi gratuita: “música sólida” é uma espécie de previsão, um manifesto que fala de um futuro em que o ser humano, desprendido de seu corpo físico, vai virar música.
A música é essencialmente temporal; ela precisa acontecer para ser. Ela é onde ela está; existe onde – e quando – se manifesta. Além disso, a música é imaterial; mas, mesmo desprovida de corpo tangível, ela interage com o mundo físico – torna-se sólida– ao passar de seu estado latente, potencial, a um estado presente – encarnando em seu corpo de som.
A música sólida acredita que, à medida em que mundo físico e virtual se tornam cada vez mais indistintos, o ser humano vai se tornando também essencialmente temporal e imaterial. Parte do princípio de que, já hoje em dia, a virtualidade se torna cada vez mais costumeira: nos relacionamos à distância, agimos remotamente; nos fazemos presentes em lugares em que nossos corpos físicos não estão, ou mesmo em não lugares inteiramente virtuais.
Mais que isso, o manifesto prega que a música será a única coisa à qual o ser humano, despreparado para uma existência nesses novos termos, poderá se apegar. Porque a música é essencialmente temporal e imaterial, e ainda assim não nos espanta; ela é uma virtualidade com a qual sempre convivemos, que sempre nos pareceu natural. Por isso, será nossa referência de concreto, nosso apoio e guia nessa transição. “O futuro é a música sólida”.
BNTB: Como o percurso de cada música – após composta e gravada – (se toca na novela, se outra pessoa canta, se alguém conta se lembrar dela e associá-la a uma sensação específica) muda a sua visão sobre ela? Existe alguma de que você passou a gostar mais – ou menos – por causa desses desdobramentos?
Dimitri BR: Entendo que criar uma música é dar nome a algo, possibilitando expressar o que até então não se tinha como. Fazer música, pra mim, é como criar uma palavra. E o significado de uma palavra nunca é exato nem estanque. A palavra-música permite armazenar não apenas conclusões prontas, mas linhas de pensamento, sensações, recortes de espaço-tempo. E, graças a seu poder evocativo, permite retomar, presentificar aquele raciocínio, aquele momento, aquele estado de espírito guardados nela; e ainda, permite acrescentar a eles novas experiências, ideias e sensações, que vão também ficar associadas àquela música. Então acho normal e mesmo desejável que a visão sobre uma música – minha visão, inclusive – mude com o tempo, conforme seu percurso, conforme novas ideias e sentimentos são associadas a ela – conforme o uso.
Uma música tocar na novela potencializa isso, porque o enorme alcance desse meio expõe a composição a toda sorte de interpretações, vivências e usos – ainda hoje ecos da breve canção de sonho me pegam de surpresa e me emocionam – mas não é tão diferente do que acontece com canções menos difundidas: toda canção que mostro pra alguém está sujeita a ser apropriada, reinterpretada. Ainda que eu não considere válidas todas essas leituras, acho maravilhoso que elas existam – e muitas vezes elas descortinam aspectos e significados nas músicas que eu mesmo não havia previsto.
Aliás, há músicas sobre as quais eu mesmo não tinha uma total compreensão no momento da composição; isso pode parecer estranho, mas faz sentido se pensarmos que componho para guardar não uma conclusão, mas um processo, e o tanto que há de livre associação e acaso envolvidos na criação. Como mercado negro: composta há mais de 10 anos, até hoje me intriga. E não por coincidência, é uma das músicas que gera mais interpretações diferentes – e também uma das mais queridas do meu repertório.
E há ainda a mudança operada na música simplesmente por seu percurso no tempo. “Vida de viagem”, que gravamos recentemente para o “Balanso” (single em homenagem aos 30 anos dos Paralamas aqui), é uma canção que compus há 17 anos. Ela falava já de “encontros e despedidas”, de percurso, justamente; só que eu pude cantá-la com muito mais propriedade hoje, 17 anos depois, quando minha vida já teve de fato muito mais viagens que a do adolescente que a compôs.
BNTB: Você presta muita atenção no que alguém ouve? Quem? (Ainda: quais são os seus hábitos de compartilhar música? Tem alguém em quem confie e sempre peça dicas? O que o leva a recomendar um disco/uma música para alguém?).
Dimitri BR: Pra seguir parafraseando a canção, presto muita atenção no que minha irmã ouve, desde sempre. Ela e os outros irmãos/parceiros de vida que mencionei antes: amigos, minha família afetiva estendida – a qual, não por acaso, é muito musical. Ouço a música que ouvem, ouço a música que fazem.
Presto atenção nos sons que ouço na rua. Naqueles que não foram produzidos para ser música. Ouço rádio, passeando pela rua e por todo o dial. Ouço jogo de futebol, ouço a Voz do Brasil. Sintonizo as rádios das cidades onde chego. Rádios populares, rádios de notícias, estática. O ruído é meu amigo.
Ouço a mesma música cinco vezes seguidas. Ouço músicas que nunca antes. Ouço a mesma música como nunca dantes – prestando atenção num instrumento, num coro, no ruído de fundo. Deixo o protagonista de lado e presto atenção nos figurantes da cena.
A matéria das minhas músicas não é (apenas) música. Presto atenção nas cores e em tudo mais cujo nome não sei. Presto atenção nas paixões das pessoas e nas soluções de vida encontradas por cada uma. Lembro mais de vozes que de rostos.
A rádio que mais ouço: rádio-cabeça. Danço as músicas que só nela. Danço. No quarto, na rua; sozinho, acompanhado. Ouço música enquanto faço sexo.
A segunda rádio que mais ouço: rádio-acaso, dj-todomundo. Clico nas músicas que conhecidos e desconhecidos compartilham por aí. Retribuo, dialogo, compartilho também. para alguém, por tal motivo. Paratodos, pra ninguém. Sigo links atrás de links, movido por uma leitura, uma palavra, uma imagem.
Ligo três vídeos de música ao mesmo tempo. E um filme falado. E um gerador de ruído branco. (Uma vez ouvia um gerador de sons de chuva nos fones, ao mesmo tempo em que lá fora caía uma estrondosa tempestade.)
Ouço sem prestar atenção. Leio enquanto ouço música. Escrevo. Faço uma música enquanto escuto outra. Escuto a música que estou fazendo e faço a música que estou escutando.
Quero que todos escutem. Recomendo que ouçam o que quiserem. Recomendo que ouçam.
Não existe silêncio.

BNTB: Um mundo em que o canto fosse mais frequente que a fala (como acontece em alguns musicais): um sonho ou um pesadelo?
Dimitri BR: Sonho ou pesadelo, já vivemos nesse mundo. Como diz Luiz Tatit, toda fala é uma canção – tem ritmo, entoação melódica. E mesmo aquelas que deliberadamente criamos ou decidimos guardar tentam, em algum nível, emular a fala cotidiana – para se tornarem críveis; para que se crie, toda vez que alguém as cantar, a ilusão de que aquele é o discurso daquela pessoa, naquele momento.
Em alguns musicais o canto se torna irritante justamente por ser forçado: qualquer fala banal se investe de pompa, resultando numa artificialidade que, ao invés de aproximar o ouvinte – como a sedutora fala de todo dia – o repele, prejudica a empatia e a transmissão da mensagem. É um mundo falsamente musical – onde todo o resto, por conseguinte, tem sua falsidade desmascarada. O mundo verdadeiramente musical é o nosso, povoado pela música imperfeita e irresistível do cotidiano.
Há alguns anos escrevi um conto (publicado em pequena e dificultosa tiragem) intitulado “um mundo sem música”. Nesse mundo hipotético, a completa ausência do conceito de música resultava numa vida árida, estéril. As pessoas não conseguiam se conectar verdadeiramente umas às outras. Sentiam que havia muito mais a dizer do que as palavras conseguiam expressar. Sentiam constantemente a ausência de algo indefinido e, no entanto, imprescindível.  Isso sem seria um pesadelo.
BNTB: Marina Abramovic já disse que após ficar 12 dias sem falar teve a estranha experiência de ouvir com clareza a sua voz – e sentia-se distante dela. Você já teve alguma experiência semelhante? Acha difícil/fácil ouvir a própria voz?
Dimitri BR:de quem é a voz / no teu canto
que tanto se faz / minha voz?
que encanto se dá / nesse encontro?
me conta / quem canta por nós
(quando canto também ouço
e então não estou só)
de quem é a voz / no meu canto?
BNTB: Você tem, ou poderia criar sua própria lista “Para ninguém” (quer dizer, uma lista no estilo da faixa final do disco “Livro” do Caetano, em que ele elege de modo confessadamente idiossincrático e pessoal gravações de intérpretes que ele considera memoráveis) com uma coletânea de gravações de intérpretes que considera imprescindíveis?
Dimitri BR:
para mim
aurélio tocando a valsinha do marajó
marina uma baiana a girar
tia augusta cantando sua canção de ninar
inês cantando romaria
graziela g cantando alguém cantando 
graziela m cantando pro uli (a suite dos pescadores)
chirol e fernando paiva
cantando chirol e fernando paiva
rodrigo billy bragg
maria frente
silvia sempre
carol tudo
ismar junto
erik antes
você que canta comigo
você que canta por mim
você que canta
pra me fazer dormir
*
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Canção, Dimitri BR, Entrevista, Poesia contemporânea