Quando todas as pontes se encontram – Bliss não tem Bis 18/06/2013: Auditório Cartola/ COART – UERJ.
11 de junho de 2013

Terça-feira da semana que vem, dia 18/06/2013, teremos o terceiro encontro “Bliss não tem Bis”, o segundo na cidade do Rio de Janeiro, feito em parceria com a COART/UERJ. Perguntar o que é, ou o que pode ser um encontro de poesia, é perguntar pelo que pode acontecer quando poetas e leitores se veem frente à frente. Com sorte, um certo modo de silêncio, uma qualidade da atenção e, então como em um susto, alguma alegria. Aqui todos os detalhes contam: o espaço, a forma do corpo transformá-lo, a forma do som preenchê-lo. Aqui todos os detalhes cantam.
         Estamos muitos felizes em anunciar os artistas que conseguimos reunir nessa edição: além de dois dos editores desse blogue, Marcio Junqueira e Lucas Matos, contaremos com a presença de Angélica Freitas, Dimitri BR, Leonardo Gandolfi, Marília Garcia e Thiago Gallego.
         Hoje e semana que vem, a postagem é dedicada para eles. Muito obrigado.
Angélica Freitas
Ela nasceu em Pelotas, no Rio Grande do Sul, e quando está na Argentina, é uma poeta argentina. Publicou até o momento dois livros de poemas, Rilke Shake (pela Cosac Naify em 2007) e Um útero é do tamanho de um punho (pela Cosac Naify, 2012). Edita, junto de Marília Garcia e Ricardo Domeneck, a revista Modo de Usar & Co. que chega este ano ao quarto número.
queria morar em ouro preto
mas tinha que ser à la sec. XIX
mijar em penicos de louça
comer cocadas quentinhas
catar feijão no alpendre
vestir algo branco e fofo
ser uma sinhazinha new-style porque tem bicicleta
uma bicicleta de louça
as ruas de pedras conhecerão o meu ardor
escreverei poemas nos miradores
meu pai era pobre
sim mas era um ídolo da independência
mudarei meu nome para incentivar
as artes detetivescas
comprarei uma casa velha e a chamarei
casa abobrina
convidarei amigas americanas
que me escrevem cartas
e vivem em trailers
e assaltaram supers
mas aqui não importa
somos todas fugitivas
mas aqui não importa
daisy oh daisy como era o nome
daquele bastardo
que você sustentava
com o dedo podre do seu pé direito?
era john ou era camilo?
daisy acocorada sobre uma cocada
sorrindo chapa & palato dirá
era lombardo
morreu todo cagado
de medo da polícia
riremos feito convenção das bruxas.
*
fim
keats quando estava deprimido
se sentindo mais pateta que poeta
vestia uma camisa limpa
eu tomei um banho
com os dedos ajeitei os cabelos
vesti roupas limpas
olhei praquele espelho
o suficiente pra
sem relógio caro
fazer pose de lota
e sem pistola automática
pose de anjo do charlie
então eu disse: “é, gata”
rápida peguei as chaves
saí num pulo
só fui rir no elevador.
*
***
Dimitri BR
brasileiro, ele é um homem de letra & música, que cria sons, textos, vídeos e jogos de tabuleiro. canções já compôs centenas, mas só uma virou trilha de novela. outras 40 podem ser vistas – em forma de videocanções – ou ouvidas nos álbuns pop rock tropical (2007), música sólida (2011), amorrr (2013) e balanso (2013) e no site de seu duo diahum [diahum.com – inserir link]. também trabalha com outras linguagens, como a dos quadrinhos, e cartoons.
*

*

*

***
Leonardo Gandolfi
Poeta, carioca, nascido em 1981, se desdobra entre aulas de literatura, e já publicou dois livros de poemas No entanto d’água (pela 7Letras, 2006) e A Morte de Tony Bennet (pela Lumme editor, 2010).

*

O espião janta conosco
Como os antigos mas sem sua elegância
a coisa começa bem na metade. Zé Ramalho
fez a canção que talvez seja a canção mais
Roberto Carlos que já ouvimos. Aquelas Ondas.
Quanto tempo temos antes de voltarem? Pelo sim
pelo não Roberto acabou deixando-a de lado.
O mesmo aconteceu com Gilberto Gil,
Se eu quiser falar com deus também não fez
a cabeça do rei – folgar os nós dos sapatos
e da gravata não acontece da noite para o dia.
1976, contracapa do disco San Remo 1968:
O Show Já Terminou da dupla Roberto e Erasmo
esconde uma historinha particular só agora
revelada por RC, diz Big Boy. Então sobre a que talvez
seja sua mais bela canção assim fala Roberto:
Sou fã incondicional de Tony Bennett – quando
fiz essa música eu já imaginei inclusive a versão
dela em inglês com Tony Bennett cantando – e
comecei a fazer a música especialmente para ele
– é lógico que depois eu cantei do meu jeito – mas
ela começou de uma ideia pensada na voz do Tony
que na minha opinião é o maior cantor do mundo.
Também acho Tony Bennett o maior cantor
do mundo. E embora bem menos do que gostaria
também acredito na possibilidade de uma ideia
pensada na voz do outro mesmo que do nosso jeito.
Não importa quem gravou o quê nem para quem
fazemos o que fazemos. Que bom que uma ideia
pensada na voz do outro ainda é uma ideia pensada
na voz do outro. Aliás uma vez me disseram
não lembro quem que vítima e carrasco disputam
o mesmo tempo. Pouco importa, queridos fantasmas,
dezembro está aí e evitar mal-entendidos é que é bom,
venho repetindo isso para mim mesmo todos os dias
embora eu não consiga abrir mão de duas
ou três segundas intenções que até hoje, acho,
nunca fizeram mal a ninguém. Muito pelo contrário,
é justamente isso o que mais tem nos aproximado.
*
Espiões em apuros
Escreviam cartas como se cortassem
as unhas. Atenção e cuidado redobrados.
         Minha estátua de sal já está pronta,
seria preciso pelo menos outros 27 anos,
agora de diligência para a gente começar
pensar em algo como lealdade ou mentira.
         Aliados ou não, foram indispensáveis.
         Ao meu filho, além de um revólver,
eu deixo certa propensão tocante
para o embaraço e o arrependimento.
         Em vários outros momentos podemos
perceber essa mesma ponta de felicidade
resignada se abater sobre cada um deles.
O que – verdade seja dita – já é alguma coisa
numa época em que nada se abate sobre nada.
***
Marília Garcia
Ela nasceu no Rio de Janeiro, em 1979. Um de seus poemas é de 15 passos. Publicou os livros 20 poemas para o seu walkman (Cosac Naify, 2007) e Engano geográfico (7letras, 2012). É tradutora e coedita a revista Modo de usar & co.
*
Aquário por Rodolfo Caesar & Marília Garcia.

*

Código Morse
por só esse instante esperou toda
vida durante a espera olhando para
os lados, o ruído constante do morse
e uma faixa fluorescente saindo
de dentro do aquário. a escada
na lateral do prédio não sabe
onde vai dar
                   todos os corredores aqui são
paralelos mas você parece não
lembrar que numa noite foi até seu quarto
e ficaram parados enquanto chovia. você
parece não lembrar que os dias da semana
se perdem neste lugar
(um sinal breve e dois longos) e não tem a chave
para o naufrágio verde, esquece
sempre os dias e a língua (voy olvidando el
português) mas esse instante. é como
ficar no por enquanto é como o barco
que afunda sem apagar as luzes como
esse dia (perder a mala e não saber.
nos momentos mais elétricos
se cala e observa)
*
Escorpiões e a esquiva
pela quarta ou quinta vez
tenta dar uma cronologia: me
deitei e parecia um deserto aquela
areia salgada.
                   – mas estamos em méxico city, diz,
estamos no ponto mais próximo
da esquiva.
eles vêm de noite, no campo,
quando uma nuvem se forma
e tudo está perdido. rente ao chão.
me deitei e tratei de ouvir os ruídos
dos escorpiões
mas não havia ruídos,
só o vento e os clarões.
tratei de ouvir
o barulho da fábrica
mas não ouvia nada
(conhecer pode
ser destruir)
só um eco ou
algo que
se esquiva.
*


***
Thiago Gallego
Ele tem 20 anos, estuda cinema na PUC-RJ.Já quis ser escritor e gostaria de dizer que trabalha na produção de seu quarto filme – mas ainda não começou o primeiro.
*
Quando escrevo sobre um livro que li,
escrevo sobre o que li num livro.
Jamais sobre o que um autor escreveu,
porque leio jamais o que um autor escreveu.
Leio num livro o que leio num livro;
em mais nada elucubração.
Toda leitura é apropriativa, uma vez ouvi.
Toda leitura de lábios é apropriativa
(com som sem som com ou sem lábios).
E me vem gente falar transmídia
como quem fala teleporte, classe c, felicidade
Grite relativista quem quiser,
grite chato que eu respondo,
escrevo, sobre o que li em relativista
quando os lábios gritaram e eu li relativista.
*
pai de kiwi
“Tem até a história desse cara japonês, que era arquiteto – nunca quis ser, mas disseram que era uma boa e ele foi. Ele tinha um cachorro akita que era cego, surdo e mudo. Todo dia o cachorro ia trabalhar e o arquiteto o acompanhava até a estação de trem. Voltava no fim da tarde pra buscá-lo. Certa feita o cachorro se meteu num lance de roubar trem e nunca mais voltou; teve que fugir pro Rio de Janeiro – e ficou até famoso, gravou episódio do Balão Mágico com os Sex Pistolls e tudo.

Já o cara passou aquela noite inteira na estação esperando. E todo fim de tarde desde então voltava lá pro aguardo canino. Sufocado numa tristeza, numa agonia (que vem do grego “falta de criação”) sem fim ele teve uma ideia: largou de pegar instrumento de trabalho e soprar a poeira e taca o escalímetro pra cá e traça reta pra lá e faz ângulo e rebola curva e assopra e levanta a folha e diz “ufa”. Mandou o trabalho pro governo japonês e de pronto acharam genial.

Desataram a construir. E contrata engenheiro pra fazer engenho e contrata pedreiro pra fazer pedra e contrata Chico Buarque pra fazer música e em dois tempos tá lá o projeto todo em 3D no mapamundi. Um prédio lindolindo em forma de barco. Todo mundo comentava, elogiava, uma falação só. O arquiteto ficou contente todavida, superrealizado. E nem é papo de entrevista não, tava mesmo. Mas, não pôde ir na inauguração porque eram seis da tarde e ele tinha que ir lá pra estação esperar o cachorrinho. Que não chegou”.


Angélica Freitas, Bliss não tem bis, Dimitri BR, Leonardo Gandolfi, Marília Garcia, Poesia contemporânea, Thiago Gallego