Tanta cor, quanto som – Bliss não tem Bis Hoje! Hoje! 18/06/2013: Auditório Cartola/ COART – UERJ.
18 de junho de 2013

Clarissa Freitas e Lucas Matos fazem a curadoria deste segundo encontro no Rio.  Bliss não tem Bis.
Hoje, 18/06/2013, teremos o terceiro encontro “Bliss não tem Bis”, o segundo na cidade do Rio de Janeiro, feito em parceria com a COART/UERJ. Vozes e imagens se entrelaçam, num modo de dizer isso que vivemos, o dia que atravessamos. Os poemas embaralhados, leitores, poetas, coisas-corpos-palavras num mesmo espaço.
Estamos muito felizes em anunciar os artistas que conseguimos reunir nessa edição: além de dois dos editores desse blogue, Marcio Junqueira e Lucas Matos, contaremos com a presença de Angélica Freitas, Dimitri BR, Leonardo Gandolfi, Marília Garcia e Thiago Gallego.
         Até lá, a gente se vê.
*
Thiago Gallego
 O que se passou a Carolina durante os sete dias de refúgio no meio do mato.
I
Fechada a porta
dois passos fora de casa, é incrível
como até aqui zero ineditismo e
nunca, no entanto, me senti tão longe.
O meio do mato a dois passos fora de casa
e tanta gente falando em Petrópolis-Teresópolis.
II
a mim não importam quantas cajadadas ou coelhos desde que morram
desde que morram desde que possam ser assados
estou há dois dias no meio do mato e dois coelhos um coelho tanto faz
não estou de dieta, veja bem, não há com o que economizar
III
É engraçado o tipo de coisa que a gente traz quando vem pro meio do mato
Alface a gente não traz, porque já tem planta demais
Ainda que seja minha comida favorita – parece
água crocante. Eu trouxe um espelho,
água não reflete bem.
Ainda que seja minha bebida favorita, parece
não faltar no meio do mato.
Daí não trouxe. Viemos só
Eu e espelho.
IV
Em pequena, me espantavam os super amigos
com necessidade de anunciar tudo que se passa
“veja só! um cavalo gigante ataca Troia! me transformarei em machado para destruí-lo!”
Hoje converso com cada planta sobre o clima agradável
Xuxa em Lua de Cristal, bêbado de botequim, já não os condeno.
V
Até agora me limitei a cortar os pés; catar
frutas; instalar espelho em tronco de árvore.
Em sete dias, Deus criou a vida, o universo e tudo o mais.
Invejo a produtividade.
Todo dia, desde que cheguei, miro
(não mais que três vezes) o espelho.
Nada mudou, a Lua continua
a mesma, tatuado o coelho que eu não soube caçar.
VI
[Nessa parte anterior à última, o autor frustrado se pergunta como dar fim à viagem de Carolina. Poderia usar a sempre nova revelação: a menina nunca deixou a casa; passou todo esse tempo deitada na cama sob o cobertor (com, talvez, uma lanterna um espelho). A ida à floresta representa um encontro com a própria natureza, um conhece-te a ti mesmo, a mais longa masturbação da história. Ou não.]
E no sexto dia,
Carolina se masturbou.
VII – A neblina (ou “deus ex machina”)
Desistira de falar, ao fim da viagem.
Desistira de lamentar também.
“Vou passar sete dias longe de casa, de mim mesma. Sete dias
para que possa suportar todo o resto.”
Expectativa boba, insossa, alface.
Superada.
O céu estava bonito e ela podia sê-lo por uns segundos
Podia ser céu bonito e não Carolina que empreendeu um refúgio fracassado.
E mesmo ela, céu bonito, não suspeitaria a vinda de tão densa neblina.
Densa de tomar tudo: terra água ar
fogo amor ódio vulcão e sandálias.
A ponto de Carolina (ou neblina densa,
já que não mais céu bonito)
não enxergar para além de seus braços, mãos e espelho
nelas acoplado.
Foi então que, meio ao nada
, estendidos os braços, espelho
a encarar, Carolina
(ou meio do mato, céu bonito, neblina densa, pouco importa)
recriou-se
à sua imagem e semelhança.
*
Pôr no
Preciso dum novo personagem. Preciso
dum novo personagem, que Carolina foi
embora. Tendo ido Carolina, se não outro,
eu só.
Chamo o ator.
Aquele, por quem me apaixonei, o ator
pornô. Vexame, sei, mas paixão
é paixão e não se nega não se esconde
é fogo mas não
arde – uma lástima –
nem dói.
Sai desse site, homem! Vem
pro bar, pra esquina o metrô
apertado. Sai dessa página desse player
essa quadradice, homem. Sai
do armário.
E arda.
E doa.
(o cu,
que o braço fatiga)
***
Angélica Freitas
micro-ondas
explicar o brasil a um extraterrestre:
tua cara numa bandeira. te saberiam líder
e te dariam cabo: parte suja
da conquista.
mas já foi, de outra maneira: vista aérea
da amazônia, vinte e tantas
hidrelétricas
pros teus ovos fritos no micro-ondas.
e te dariam cabo: parte certa
da conquista.
e se vieram mesmo
pra conhecer as cataratas?
ou pra aprender com a nata
como se faz uma democracia?
as naves tapam o céu completamente.
todos os escritórios
e todas as lojas de comidas rápidas
decretam fim de expediente.
baratas e ratos
fugiram antes.
é natal, carnaval, páscoa
nossa senhora aparecida e juízo final
tudo ao mesmo tempo.
amantes se comem pela última vez.
caixas eletrônicos vomitam a seco.
o supermercado era um cemitério!
os shoppings, os engarrafamentos!
explicar o casamento igualitário
a uma iguana, explicar
alianças políticas a um gato, explicar
mudanças climáticas
a uma tartaruga de aquário.
já está. agora espera.
toma um activia.
mora na filosofia. imagina!
num país tropical. péssimo!
não rio mais. trágico!
piores que gafanhotos
suas maravilhas hidrelétricas serão
vistas, em chamas, de sírius:
“o meu país era uma pamonha
que um alien esfomeado
pôs no micro-ondas.”
queime-se.
é um epitáfio possível.
*
metonímia
alguém quer saber o que é metonímia
abre uma página da wikipédia
depara com um trecho de borges
em que a proa representa o navio
a parte pelo todo se chama sinédoque
a parte pelo todo em minha vida
este pedaço de tapeçaria
é representativo? não é representativo?
eu não queria saber o que era
metonímia, entrei na página errada
eu queria saber como se chegava
perguntei a um guarda
não queria fazer uma leitura
equivocada
mas todas as leituras de poesia
são equivocadas
queria escrever um poema
bem contemporâneo
sem ter que trocar fluidos
com o contemporâneo
como roland barthes na cama
só os clássicos

***

Dimitri BR



*


*


***

Leonardo Gandolfi
Todas as minhas coisas são tuas
(segundo Burt Bacharach)
Quando fiz Do you the way
to San José preparei algumas variantes
que acabaram ficando de fora da versão final
gravada em 1968 por Dionne Warwick.
A mais importante delas talvez tenha sido
uma pequena quebra de andamento
mais ou menos na metade da música
indicada sobretudo por uma mudança de nota
nos três trompetes que naquele instante
preenchiam os espaços em branco.
Isso apesar de rápido sempre me remetia
a um tempo em que meu pai me levava
ao bar a meio quilômetro de nossa casa.
As cordas de um piano que eu nunca mais
ouviria. Anos depois toda vez que toco
Do you know the way to San José penso
no meu pai. A música que fiz com certeza
não fala disso, a suspeita a um só tempo
oportuna e desacreditada que nos separa
dos nossos. Frio antigo e úmido que
como depois percebi da ação até a demora
não leva nem mesmo alguns segundos.
*
Pedro e o logro
Esta história envolve diretamente um gato
e um pássaro. O gato chama-se Colignon,
mora conosco há alguns anos. O resto
importa pouco ainda mais daqui a um tempo
quando a diferença entre início e fim
se esfumaçar. Tínhamos nos mudado
para a casa nova há menos de dois meses
e o pássaro (uma rolinha) só entra na história
porque fora jovem o suficiente para ter sido
alvejado pelas unhas afiadas do Colignon,
felino com quem aprendemos em tempo devido
o amor em seu registro mais negligente e filial.
Nunca gostei exatamente de poesia, muito
menos de Manuel Bandeira ou passarinhos
mas acertar as contas custa caro, tem custado
– seja na direção do gato seja na dos livros
não importa: trata-se de um caminho
sem retorno. Camadas de datas esquecidas
ou por esquecer sob pontos de vista de gente
que podemos ou não gostar (dá no mesmo)
até chegarmos com o acúmulo ao pequeno e fundo
abismo do como e porquê um dia nos embrutecemos.
E pensar que haverá sempre rolinhas cruzando
o céu do meu bairro. E pensar que haverá
sempre casas novas de gente que mais ou menos
se ama e ama o próximo. E pensar tanta coisa.
Mas o que me impressiona mesmo é saber
que o passarinho foi apenas a primeira
coisa a morrer naquela casa nova bem
presa no chão e com um gato tão bonito.
***
Marília Garcia
Duas vozes
I. O que se esconde atrás de uma voz
sofre em alguma parte
em silêncio. entre eles
na mesa de vidro do café apenas
um círculo de água
e quanto tempo mais dura
uma noite terrível? pela janela
tudo escuro não há luzes piscando lá fora
não há som, só a fumaça sob os pés
um território lunar, alguém
disse. e se você olha para um lugar qualquer
como algo estranho acaba por poder retê-lo
na memória por um tempo indefinível. não
este lugar, pensa bem. um abraço do alto
da escada antes de tudo dos corredores
paralelos da chave azul
sobre a mesa.
o que se esconde por detrás de algo
se você olhar bem pode ser que veja.
(sentado no banco
durante todas as horas).
II. En extrañeza de mundo
no carro metal-chispante
seus cílios riscando o ar
denso e cada um ensimesmado.
estranharam-se em silêncio durante
tanto tempo (esta cidade nasceu
de uma série de erros e derrotas) na
película pareciam dizer: como você
suportou todos esses anos?
voltar é sempre um estado de
concreção nebulosa, uma negatividade
em aceitar o aceitável
dizer aterrar é melhor do que
aterrizar nesse lugar
e ficar parada numa esquina
à espera do código.
*
Inferno musical
I.
o que explicou sobre a melodia
de sistemas não fazia sentido pois
dessa vez não havia
                            som algum.
– é uma deformação, quase um inferno
musical que,
                   ao transbordar,
congela,
            como o mármore, o tombo ou
o tapa. poucos usam a palavra anti-
harmonia ou anti-
densidade (nada se acopla
com nada aqui)
a vida se divide em
duas partes móveis e você pode
entrar numa melodia circular
atrás da configuração correta.
II.
ezeiza es um sitio que no
existe mas chegar é repetir o
gesto inexistente, como dizer uma
frase sem som ou se tornar o mesmo
uma semana depois no momento em que
a aeronave se desloca com
mais esforço.
                     no desenho tenso da esteira
a única mala – para tomar a estrada
de noite no deserto asfixiante

e escuro.


Angélica Freitas, Bliss não tem bis, Dimitri BR, Leonardo Gandolfi, Marília Garcia, Poesia contemporânea, Thiago Gallego