Luca Argel & T menos 3 horas: “São vinte e três horas e o poeta irá oferecer uma pequena récita aos postais retornados”. Correspondências Parte 4.
22 de outubro de 2013

Uma escrita de idas e vindas. Correspondências voltam, planos são adiados, frases se descolam do contexto, deslocam-se partes do corpo, recortam-se pedaços de fotos. E então é absolutamente necessário pensar no diálogo – entre texto e imagem, e material (papel, costura) – como nessa urgência e vontades das coisas se fazerem ao invés de ficar discutindo tiragens e distribuição; então é absolutamente necessário dizer algo para as coisas, recitar para os postais retornados (numa talvez inversão vertiginosa daquela cena que encerra o Luvas de Pelica, da Ana C.?). É dessa costura sutil que se faz a obra Postais Retornados, de Luca Argel e T menos 3 horas, de deslocamentos que insistem em perguntar, em se debruçar sobre as fissuras do tempo, dos nossos hábitos congelados.
         Os livrinhos são feitos pela mesma dupla de Esqueci de fixar o grafite (7 Letras, 2012 – poemas por Luca Argel e imagens por T menos 3 horas) e compõem com ele uma outra forma de reflexão e de diálogo não só sobre a escrita e a imagem, mas sobre esses pedaços de vida que nos atingem, que nos assustam, que vivemos sem nos dar conta, e de repente é incrível descobrir que já estamos passando por isso. A impressão é que, diante deles, sempre nos perguntamos: mas qual a diferença entre um encontro e um desencontro? Como é possível reconhecê-la? Não encontro algo, necessariamente, ao me desencontrar comigo? E assim por diante.

         Além deles, a correspondência entre os autores e os editores desse blog, também com seus caminhos de retornos, de pequenas emendas, e como esse tecido se fez também naturalmente pedindo pausas, intervalos, deslocamentos e descolamentos, até que se chegasse aqui. E então estamos de volta para nossa seção de correspondências. E então de volta para fazer uma récita para esses objetos entre perdidos e novos (guardados para sempre em sua novidade), postais que voltaram, sem chegar ao seu destino.

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De: Marcio Junqueira

Enviada: Segunda-feira, 7 de Outubro de 2013 03:35
Para: Luca Argel
Assunto: postais retornados
oi luca,
como está? como andam as coisas em portugal?
seguinte: estou te escrevendo porque na nossa pauta para o blog da bliss, tem um post sobre  os “postais retornados”, seus e da T.  Esse foi o primeiro trabalho de vocês que eu vi (numa exposição na tijuca, antes mesmo de saber quem eram vocês) e eu acho eles maravilhosos.
lá no blog criamos uma sessão que é de correspondências, baseada no making of, que publicamos na bliss de 2009. minha ideia para o post sobre os “postais retornados”, era ter a publicação de um e-mail seu (pode ser a resposta deste, rs), mandando notícias de portugal e fazendo uma espécie de exegese sobre eles + alguns “postais”. 
se você topar podemos ir construindo o post e pensar juntos que postais poderiam ser postados (não teve modo de evitar essa duplicação, rs) no facebook.
é isso,
espero que vc esteja bem e com saúde
beijos
m.
De: Luca Argel
Enviada: Terça-feira, 8 de Outubro de 2013 09:36
Para: Marcio Junqueira
Assunto: Re: postais retornados
marcio marcio,
por aqui está tudo bem sim, comecei o curso de literatura portuguesa na universidade do porto e estou adorando! bom, tirando o fato de que estou sem emprego e o dinheiro está acabando, está tudo mesmo muito bem.
bom, vejamos. os “postais”, tem bastante coisa que podemos falar sobre os postais…
-primeiro de tudo, “postais retornados” era pra ser o título do meu livro, ao invés de “esqueci de fixar o grafite”. ele caiu num encontro que tive com o jorge lá na 7letras, quando a editora ainda era aquela casa linda na rua goethe, em botafogo. e até relativamente pouco tempo antes da publicação estávamos sem título, foi mesmo a última coisa do livro que ficou pronta. e olha, foi difícil decidir qual seria. só batemos o martelo depois de ver o preview da capa do livro no computador.
-tanto que “postais retornados” é um nome que ainda vejo totalmente entranhado em “esqueci de fixar o grafite”… quando li seu email a primeira vez achei que você falava do livro, e não do trabalho para a exposição. até porque o livro também é um trabalho com T! raramente as pessoas fazem comentários sobre as ilustrações, o que é uma pena. acho que aquilo ali tá muito bem arranjado. apesar de ter surgido de uma necessidade prática de aumentar o numero de páginas do livro.
-vê como a história de “postais retornados” e de “esqueci de fixar o grafite” é a mesma?
-uma curiosidade: o nome “postais retornados” veio de um poema velho, meu, que não está no livro, e que se chama “cobertura sinistro”. lembro de ter lido esse poema numa das oficinas do carlito, e que ele tinha achado especialmente bonito um trecho em que dizia “são vinte e três horas/e o poeta irá oferecer uma pequena récita/aos postais retornados.” ele disse que imaginava alguém sozinho num apartamento, com um monte de postais (retornados) sobre a cama (eu os imagino não jogados, mas cuidadosamente arrumados um ao lado do outro, como uma plateia), e lendo não os postais, mas lendo diante dos postais, lendo qualquer coisa “para” os postais. retornados.
-a cena ficou na minha cabeça e partir daí comecei a nutrir um carinho pelo nome “postais retornados”.
-lembro de ter entregado uma versão preliminar do livro pra T num evento que aconteceu no odeon, em que falava o kenneth goldsmith, que é (era?) um gosto em comum que tínhamos (temos?). eu já vinha de uma experiência muito legal de trabalho colaborativo com um ilustrador, o “fabulaciones y sueños”, com o victor mattos. e provavelmente quis fazer qualquer coisa do tipo com a T, depois de ver algumas colagens dela e ter adorado. é tão bom perceber que um amigo seu de repente virou um artista, e está fazendo bons trabalhos. ainda mais quando é um amigo como a T, que daqui a alguns anos já vou poder dizer com mais tranquilidade “de infância”.
-não sei bem o que eu estava querendo quando entreguei os poemas pra T. não lembro se já tinha em mente alguma coisa parecida com o que fiz com o victor, ou se já tinha a perspectiva de publicar na 7letras. tenho quase certeza que ainda não, que era mais uma experiência, e que não tinha a menor ideia do que queria fazer com aqueles poemas. mas foi tudo num período muito próximo, a virada de 2011 pra 2012.
-o tempo passou. alguns poemas novos se integraram no que então ainda era o projeto “postais retornados”. e um dia encontro com a T no parque lage e ela me dá um presente-surpresa. dentro de um envelopinho pardo, um livrinho, que cabia na palma da mão, feito de um papel que não sei o nome, mas que era meio áspero, rígido, bom de pegar, costurado à mão, e com trechos, pequenos trechos dos poemas que tinha dado a ela, versos soltos, palavras, expressões, tudo batido à máquina, inclusive com algumas gralhas e correções aparentes, e no meio de tudo umas colagens também. enfim. era uma coisa linda, fiquei apaixonado por aquilo. na capa de cartão estava escrito “postais retornados” com aquelas letras de decalque que a gente compra em papelaria. ficamos de tentar fazer mais.
-e fizemos. passamos uma tarde no quarto dela, cortando papéis, revistas e fotos velhas que ela comprava na feira da praça XV, e depois de cortados eu passava na máquina de escrever e colocava qualquer coisa do livro (as provas estavam abertas do meu lado – assim como um livro do cortázar, que não se sabe bem o que estava fazendo por ali, mas que acabou “vazando” um pouco pra dentro de alguns livrinhos), quase que aleatoriamente. depois costuramos com uma linha de algodão vermelha. quer dizer, ela costurou, porque eu não sabia bem como fazer e tinha medo de estragar. almoçamos um cuscus marroquino esse dia. eu já era vegetariano (e ela já era muito antes de mim). aquela tarde rendeu 16 livrinhos.
-quando o “esqueci de fixar o grafite” virou uma realidade, os dois projetos meio que se separaram. até pensamos em fazer mais e distribuir no dia do lançamento. mas não aconteceu. acho que, pelo menos da minha parte, foi metade por preguiça e metade por dó de me desfazer deles.
-quando aconteceu o 2˚ jardim suspenso, poucos meses antes da minha viagem pra portugal, resolvemos expor os livrinhos. comprei um daqueles grampeadores de cenógrafo (que se chama “rocama”, e que eu só fui descobrir aí, depois de já ter usado a palavra rocama no livro, sem nunca ter visto uma) e preguei os livrinhos todos numa das paredes (não sem um certo dano – mais dos livros do que da parede) do jardim da casa do reggae, lá em cima na rua uruguai, onde estavam acontecendo as exposições.
-infelizmente, o que sobrou de registro desse dia foram umas 2 ou 3 fotos e olhe lá. parece que a nossa fotógrafa oficial ficou bêbada na festa e esqueceu de tirar mais fotos dos trabalhos.
-um pouco por isso, e um pouco pelo tanto que gosto dos livrinhos e queria dividir com as pessoas, digitalizei todos e coloquei no issuu. claro que não é a mesma coisa que pegar e manusear cada um, mas pelo menos dá pra ter uma idEia. (se não me engano dá pra fazer o download de tudo por lá!)
-por isso todos os “postais” podem ser postados no blog da bliss e no facebook. vai ser inclusive muito bom vê-los lá, vê-los circulando. é pra isso que é um “postal”, né? e eles são tipo um B-side do “esqueci de fixar o grafite”, e ao mesmo tempo uma série em que o trabalho da T e o meu interagem com muito mais desenvoltura e equilíbrio. acho eu.

e achava legal também escrever pra T, e pedir pra ela escrever qualquer coisa eu mesmo gostava de ler sobre como foi isso tudo da perspectiva dela! será que ela faz?

fazer uma ‘exegese’, como você sugeriu, até pra mim (ou principalmente pra mim), é bem difícil. contei uma historinha. espero que sirva, rs.
você vai estar em novembro no rio, no lançamento da bliss-não-tem-bis? com sorte, eu estarei também, e aí nos vemos =)
bjo grande
luca

De: T menos 3 horas <tmenos3horas@gmail.com>
Enviada: quinta-feira, 17 de outubro de 2013 00:23:54
Para: Marcio Junqueira
Assunto: postais retornados

oi marcio,
sabe que eu fico bem sem graça de escrever e tal, mas te conto um pouco dos postais retornados, como foi isso pra mim…
os postais têm aparecido com muita frequência na minha vida esses últimos tempos… eu nem tinha parado pra pensar nisso na verdade. foi só depois de ler o e-mail do luca (que fez tudo voltar na minha cabeça com imagens) e também da sua vontade de resgatar essa história pro bliss me pedindo pra contar um pouco sobre o processo que eu comecei a conectar tudo.

o bloco de anotações que tem aqui em cima da mesa é do tamanho de postais, os papéis azuis que encontrei na XV outro dia também tinham o tamanho de postal, o último livro que eu editei com dois amigos também eram postais e tinha até espaço para botar selo e tudo mais; depois era só esperar que eles fossem enviados por aí, ou não… enfim, acho que de alguma forma inconsciente eu acabo pensando em postais. e costuma funcionar assim, as coisas ficam na memória, e depois, sem perceber, você já tá vivendo aquilo, sem se dar conta. e perceber um momento desses é incrível!
e tem uma coisa que tá na minha cabeça e tenho pensado sobre… que é a natureza (?) de publicações em geral. logo agora que tudo virou arte impressa e tem até curso pra fazer zine… eu gosto quando é simples, quando se juntam uma ou duas pessoas pra pensar e fazer aquilo existir pela necessidade de existir e pronto, quando é um diálogo. sem pensar muito em questões de tiragem, formas de impressão, locais de distribuição ou com a estética final e etc.

os zines são coisas extremamente pessoais e tem uma fragilidade ali do material, do papel de quem fez… é um processo que acontece e não poderia ser de outro jeito. por isso foi tão bom fazer os postais retornados com o luca. fizemos alguns, cada um era diferente, só existe um de cada e estão por aí, sabe-se lá por onde. além disso existe uma preocupação em documentar eles, pra que as pessoas possam ver depois, com calma, imprimir se quiserem… sem precisar comprar. essa vontade de ter um arquivo é fantástica! especialmente quando se trata de publicações que tendem a desaparecer por aí.
montamos tudo junto, não era que eu ia fazer colagens para os escritos dele, tudo era colagem ali. desde os escritos (que eu gosto muito) recortados mudando de contexto, até o papel, as fotos, os papéis vegetais com tudo ao contrário, os livrinhos em si… tudo mesmo. e essas publicações me dizem muito sobre o que eu tenho pensado e feito ultimamente. acho que é isso.


abraços,

T menos 3 horas 

De: Marcio Junqueira
Enviada: quinta-feira, 17 de outubro de 2013 00:23:54
Para: Lucas Matos
Assunto: postais retornados

luc,
segue a versão final do post sobre os postais retornados. cortei os dois últimos e-mails do material que te mandei ontem. eu cortei duas frases minhas no email para o luca também. deixo com você cortar ou não o trecho no final em que o luca fala do lançamento da revista-disco da bliss. isso ainda é segredo? para a semana no facebook eu acho que podíamos postar os postais mesmo. vi um desenho hj do liniers sobre postais e só lembrei dessa conversa. te mandei isso no facebook. faz uma revisão no texto antes da postagem. sorry pelo atraso, voltei do dentista irritado (a anestesia mexe com meu humor) e fui dormir. a resposta do material ainda não tinha chegado.
é isso.
bjs

m.

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Correspondência, Luca Argel, Poesia contemporânea, T menos 3 horas