Thiago Gallego: “Todo o som ao redor súbito claro”.
25 de setembro de 2013

Thiago Gallego, por Clarissa Freitas.
Às vezes acho que Gallego saiu de uma música de Caetano sem saber precisar qual, quando descobrir de onde vem essa sensação: respondo. Não o conheci numa letra, mas ele é remix. Quando escuto/vejo Gallego sinto uma tempestade que pode não ser percebida à primeira vista por causa de sua aparência angelical. Mas que está na velocidade com que todos os sons se escutam, com que todas as coisas se colocam a ver, e de repente são, e de repente somem. Independente de tudo que tivesse acontecido antes e do que viria depois. E fica o que fica como a insistência da pergunta: quanto tempo ouvindo uma canção até ouvir uma canção? Gallego saiu de uma música de Caetano e não de uma música de Chico Buarque. Salpica e triplica com cinema e filosofia, talvez por isso seu desconforto com o título de poeta. E todo o seu fascínio múltiplo que contém letra que contém pensamento que contém drama que contém política que contém visão que contém sua voz para nós no blogue.

*

[atualização:
em fevereiro de 2014, Thiago teve seu primeiro livro publicado pela LUMA Foundation como parte da exibição “Poetry will be made by all”, que pretende reunir 1000 livros de 1000 poetas nascidos de 1989 em diante.
O livro, bem como os demais da exibição, pode ser baixado AQUI]

***

Não existe, quando se fala em sexualidade, outra coisa que o heterossexual.
Qualquer outra categoria falha, armarista.
Daí que se contraponha e diga (e cause): há homossexual, eu sou homossexual. Oh!
Tudo mentira, não é. É consumidor e consumo é outra coisa que não orientação
sexual. Consumo, se fosse, ou quando é, seria heterossexualidade e só.
E tentam de novo essas bichas incansáveis: eu sou homossexual, mal consumo!
Para de falar difícil, criatura. Tu é viadinho, marica, paneleiro. E nada disso
é que não preconceito, categoria fast-food.
Não existe, quando se fala em sexualidade, mesmo o heterossexual. Existem outras coisas.
Existe consumo e preconceito. Código e cultura. Autodeterminação e segredo e vontade e nojo libido e mais código.
Mas não me venha com categorias se não novas
senão queer.

*

Carolina
Sem título, por Carolina Aleixo (2012).
Carolina é uma canção do Chico Buarque. Mas também é Aleixo. Ela quem começou tudo com um desenho. E dos dedos que seguravam o lápis, veio uma outra, Carolina no poema. Thiago Gallego leu pela primeira vez sua série poética sobre a menina Carol no meio do mato no primeiro encontro “Bliss Não Tem Bis” em novembro/2012. Nós a publicamos aqui.
         Quando fizemos uma nova edição do encontro em junho deste 2013, leu uma nova série, em que o tema, a personagem, o mato, todos retornavam. Mas, agora, havia um facão. E ficou tudo assim:
Uma vez escrevi uma história sobre uma menina que vai para o meio do mato. Sem saber que o meio do mato é barulhento e dói.
O erro de Carolina foi, na verdade, esquecer o facão e que a neblina, se dissipa, é sonho.
Carolina, não desanima
Não se entrega, Carolina
Se mexe
Confia em si
Mas, Carol, se liberta de si.
O que se passou a Carolina após os sete dias de refúgio no meio do mato
I
acordo
ainda estou Aqui
II
no início os insetos
me feriam o corpo a coceira
até que aceitei um besouro
– posto tudo no meio do mato
em até três dedos e movimento
é besouro – ser belo   
não me sinto melhor
no fim é um homem (de periquita?)
conversando com a planta
e homens, como maconha,
não sabem conversar
mas bom que mude o repertório
de todos os disquinhos guardados
só falta o verde
e a mãe natureza sem braço sem perna
já não me envolve
o batismo
como me chamo?
III
não vejo bem à noite
vejo frio
e inferno
que cheiro é esse?
fruta, como cocô,
fede
andava: a pedra
eu vi não vi
não vejo bem a noite
tropeço
logo no dedo machucado
dedão champignon
quero chorar
pra quê?
IV
ontem caí
o espelho quebrou
os cacos na terra me fazem mil
e qual delas
atravessa a mata densa –
trouxesse facão –
facão abre caminho
e não quebra
que bom não trouxe
uso pedaço de espelho
jamais a eficácia
mas o sentimento:
sou artista
sou ridícula
V
cigarra pássaro farfalhar
água chão corpo
até que TCHAC TCHAC TCHAC
o espelho no mato e corta, viu
corta – meu punhal – e perturba
a música.
não tem vitrola no meio do mato
evidente
mas quando TCHAC TCHAC TCHAC, perceba
a agulha trepida e o som
todo o som ao redor
súbito claro: é produto de máquina velha
cuja agulha percorre as invisíveis ranhuras
de um disco mata adentro
e vibra
fale mais sobre esse disco, Carolina, o que ele canta?
EU VOU TE COMER
quem te deu? o mato
fale, fale! de que cor é, com o que se parece?
o disco, como o mato,
é verde
como o sangue,
verde
*
Tira Da experiência de não ter experiência perto de gente muitíssimo experiente.
*
Memória
Lembro, no passado representado (representável?)
o homem velho e cansado
que acorda cedo, senta ao sol e,
velho e cansado,
gasta as primeiras horas do dia em ser quem foi
marido
agente secreto
avô
jardineiro
Espanha.
Agora é prolongamento, formalidade.
O quintal precisa ser capinado e a Espanha
é um sotaque na garganta.
De manhã, velho e cansado,
senta ao sol e balança a cabeça
– nunca esquecerei esse gesto na vida de minhas retinas astigmatas –
como quem não mais afirma.
(ou:
De manhã, velho e cansado
é difícil balançar a cabeça. Ajudo:
quando não estou lá ajudo
quando você é o senhor
o senhor o gesto
morto ainda
gesto
terra madeira
gesto
eu só
gesto
Não precisa agradecer).

*
Subúrbio
infantesonhava
infantaria

*

Poema visual A sombra som


*

O homem que segue
Nas terras de Morpheus,
a violência urbana.
Estou em Ipanema, estou em Copacabana.
Ao lado, praia e o irritante
apito apito apito apito
De onde vem? É do homem,
o homem, que segue, me segue
que eu sei. Atravesso a rua,
          atravessa a rua
o homem que segue. Olho para trás,
viu, homem – que segue -, eu te sei.
Não me entrego, mas não grito
é vexame ao sol. Gritam
meus olhos, mais discretos.
Mas o homem é forte
o homem que segue
é forte e não se inti
mida – me
intimida.
Corro,
corre.
Eis que
me alcança
ultrapassa
ultra
passa
e olha
pra
trás
com
medo
segue
com
edo
sigo
co
me
do
o h
ome
m
q
E no tempo da reviravolta
no tempo da antropologia
Qual é o seu nome?
Eu sou o homem que segue.
Eu só quero saber qual é o seu nome.
*

em não sendo Sra Maria Thereza, decepcionei o celular
antes fosse
Sra Maria Thereza aposentada
após anos de trabalho alienado –
Sra Maria Thereza não é marxista,
apocalíptica ou integrada.
ilustre, irreverente, emancipada,
Sra Maria Thereza não tem filhos
há anos, é lésbica e mora com a professora de matemática.
faz muito deixou de guardar utopias, já não sonha
almas gêmeas e não lhe restam dúvidas de que, dada a
oportunidade, receberia de bom grado um Oscar.
não se trata, não se iluda,
uma mulher desiludida
“certeza que esse não é o número de Maria Thereza?”
“mas é claro, querido
esse poema Maria
jamais escreveria”
*

Sobre pedras e pilantras
Se eu fosse católico e o século fosse xvi, digamos que eu fosse católico. De repente surge essa galera que me faz trabalhar e eu preciso trabalhar porque só assim a pergunta é respondida. Aí faz sentido, eu posso ser contra o casamento gay, posso formar a sociedade americana, desde que não sinta culpa.
Mas eu não sou católico e não acredito e, surja algum dia no meio do caminho de minha vida, pode ser a resposta, pode ser o caminho de minha vida. Verei pedra.
E esse é o tipo de coisa que você faz quando surge pedra: tem gente que conversa, tem gente que educa, bate à porta. Nós não somos essa gente. Quando falo em eu e você, falo em quem sabe e graças a deus sabe que pode desviar.
O desvio é a arte do homem médio. O homem médio jamais sobe num slackline por mais de uma tarde.
Acontece que não sendo católico ou funâmbulo, desvio. Desvio no largo da carioca se o pregador no largo da carioca. Desvio diante da igreja em paciência se a igreja em paciência. Até aí sem culpa.
Fosse Europa (repare! será recorrente o lamento no homem médio) eu entrava. Com interesse antropológico, arquitetônico, estético. Fé, arco, vitral. Mas é Paciência. Em Paciência, que primor: a vidraça!
Perdoe o elitismo, mas não se olha vidraça em Igreja. Quisesse, iria à fonte. Tão mais rico, contingente o “fica bem na nossa janela?”, o braço do vidraceiro. Acho tão bonito falar vidraçaria.
Não entro, portanto, em Igrejas. Não confesso minhas culpas. Não faço esforço.
O problema está na pedra. Igrejas em geral têm paredes planas. Fáceis.
Já viu o redor de uma pedra? Não tente, captura o olhar. Mete ideias na cabeça “e se eu estou parado enquanto ela tenta ultrapassar. Olhará para trás? Sentirá minha falta?”.
Por isso frequento, cada vez mais, vidraçarias. Fabricam análogos, pedras de vidro – em sua civilidade, menos complexas. Hoje o século xvi faz quinhentos anos e graças a deus é cada vez mais fácil desviar de um ponto a outro usando pedras de vidro.
É cada vez mais fácil atirá-las na vidraça de uma igreja sem deixar provas. O padre perplexo. A freira voadora. O que foi isso? Olham para o chão e só veem cacos.

*

Poema visual Praça Santos Dummont
*

Da diferença entre oásis e miragem ainda que bregas os termos
eu queria ao menos dizer que você veio
e eu não estava esperando
agora vai e eu
espero, ainda que seja todo esse movimento
defeito da minha cabeça
pifada que subverte a ordem de
não ser e ser, não sei ainda –
sofista ou eleata –
de que lado da discussão.
como questiono se qualquer deles
responde à carência humana (a saber:
o homem é carente
eu sou o homem
eu sou o homem é carente)
como questiono por que jamais
pensei você pensar
o próprio ir e vir ou
não. como sei ser mais fácil
conversar sozinho nos dois
papéis:
eu sou eu   
e você
e o homem é carente
*
se malas feitas para Thiago
recomenda-se que saiba
idioma é perigo
por exemplo
eu gosto de você
eu realmente gosto
de você diz
-se e aí
tudo bem
ou o uso peculiar
daquilo a que até
então não acreditavam
correspondentes
fora da língua
portuguesa:
vamos tomar uma cerveja

*
enjambement
do latim
trocadilho
*
E-mail.
De: Thiago Gallego.
Para:
Assunto: String Bean Jean é uma música de Belle & Sebastian.
Eu acordei todo chocado porque demorei um pouquinho pra entender o que eu tava fazendo na casa da Jéssica e por que raios eu tava usando um shortinho rosa. Pus a minha calça, fui procurar alguém e o único sinal que encontrei foram os tênis do Cadu.
“Será que eles foram presos?” Formulou minha mente recém acordada.
De início fiquei meio preocupado com o que teria acontecido ontem a partir da parte que não conseguia me lembrar. Perguntei depois pra Jéssica e ela explicou mais ou menos.
Fiquei lá mais um pouquinho, voltei pra casa, conversei com mama, fiquei trocando mensagens com a Carol, ouvindo Past Masters 1 – que é um disco do qual nem gosto tanto – e dançando e dançando e dançando.
Eu estava satisfeito.
Depois ouvi o iniciozinho do primeiro disco de Push Barman e fiquei pensando em como seria legal se você estivesse lá pra conversarmos e pra eu perguntar se você achava que a garota de String Bean Jean é anoréxica.
Eu estaria satisfeito.
Daí fazer o trabalho pra amanhã tá sendo aquela enrolação de sempre que você já conhece. Nem é difícil, eu já podia ter terminado pra começar a ler algum dos 4374 textos em atraso.
Mas o pedacinho de dia que eu tinha tido, sozinho, já tinha valido a pena. Independente de tudo o que tivesse acontecido antes e do que viria depois. Acho que a noção de carpe diem passa um pouco por isso. Não me imagino vivendo assim o tempo todo; pelo contrário, vejo mais como algo bem episódico mesmo.
E não sei se é isso o que você esperava de um e-mail meu agora – eu não esperava mandar um e-mail agora. Talvez esse sequer seja um bom momento, visto que você parece ter outras coisas em mente. Mas eu teria te contado tudo isso antes de te perguntar se você acha que a guria é anoréxica ou não. E muito provavelmente estaria satisfeito.
Não sei se parece, mas muita coisa mudou ultimamente. E isso inclui praticamente todas as relações que eu mantinha. Trocentos fatores: não uso mais msn (e isso significa muito), estou na faculdade, tenho novos horários, penso diferente… [sei lá o que é causa e consequência nessa estória toda].
Mas isso nem é necessariamente ruim, acho que é mais questão de me adaptar. E aí tudo já vai ter mudado de novo e tudo o mais.
Não vou pedir frango teriaki da próxima vez que for ao subway.
Às vezes eu queria que você visse as coisas como eu vejo (e aqui eu até podia citar o cocozinho que sei sobre Nietzsche com mais sentido que fiz ontem à noite, mas nem vou). Na história que eu tentei escrever uma vez, as pessoas podiam transmitir algo muito próximo dos seus pensamentos umas às outras só pelo toque.
Mas acho que nem isso seria o bastante.
É tudo tentando ser muito sério. E certo.
Mas se você tivesse um momento carpe diem também eu queria que você pudesse ver as cosias como eu vejo – ou como eu vi naquele momento específico, já passou provavelmente.
Não porque eu queira ou precise mudar algo, eu gosto de compartilhar as coisas com você (você acha que a garota de String Bean Jean é anoréxica?).
Talvez você estivesse satisfeito.
E eu estaria satisfeito.
Thiago Gallego apresentando seus poemas no evento Bliss Não Tem Bis – Nov./2012.


Bliss não tem bis, Poesia contemporânea, Thiago Gallego