Mário Cesariny: Vejo tudo ao contrário do que era lícito ver.
17 de setembro de 2013

O poeta sai de casa. Movimento fundamental.
Atenta para o mundo, as formas que pode ter. Repara os tipos. A importância das coisas comumente tidas como desimportantes não escapa à nobilíssima visão. Na RUA DA BICA DUARTE BELO, por exemplo, note:
ESTES PRÉDIOS SÃO QUASE DE GRAÇA
diz a tabuleta encarnada
à gente que passa
E é que às vezes passa uma gente engraçada:
um estudante sem livros e ao lado
um operário desempregado
É então que Cesariny parece ter dado com isso: que ver não é apenas descoberta, senão um modo de intervenção no mundo. Nesse sentido, o poeta e pintor português parece consciente do conjunto de questões de que também falava Adrienne Rich. Escreve seu tempo, seu país. Mas, diante de estudantes sem livros, operários desempregados, classificados de jornal, poetas gatos-brancos à beira de janelas, Cesariny sabe que é preciso chegar a uma escrita, a uma visão que esteja entre três modos possíveis: o apaixonado, o bêbado e o poeta. Curiosamente, é em Shakespeare, no último ato de Sonho de uma noite de verão que se pode ler uma comparação entre as formas de ver do amante, do louco e do poeta. Lá, diz um estadista recém-casado que os três têm visões que a calma razão não pode explicar. São modos de ver em que o olhar intervém no mundo, atua sobre ele, dando à realidade o (sur)real de que carece. É assim que o poeta encontra no surrealismo uma forma de açoitar, destruir, vomitar, lidar, recolher, receber, e rir do mundo. Porque de algum modo é preciso perguntar como, e se, é possível existir no mesmo lugar em que, tudo corra bem, um condenado pode morrer em 7 minutos.
O poeta já não é só homem. O que é, então?
Reunimos aqui uma pequena antologia de poemas dos livros Pena capital (1957) e Nobilíssima visão (1959), assim como diferentes momentos de sua pintura junto ao documentário Autografia, filme de Miguel Gonçalves Mendes que mergulha, incrível, num Cesariny dos últimos anos.
***
Autografia I
Sou um homem
um poeta
uma máquina de passar vidro colorido
um copo      uma pedra
uma pedra configurada
um avião que sobe levando-te nos seus braços
que atravessam agora o último glaciar da terra
O meu nome está farto de ser escrito na lista dos tiranos: condenado
            à morte!
os dias e as noites deste século têm gritado tanto no meu peito que
            existe nele uma árvore miraculada
tenho um pé que já deu a volta ao mundo
e a família na rua
um é loiro
outro moreno
e nunca se encontrarão
conheço a tua voz como os meus dedos
(antes de conhecer-te já eu te ia beijar a tua casa)
tenho um sol sobre a pleura
e toda a água do mar à minha espera
quando amo imito o movimento das marés
e os assassínios mais vulgares do ano
sou, por fora de mim, a minha gabardina
eu o pico do Everest
posso ser visto à noite na companhia de gente altamente suspeita
e nunca de dia a teus pés florindo a tua boca
porque tu és o dia porque tu és
terra onde eu há milhares de anos vivo a parábola
do rei morto, do vento e da primavera
Quanto ao de toda a gente – tenho visto qualquer coisa
Viagens a Paris – já se arranjaram algumas.
Enlaces e divórcios de ocasião – não foram poucos.
Conversas com meteoros internacionais – também, já por cá
            passaram.
E sou, no sentido mais enérgico da palavra
na carruagem de propulsão por hálito
os amigos que tive as mulheres que assombrei as ruas por onde
            passei uma só vez
tudo isso vive em mim para uma história
de sentido ainda oculto
magnífica      irreal
como uma povoação abandonada aos lobos
lapidar e seca
como uma linha férrea ultrajada pelo tempo
é por isso que eu trago um certo peso extinto
nas costas
a servir de combustível
é por isso que eu acho que as paisagens ainda hão-de vir a ser
escrupulosamente electrocutadas vivas
para não termos de atirá-los semi-mortas à linha
E para dizer-te tudo
dir-te-ei que aos meus vinte e cinco anos de existência solar estou
            em franca ascensão para ti O Magnífico
na cama      no espaço duma pedra      em Lisboa-Os-Sustos
e que o homem-expedição de que não há notícias nos jornais nem
            lágrimas à porta das famílias
sou eu meu bem sou eu partido de manhã encontrado perdido entre
            lagos de incêndio e o teu retrato grande!
(Pena capital)
*
O POETA CHORAVA…
O poeta chorava
o poeta buscava-se todo
o poeta andava de pensão em pensão
comia mal tinha diarreias extenuantes
nelas buscava  uma estrela (talvez a salvação?)
O poeta era sinceríssimo honesto total
raras vezes tomava o eléctrico
em podendo
voltava
não podendo
ver-se-ia
tudo mais ou menos
a cair de vergonha
mais ou menos
como os ladrões
E agora o poeta começou por rir
rir de vós ó manutensores
da afanosa ordem capitalista
depois comprou jornais foi para casa leu tudo
quando chegou à página dos anúncios
o poeta teve um vómito que lhe estragou
as únicas que ainda tinha
e pôs-se a rir do logro, é um tanto sinistro
mas é inevitável, é um bem, é uma dádiva
Tirai-lhe agora os poemas que ele próprio despreza,
negai-lhe o amor que êle mesmo abandona,
caçai-o entre a multidão.
Subsistirá. É pior do que isso.
Prendei-o. Viverá de tal forma
que as próprias grades farão causa com êle.
E matá-lo não é solução.
O poeta
O Poeta
O POETA
destroi-vos
(Nobilíssima visão)
*
Naniôra – uma e duas (1960)
*
ESTAÇÃO
Esperar ou vir esperar querer ou vir querer-te
vou perdendo a noção desta subtileza.
Aqui chegado até eu venho ver se me apareço
e o fato com que virei preocupar-me, pois chove miudinho
Muita vez vim esperar-te e não houve chegada
De outras, esperei-me eu e não  apareci
embora bem procurado entre os mais que passavam.
Se algum de nós vier hoje é já bastante
como  comboio e como subtileza
Que dê nome e espere. Talvez apareça.   
(Pena capital)
*
POEMA
Em todas as ruas te encontro
em todas  as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto   tão perto  tão real
que meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura.
(Pena capital)
*
Este é meu testamento de poeta (1994).
*
Em nota à primeira edição, Cesariny conta que vendia o fragmento a seguir para parentes e amigos nas festas de Natal e Ano Novo. “O poema já é antigo, mas também é barato e sempre anima o ambiente”. Explica ainda que simplificar Pessoa, partindo de algo da sua linguagem é “coisa em que cada um só deve cair uma vez”. 

O vídeo a seguir faz parte do disco “Entre nós e as palavras”, de 1997. Nele, Cesariny lê a primeira estrofe do poema acompanhado de música.
LOUVOR E SIMPLIFICAÇÃO DE ÁLVARO DE CAMPOS
(fragmento)
Há uma hora, há uma hora certa
que um milhão de pessoas está a sair para a rua.
Há uma hora, desde as sete e meia horas da manhã
que um milhão de pessoas está a sair para a rua.
Estamos no ano da graça de 1946
em Lisboa, a sair para o meio da rua.
Saímos? Mas sim, saímos!
Saímos: seres usuais, gente-gente, olhos, narinas, bocas, gente feliz, gente infeliz, um banqueiro, alfaiates, telefonistas, varinas, caixeiros desempregados,
uns com os outros, uns dentro dos outros
torricando, sorrindo, abrindo os sobretudos, descendo aos mictórios para apanhar eléctricos,
gente atrasada em relação ao barco para o Barreiro
que afinal ainda lá estava apitando estridentemente,
gente de luto, normalmente silenciosa
mas obrigada a falar ao vizinho da frente
na plataforma veloz do eléctrico em marcha,
gente jovial a acompanhar enterros
e uma mãe triste a aceitar dois bolos para a sua menina.
Há uma hora, isto: Lisboa e muito mais.
Humanidade cordial, em suma,
com todas as consequências disso mesmo
e a sair a sair para o meio da rua.
E agora, neste momento – que horas são? –
a telefonista guarda o baton na mala usa os auscultadores liga eletricamente Lisboa a Santarém
e começou o dia
o pedreiro escalou para o telhado mais alto e cantou qualquer coisa
pra começar o dia
o banqueiro sentou-se, puxou de um charuto havano, pensou um bocado na família
e começou o dia
a varina infectou a perna esquerda nos lixos da Ribeira
e começou o dia
o desempregado ergueu-se, viu chuva na vidraça, e imaginou-se banqueiro
para começar o dia
e o presidiário, ouvindo a sineta das nove,
começou o seu dia sem dar início a coisa alguma.
Agora fumo, trepidação,
correias volantes de um a outro extremo da fábrica isolada, cigarros meio fumados em cinzeiros de prata,
bater de portas – pás! – em muitas repartições,
uma velha  a morrer silenciosamente em plena rua
e um detido a apanhar porrada embora acreditem nele.
Agora pranto e pranto
na bata da manucure apetitosa do salão Azul.
Agora, regressão, milhões de anos para trás,
patas em vez de mãos, beiços em vez de lábios,
crocodilos a rir em corredores bancários
apesar das mulheres terem varrido muito bem o chão.
Agora tudo isto e nada disto
em plena e indecorosa licenciosidade comercial
pregando partidas, coçando, arruinando, retorcendo o facto atrás dos vidros
– um tiro nos miolos e muito obrigado, sempre às ordens!
(a velha já morreu e no seu leito de morte
está agora um automóvel verdadeiramente aerodinâmico
e a tocar telefonia: and you, and you my Darling?)
Há uma hora, Isto! Há duas, ISTO!
E eu?
Eu, nada. Eu, eu, é claro…
Paro um pouco a enrolar o meu cigarro (chove)
e vejo um gato branco à janela de um prédio bastante alto
Penso que a questão é esta: a gente – certa gente – sai para a rua,
cansa-se, morre todas as manhãs sem proveito nem glória
e há gatos brancos à janela de prédios bastante altos!
Contudo e já agora penso
que os gatos são os únicos burgueses
com quem ainda é possível pactuar –
veem com tal desprezo esta sociedade capitalista!
Servem-se dela, mas do alto, desdenhando-a…
Não, a probabilidade do dinheiro ainda não estragou inteiramente o gato
mas de gato pra cima – nem pensar nisso é bom!
Propalam não sei que náusea, retira-se-me o estômago só de olhar para eles!
São criaturas, é verdade, calcule-se,
gente sensível e às vezes boa
mas tão recomplicada, tão biolo-cosida, tão ininteligível
que já conseguem chorar, com certa sinceridade,
lágrimas cem por cento hipócritas.
E o certo é que ainda têm rapazes de Arte, gente
que pôs a alegria a pedir esmola e nessa mesma noite foi comprar para o cinema
porque há que ir ao cinema, êle é por força, é por mor de Deus, ah, não! não! isso não!, não se atravessem                                                                                                                                          [nesta bilheteira!!
Vamos estar tão bem! Vai tudo ser Tão Bonito!
Ah, e quem é que vê o logro? A quem é que isto cheira a ranço?
Porque é que a freguesa de Panos Limitada não exige três quartas de cinema
e sim três quartas partes de lã carneira?
Porque é que a pianista compra do Alves Redol
quando está a pensar nas pernas e no peito do louro galã yankee?
E porque raio despede o senhor Director três humílimos empregados
quando a verdade é que já lá vão três meses e ainda não viu um que lhe enchesse as medidas?
Com certa espécie de solidariedade
lembro-me de ti, Mário de Sá-Carneiro,
Poeta-gato-branco à janela de muitos prédios altos.
Lembro-me de ti, ora pois, para saudar-te,
para dizer bravo e bravo, isso mesmo, tal qual!
Fizeste bem, viva Mário!, antes a morte que isto,
viva Mário a laçar um golpe de asa e a estatelar-se todo cá em baixo
(viva, principalmente, o que não chegaste a saber, mas isso é já outra história…)
E com uma solidariedade muito mais viva
lembro-me de ti, meu vizinho de baixo,
sapateiro-gato-branco, mas no rés-do-chão, desta vez…
É curioso que não te possas suicidar
só porque a tua janela está ao nível do mundo
e que cantes alegremente de manhã à noite
como uma casa de seis andares em cima de ti.
Também tu foste empurrado, também te disseram: Fora, gato!
Mas achaste isso quase natural (e não o é, deveras?)
E agora, guardando em ti todas as tuas grandes qualidades
vais vivendo um pouco à margem, um pouco no quinto andar…
Deito fora o cigarro que já me sabia a amargo
e decido-me a andar – mas para quê? Mas para onde?
As lojas estão abertas mas nunca se viu coisa tão fechada
Ah! heróis do trabalho, que coisas raras fazeis!
Não sou um proletário – vê-se logo
– mas odeio cordialmente a gataria
e quanto a crocodilos, nem os do Jardim Zoológico me atraem
quanto mais estes! – E aqui é que começa o embróglio…
O pouco amor que eu tive à burguesia
deixei-o todo numa casa de passe
quando me perguntaram: quer assim? Ou assim?
E agora, era fatal, falto ao escritório,
falto ao escritório, pontualmente, todas as manhãs.
Mas vejamos, ó minha alma, se podes, arrumemos
um pouco a casa escura que te deram.
Eu
estudei música, como toda a gente
(ou talvez um pouco mais do que toda a gente?)
Não. Por aqui não nos entenderemos.
Estudemos outro papel. Outro fim. Outras músicas.
Recomecemos: Um:
Estes versos não querem de modo algum ser versos
porque quem hoje em Portugal quer de algum modo fazer versos versos
está em muito maus lençóis
(este o primeiro artigo da minha constituição)
Segundo:
Apesar de tudo, saí para a rua com bastante naturalidade
e que vi eu? Que é isto? (e que esperava eu ver?)
Terceiro:
(e aqui começa, talvez, o desembróglio)
vi também um vapor que ia para o Barreiro
e tive pena de não ir com ele
mas não sou um proletário (não, ainda não)
e atravessar a nado – quem é que disse que pode?
Fiquei-me a vê-lo: primeiro junto ao cais
com um certo ar simpático de proletário dos mares
e apinhado de gente – tanta espécie dela!
Depois a meio do rio, destacado e nítido,
depois um ponto vago no horizonte (ó minha angústia!)
ponto cada vez mais vago no horizonte
e de repente, ao virar uma esquina, já depois de outra esquina,
vejo uma nova espécie de enforcado
um homem novo em cima de um escadote
a colar afixar cartazes deste género:
                            VOTA POR SALAZAR
Páro. Páro de novo. Pararei sempre enquanto
afixarem cartazes deste género.
Um chefe não é grande pelo nome que arranjou.
Salazar Xavier Francisco da Cunha Altinho isso que importa.
Um chefe é grande pelas suas obras, pelo amor que inspira.
Pois os fascistas os nossos bons fascistas
querem que a gente vote por um nome
por um nome calcula essa coisa qualquer que qualquer fulano tem!
Vota por Salazar ora pois ó meu povo
vota por sete letras muito bem arrumadas em três sílabas.
Deito a cabeça para trás para deixar sair a gargalhada
e aproximo-me do homem em cima do escadote
aproximo-me tanto que ele nota
alguém que se aproxima
e o braço cai-lhe, grosso, pingando água num balde
… … … … … … … … … … … … … … … … … … … … …
… Dá os bons dias a este irmão, a este bom irmão
que anda a colar cartazes para não morrer de fome!…
… … … … … … … … … … … … … … … … … … … … …
(Nobilíssima visão)
*
O operário (1947)
*
Homenagem a Luis Buñuel (1968)
*
Autografia, de Miguel Gonçalves Mendes (2004)

***

Mário Cesariny