Marcio Junqueira suspeita que não existe
14 de maio de 2013

Marcio Junqueirapor Lucas Matos.
A primeira vez que eu encontrei Marcio Junqueira não foi a primeira vez que eu encontrei Marcio Junqueira. Na primeira delas, ele veio do nada e disse que tinha escrito/estava escrevendo um livro de poemas com o mesmo nome que o meu. Fiquei entre a timidez e o susto de não saber o que aquilo poderia querer dizer. Foi na noite da posse de Ítalo Moriconi, como editor executivo da EdUERJ, que a gente ficou conversando até que se esgotassem as opções de bares abertos nas imediações da Tijuca e do Maracanã e quase se esgotasse a própria escuridão da noite. Eu já tinha lido alguns de seus poemas, e com algum constrangimento adquirido a pequena mas cuidada edição de quatro poemas que ele vendia nas ruas do Rio. Só naquela vez, porém, me dei conta de que a minha atenção já tinha passado do ponto em que poderia recuar a uma distância segura. Muitas vezes pensei que os seus poemas e desenhos estivessem à cata de precisar esse instante: ali, o segundo em que a mente morde a isca, o que quer que esteja nas imediações da palavra ‘sim’. ‘Oui’, como um poema da Adília Lopes.
O seu traçado, entretanto, propositadamente torto vaza, ou faz vazar, qualquer tentativa de contenção: como fazer uma vontade transbordante caber em estruturas incompletas? Pode servir o vinho em taças de vidro quebradas, pela metade, sem taças? O corpo está aberto, rasgado para o seu desejo, desmedido que seja, qualquer que seja, mas ele é frágil, pode desmontar no segundo seguinte, pode cair, pronto, caiu. As condições dadas nunca atendem às demandas. Então ele diz sem consolo: as feridas estão abertas, mas é só ficção. Esse é o meu retrato, mas é só literatura. Amanhã, pego uma BIC faço outros versos, outros desenhos. Então, eu sei, amanhã vai ser a primeira vez que eu vou encontrar Marcio Junqueira, e como não vai ser a primeira, vou perguntar pelo que ele está lendo, pelos seus desenhos, e pela vida, como anda. E haverá isso que há entre dois irmãos.

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Ele não era louro, era gallego

Ele não era louro, era gallego (2012)


(Para ler ao som de Quero ser justo – Caetano Veloso)
ele não era louro
era gallego
gallego da galícia
há muitos anos seu avô
tinha vindo de lá
teve duas filhas
a mais nova
– ainda muito nova –
engravidou
casou/separou
e teve esse menino
que não era louro
esse menino
gallego
que comia terra
brincando com o avô
no quintal em paciência
esse avô
que era louro
e mais que isso
era : gallego gallego
(seus pais (os bisavós do menino) eram primos)
essa parte da historia ele não contou
mas eu imagino
muito magro e muito branco
tomando chocolate
e assistindo doug
frágil e assombrado
como agora
(quando o avô já não é mais
quando paciência é um lugar longe
onde, de vez em quando, ele vai)
sentado no sofá azul
na fotografia que não tirei
falando coisas que não ouço
concentrado que estou na sua boca
ou mais cedo
com luva amarela de borracha
mexendo mingau de maizena
e cantando mr. sandman
daqui a pouco vou beijá-lo
depois disso
vão existir duas noites e dois dias
mortos
até ressuscitar ao terceiro dia
e me fazer feliz
e me fazer infeliz depois
mas antes disso
eu olho ele
ele me olha
e nem mesmo
saturno visto de um telescópio
o livro das perguntas de neruda
uma pessoa pintada e deitada na grama
ou uma casa de legos habitada por playmobils
consegue ser mais bonito.
“Eu vi você
Uma das coisas mais lindas da natureza
E da civilização”.
Quero ser justo– Caetano Veloso


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Devocional (2013)
O que você desejar, o que você quiser, eu estou aqui, pronto para servi-lo.
Voilà mon coeur, 2010.
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self-portrait (2005)
1.
Marcio Junqueira já roubou livros em biblioteca públicas. Marcio Junqueira já penou. Marcio Junqueira já chorou nos banheiros sujos dos piores botequins da cidade. Já mentiu em confissão. Já falou mal de amigos. Já fingiu ser pessoas que não era. Já teve vergonha de si mesmo várias vezes. Marcio Junqueira é neo-pós-pós. Marcio Junqueira é um babaca otário que pensa que vai ficar rico e passar férias na Ilha de Caras. Marcio Junqueira só ouve Cool Jazz e Bossa Nova. Marcio Junqueira se dedica com afinco à autopromoção. Marcio Junqueira não é um bom filho, não é um bom irmão e tem dificuldades em arranjar namorado. Marcio Junqueira perdeu seu sapato-com-salto-de-cristal. Tem medo do escuro e pensa que o bicho papão vai pegar ele de noite. Marcio Junqueira reza para o telefone tocar Sábado à tarde. Fantasia romances sob um céu baunilha de Monet e fuma uma carteira de cigarro extraforte por dia. Marcio Junqueira is freak.
2.
Marcio Junqueira está mergulhado numa egotrip. Marcio Junqueira mente cada vez mais. Marcio Junqueira não é confiável. Marcio Junqueira odeia Marx, detesta Engels e não suporta bingo, espírito comunitário, pequenas delicadezas e Silvio Santos. Marcio Junqueira está cansado de solidão, aspirinas, sofrimentos amorosos, náusea, neuroses, tranquilizantes, maus orgasmos, submissão, covardia e outras ninharias existenciais do cotidiano ocidental. Marcio Junqueira adora vodka com limão e gelo, ama uma cervejinha gelada e não vive sem vinho branco. Marcio Junqueira tem muita culpa na segunda-feira. Marcio Junqueira é um megalômano. Marcio Junqueira se finge original mas imita descaradamente Sylvia Plath. Marcio Junqueira é só um burguesinho tentando ser diferente dos demais. Marcio Junqueira é uma construção precária.
3.
Marcio Junqueira não tem casa, não tem carro, não tem plano de saúde e nem cartão de crédito. Marcio Junqueira é alienado. Marcio Junqueira nunca leu Dom Quixote, não acabou Ulisses e não gosta de Bach. Marcio Junqueira já deu vexames nos melhores bares da cidade. Marcio Junqueira acha amarelo brega e fuma um pouco demais para um menino de vinte-e-poucos-anos. Marcio Junqueira passou da quinta à oitava série apaixonado pela mesma menina. Marcio Junqueira passou do primeiro ao terceiro ano apaixonado pelo mesmo menino. Ouve em excesso Maria Bethânia. Dorme depois das duas e acorda invariavelmente de mau humor. Marcio Junqueira tem vergonha dos pés e não entende como alguém consegue gostar de café. Marcio Junqueira bebe um pouco demais para um menino-de-vinte-e-poucos-anos. Marcio Junqueira tem amigos esquizofrênicos, parentes neuróticos e de vez em quando acha que sua vida é um roteiro de Charlie Kaufman filmado por David Lynch. Marcio Junqueira fala demais, se masturba todo dia e não gosta de tomar banho. Marcio Junqueira suspeita que não existe.



ao modo de jean cocteau (2011)


Bliss não tem bis, Marcio Junqueira, Poesia contemporânea