“Do que eu falo quando falo de poesia?” – Daniel Massa & Thiago Ponce.
30 de julho de 2013

Entre críticos de poesia, acadêmicos, e jornais especializados, e mesmo entre diversos poetas em atividade, já se consolidou a noção de que a média da produção poética brasileira recente demonstra um alto nível de qualidade – o que não quer dizer que não haja quem conteste, assim como aqueles que sempre veem na produção cultural presente a decadência de um tempo passado e aqueles que acreditam que a poesia não tem mais lugar na dinâmica da cultura hoje (mas que sentem necessidade de falar da poesia, justamente para falar dessa perda de significância, ou desse seu não lugar). Se os critérios de avaliação, ou mesmo o pensamento crítico produzido acerca da poesia, são, de um modo ou de outro, enviesados, marcados ideologicamente, o fundamental parece se deslocar em outra direção: que haja textos poéticos circulando e com potencial de afetar leitores do mundo de hoje. Nesse cenário, julgamos que a pergunta mais curiosa que se pode fazer é aquela que – desviando das querelas de qual poema é bom, qual ruim, qual é “o” poema, e qual não pode ser, qual deve ser excluído da categoria poesia, etc. – vai investigar que diferentes práticas e fazeres se agrupam, se encaixam, se reúnem sob esse nome, ‘poesia’. Que diferentes histórias se contam quando se chama este estranho nome? Começamos aqui uma série, em que sempre uma dupla (de poetas, ou de leitores de poesia) responde à pergunta “Do que eu falo quando falo de poesia?”.
         A pergunta, gostava de acreditar, coloca a poesia a meio termo da corrida e da filosofia.  Quanto à corrida (e há mesmo um ótimo livro, do romancista japonês Haruki Murakami, cujo título é justamente “Do que eu falo quando falo de corrida”, publicado aqui pela Alfaguara/Objetiva, em 2010), ela é um tipo de atividade sobre a qual não se pode falar enquanto pratica, ou que, pelo menos, fazê-lo vai dificultar singularmente sua execução a contento. Quanto à filosofia, pode-se dizer que falar do que ela trata, e abordar seu modo de pensar o mundo, é já fazer filosofia, e talvez não se possa pensar, de fato, a filosofia sem já estar com isso filosofando. Ou seja, num resumo rasteiro, a poesia poderia ser pensada como corrida atravessada de filosofia atravessada de corrida, ou ao contrário, filosofia atravessada de corrida atravessada de filosofia. Isso, contudo, ainda não é uma resposta à pergunta “Do que se fala quando se fala de poesia?”.
Para respondê-la, começamos nossa série com dois poetas que participaram do primeiro evento “Bliss não tem Bis”, em novembro de 2012, Thiago Ponce de Moraes e Daniel Massa. Junto com a resposta de Massa, publicamos aqui a segunda parte de seu diário de viagem durante o Mochilão do Marrocos (a primeira publicamos aqui nesse mesmo blog na postagem “Correspondências – Jogos de Cartas, Cartas de Viagens” no início deste mês), a composição de um postal seu de Paris e um de seus poemas chuvosos. Junto com a resposta de Thiago Ponce, poemas selecionados de seu livro mais recente De Gestos Lassos e Nenhuns.
*
Daniel Massa

Sou coagido a dizer. E, assim, digo. O resto é forma. E aí se caminha por onde há espaço.
Construo a mim mesmo no que é dito. Ergo as fronteiras que me divisam do mundo, que me delimitam como sendo, a partir da palavra. Nesse sentido, dizer é sobrevivência.
E poesia é dizer-se. Todo poema é um alicerce de mim. É uma forma, entre outras, de lançar-me ao mundo. É a possibilidade de criar-me e recriar-me a partir do que eu digo e, assim, ser. O que surge a partir daí não se sabe. Se conforma, se transforma, se informa ou se deforma.
Mas não se engane, não. Isso nada tem a ver com a velha máxima rilkeana endereçada ao jovem poeta. Vive-se muito bem, obrigado, sem poesia. Há necessidade de feijão, juros baixos e conexão banda larga de qualidade. O resto é supérfluo.
Como pode então a poesia, objeto dispensável, sustentar uma condição? Como pode então a poesia, artigo de perfumaria, fazer-me?
Certa vez ouvi de uma senhora casada a vida toda com um poeta que o ego do seu marido era do tamanho de uma Kombi. Todos os poetas são uns egoístas filhos da puta, ela disse. Eles nunca estão satisfeitos.
Por isso, sinto-me coagido a dizer. O ego é uma Kombi e exige um espaço para si. Assim, desenho fronteiras, diviso-me do mundo através da poesia.
Quando falo de poesia, falo de mim mesmo. Tudo o que é meu é matéria do poema.
O que sustento e suporto está aí. Mas, perceba, tudo é claro como água suja. Porque, de fato, trata-se de um eu escamoteado, um jogo de véus em que não se mostra o que se quer mostrar.
A poesia, enfim, é uma criptografia de mim.
*
Composição de postal
Na França, as pessoas andam de bicicleta o tempo inteiro. Às vezes neva muito e eu vou pra janela dar uma olhada. Neve é uma coisa muito bonita. Os prédios ficam parecendo a cabeça do Ziraldo, marrons com o telhado branco.
Volta e meia sou surpreendido por alguém pedalando, de lugar nenhum para lugar qualquer. E assim o rastro fino dos pneus vai tatuando a neve recém-caída. Não importa o frio, não importa a quantidade de gelo que cai do céu. Lá estão os franceses pedalando.
Como diria o poeta, somos todos a bicicleta dos deuses.
*
jean jacques rousseau na chuva
com cheiro de chuva
quando cheguei rousseau já estava
e desde então tenho o acompanhado
em dia santo e feriado cívico
rousseau sério, rousseau de poucas palavras
tampa de tempo tem pé e tem pó pra todo lado.
carro zero km, mocinha namorosa, velho com tosse, pombo gordo
o mundo cabe em rousseau.
mas o mundo não quer caber em lugar nenhum.
e da janela eu vejo
jean jacques rousseau na chuva
mais nada.
e da janela eu penso
em pular
me juntar a rousseau em sua eternidade cinza
levando lugar qualquer a lugar nenhum
e da janela eu calo
e da janela eu selo
jean jacques rousseau
seja réu
       rua
       rio
afoga na chuva o que não tem nome em mim.
*
Diário de Viagem. Marrocos. Parte II.
3 de março de 2013
Meu amigo ainda mastiga a comida da véspera. Eu já não tenho nada além de um gosto amargo na boca.
Quando o sol nasce eu quase acredito em deus.
*
São dois dias sem banho. O sol se põe, e as mesquitas cantam quando chego a Marrakech. Eu me pergunto pra quê existe tanta gente no mundo.
Sufoco.
*
Não há comida e não há dinheiro. Erro pela Medina em busca de alguma coisa. O cheiro do pão me leva a um beco sem eletricidade. Me abaixo através do que parece uma porta e alcanço um porão.
Três homens trabalham. Centenas de pães acabam de sair da fornalha. De mão em mão eles são empilhados em um canto.
Compro seis. Tão bom quanto a carne de cristo.
Junto aos pães quatro ovos e meio quilo de bananas. Com um euro eu tenho a comida de dois dias.
4 de março de 2013
Os autofalantes da mesquita anunciam um novo dia. Me levanto quieto para não acordar meus companheiros de quarto.
Marrakech acorda com sono.
A Medina está cheia de gatos. Me sinto bem em companhia de gatos. Quem sabe num futuro não muito distante eu viva numa casa com duzentos gatos, usando calças mijadas e desviando das pedras que as crianças atiram nas vidraças.
Tomo um suco de laranja na praça Jamma El Fna.
Deixo Marrakech a bordo de um trem.
5 de março de 2013
– Me diz alguma coisa bonita.
– Janela.
6 de março de 2013
Volubilis dá vontade de ser eterno.
A chuva cai violenta e suja a roupa já suja.
*
Entro num taxi. Não há dinheiro e as refeições se tornaram escassas.
Jairzinho, Gérson, Pelé, Tostão, Sócrates. Ele entende das coisas. Não tiro os olhos do taxímetro. Pergunto quanto vai dar até a gare.
– T’inquiète pas!
Insisto.
– T’inquiète pas, mon ami.
Quando chego ao destino ele me diz:
– Si vous n’avez pas d’argent, pas de problème. C’est la vie.
Mèknes fica para trás. Levo comigo um pouco de paz para acalmar um espírito que ferve.
O mundo é bão, Abraão.
T’inquiète pas.
*
Já é noite quando chego a Fès. A Medina é formada por milhares de estreitos corredores. Não é possível ver o céu. Por vezes, as casas cobrem as ruas formando túneis que mesmo durante o dia não é possível caminhar sem o auxílio de uma lanterna.
Saio do Rhiad em busca de comida. No meio do caminho me dou conta de um erro. Uso displicentemente uma camisa do Vasco da Gama. Do lado esquerdo do peito, sustento uma cruz de malta. Não existem cruzes no Marrocos. A Cruz Vermelha se transforma em Croissant-Rouge. Os letreiros luminosos das farmácias francesas que sustentam uma cruz verde são substituídos por uma lua crescente.
Entro em um beco qualquer. Não há ninguém nas ruas. Tiro a minha camisa e a visto pelo avesso. Procuro caminhar com a mão direita sobre o peito. Me sinto idiota.
Acho uma mercearia. Crianças se empilham no balcão para comprar doces. Gasto dez dirhams em bolinhos, chocolates e uma coca-cola quente.
Antes mesmo que eu pudesse me afastar, ouço um grito acompanhado de risadas.
– Monsieur, votre chemise est à l’envers.
Agradeço.
De que lado mesmo a gente vive?
*
O cheiro do couro me enjoa.
– Un feuilleton brésilien a été tourné ici.
Não me entusiasmo.
*
Queria tomar uma cerveja vendo mulheres passarem.
Não há álcool e as mulheres não passam.
8 de março de 2013
Chove o dia todo.
Setecentas mesquitas gritam ao mesmo tempo e todas as pessoas atendem ao seu chamado.
É sexta-feira. Hoje tudo é mais grave.
*
Crianças jogam futebol onde há espaço.
Ouço uma história. Certa vez, um jogador marroquino marcou um belo gol e se inspirou em um famoso meio-campista brasileiro para comemorar. Correu em direção a sua torcida e fez o sinal da cruz por diversas vezes. Garrafas e sapatos voaram em direção a ele e antes mesmo que pudesse compreender o seu equívoco, o juiz o expulsou.
Crianças jogam futebol onde não há espaço.
9 de março de 2013
           
Durmo na gare para economizar uma diária.
Todo abraço de chegada me cria um sorriso.
Não caibo na cadeira da estação.
*
Em Paris sou devolvido ao mundo.
Mas o mundo mudou enquanto estive fora.
– Monsieur, votre chemise est à l’envers.
Agradeço.
Ela me veste muito mais confortável assim.
***
Thiago Ponce de Moraes

Do que eu falo quando falo de poesia?
Querido Lucas,
Gostaria de retornar a resposta como determinado endereçamento, por isso nomeio. Ao menos assim garanto alguma precisão (como fosse preciso). O quanto adiei responder, saiba, tem a ver com a própria impossibilidade de seu questionamento. Não é preciso dizer. No entanto, aí está. Difuso, incerto.
Não consigo conceber poesia como um termo, um conceito, que se encerra. Um saber-sabido, um a priori qualquer. Portanto, poderia começar me perguntando (dirigisse-me a mim mesmo enquanto falo; assim o faço?) se falo de alguma coisa quando falo de poesia, esta forma de vida. Ou se, de outra forma, enquanto busco na impossibilidade da fala sobre poesia qualquer dizer sobre poesia acabo por dizer a própria busca pelo falar sobre poesia sempre, seu caminho, seu vir-a-ser; nunca seu termo, pois: poesia, em si, como se fosse. Retorno.
A pressa dessas palavras, como pode ler, pretende falar de alguma coisa. Mas, mais do que isso, pretende dizer alguma coisa. Dizer, prioritariamente, porque se pretende breve como uma prece sobre o falar sobre poesia hoje: sob céus sombrios. Prece também pela graça de pensar no que falo quando falo de poesia (se o faço, se me é possível fazer). E sobre esse céu sob o qual estamos. Graça. Leve como um dito. Necessariamente dito em falhas, aos soluços, em balbucios ou gagueiras. Para quem? Dirá um dos versos de Celan, em Salmo: Louvado sejas, Ninguém.
A poesia, para Celan, deve atravessar seu vazio de respostas, o terrível emudecimento, as mil trevas de um discurso letal. A poesia deve continuar sua travessia e, nesse acontecimento, manter seu estar sempre a caminho. Mas de onde? A poesia, que busco dizer no emudecimento da fala, só pode ser uma colisão de atravessamentos que segue em direção a algo aberto, talvez ocupável, como a orla de um pensamento, ou inocupável, como o mar alto de alguma convicção; ou nem uma coisa, nem outra.
Afinal, o falar sobre poesia me parece ser a travessia do estar-a-atravessar da poesia; algo que não se pode definir, apenas por uma busca perene que objetiva se dizer enquanto tal. Diário da travessia. Sertão, mar. A fala da travessia é sempre o seu acaso: dizer; é sempre poder lançar os dados mais uma vez com palavras – apesar de tudo, por isso tudo, contudo –, como que a golpear a superfície das coisas; a turvar o chão dos mundos prováveis; a apagar as linhas rápidas das mais elaboradas convicções.
Quando escrevo sobre o que falo quando falo de poesia quero fazer sentir alguma vida na vinda dessas palavras em travessia. Sim. Algo do real dessa vida que nos atravessa. A fala da travessia é, também, sempre o seu ocaso, o seu fim. Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia – recito da boca de Riobaldo.
*
Vê-la nascer, tocá-la ao acaso as mãos,
Os pulsos de ilegíveis saudades. Então,
Vivê-la; contudo sem pressa, sem gosto,
Sem cartografia que nomeie seu rosto,
Sem nem ao menos pensá-la. Enfim, calá-la
Com um sonho antigo no fundo da alma:
Estrelas ao longe desta paisagem cadente,
Desta tela a ensiná-la o que falta e o que sente.
Nos gestos da via sem origem ou ocaso,
Não tê-la nunca e todavia velá-la.
*
Estrelas
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Com a palavra longe te aproximas deste nome,
E de teu nome, arrancado pela Raiz,
Procura os sais.
Confundes a hora da aurora se alvoreces
E tornas originais os que amanhecem
Na palavra dia.
Abissais tuas sílabas soam com a melancolia
Natural da melodia que se oculta
Entre a palavra escuta e a palavra escrita.
Adias os nomes, de vozes te acercas em portos
Infinitos. E na palavra abismo
Cais.
*
Caligrafia
Não imaginas linguagem alguma –
E a manhã rompe como uma ferida em teus lábios.
Tua boca se abre, apenas uma palavra sangra
Enquanto passa o dia.
Sépala: na casa do esquecimento afundas,
Folhas no chão e sombras da folhagem das árvores
Por onde o caminho vaza. A noite
Não precisa de estre-
Las. Riscam a areia tuas folhas,
Uma palavra ainda tem
Luz:
Nada está perdido.
*
Paralela Mallarmé
Entre a Aurora e a Alvorada uma linha de azul fina e pálida traça –
Nasce sob o céu, no entanto –
Um círculo que existe e em seu centro – como do poema um lago, um véu –
Jazes qual o que na vida há de profuso e simultâneo.
Queres despertar como um sopro, de uma vez,
Ou da relva levantar como o verbo reverbera,
Pois num esboço de espaços a delinear teus contornos
Exibes no rosto o que poema algum concebe.
Nem o vento que te abraça te expande ou te revela,
Nem tuas costas, estes mapas para acervos de saudades,
Não te legam sem fronteiras e sem leis.
Uma linha de azul fina e pálida traça um círculo:
E em seu centro te elide – e te estreita e te enleia sem te ler –
Entre o Anseio e a Angústia de tuas páginas em branco.
*
Como das nuvens o teu raio
Há em teu rosto inerte
Algo de hieroglífico (de
Indecifrável) que por todo
Instante basta.
Há em teu rosto algo
Que também passeia pelas
Tuas mãos – há uma renúncia
Trágica que não alude a nada.
E como quem sabe das palavras
Mas limita-se a sorrir,
Deixas de teu rosto Algo
E as memórias ermas daquele
Verão em que escrevias, propondo,
Pois, tuas feições por horas:
Desejo mais ver

Do que dizer.

Daniel Massa, Do que eu falo quando falo de poesia, Poesia contemporânea, Thiago Ponce