Adrienne Rich: “Ninguém dorme neste quarto sem o sonho de uma língua comum”.
20 de agosto de 2013

Uma mulher nasce. Uma mulher cresce. Uma mulher sonha ser poeta. Uma mulher lança um livro (tutelada por um importante poeta do período, no estilo desse poeta). Uma mulher casa. Uma mulher lança um segundo livro. Uma mulher tem 3 filhos em 5 anos. Uma mulher começa a se perguntar: “o que é ser mulher?”. Uma mulher investiga a si. Uma mulher investiga o meio. Uma mulher lança um terceiro livro, com o resultado dessa investigação (livro que rompe, de formas distintas, com os dois anteriores). Uma mulher se separa. Uma mulher ama outras mulheres. Uma mulher se declara judia (mesmo tendo nascido de pai judeu e mãe não-judia) e se lança numa cruzada contra as muitas formas de opressão exercidas pelo Estado mais rico e poderoso do planeta. Uma mulher sonha um outro mundo. Uma mulher sonha uma língua comum e se pergunta se a poesia pode ser “impulso de estabelecer ligação”. Uma mulher se torna ensaísta, ativista política, com diversos livros publicados sobre feminismo, poesia e política. Uma mulher trama um poema possa ameaçar o status quo.

É a partir do lançamento do seu terceiro livro, Instantâneos de uma nora (Snapshots of a daughter-in-law, 1963), que a obra de Adrienne Rich passa a ser uma investigação (e auto-investigação) das condições e implicações de ser mulher no mundo. Na introdução de “Uma paciência selvagem”, antologia portuguesa da poesia de Rich (na qual se baseia essa postagem) as tradutoras Maria Irene Ramalho e Monica Varese Andrade nos informam:

“Oito anos foi quanto Rich levou até publicar o terceiro livro de poemas. Em Snapshots of a Daughter-in-law [Instantâneos de uma nora] (1963) reflecte-se a experiência de vida de Rich, que em 1953 se casara com um jovem economista de Harvard e tivera três filhos em cinco anos. A dura vivência do doméstico, enquanto esposa prioritariamente destinada a apoiar a carreira universitária do marido, ameaça-a de fracasso como mulher e como poeta, e por isso lhe aguça as antenas políticas. Nos anos sessenta do século passado, as mulheres começavam a entender plenamente que o ‘pessoal é político’ e que a heterossexualidade não é, necessariamente, um destino obrigatório. Rich é, a esse respeito, exemplar. Em A heterossexualidade compulsória e a existência lésbica (1981), Rich reflete sobre a heterossexualidade como uma instituição patriarcal que historicamente foi mantendo as mulheres sob o domínio dos homens, ao deliberadamente suspender a possibilidade da existência lésbica. A existência lésbica, ou o continuum lésbico, explica Rich, define uma experiência vinculada pelo ser-mulher, e não por referência ao homem como identificação. No entender de Rich, mais do que o domínio masculino, mais do que a desigualdade sexual, ou mesmo mais do que os tabus contra a homossexualidade, o factor que tem mantido as mulheres subordinadas na estrutura social dominante é a obrigatoriedade da heterossexualidade como forma de realização feminina. Em 1970, Rich separa-se do marido e empenha-se numa luta feminista que tem como prioridade dar visibilidade ao lesbianismo como possibilidade de realização.

Na postagem desta semana trazemos 3 séries poéticas da autora sobre e o link para o ensaio Heterossexualidade compulsória e existência lésbica na tradução de Carlos Guilherme do Vale (professor do departamento de Antropologia da UFRN), além de dois vídeos com a autora lendo seus poemas.

Ensaio “Heterossexualidade compulsória e existência lésbica” aqui.

O que está em jogo na poesia de Rich é um questionamento da posição do poeta com relação à palavra, e a sua materialidade específica. Não será impunemente que a poesia poderá se esquivar de uma escuta necessária da fala pública de seu tempo. Ainda mais no tempo em que tudo aquilo que escrevemos será usado contra nós ou contra aqueles que amamos. É por meio desse conjunto de perguntas, de como as palavras no situam numa história, num tempo e espaço, por assumir essa responsabilidade diante de um leitor, diante de quem vier a ser seu leitor, que se faz a escrita da poeta. Foi assim que ela disse: “A arte não significa nada se simplesmente decora a mesa de jantar do Poder que a mantém refém”. E é assim que num dos trechos finais do poema Fontes [sources] podemos ler uma quase carta de intenções da sua poesia:

“É por isso que quero falar contigo agora. Para dizer: ninguém, homem ou mulher, a tentar assumir responsabilidade pela sua identidade, deveria ter de estar tão só. Tem de haver aqueles entre os quais nos possamos sentar e chorar, e mesmo assim sermos considerados guerreiros (Preparo para ti esta encomenda estranha e cheia de ira, entrelaçada de amor). Penso que pensaste não haver lugar nenhum como esse para ti, e talvez não houvesse nenhum então, e talvez não haja nenhum agora; mas teremos de o fazer, nós que queremos o fim do sofrimento, que queremos mudar as leis da história, se é que não queremos entregar-nos”.

***

 

TEMPO NORTE-AMERICANO

I

Quando os meus sonhos deram sinais
de começarem a ser
politicamente correctos,
sem imagens rebeldes
a escapar dos limites,
quando, caminhando pela rua, encontrei os meus
temas fabricados para mim,
soube o que não relataria
com medo do uso dos inimigos,
foi então que comecei a interrogar-me

 

II

Tudo que escrevemos
será usado contra nós
ou contra aquele que amamos.
São estas as condições,
É pegar ou largar.
A poesia nunca teve hipótese
de se pôr fora da história.
Um verso dactilografado há vinte anos
pode ser escarrapachado a tinta na parede
para glorificar a arte como distanciamento
ou tortura daqueles que
não amámos mas também
não quisemos matar

Nós seguimos mas as nossas palavras ficam
tornam-se responsáveis
por mais do que tínhamos na intenção

e isto é privilégio verbal

 

III

Experimenta sentar-te à máquina de escrever
uma calma tarde de verão
numa mesa junto a uma janela
no campo, experimenta fingir
que o teu tempo não existe
que tu és simplesmente tu
que a imaginação simplesmente foge
como uma traça enorme, sem intenção
tenta dizer-te
que não tens que responder
pela vida da tua tribo
pelo respirar do teu planeta

 

IV

Não importa o que pensas.
As palavras são tidas como responsáveis
tudo o que podes fazer é escolhê-las
ou escolher
ficar calada. Ou, nunca tiveste escolha,
e é por isso que as palavras ficam mesmo
são responsáveis.

e isto é privilégio verbal

 

V

Suponhamos que queres escrever
sobre uma mulher entrançando
o cabelo de outra mulher –
tranças simples, ou com contas e conchas
tranças de três madeixas ou tranças corridas –
é bom que saibas a espessura
o comprimento o modelo
por que razão decide ela fazer tranças
em que país acontece
e que mais acontece nesse país

Tens de saber estas coisas

 

VI

Poeta, irmã: as palavras –
quer queiramos, quer não –
existem num tempo que lhes é próprio.
De nada vale protestar Escrevi isso
antes de Kollontai ter sido exilada
Rosa Luxemburgo, Malcolm,
Ana Mae Aquash, assassinados,
Antes de Treblinka, Birkenau,
Hiroshima, antes de Sharpeville,
Biafra, Bangladesh, Boston,
Atlanta, Soweto, Beirute, Assam
– esses rostos, nomes de lugares
rasgados do almanaque
do tempo norte-americano

 

VII

Estou a pensar isto num país
onde se roubam palavras das bocas
como se rouba o pão das bocas
onde os poetas não vão para a cadeia
por serem poetas, mas por terem
a pele escura, por serem mulheres, pobres.
Estou a escrever isto num tempo
em que o que quer que escrevamos
pode ser usado contra aqueles que amamos
onde o contexto nunca é dado
embora tentemos explicar, vezes sem conta
Em nome da poesia pelo menos
preciso saber estas coisas

 

VIII

Por vezes, planando à noite
num avião sobre Nova Iorque,
tenho-me sentido como uma mensageira
chamada a entrar, chamada a arrostar com
este campo de luz e escuridão.
Uma ideia grandiosa, nascida do voar.
Mas por baixo da ideia grandiosa
está o pensamento de que aquilo com que tenho de arrostar,
depois de o avião rugir sobre a pista,
depois de trepar as minhas velhas escadas, de me sentar
à minha velha janela,
está destinado a destroçar-me o coração e reduzir-me ao silêncio.

 

IX

Na América do Norte o tempo vai tropeçando
sem se mover, apenas libertando
uma certa dor norte-americana.
Julia de Burgos escreveu:
O meu avô ter sido um escravo
é a minha dor: tivesse ele sido um senhor
essa teria sido a minha vergonha.
Palavras de uma poeta, penduradas numa porta
na América do Norte, no ano de
mil novecentos e oitenta e três.
A lua quase-cheia ergue-se
intemporal, falando de mudanças
lá no Bronx, o Rio Harlem
as cidades inundadas dos Quabbin
os montes funerários pilhados
os pântanos tóxicos, os locais dos testes

e começo a falar de novo

 

1983 – retirado do livro Tua terra, tua vida [Your Native Land, You Life].

*

 

ORIGENS E HISTÓRIA DA CONSCIÊNCIA

I

Vida nocturna. Cartas, diários, uísque
entornado no copo. Poemas crucificados na parede,
dissecados, asas decepadas
como troféus. Ninguém vive neste quarto
sem viver uma crise qualquer.

Ninguém vive neste quarto
sem confrontar a brancura da parede
por trás dos poemas, pranchas de livros,
fotografias de heroínas mortas.
Sem por fim chegar a ponderar
a verdadeira natureza da poesia. O impulso
de estabelecer ligação. O sonho de uma língua comum.

Pensando em amantes, na sua fé cega, nas suas
crucificações vividas,
a minha inveja não é simples. Tenho sonhado com ir para a cama
como entrando em água clara circundada por um bosque coberto de neve
branco como lençóis frios, pensando, Vou enregelar ali dentro.
Os meus pés nus estão já entorpecidos pela neve
mas a água
é mansa, afundo-me e flutuo
como um animal anfíbio quente
que rompeu a rede, correu
pelos campos de neve sem deixar marca;
esta água faz desaparecer o cheiro –
Estás a salvo agora
do caçador, do armadilheiro
dos carcereiros da mente –
porém o animal quente continua a sonhar
com outro animal
nadando debaixo da superfície da lagoa salpicada de neve,
e acorda, e volta a adormecer.

Ninguém dorme neste quarto sem
o sonho de uma língua comum.

 

II

Foi simples conhecer-te, simples tomar os teus olhos
nos meus, dizendo: estes são olhos que conheço
desde o principio… Foi simples tocar-te
contra o fundo retalhado, ao arrepio de tudo o que
tínhamos sido, as escolhas, os anos… Foi até simples
tomarmos as vidas de cada uma de nós nas nossas mãos, como corpos.

O que não é simples: acordar de se afogar
de onde o oceano batia dentro de nós como placenta
por esta mesma particularidade aguda,
estes dois eus que caminharam meia vida sem se tocarem –
acordar para algo enganosamente simples: um copo
suado de orvalho, a campainha do telefone, o grito
de alguém espancada lá ao fundo da rua
fazendo cada uma de nós ouvir o seu próprio grito interior

sabendo da mente do assaltante e da assaltada
como tem de saber qualquer mulher para conseguir sobreviver a esta cidade
a este século, a esta vida…
tendo cada uma de nós amado a carne na sua beleza cerrada ou solto
melhor do que árvores ou música (porém amando estas também
como se fossem carne – e são – mas a carne
de seres ainda por sondar na nossa vida mais ou menos literal ).

 

III

É simples acordar de dormir com uma estranha,
vestir, sair, tomar café,
entrar numa vida de novo. Não é simples
acordar para a proximidade
de alguém que nem é estranha nem chegada
em quem se escolheu confiar. Confiando, não confiando,
até este ponto chegámos, descemos mão
após mão como por uma corda trémula
sobre o que ficou por buscar…fizemos isto. Concebidas
uma da outra, concebemo-nos uma à outra numa escuridão
que recordo como encharcada de luz.
A isto quero chamar – vida.
Mas não posso chamar-lhe vida até começarmos a ir
para além deste secreto círculo de fogo
onde os nossos corpos são sombras gigantes arremessadas contra uma parede,
onde a noite passa a ser a nossa escuridão interior, e dorme
como um animal, a cabeça pousada nas patas, a um canto.

 

1972-1974 – retirado do livro O sonho de uma língua comum [The Dream of a common language]

*

 

E AGORA

E agora enquanto ledes estes poemas
– vós cujos olhos e mãos eu amo
– vós cuja boca e olhos eu amo
– vós cujas palavras e mentes eu amo –
não penseis que estava a tentar defender uma cauda
ou construir um cenário:
Procurei escutar
a voz pública do nosso tempo
procurei sondar o nosso espaço público
o melhor que pude
– procurei lembrar-me dos pormenores e
ser-lhes fiel, registrar
exatamente como o ar se movia
e onde estavam os ponteiros do relógio
e quem tinha a seu cargo as definições
e quem se limitava a acatá-las
quando o nome compaixão
foi mudado para o nome culpa
quando sentir como um humano estranho
foi declarado obsoleto.

 

1994 – retirado do livro Campos negros da República [ Dark Fields of the Republic].

 


Adrienne Rich