Daniel é massa é mossa é asa
30 de abril de 2013


Quando fizemos o primeiro encontro de poesia Bliss não tem bis em novembro do ano passado, Daniel Massa começou sua apresentação calado, enquanto ao fundo tocavam os acordes iniciais de Complexo de Épico, canção clássica de Tom Zé (lançada no LP Todos os olhos, o da famosa capa idealizada a partir de sugestão do Décio Pignatari, e que ainda vinha com um poema visual de Augusto de Campos no seu ‘encarte’), em que o autor enfrenta a tendência de se submeter a canção ao papel de adesão à lógica discursiva de batalhas políticas e ideológicas. Daniel Massa parece recolher tanto a posição de bufonaria – embora em tom menos histriônico e mais melancólico – quanto alguns procedimentos encontrados na canção. Ele nos lembra que, ali, onde as palavras parecem ter acumulado os sedimentos de certas formações discursivas que consolidam práticas históricas e disputas de poder diversas, sempre se pode confiar na mobilidade da sílaba. Nos seus contos curtos e poemas, há sempre como que essa corrente de ar, em que o som parece dispersar o que as sentenças e as palavras tentam manter coeso.

         Quando, no início do ano, Massa nos disse que iria passar uma temporada na França, pedimos que ele nos mandasse para publicar aqui no blogue Bliss não tem bis pequenos registros e flashes da viagem, numa correspondência sempre incompleta – que lembra que viajar é preciso. Junto com sua carta de (quase) Paris – ele se encontra em Reims, cidade que fica perto da capital – publicamos um conto e um poema curtos e chuvosos, e o querido De que tanto sorri a gorda? (publicado originalmente na Bliss) em versão ilustrada com traçado lúdico por Juliana Teixeira de Freitas.

*

Hoje eu roubei um guarda-chuva.
Em algum lugar dessa cidade submersa de bueiros entupidos e ruas alagadas alguém está molhado porque eu roubei um guarda-chuva.
Provavelmente ele – imagino um senhor. Meia idade, estatura média, calça jeans, cinto de couro e blusa social abotoada até o penúltimo botão antes do colarinho. Recentemente divorciado, mora de aluguel num conjugado e recebe a visita dos filhos adolescentes aos sábados. Trabalha vendendo planos de saúde, embora dependa do SUS e tenha uma consulta com um urologista marcada dali a três meses – chegará em casa com o cabelo encharcado e pingos escorrendo da ponta do nariz. Deixará um rastro a caminho do banheiro. Um espirro. Dois. Três. Não há Coristina em lugar nenhum. Não há Cebion em lugar nenhum. Não há chá de capim-limão muito menos capim-limão em lugar nenhum. Havia, sim, um guarda-chuva. Mas esse foi roubado.
Em algum lugar num conjugado qualquer dessa cidade de deslizamentos e estado de emergência alguém tosse e espirra. Moisés – esse foi o nome dado por sua mãe. Nasceu de oito meses e meio com três quilos e duzentos. Fora a catapora, teve uma infância saudável. Terminou o Ginásio e casou com vinte e três – estará febril. A calça secou atrás da geladeira, mas ele não irá trabalhar. Ele não conseguirá se levantar da cama. Tinha um guarda-chuva que, entre outras coisas, poderia servir de bengala. Mas alguém o roubou.
E fui eu.
Hoje eu roubei o guarda-chuva do Moisés. Que entre outras coisas, como servir de bengala, poderia ter evitado um resfriado que poderia ter evitado uma gripe que poderia ter evitado uma pneumonia que poderia ter evitado a ida de Moisés ao hospital. A ida ao hospital já não pode evitar nada. Um homem morrerá porque hoje eu roubei um guarda-chuva.
Onde quer que você esteja, Moisés, me desculpe. Lamento muito e agradeço pela sobrevida que o seu guarda-chuva me deu.


*


Chove na Rio Branco
e eu que não sou de açúcar
rio amarelo
seguindo rumo
à Carioca.

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Carta de (quase) Paris.

No último sábado, fui convidado em cima da hora para uma festa em homenagem aos estudantes latinos na França. Aceitei, claro.

Não sou o que se pode chamar de uma pessoa simpática, mas consegui fazer alguns amigos aquela noite. Conversei longamente com amáveis russas, ajudei os franceses com as tarefas domésticas, adicionei um sorridente panamenho no facebook e assisti às meninas dominicanas dançarem no melhor estilo chacal rápido e rasteiro. Mas talvez tenha sido o minuto e meio em que conversei com uma colombiana que me marcou mais.

É um vício um pouco idiota esse que a gente tem de procurar referências óbvias de um país estrangeiro para estreitar laços com seus habitantes. Outro dia, me despedi de uma mexicana no bar aos gritos de “Viva Zapata!”, ao que a moça — penteado britânico, roupa americana e inglês fluente desfilado durante toda a noite — sorriu amarelo e balançou a cabeça: “Babaca”.

Que merda. Os latinos na França são todos ingleses.

Enquanto a colombiana procurava uma música de seu país no youtube, eu disse:
— Coloca Shakira.
Ela foi sagaz.
— Shakira é americana, não tem nada a ver com a Colômbia.
Ponto. Foi o suficiente para que na frase seguinte eu abrisse meu coração.
— Gabriel García Márquez mudou a minha vida.
Ela sorriu e tentou repetir sem sucesso o que eu disse para a outra menina colombiana que dançava algo como el baile del perrito.

Tudo bem. Ali eu já havia reacendido uma antiga paixão.

Tinha 15 anos quando li Cem anos de solidão a primeira vez. Era um garoto que ficava errando pelos livros da biblioteca da escola e foi assim me deparei com uma coleção de banca de jornal d’O Globo. Olhei o livro com a capa toda azul e li o título na lateral. Quando se é adolescente, qualquer minuto sozinho é insuportável, cem anos me pareciam muito tempo para se cultivar a solidão. Li.

E Gabriel García Márquez mudou a minha vida.

Ele me fez prestar vestibular para Letras, ele me fez continuar escrevendo poemas e ficções, ele me fez ser professor de literatura.

Hoje, a notícia mais recente que eu tenho de Gabo fala sobre o seu estado avançado de demência senil. Não há memória. Não há mais livros. Não há sequer um rosto familiar para Gabo. Talvez ainda haja espaço para qualquer coisa de bonito, que lhe invade a cabeça quando bate um vento mais forte e sai antes mesmo que possa deixar qualquer vestígio de que esteve por ali.
 
E é assim que eu vejo Gabriel García Márquez hoje. Vivendo numa Macondo que ele ergue todos os dias e se desmancha antes mesmo de ficar pronta, abrindo espaço para uma nova construção na manhã seguinte.

*



Daniel Massa, Poesia contemporânea